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Trabalhos em Linguística Aplicada

On-line version ISSN 2175-764X

Trab. linguist. apl. vol.50 no.2 Campinas July/Dec. 2011

https://doi.org/10.1590/S0103-18132011000200004 

ARTIGOS

 

As traduções de Bates: dois naturalistas no Rio Amazonas

 

Bates's translations: two naturalists in the Amazon River

 

 

Cristina Carneiro Rodrigues

UNESP, São José do Rio Preto (SP), Brasil. cristina@ibilce.unesp.br

 

 


RESUMO

Neste trabalho analisam-se duas traduções do relato da viagem do naturalista Henry Walter Bates pela Amazônia, uma publicada em 1944 na Coleção Brasiliana feita pelo naturalista Candido de Mello-Leitão, outra editada em 1979 na Coleção Reconquista do Brasil, assinada por Regina Regis Junqueira. O objetivo do artigo é problematizar a demarcação de limites nítidos entre uma ética da diferença e uma ética da igualdade, pois, em ambos os textos, tanto ocorre um movimento no sentido de preservar a alteridade do texto e do autor, quanto no de domesticar o texto. A análise busca também evidenciar que cada tradução, realizada a partir de diferentes projetos editoriais e tradutórios, acaba por suscitar diferentes imagens do naturalista e dos lugares por ele visitados.

Palavras-chave: relatos de viagem, história da tradução no Brasil, coleção brasiliana, coleção reconquista do Brasil, ética da igualdade, ética da diferença, identidade.


ABSTRACT

Two translations of the travel writing by the naturalist Henry Walter Bates in the Amazon are analyzed in this work: one published in 1944 in the Brasiliana Collection by the naturalist Candido de Mello-Leitão, and another edited in 1979 in the Reconquista do Brasil Collection, signed by Regina Regis Junqueira. The purpose of this study is to examine the delimitation of clear boundaries between an ethics of difference and an ethics of equality, since the two texts present a movement that both preserves the otherness of the text and the author and domesticates the text. The analysis also aims to evidence that each translation, carried out from different editorial and translational projects, ultimately projects different images of naturalist and the places visited by him.

Keywords: travel writing, translation history in Brazil, brasiliana collection, reconquista do Brasil collection, ethics of equality, ethics of difference, identity.


 

 

Os Estudos da Tradução contemporâneos têm evidenciado que a tradução não é uma relação pacífica entre o doméstico e o estrangeiro, nem uma simples recuperação dos significados depositados no texto por um autor. Pelo contrário, é uma atividade eminentemente produtora de significados e tem o poder de formar identidades culturais, de construir o estrangeiro. Por meio da tradução pode-se acolher o outro, buscar assimilá-lo ou neutralizá-lo. A assimilação envolve o que Venuti (1995) denomina estratégia de fluência, em que o texto é apresentado em uma versão domesticada, delineada por uma determinada estética e realizada em um discurso transparente. Uma tradução que resista à fluência, faria o outro cultural aparecer, "preservando a diferença, a alteridade, ao alertar o leitor para os ganhos e perdas no processo tradutório e para as lacunas intransponíveis entre culturas" (p. 306). Oliveira (2008) tem desenvolvido pesquisas buscando examinar se tradutores-escritores brasileiros têm aderido a esse procedimento, que denomina ética da diferença, ou se há prevalência de uma ética da igualdade, que busca assimilar o estrangeiro, reduzindo-o ao doméstico. Neste trabalho pretendo problematizar a demarcação de limites nítidos entre uma ética da diferença e uma ética da igualdade examinando duas traduções do relato da viagem do naturalista Henry Walter Bates pela Amazônia, The Naturalist on the River Amazons. Essa análise evidencia também que cada tradução, realizada a partir de diferentes projetos editoriais, acaba por construir duas diferentes imagens do naturalista.

Henry Walter Bates (1825-1892) veio para o Brasil em 1848, com o também naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913). Fizeram várias excursões juntos até 1849, quando cada um deles tomou um rumo, direcionado por seus interesses. Enquanto Wallace queria colher dados sobre a origem e a evolução das espécies, Bates dedicava-se à entomologia. Wallace retornou à Inglaterra em 1852 e, no ano seguinte, publicou Travels on the Amazon and Rio Negro, sobre sua estada no Brasil.1 Bates retornou em 1859, mas apenas dois anos depois de sua volta decidiu escrever sua narrativa, instado por Charles Darwin. Os onze anos de sua estada na Amazônia resultaram no livro The Naturalist on the River Amazons, publicado na Inglaterra em diferentes versões. A primeira foi editada em 1863, em dois volumes. A segunda, revisada pelo próprio Bates, foi publicada em 1864, em um único volume. No "Prefácio da segunda edição", Bates afirma ter julgado "aconselhável condensar aqueles trechos que, tratando de questões científicas complexas, pressupõem um conhecimento mais preciso de História Natural do que o autor tem o direito de esperar da generalidade dos leitores" (BATES, 1944, p. 25). A narrativa e as "minúcias descritivas ... referentes ao grande rio em si, à maravilhosa região por ele percorrida, às luxuriantes florestas primitivas que a revestem quasi inteira" teriam sido deixadas completas (p. 25).2 Com seu relato, "a plena significação do título 'o maior rio do mundo', que todos aprendemos nos bancos escolares a aplicar ao Amazonas, sem ter uma ideia nítida de sua magnitude, se tornará então aparente para o público inglês" (p. 25). Essa segunda edição, de acordo com Mello-Leitão (1944, p. 10), foi a versão da obra que "obteve maior sucesso" e a que foi reeditada várias vezes.3 Outras edições foram produzidas depois da morte de Bates, retirando-se tudo o que não interessasse diretamente ao leitor inglês.

Charles Darwin, publicou, em 1863, na Natural History Review, uma resenha da obra, em que destaca a importância do trabalho científico de Bates e sintetiza o que o leitor vai encontrar ao ler o livro:

No presente volume não se confina Bates às suas descobertas entomológicas nem a qualquer outro ramo da História Natural, mas nos dá um apanhado geral de suas aventuras durante as suas excursões subindo e descendo o portentoso rio, e uma copia de informações que se referem a todos os assuntos de interesse físico ou político, que foi encontrando. (DARWIN, 1944, p. 19)

Nessa resenha, Darwin (1944, p. 23) salienta a grande quantidade de espécimes coletados, mais de 14 mil, assim como a novidade de seu trabalho, pois uma das regiões em que Bates viveu, Ega, só teria sido visitada por Spix e Martius e por Castelnau, sendo, portanto, "um belo campo para um colecionador de História natural".

Em português, encontram-se disponíveis duas traduções do relato de Bates, uma publicada na Coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional, em 1944, em dois volumes, outra na Coleção Reconquista do Brasil, em 1979, em um único volume. A primeira, intitulada O naturalista no Rio Amazonas é creditada, na página de rosto, ao Prof. Dr. Candido de Mello-Leitão, e a segunda, Um naturalista no Rio Amazonas, a Regina Regis Junqueira.

Os projetos editoriais das duas obras são bastante diferentes, assim como as traduções. Vou, neste trabalho, abordar os projetos editoriais, em primeiro lugar, para, em um segundo momento, apresentar as diferenças entre os projetos tradutórios e as diferentes imagens que suscitam do viajante e dos lugares por ele visitados.

Os livros da primeira edição da Coleção Brasiliana são bastante modestos face a grandiosidade anunciada pela Coleção. Os livros são impressos em papel de baixa qualidade,4 são pequenos, com 13 cm de largura por 18,5 cm de altura, com capas de cartão padronizadas, com um contorno do Brasil em uma cor uniforme, sobre fundo de outra cor, pontilhado de estrelas em branco. As orelhas de alguns volumes informam quais são os demais títulos da Coleção; outras, expõem seus objetivos: sistematizar os estudos e pesquisas sobre assuntos e problemas brasileiros, encarados sob todos os aspectos, políticos, econômicos, antropológicos, geológicos. Apenas cerca de 15 % dos títulos são traduzidos, a maior parte relatos de viajantes. Como aponta Rodrigues (2008), as traduções são assinadas por intelectuais e seus nomes, quando não estão bem visíveis na capa, estão na página de rosto, abaixo do título. Muitas edições têm um prefácio do tradutor, em geral para apresentar a obra e delinear seu projeto tradutivo. Alguns volumes trazem um prefácio de uma autoridade no assunto, e seu nome aparece, na capa ou na página de rosto, junto ao do tradutor. Um dos dois costuma assinar notas, em grande quantidade na maior parte dos títulos. A informação sobre a edição que baseou a tradução costuma ser fornecida.

A tradução de Bates da Coleção Brasiliana, em dois volumes, se inicia com o "Prefácio" do tradutor, seguido pelo "Prefácio [do autor] da primeira edição", assinado em 1863. Na sequência há o "Comentário de Carlos Darwin" e o "Prefácio [do autor] da segunda edição", datado de 1864. Na capa há apenas a informação de que se trata de uma "edição ilustrada" e, na página de rosto consta: "Tradução, Prefácio e Notas do Prof. Dr. Candido de Mello-Leitão". Em seu prefácio, o tradutor tece elogios a Bates, mas salienta que não trata apenas de fauna e flora, pois o "livro traduz a observação de um curioso por todos os nossos problemas, sempre olhados com simpatia" (Mello-Leitão, 1944, p. 8). Destaca também a importância do autor para o conhecimento da fauna brasileira, apesar de muita coisa, na parte biológica, ter se modificado.

A Coleção Reconquista do Brasil foi lançada pela Editora Itatiaia em colaboração com a Editora da Universidade de São Paulo e seu presidente, Mário Guimarães Ferri, dirigia a coleção. Os livros são grandes, com 18 cm de largura por 27 de altura, impressos em papel de qualidade, especialmente fabricado para a coleção. As capas são diferentes para cada título, impressas a quatro cores e concebidas pelo artista plástico Cláudio Martins. Todos os volumes têm orelhas, com uma apreciação do livro, em geral apontando seu valor de documento histórico. Ferri assina grande parte das apresentações, abordando a biografia do autor ou as circunstâncias da escritura do livro. Normalmente a edição em que se baseou a tradução é informada no verso da página de rosto ou por Ferri.

O livro de Bates (1979) é oferecido, na orelha assinada por João Etienne Filho, como "um dos mais perfeitos documentários de um verdadeiro cientista sobre a incomensurável Amazônia". O autor é relacionado ao de "duas figuras das Ciências Naturais de seu tempo", Alfred Russel Wallace e Charles Darwin. Bates teria contribuído para Wallace conceber, quase simultaneamente com Darwin, a tese do evolucionismo. O relato de sua viagem, entretanto, nada teria de "maçante", nem se ateria à especialidade do naturalista, pois, ao lado da coleta de material, teríamos "observações sobre costumes de habitantes da região". Tanto Etienne Filho como Ferri afirmam que Bates coletou na Amazônia mais de oito mil espécies da flora e da fauna amazônica, mas o próprio Bates, no "Prefácio da primeira edição", informação ratificada por Darwin (1944), afirma ter coletado 14.712 espécies, sendo 14 mil insetos, e "nada menos de oito mil espécies ... foram novas para a ciência" (BATES, 1944, p. 15).

Além da orelha, o volume da Coleção Reconquista do Brasil traz uma curta "Apresentação", em que Ferri fornece algumas informações sobre as viagens de Bates e Wallace, sobre a obra e a tradução. O livro seria de "leitura agradável e rico em informações sobre a região amazônica", trazendo boas descrições e "preciosas informações zoológicas, etnológicas e históricas" (p. 10). O volume não inclui os prefácios de Bates, nem a resenha de Darwin, e informa que a tradução foi baseada em uma edição Dover de 1975, "republicação não resumida da 4. edição feita por John Murray, Londres, 1876" (BATES, 1979, p. 10). Não localizei essa edição, mas provavelmente baseia-se na publicada em 1864, adaptada ao leitor inglês pelo próprio Bates.

São, portanto, dois projetos editoriais bastante diferentes. O da Coleção Brasiliana busca reunir todas as informações disponíveis sobre a obra, iniciando-se pelo cuidado na escolha do texto de partida - o relato completo de Bates, sem os cortes direcionados a atender especificidades do leitor inglês. Notas de cunho histórico e biológico compõem o quadro de desejo de disponibilizar para os leitores o máximo de material de valor elucidativo sobre o Brasil, um dos objetivos da Coleção Brasiliana. O projeto da Coleção Reconquista do Brasil demonstra maior preocupação estética e direciona-se para evidenciar o cunho histórico e documental da obra.

Quanto à tradução, Ferri informa que "Dona Regina Regis Junqueira é muito cuidadosa" (BATES, 1979, p. 11). Ele, como diretor da coleção, apenas teria introduzido "algumas modificações de ordem técnica e poucas notas de rodapé" (p. 11). Como não há prefácio e há apenas uma nota da tradutora, o projeto que direcionou sua tarefa tem que ser inferido pelo próprio trabalho publicado.

O tradutor da Coleção Brasiliana, por outro lado, explicita suas intervenções e seu modo de traduzir.5 No último parágrafo de seu prefácio, o biólogo paraibano Mello-Leitão (1944, p. 10) discorre sobre sua tarefa, informando que "a presente tradução é do livro de um Naturalista anotado por outro naturalista". Declara ter escrito as notas "com muito cuidado e amor, para não desmerecer do valor da obra", procurando ser útil aos leitores mais curiosos, mas sem se aventurar a "sair de sua seara". Afirma tê-las reduzido a um mínimo, mas, "mesmo assim (contadas as do Autor), foram mais de quinhentas". Finaliza seu texto pedindo a indulgência do leitor: "os que já tiveram de anotar um livro de ciencia, mesmo de vulgarização científica, bem poderão aquilatar do que isto representa de trabalho e de pesquisa e certamente perdoarão alguns erros ou enganos que ainda tenham escapado" (p. 10).

Efetivamente, a maior parte das notas é de um naturalista, ou para confirmar a observação de Bates, ou para atualizá-la, ou, polidamente, para retificar a informação do autor. Por exemplo, quando o naturalista informa que a estrada das Mongubeiras foi construída durante o governo do Conde dos Arcos, por volta de 1822, Mello-Leitão observa que "há nesta informação engano de Bates, quanto à data da construção da estrada", pois o conde dos Arcos teria governado o Grão-Pará de setembro de 1803 a março de 1806 (BATES, 1944, p. 40). Encontramos também notas complementares, que comprovam o objetivo do tradutor de saciar a curiosidade de seus leitores, assim como o da coleção, de ampliar o conhecimento do público sobre o Brasil e os brasileiros. Nessa linha, abaixo da descrição de Bates de cipós [sipós] que tinham a "forma em ziguezague ou denteada como os degraus de uma escada, erguendo-se até uma incomensurável altura" [others were of zigzag shape, or indented like the steps of a staircase, sweeping from the ground to a giddy height, p. 48] Mello-Leitão acrescenta a seguinte nota: "refere-se o autor aos cipós vulgarmente conhecidos por cipó-escada, escada-de-jaboti e também, em alguns lugares, por matamatá" (BATES, 1944, p. 78).6

Outras notas são explicativas, atualizando ou especificando a informação de Bates. Por exemplo, no prefácio da primeira edição, Bates enumera as espécies coletadas nas diversas classes. Em três delas, répteis, insetos e zoófitos, Mello-Leitão acrescenta notas. A primeira explica:

Como repteis considera Bates, de acôrdo com as classificações de Cuvier e de Owen, não somente os Repteis das modernas classificações mas igualmente os Anfíbios. É bom lembrar que, enquanto Lineu dividia a Classe Amphibia nas ordens Reptiles, Serpentes, Nantes, Cuvier invertia os termos. (BATES, 1944, p. 14)

A segunda nota especifica que o termo "insetos" tem, para Bates, a "acepção de Artrópodes ou Articulados" e inclui aracnídeos e miriápodes (p. 14). A terceira esclarece que Bates refere-se a zoófitos de acordo com a classificação de Mine Edwards, que compreende "os atuais Cnidários e Espongiários" (p. 14).

Mas, dentre as 578 notas, algumas explicitam seu projeto tradutório. A primeira delas ocorre após menção à "cidade do Pará" (BATES, 1944, p. 29). O tradutor explica que Bates e Wallace sempre se referem à capital da província como "Pará" ou "cidade do Pará" e ele deixa desse modo em sua tradução; Martius, "mais rigorosamente, fala na cidade de Santa Maria de Belém, capital da província do Pará" (p. 29). Os dois naturalistas ingleses empregariam "a designação mais comum por que era conhecida a cidade no seu tempo" (p. 29). Depreende-se, portanto, que Mello-Leitão não irá retocar o texto de Bates, ou seja, irá se comprometer com a alteridade do texto estrangeiro. Junqueira, por outro lado, insere em vários momentos "a cidade de", para marcar a especificidade. Por exemplo, quando Bates (1944, p. 91) observa que em outubro e novembro "o Pará apresenta seu melhor aspecto" [Pará is then seen at its best, p. 60], lemos, no texto de Junqueira, que é nessa época que "a cidade do Pará pode ser apreciada em todo o seu esplendor" (BATES, 1979, p. 31, grifos meus).

Corroborando seu direcionamento tradutório, encontramos a seguinte nota de Mello-Leitão, após um trecho em que Bates descreve "tufos de parasitas de fôlhas curiosas" [tufts of curiously-leaved parasites, p. 8] que se assentavam sobre as árvores: "não quizemos alterar o termo empregado por Bates, mas o que ele refere como parasitas, são todas as plantas epífitas, simples inquilinos e não parasitas" (BATES, 1944, p. 34). Quando Bates fornece a descrição de uma bananeira, finalizada por "o encanto desta soberba árvore" [the charm of this glorious tree, p. 9], Mello-Leitão assinala, em nota, que "a bananeira é, realmente, uma gigantesca erva", mas gentilmente explica que as folhas formam um falso caule aéreo, o que desculparia "a denominação, embora erronea, que lhe dá Bates" (p. 35). Regina Regis Junqueira também não altera o comentário de Bates, e, em sua tradução encontramos "tufos de parasitas de curiosas folhas" (BATES, 1979, p. 13). Mas, em seu texto, a bananeira não é uma árvore, é uma "maravilhosa planta" (p. 13).

Ao listar as árvores gigantescas da floresta, Bates menciona a "Moiratinga" (BATES, 1979, p. 35), que Mello-Leitão grafa "Moira-tinga". O tradutor reitera seu projeto em nota: "respeitamos a grafia do original, onde se lê entre parênteses (árvore branca ou árvore real)" (BATES, 1944, p. 103) [the Moira-tinga (the White or King tree), p. 69].7

As medidas também são deixadas pelo tradutor como no texto de partida. Na primeira ocorrência de "mile", lemos "milha" em português (Bates, 1944, p. 32), sem qualquer observação. Mas, quando Bates descreve as saúvas [the Saüba], informando que "as operárias dessa espécie são de três tipos e variam de duas a sete linhas de tamanho" [the workers of this species are of three orders, and vary in size from two to seven lines, p. 23-24], Mello-Leitão explica que "naturalmente Bates dá todas as suas referências em medidas inglesas; achei preferível deixar tais referências a fazer a cada passo sua redução para as medidas do sistema métrico, que se encontrará em qualquer aritmética" (BATES, 1944, p.53).

Junqueira, ao contrário, opta por transformar miles em quilômetros, yards e feet em metros, ainda que eventualmente encontremos algumas referências a "pés". Inchs e lines, entretanto, são transformadas em polegadas e linhas e suas dimensões são explicadas ao leitor entre parênteses: "as operárias dessa espécie [saúva] formam três ordens, variando seu tamanho de duas a sete linhas (medida correspondente à duodécima parte de uma polegada)" (p. 17).

Confirmando a proposta de não alterar o texto de Bates, Mello-Leitão não faz qualquer observação quando o naturalista afirma que o sagui "gosta muito de insetos, especialmente gafanhotos e aranhas de corpo mole" (Bates, 1944, p. 131) [it is also fond of insects, especially soft-bodied spiders and grasshoppers, p. 97]; talvez o tradutor espere que o leitor se recorde que, em uma das notas que incluiu no Prefácio de Bates à primeira edição, ele explicou que o termo "insetos" inclui aracnídeos (p. 14).8 Na tradução de Junqueira, lê-se que o macaquinho "é apreciador de insetos, especialmente as aranhas de abdome volumoso e os gafanhotos" (Bates, 1979, p. 48); após a palavra "aranha" há um asterisco, remetendo a uma nota assinada por MGF [Mário Guimarães Ferri], especificando: "embora assim esteja no original, é claro que aranhas não pertencem ao grupo de insetos" (p. 48).

O projeto de não alteração do texto do autor inclui até mesmo a repetição da estrutura de datação. Assim, o quarto capítulo de Bates, elaborado como um diário, inicia-se com "August 26th, 1848" (1863, p. 112), estrutura espelhada por Mello-Leitão com "Agosto, 26, de 1848" (BATES, 1944, p. 146) e repetida em cada entrada de data. Junqueira naturaliza a estrutura: "26 de agosto de 1848" (BATES, 1979, p. 53).

Essas características, tomadas isoladamente, poderiam levar à conclusão de que uma ética da diferença, que, de acordo com Oliveira (2008), revela aos leitores a origem estrangeira do texto, determinou o rumo de Mello-Leitão. Junqueira, por outro lado se pautaria por uma ética da igualdade, privilegiando a língua e o modo de significar de quem recebe a tradução.

Entretanto, em outros trechos, observa-se a aderência de Junqueira a termos de Bates, não apagando seus modos de significar. Por exemplo, quando o naturalista descreve a saída das formigas para a formação de novos formigueiros, ela repete a palavra estrangeira por ele usada: "o bom êxito do début dos machos e fêmeas alados depende igualmente das operárias" (BATES, 1979 p. 21) [the successful début of the winged males and females depends likewise on the workers, p. 31]. O mesmo ocorre quando Bates explica a função de certas formigas: "seriam uma espécie de pièce de resistence, funcionando como um parachoque" (p. 20) [they would be ... a kind of 'pièces de resistance' serving as a foil, 31]. Em ambos os casos, Mello-Leitão opta por uma palavra em português: "a iniciação feliz dos machos e fêmeas aladas depende igualmente das operárias" (BATES, 1944, p. 61); "seriam [...] peças de resistencia, servindo como cunhas" (p. 59, grifos meus).

Na passagem em que Bates relata uma de suas excursões pela floresta, lê-se, na tradução de Junqueira, que era "encontrado com freqüência ali um passarinho chamado manaquim, que tem um tufo de penas no papo" (BATES, 1979, p. 34) [they were also frequented by a species of puff-throated manikin, a little bird which flies occasionally across the road, p. 66]; a palavra "manaquim" não consta de dicionário, tratando-se do que poderíamos classificar como decalque, pois há simples adaptação da palavra da língua inglesa, "manakin" às convenções ortográficas do português. Mello-Leitão traduz por "uma espécie de tangará", como é conhecida no Brasil a espécie manakin: "[os maciços] eram frequentadas por uma espécie de tangará, passarinho que de vez em quando atravessava a estrada" (BATES, 1944, p.98); não faz, entretanto, qualquer observação a respeito da grafia de Bates, manikin, em lugar de manakin.9

Mello-Leitão explica, em nota, que, "escrevendo para um público europeu, para que o leitor tenha idéia de nossas aves, dá-lhes frequentemente Bates a designação pela qual são conhecidas as espécies mais afins, acaso encontradas na Inglaterra" (BATES, 1944, p. 42). Em seu texto, ele mantém a designação do pássaro estrangeiro, mas explica, em nota, que não se trata de ave brasileira. Por exemplo, quando Bates informa que avistou papa-moscas [flycatchers, p. 14], piscos [finches, p. 14], e carriças [wrens, p. 14], lê-se na nota, que cada pássaro não "não tem representantes no Brasil" (BATES, 1944, p. 42). Na tradução de Junqueira, "papa-moscas", "tentilhões" e "carriças" são mencionados sem qualquer observação (BATES, 1979, p. 15). No entanto, quando Bates observa uma scarlet ibis, que tem como referente o nosso guará, e é como Mello-Leitão traduz, Junqueira preserva a estrutura do sintagma em inglês e o traduz como "íbis escarlate" (p. 87).

Junqueira adere a Bates até mesmo em relação às fases da lua: a festa em honra a Nossa Senhora de Nazaré é celebrada na estação seca, "no segundo quarto da lua" (BATES, 1979, p. 45) [it falls in the second quarter of the moon, p. 92]. Para Mello-Leitão, a festa cai no "quarto crescente" (BATES, 1944, p. 126).

Em contrapartida a essa aderência de Junqueira aos modos de significar de Bates, observa-se um movimento de Mello-Leitão no sentido de adaptar certas construções, especialmente em relação aos antropônimos. Em sua tradução, Darwin é naturalizado para Carlos (p. 18), Wallace, passa a Alfredo (p. 11), George Gardner é apresentado como Jorge Gardner (p. 167). Até mesmo a escuna "St. John" é referida como "S. João" (p. 181), em itálico, fazendo parecer que assim estava no texto de partida. O tradutor tende, ainda, a adequar aos costumes brasileiros o tratamento que Bates dá a conterrâneos e companheiros de viagem. Bates (1863) sempre se refere ao colega naturalista como Mr. Wallace; Junqueira usa Sr. Wallace, mas, para Mello-Leitão, ele apenas é o "senhor Wallace" no primeiro capítulo (Bates, 1944, p. 27). A partir daí, passa a ser simplesmente Wallace. "Mr. Darwin" (Bates, 1863, p. iv), é referido como "Darwin" (p. 13). O gerente de uma serraria que Bates visitou algumas vezes, sempre "Mr. Leavens" para Bates (1863), é apresentado por Mello-Leitão como Sr. Leavens (BATES, 1944, p. 108); quando iniciam a viagem para subir o rio Tocantins, ainda é Mr. Leavens (p. 146). Entretanto, após cerca de 15 dias de viagem de vigilenga, no dia 10 de setembro, passa a ser Leavens (p. 165). O inglês "Mr. Patchett" (1863, p. 165) que oferece a Bates passagem para retornar de Cametá a Belém e com quem o naturalista divide a cabine para dormir, é apenas "Patchett" (BATES, 1944, p. 198). O proprietário de uma serraria, "Mr. Upton" para Bates, é "Upton" para Mello-Leitão (p. 97). Temos, assim, um Bates que tem hábitos quase brasileiros de relacionamentos; não chega a usar o primeiro nome do outro, como o faríamos, mas com frequência dispensa a forma de tratamento "senhor". Na tradução de Junqueira, as formalidades são mantidas e os sobrenomes são precedidos por Sr., como Sr. Leavens, Sr. Patchett, Sr. Upton.

Bates faz uma interessante distinção na forma de tratamento dos estrangeiros e dos portugueses e brasileiros com quem se encontra. Enquanto os anglo-americanos recebem, de Bates, a forma "Mr.", os demais são tratados por "Senhor": o "Senhor Laroque" (BATES, 1863, p. 118), um comerciante português, o "Senhor Antonio Ferreira Gomez", um proprietário de terras (p. 118), o "Senhor Seixas" (p. 125) que lhe oferece hospedagem em Baião, o funcionário público "Senhor Soares" (p. 126), por exemplo.10 As traduções não observam essas características que marcam, para o leitor inglês, quem seria seu par e quem seriam os nativos [native] ou os habitantes da terra descrita. Portugueses, brasileiros e estrangeiros recebem, indistintamente, "Sr." de Junqueira e, quando é o caso, "senhor" de Mello-Leitão.

Percebe-se, pelo exposto acima, que não é conservar ou não os modos de significar de Bates que diferenciam as traduções, pois ambos os tradutores, em determinados momentos adotam uma ética da diferença e, em outros, uma ética da igualdade. Essa característica converge com a argumentação de Cardozo (2008), para quem tanto práticas assimiladoras, de apagamento do outro, quanto as fundadas na disposição de abertura ao outro, de apreender sua estrangeiridade, representam movimento produtivos, representam maneiras de construir o outro e de dele apropriar-se. No caso de tradução de um relato da viagem de um estrangeiro pelo Brasil feita por um brasileiro, essa construção torna-se mais interessante, pois há um outro, o estrangeiro, construindo, de acordo com o seu ponto de vista, o que é doméstico para o tradutor, que vai se apropriar daquela construção para constituir a alteridade do outro e a identidade do que lhe é próprio. Cardozo (2008, p. 186) considera que seja "na relação que o homem constrói a alteridade do outro, da qual emerge tanto a percepção de uma diferença quanto de uma semelhança - constitutivas da alteridade do outro e de sua própria identidade". A impossibilidade de se apreender realmente o outro e construí-lo de acordo com a percepção que o eu tem de si mesmo apontada por Cardozo expressa o que avalio ser a maior diferença entre as traduções examinadas. Nelas, as relações de identidade e diferença, de aproximação e distanciamento, conduzem à construção de duas diferentes imagens do viajante-naturalista.

Ao afirmar, em seu prefácio, que se trata de uma tradução de um Naturalista, com "N" maiúsculo, anotada por um naturalista, com "n" minúsculo, Mello-Leitão explicita a percepção que tem de Bates e de como vai com ele relacionar-se. Mas, no decorrer de seu trabalho, constitui sua identidade de Naturalista na valorização do outro enquanto pesquisador que muito contribuiu para o desenvolvimento das Ciências Naturais.11 Constrói um Bates que usa os termos de sua especialidade e que tem conhecimentos amplos sobre as peculiaridades da região que visita, enquanto o de Junqueira é um observador atento da natureza que, eventualmente, insere algumas informações específicas em seu texto, especialmente os nomes científicos das espécies observadas. Essa tradução é de "leitura agradável", em consonância com o anunciado por Ferri na apresentação (BATES, 1979, p. 10) e fluente, pois não é constantemente interrompida por uma nota. A tradução de Mello-Leitão, não apenas apresenta 578 notas, ratificando ou aprofundando as observações de Bates, mas pontua-se por detalhes da área de conhecimento. Assim, na tradução de Junqueira lê-se que "existe até mesmo um gênero de palmeira trepadeira (Desmoncus), conhecida pelo nome de jacitara em guarani" (p. 29) [there is even a climbing genus of palms (Desmoncus), the species of which are called, in the Tupí language, Jacitara, p. 48]. Mello-Leitão faz uma tradução de naturalista: "há mesmo um gênero de palmeiras trepadeiras (Desmoncus), cujas espécies são conhecidas em língua tupi por jacitara" (p. 78-79), deixando claro que há mais de uma espécie do gênero. As folhas da jacitara da tradução de Junqueira são providas de "uma série de espinhos longos e recurvos" (p. 29), enquanto para Mello-Leitão, há "um certo número de longos espinhos recurvos apicais" (p. 79) [the leaves have at their tips a number of long recurved spines, p. 49].

As descrições do receptáculo da castanha-do-pará ilustram esse ponto. Lê-se, no texto de Junqueira, que "as sementes ... ficam encerradas em grandes cuias de madeira; estas, porém, não tem tampa e caem inteiras no chão" (BATES, 1979, p. 34); no de Mello-Leitão, as "sementes estão igualmente encerradas em grandes cápsulas lenhosas; mas estas não têm opérculos e caem inteiras no solo" (BATES, 1944, p. 100) [seeds are also enclosed in large woody vessels; but these have no lid, and fall to the ground intact, p. 67]. Note-se que Bates não emprega a palavra "operculum", correlata de "opérculo", empregada por Mello-Leitão.

As escolhas do tradutor, em geral, seguem a linha da construção de um Naturalista. Por exemplo, a tradução de Junqueira nos informa que "a parte externa do tronco dessa palmeira [açaí] é dura e resistente como chifre" (BATES, 1979, p.56), mas a de Mello-Leitão especifica que "a parte externa do espique dessa espécie é dura e de aspecto córneo" (BATES, 1944, p. 158) [the outer part of the stem of this species is hard and tough as horn, p. 123]. Enquanto para Junqueira "os troncos das árvores eram recobertos por samambaias trepadeiras e plantas do gênero Pothos, de grandes folhas carnosas em forma de coração" (BATES, 1979, p. 30), para Mello-Leitão os "troncos das árvores estavam cobertos de fetos escandentes e imbés com grandes fôlhas carnosas cordiformes" (BATES, 1944, p. 81) [the trunks of the trees were clothed with climbing ferns, and Pothos plants with large, fleshy, heart-shaped leaves, p. 22-23]. O "mato rasteiro" [underwood, 116] de Junqueira (p. 61), transforma-se em "subosque" (p. 165), o "caracol enorme e chato com uma abertura em forma de labirinto" (BATES, 1979, p. 61), em "um grande Helix achatado, de boca em labirinto" (BATES, 1944, p. 166) [a large flat Helix, with a labyrinthine mouth, p. 132]

Até em pequenos detalhes, podemos perceber a pena de um tradutor naturalista culto, que acaba por compor a imagem do Naturalista Bates para o leitor dessa tradução. Enquanto na tradução de Junqueira o mameluco se alimenta de "peixes", "mariscos" e "cocos" (BATES, 1979, p. 58) [fish, shellfish, fruits of palm trees, p. 124] e vive em "choupana de barro coberta de folhas de palmeiras" (p. 59) [a mud-plastered and palm-thatched hut, p. 127], erguida "num barranco elevado" (p. 62) [on a high bank, 125], para Mello-Leitão a alimentação do mameluco é composta de "peixes", "moluscos" e "frutos das palmeiras" (BATES, 1944, p. 159), sua moradia é uma "cabana de taipa" (p. 161), algumas vezes "construída em um montado" (p. 170). O tamanduá, que Junqueira descreve como tendo "um focinho excessivamente comprido e fino, e uma língua elástica e coleante como uma minhoca" (BATES, 1979, p. 79), tem, para Mello-Leitão, "um focinho delgado e excessivamente longo e uma língua vermiforme estensível" (BATES, 1944, 212) [it [the Tamanduá bandeira, or the Banner Ant-eater] has an excessively long slender muzzle, and a wormlike extensile tongue, p. 178]. Pássaros, que no texto de Junqueira têm "asas recurvas" e ninhos "compridos e semelhantes a uma bolsa" (BATES, 1979, p. 82), no de Mello-Leitão têm "asas falciformes" e ninhos "longos e sacciformes" (BATES, 1944, p. 217) [large falcate-winged; nests long and purseshaped, p. 184].

Para Junqueira, algumas "palmeiras projetavam suas esguias hastes a uma altura de vinte metros ou mais, acenando com o seu penacho de folhas lá no céu" (BATES, 1979, p. 83). Elegantemente, as palmeiras descritas por Mello-Leitão "erguiam seus delgados estípites a uma altura de sessenta pés ou mais e abriam seus capiteis de plumas entre nós e o céu" (BATES, 1944, 221) [some of them [the palms], however, shot up their slim stems to a height of sixty feet or more, and waved their bunches of nodding plumes between us and the sky, p. 188]. Em uma expedição de caça, quando o dia clareou, na tradução de Junqueira "os pássaros já estavam despertos, as cigarras tinham começado sua música" (BATES, 1979, p. 86); na de Mello-Leitão, "as aves agitavam-se, as cigarras começavam a sua música" (BATES, 1944, p. 230) [the birds were astir, the cicadas had begun their music, p. 198]. Enquanto o Bates de Junqueira ouve o "zumbido contínuo de inumeráveis insetos", (p. 45), o de Mello-Leitão percebe o "eterno bulício da vida dos insetos (p. 125) [the perpetual ringing din of insect life, p. 91]. O primeiro, em uma excursão por escuna, relata que o grupo avançava "aos saltos, vergastados por uma brisa forte que fazia espumar a água" (BATES, 1979, p. 162), mas o segundo narra que iam "levados por brisa fresca que cobria o mar de carneirinhos" (BATES, 1944, p. 162) [we were bounding along before a spanking breeze, which tossed the waters into foam, p. 229]. Um Bates sóbrio descreve "ilhas orladas de extensas praias brancas", cuja "areia tinha sido soprada pelo vento, formando sulcos e ondulações" (Bates, 1979, p. 60) [between islands with long, white, sandy beaches; the sand had been blown by the wind into ridges and undulations, p. 130]. Um Bates cheio de encantamento navega "entre ilhas com longas praias alvas, arenosas" e observa que "o vento encrespara a areia em cristas e ondulações" (BATES, 1944, p. 164).

Mas Mello-Leitão não constrói apenas a imagem de um Naturalista erudito e requintado. Seu Bates é também um britânico que tem familiaridade com os termos da região, navega por furos, igarapés e curuperês, em montarias, igarités ou vigilengas. Nesse aspecto, Mello-Leitão naturaliza sua tradução. Por exemplo, quando Bates relata as excursões à "propriedade de um americano, Upton", Mello-Leitão situa-a "as margens de um igarapé" (BATES, 1944, p. 97) [banks of a creek, p. 65], o "igarapé Iritiri" [the Iritirí Creek], que se "comunica com o rio Pará por outro maior, o Magoarí" (p. 98) [the Iritirí communicates with the river Pará, through another larger creek, the Magoary, p. 65]. Para Junqueira, a propriedade do Sr. Upton "ficava situada nas margens de um riacho", o "riacho Iritiri", que se "comunica com o Rio Pará através de um curso d'água maior, o Maguari" (BATES, 1979, p. 34).

Parágrafos depois, Bates (1944, p. 109) explica que, apesar de estreito perto da serraria, o Iritiri torna-se mais largo ao lançar-se no Maguari e observa que "há muitas outras ramificações, furos e curuperés" [ramifications, creeks or channels, p. 50]. É nesse ponto, após usar os termos da região, que Mello-Leitão acrescenta uma nota especificando que "emprega Bates os termos inglêses para ribeiros e regatos ainda menores, que traduzimos pelos termos regionais da Amazônia igarapés (muito frequentemente empregado pelo próprio Bates) e curuperés que são, segundo Alberto Sampaio, os pequenos riachos, afluentes dos igarapés" (p. 109). No entanto, apenas encontrei três ocorrências de "igarapé" no primeiro volume do livro em inglês, e uma ocorrência no segundo volume. Há uma única ocorrência de "furo", e "curuperê" não é palavra utilizada por Bates. Na tradução de Junqueira, nesse trecho, lê-se apenas que "há vários outros riachos ou canais", sem o recurso de qualquer regionalismo.

Nessa tradução, Bates continua sua descrição do lugar, pois ele e Wallace fizeram "muitas excursões pelo Iriti abaixo" e encontraram "vários desses riachos" (BATES, 1979, p. 38) [we made many excursions down the Iritirí, and saw much of these creeks, p. 75]. Em sua avaliação, "o Maguari é um magnífico canal"; aliás, para ele, "todos esses riachos do estuário do Pará não passam, na realidade, de canais" (BATES, 1979, p. 38) [the Magoary is a magnificent channel; all these smaller rivers, throughout the Pará Estuary, are of the nature of creeks, p. 75]. É apenas após explicar sua função de drenar o terreno que menciona que "os nativos chamam-nos igarapés, que na língua tupi significa 'caminho das canoas'. Os igarapés e os furos, ou canais, que são em número infinito no delta desse grande rio, constituem uma característica da região" (BATES, 1979, p. 38) [the natives call them, in the Tupí language, Igarapés, or canoe-paths. The igarapés and furos or channels, which are infinite in number in this great river delta, are characteristic of the country, p. 75]. Bates explica que as pessoas da região levariam uma vida semi-aquática e, que, "para pequenas excursões e para pesca em águas paradas é usado geralmente um pequeno barco denominado 'montaria'", que "toma ali o lugar do cavalo, do burro ou do camelo em outras regiões" (BATES, 1979, p. 38) [for short excursions, and for fishing in still waters, a small boat, called montaria, is universally used; the montaria takes here the place of the horse, mule, or camel of other regions, p. 75]. Mas especifica também que "quase toda família tem uma canoa maior, a que dão o nome de igarité", para travessias de rios caudalosos (p. 38) [almost every family has a larger canoe, called Igarité, p. 75].

Mello-Leitão já introduz que "o Magoari é um magnífico furo", sem itálico, antes que Bates utilize a palavra "furo" e explique, para os leitores, que significa "canal" (BATES, 1944, p. 110). Essa explicação, mantida por Junqueira no recorte acima, é omitida pelo tradutor, que simplesmente informa que "os igarapés e furos, em número infinito nesse grande delta do rio, são característicos da região" (p. 110). "Furo" não recebe itálico, mas, "igarapés", "montaria" e "igarité" recebem, em sua primeira ocorrência, indicando o uso do português por Bates, fato que passa desapercebido pelo leitor de Junqueira.

O uso frequente de termos e expressões específicas da Amazônia por Mello-Leitão, nesses casos referentes aos caminhos fluviais disponíveis ou intransponíveis, faz o leitor imaginar um Bates que não faz concessões a seus leitores anglo-americanos, que pontua seu texto com as palavras do estrangeiro. Não é o que ocorre, entretanto, pois Bates faz uso comedido de palavras e expressões em português, diferentemente de outros viajantes, como Richard Francis Burton, por exemplo. Na tradução do livro de Wallace, companheiro de Bates por um período, no prefácio do autor à segunda edição, lê-se a seguinte afirmação, datada de 1889:

A presente edição é, em sua essência, uma reimpressão do trabalho original; mas foi cuidadosamente revista, corrigindo-se muitas expressões verbais.

Poucas notas mais foram-lhe acrescidas, e muitos vocábulos ingleses substituem os termos locais, que muito livremente foram empregados na primeira edição. (WALLACE, 1939, p. xxxiii)

Esse cuidado indica que o uso de palavras e expressões estrangeiras pode não ser muito bem recebido pelo público inglês. Mello-Leitão afirma, entretanto, que "freqüentemente emprega Bates palavras portuguesas, grafando-as corretamente, pois seus onze anos de Brasil lhe deram bom conhecimento da língua" (BATES, 1944, p. 38), e que não vai assinalar tal uso em notas toda vez que ocorrer. Efetivamente, em muitas ocorrências o uso do português é apenas assinalado em itálico, destacando a denominação. Mas Mello-Leitão insere algumas notas informando que a frase está em português no original. É o caso, por exemplo, de "Clareia o dia!", em que uma nota especifica: "Em português, no original" (BATES, 1944, p. 231). Há também situações em que o tradutor indica uma grafia ou um significado; por exemplo quando explica que "Bates escreve Ygapó" e esclarece seu significado: "água estagnada ou represada, alagadiço, pântano" (BATES, 1944, p. 159).

Na edição da Coleção Reconquista do Brasil, em algumas palavras há aspas quando Bates usa português, mas, em geral, não há marcação especial para o uso da língua. Encontrei, no livro todo, apenas uma nota da tradutora, especificando que o termo "está em português, no original" (p. 41). Ocorre quando Bates descreve "uma pequena e graciosa garça", ave que "os brasileiros costumam domesticar e manter dentro de casa, dando-lhe o nome de pavão" e que atende quando "gritam seu nome 'Pavão! Pavão'" (BATES, 1979, p. 41) [a small heron of exquisitely graceful shape and mien; it is a favourite pet-bird of the Brazilians, who call it Pavaõ (pronounced Pavaong), or peacock; it will answer to its name "Pavaõ! Pavaõ!", p. 82]12. Mello-Leitão não faz qualquer observação a respeito do uso do português e domestica sua tradução: "o pequeno socó, de forma e aspecto particularmente graciosos" seria "xerimbabo favorito dos brasileiros, que o chamam pavão" (BATES, 1944, p. 116, grifo meu). Segundo o dicionário Houaiss, "xerimbabo" é regionalismo, usado no Norte do Brasil e no Maranhão, significando animal de criação ou estimação. Quanto às escolhas das palavras "garça" e "socó", ambas podem ser referidas como "heron " ou "bittern" em inglês, mas a ave de que trata Bates, como explica Mello-Leitão em nota, não é um pavão, mas o pavãozinho-do-pará (Eurypyga helias) que não é da mesma ordem que as garças e os socós. O "pavãozinho-do-pará" é conhecido como "sunbittern" (Sigrist, p. 78) e em nada se assemelha com o pavão.13 Note-se que Bates faz questão de informar a seus leitores a pronúncia da palavra.

Ainda que Mello-Leitão use a expressão "animal domesticado", ao falar do sagui, ela traduz "in a tame state",14 pois "pet" é regularmente traduzida por "xerimbabo": "os brasileiros gostam muito de xerimbabos" (BATES, 1944, p. 133) [the Brazilians are fond of pet animals, p. 99]. Na tradução de Junqueira, o sagui "é criado como animal de estimação" (BATES, 1979, p.47) e "os brasileiros gostam de ter em casa animais de estimação" (p. 48).

Há outros casos de uso de regionalismos por Mello-Leitão. Por exemplo, no caminho para Caripí, param o barco em Uirapiranga, para "embarcar várias pipas de cachaça de uma engenhoca" (BATES, 1944, 104) [we had to stop a short time to embark several pipes of cashça at a sugar estate, 170]. A palavra "engenhoca", de acordo com o Dicionário Houaiss, é um regionalismo que significa "engenho de pequeno porte para o fabrico de aguardente e rapadura". Para Junqueira, eles simplesmente fazem uma parada no local "a fim de que fossem embarcados vários barris de cachaça produzida numa fazenda das redondezas" (Bates, 1979, p. 76).

O uso que Mello-Leitão faz de "caboclo" também é peculiar, parecendo remeter a qualquer habitante da região. Por exemplo, lê-se em seu texto que, "com o caboclo é sempre o Curupira, o demônio ou espírito da mata, que produz todos os ruídos que êle não consegue explicar" (Bates, 1944, p. 108) [with the native it is always the Curupira, the wild man or spirit of the forest, which produces all noises they are unable to explain, p. 73]. Junqueira traduz "native" por "nativo" (p. 37). Note-se que a única menção de Bates (1863) a "caboclo" é, em nota, na p. 23, quando fala das "raças mestiças" e diz que "ao índio civilizado chamam tapuio ou caboclo" (BATES, 1944, p. 64) [the civilised Indian is called Tapuyo or Caboclo, 35].

Esse uso reiterado de termos próprios da região que Bates visita parece fazer parte da constituição da alteridade do outro, do estrangeiro, mas, ao mesmo tempo, é parte da constituição da identidade do próprio, do que é doméstico para o tradutor. Ainda que Mello-Leitão não explicite, em seu projeto tradutivo inicial, que desempenhará sua tarefa por esse caminho, em nota o faz sem dar, no entanto, a dimensão desse uso. O mesmo ocorre com o emprego de termos de especialidade - seu leitor apenas construirá a imagem do Naturalista que Mello-Leitão Naturalista lhe oferece. A linguagem escolhida por Mello-Leitão confere, à tradução, um toque de estrangeiridade. Nesse caso não por revelar a origem estrangeira do texto, não por tentar preservar a alteridade, mas por domesticá-lo, com o uso de termos regionais, e valorizá-lo, ressaltando o mérito do outro com o emprego de termos próprios às ciências naturais. Ao mesmo tempo em que essa tradução não faz concessões de fluência ao leitor, o que a caracterizaria como pautada por uma ética da diferença, ela é assimiladora, evidenciando que os limites entre uma ética da igualdade e uma ética da diferença não são tão nitidamente demarcáveis. Como se percebe também na tradução de Junqueira um movimento no sentido de fazer o texto fluir ao lado de uma aderência aos modos de significar de Bates, conclui-se que esses direcionamentos não são efetivamente excludentes, que uma das práticas não elimina a outra. Nesse sentido, nem uma nem outra seria uma prática condenável, ou privilegiada. Entretanto, como busquei evidenciar neste trabalho, os diferentes projetos seguidos pelos tradutores têm consequências e levam a diferentes resultados. Nesse caso, apoiados pelos projetos editoriais, resultam no direcionamento do leitor no sentido da construção de dois diferentes naturalistas viajando pela Amazônia brasileira. Como os títulos das traduções prenunciam, o Bates da Coleção Reconquista do Brasil é Um naturalista no Rio Amazonas, enquanto o da Coleção Brasiliana é O naturalista no Rio Amazonas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido: 30/08/2011
Aceito: 23/11/2011

 

 

1. Durante a viagem de volta, o navio em que Wallace estava incendiou-se e, infelizmente, a coleção por ele aqui coletada foi perdida.
2. Mantive a grafia dos textos consultados.
3. Comprovando seu "sucesso", a segunda edição integral é a disponibilizada gratuitamente por Google books (http://books.google.com/books?id=EwEMAAAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false). É também edição fac-similar publicada pela Elibron Classics e a que baseia o texto digitalizado no site do Project Gutemberg (http://www.gutenberg.org/ebooks/2440), com data de 2000. Essa versão não traz referências à edição que a gerou, inclui o prefácio de Bates à segunda edição ("Author's preface to the edition of 1864"), oferece a resenha de Darwin ("An appreciation") sobre o livro, publicada em 1863, mas não tem os trechos da primeira edição omitidos por Bates.
4. De acordo com Hallewell (2005), nas décadas de 1930 e 1940, impostos altos incidiam sobre o papel importado e o produto nacional era de qualidade muito inferior.
5. Versão preliminar da análise da tradução de Mello-Leitão foi apresentada no XII Congresso Internacional da ABRALIC, em julho de 2011, com o título "Éticas na tradução de relatos de viagem".
6. Os trechos em inglês sempre se referem à edição da John Murray de 1863 e seguem, entre colchetes, a citação em português.
7. No entanto, na sequência, Mello-Leitão inclui a "sumaúma" e, em nota, explica que "tanto Martius como Bates escrevem samaúma [Samaüma, p. 69], parecendo que tal fosse a designação mais corrente no Pará, quando os dois naturalistas aí estiveram" (p. 103). Mas esse procedimento, pouco comum no texto, não chega a ser considerado um deslize, um desvio de seu projeto, pois é explicitado na nota. Ocorre caso similar quando Bates está na baía de Guajará "e o único som de vida que chegava até nós era o canto da saracura (Gallinula cayennensis), especie de galinha selvagem" (p. 148). Mello-Leitão além de observar que Bates grafou "Serracura", diz que há "engano quando Bates a ela se refere como espécie de galinha selvagem" (p. 148). Nesse caso, o tradutor altera a grafia de Bates, mas mantém a informação de que se trataria de um galináceo. Em ambos os casos, na tradução de Junqueira a grafia está corrigida, e a saracura é descrita como "uma espécie de galináceo silvestre" (p. 54).
8. Não é o procedimento usual de Mello-Leitão, que costuma reiterar suas observações anteriores. Por exemplo, quando Bates menciona "árvores exógenas", o tradutor explica, em nota que o autor emprega essa designação no sentido de Lindley e que elas correspondem "às atuais Dicotiledoneas" (BATES, 1944, p. 82). Quando Bates volta a mencioná-las, lê-se, na nota do tradutor, que "é preciso não esquecer que Bates sempre se refere às Dicotiledoneas como Exógenas" (p. 148). Em outros momentos, insere uma nota para remeter a nota anterior; por exemplo, a nota 172, sobre mucujá e tucuma, encerra-se com: "sobre o mucujá ver a nota n. 44" (p. 159).
9. De acordo com Sigrist (2009), a família Pipridae-Tangará (Pripridae-Manakins, em inglês) é composta de numerosas espécies; as aves recebem, em inglês, o nome manakin adjetivado com alguma de suas características. Assim, o tangará é designado como blue manakin; o tangará-falso, como blue-backed manakin; e o descrito por Bates, com penas na garganta, provavelmente é a rendeira (white-bearded manakin).
10. Curiosamente, na edição do Project Gutemberg, em muitos casos a grafia é "Senor".
11. O fato de Bates ter coletado mais de 14 mil espécies de flora e fauna, sendo cerca de oito mil novas para a ciência, certifica o papel desempenhado. É necessário mencionar que, além disso, Bates e Wallace são responsáveis pela formulação de duas hipóteses inovadoras no século XIX, a do transformismo, ou seleção natural, e a do mimetismo. Quanto ao tradutor, de acordo com Franco e Drummond (2007), o naturalista Cândido de Mello-Leitão (1886-1948) tem também uma contribuição para as ciências naturais no Brasil. Além de ter publicado vários livros, pertencia a um grupo de cientistas, intelectuais e funcionários públicos empenhado em articular propostas relacionadas ao conceito de proteção à natureza com um projeto político mais amplo, de cunho nacionalista, visando a conservação do patrimônio natural brasileiro.
12. Em geral o til é colocado sobre a letra "o" nas edições inglesas mais antigas, que mantêm os acentos do português, como em Pará, Guamá, Iritirí. As versões mais recentes do livro, assim como as digitalizadas, não trazem os diacríticos.
13. Na Europa há, de acordo com Sterry (2009), uma ave conhecida como "bittern" (Botaurus stellaris) habita algumas regiões da França e Espanha durante o ano todo e vive no leste da Inglaterra durante o inverno. Essa ave assemelha-se ao nosso socó-boi-baio (Botaurus pinnatus), denominado "pinnated bittern" pelos observadores de pássaros. No entanto, o socó-boi (Trigrisoma lineatum) é designado como "rufescent tiger-heron". A maior parte de nossas garças recebe, em inglês, o nome "heron"; é o caso, por exemplo, da garça-moura (Ardea cocoi), conhecida como "cocoi heron", muito semelhante à "grey heron" (Ardea cinerea), a garça mais comum na Europa, segundo (Sterry, 2009).
14. De acordo com Bates, os saguis seriam animais domésticos comuns na região [in Para, Midas ursulus is often seen in a tame state in the houses of the inhabitants, p. 97].

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