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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.4 no.1-2 São Paulo Jan./Dec. 1992

http://dx.doi.org/10.590/0103-207019941-211 

Artigos

JOSÉ ALBERTINO ROSARIO RODRIGUES

Oracy Nogueira* 

*Professor do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP.

No dia 10 de outubro de 1992, quando voltavam para casa, pela rodovia Guilherme Scatena, José Albertino Rosario Rodrigues, sociólogo, e sua esposa, Ada Natal Rodrigues, lingüista, ambos docentes da Universidade Federal de São Carlos, perderam a vida em acidente automobilístico, respectivamente aos 64 e 61 anos de idade.

De origem mineira e filho de um modesto administrador de fazenda, José Albertino foi meu aluno de graduação, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e, por três anos, meu auxiliar de ensino e pesquisa.

Tivemos, assim, alguns anos de intensa convivência e colaboração e, pelos anos que se seguiram, sempre acompanhei sua carreira com interesse e simpatia; e, agora, lamento que as circunstâncias da vida tenham rareado nossos contatos, nos últimos anos.

Nosso último encontro ocorreu em 1987, por ocasião da Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Universidade de Brasília.

Nos primeiros anos do decênio de 1950, como meu auxiliar, na Escola de Sociologia e Política, Albertino foi o meu "braço direito", colaborando no preparo das aulas e nas atividades de pesquisa que aí desenvolvia e nas atividades eventuais que vim a exercer fora dessa instituição, como as referentes à Comissão Paulista de Folclore, cujas reuniões freqüentou em minha companhia, na sede do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, na avenida São João. O secretário da Comissão era Rossini Tavares de Lima, ex-aluno e sucessor de Mario de Andrade no corpo docente do Conservatório e membro da diretoria do Centro de Estudos de Folclore "Mario de Andrade".

Foi numa das reuniões no Conservatório que Albertino nos apresentou a namorada que, logo, seria sua esposa, Ada Natal.

Em 1951, quando dei, no mesmo local, um curso de métodos e técnicas de pesquisa social, a convite de Rossini e sob o patrocínio do Conservatório e do referido Centro, Albertino atuou como meu secretário e datilografo, a quem eu ditava cada aula a ser ministrada.

Tudo isto é cheio de evocações, para mim, inclusive porque foi em razão do referido curso que reencontrei, como interventor no Conservatório, o advogado Cori Gomes Amorim, comandante de meu batalhão, na Revolução Constitucionalista de 1932.

Nos anos de 1951 e 1952, Albertino me deu uma colaboração preciosa, no trabalho de campo que vinha desenvolvendo em Itapetininga, tendo sido tiradas por ele várias das fotografias que ilustram meu livro Família e Comunidade, um estudo sociológico de Itapetininga (Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, 1962).

No mesmo ano de 1952, após me ser negado o visto pelo Consulado Norte-Americano, para regresso à Universidade de Chicago, onde deveria defender o doutorado com a pesquisa de Itapetininga, minha situação se tornou periclitante na Escola de Sociologia e Política, e Albertino, como meu auxiliar, tornou-se alvo de hostilidade aberta, alegando-se, como justificação, sua militância na política estudantil. Aliás, foi por sua iniciativa que, num desses anos, fui um dos homenageados, no Congresso da União Estadual de Estudantes. Tudo isso era visto, na Escola, como agravante para a situação de ambos e, nas reuniões do Conselho Técnico e Administrativo, tive que me opor com o máximo empenho à intenção dos que desejavam alijar Albertino da Instituição.

Foi quando recorri ao Professor Mario Wagner Vieira da Cunha, responsável pela cadeira de Ciência da Administração e pelo Instituto de Administração anexo, na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo, e que, antes, me havia sondado sobre o interesse de ser um de seus assistentes, na tentativa de encontrar um novo nicho ocupacional para Albertino.

Não dispondo, na ocasião, de vaga em sua cadeira, Mario Wagner apresentou Albertino à Professora Alice Piffer Canabrava que o convidou para seu auxiliar na dc "História Econômica Geral e do Brasil".

Assim, de abril de 1952 a maio de 1957, Albertino veio a trabalhar com a Professora Canabrava, na referida cadeira, a princípio como auxiliar e, a seguir, como assistente de ensino e pesquisa.

O ambiente na nova instituição, as atividades didáticas e de pesquisa na cadeira de "História Econômica", a experiência anterior de pesquisa e o conhecimento dos estudos de padrão de vida de que a Escola de Sociologia e Política havia sido pioneira, com os trabalhos de Davis e Lowrie, e a motivação desenvolvida no movimento estudantil, tudo convergiu no sentido de levar Albertino, nessa altura da vida, a engendrar e realizar o mais importante e mais marcante projeto de toda sua acidentada carreira profissional - a criação do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos, o DIEESE, em dezembro de 1955 (22-12-1955), que logo se notabilizaria pelo índice de custo de vida que forneceria e que, além de mais confiável do ponto de vista da massa trabalhadora, teria o papel de aferidor para os de outras fontes.

No planejamento da nova instituição e no da elaboração do índice de custo de vida que haveria de fornecer, Albertino contou com o assessoramento de vários profissionais, dentre os quais, é de justiça que se enfatize, o do Dr. Wilfred Leslie Stevens, inglês, docente de Estatística da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, com quem veio a conviver na "Sala dos Professores", nos minutos que antecediam o início das aulas e nos intervalos.

Exonerado, a pedido, da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, Albertino trabalharia no DIEESE, de 1957 a 1962, quando o deixou para integrar o corpo docente da Universidade de Brasília; e ao mesmo retornaria, em 1965, quando a crise por que passou a Universidade o obrigou, com tantos colegas, a deixá-la.

Além de bem sucedido nos objetivos para os quais foi criado, o DIEESE, desde sua inauguração, se mostraria um campo privilegiado de treinamento para estudantes e graduados de Economia e de Ciências Sociais.

Da participação de Albertino nas atividades da cadeira de "História Econômica" da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, os principais resultados foram a criação do DIEESE e sua decisão de ingressar no curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, por onde a Professora Alice P. Canabrava se havia bacharelado e licenciado e que ele esperava que melhor o qualificasse para o desempenho de sua nova função, no qual ingressou em 1954 e pelo qual se graduou em 1957.

Em 1955, ao ser criada a Faculdade Municipal de Ciências Econômicas e Administrativas de Santo André, com aulas no período noturno, Albertino aceitou o compromisso de integrar seu corpo docente como responsável pelo ensino de Sociologia. Nesse mesmo ano, tendo que se afastar temporariamente dessa função, aceitei o convite para substituí-lo, pelo que vim a lecionar na referida Faculdade do segundo semestre de 1955 ao primeiro de 1957, uma vez que em julho, me transferi para o Rio de Janeiro, para ficar à disposição do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, de onde somente retornaria em princípios de 1961.

Eu trabalhava no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, com Anisio Teixeira e Darcy Ribeiro, quando este planejou a Universidade de Brasília.

Meu retorno para São Paulo coincidiu com a ida de Albertino para a Universidade de Brasília, como integrante do corpo docente do "tronco" de Ciências Humanas. Em 1962, por instância dele, dei um curso na nova Universidade, onde passei um mês, convivendo, entre outros, com Perseu Abramo, Machado Neto, Heron de Alencar.

Albertino trabalhou com entusiasmo, na nova Instituição, até os acontecimentos de abril de 1964. Alijado, em 1965, após sucessivas crises, quando quase todo o corpo docente degringolou, Albertino exilou-se na Europa, passando algum tempo em Portugal para, em seguida, transferir-se para a França. Aproveitando o tempo de exílio para fazer sua pós-graduação, Albertino obteve os títulos de mestre e de doutor, na Universidade de Paris, respectivamente, em 1966, no Institut des Hautes Études de l'Amerique Latine, e 1968, na Faculté des Lettres et Sciences Humaines.

Quando estive em Paris, em 1967 e 1968, tive a satisfação de rever o casal e de ser convidado, várias vezes, para refeições em seu apartamento.

Regressando ao Brasil logo após o término da pós-graduação, Albertino veio a lecionar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (1969-71), no curso de pós-graduação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (1970) e, finalmente, na Universidade Federal de São Carlos, a partir de 1977.

Ao falecer, além das atividades de ensino e pesquisa, Albertino exercia, na Universidade Federal de São Carlos, as funções de coordenador dos programas de pós-graduação nas áreas de Educação e Ciências Humanas e do Núcleo de Pesquisa e Documentação.

Fora da referida Universidade, estava em seu segundo mandato como vicepresidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que iria até 1993, já tendo sido secretário da mesma. Era, ainda, editor do órgão da entidade, Ciência e Cultura.

Além das atividades nas instituições de ensino e de sua atuação no DIEESE, é de se lembrar a participação de Albertino, como pesquisador, em várias empresas como a Folha da Manhã (auxiliar de pesquisa, 1950-1), a Hidroservice, Engenharia de Projetos (pesquisador, 1968-75) e o Grupo Visão (chefe de pesquisa, 1975-77). Em 1979 e anos seguintes, foi assessor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Quanto a Ada Natal Rodrigues, era graduada em Línguas Neolatinas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, por onde também se doutorou em Lingüística, após cursar a pós-graduação em Lingüística e Teoria Literária, na Universidade de Brasília. Na Universidade Federal de São Carlos, era professora de português do Centro de Educação e Ciências Humanas.

José Albertino Rosario Rodrigues foi mais um organizador e animador que um teorizador; todavia, deixou artigos e livros que hão de assegurar a lembrança de passagem pela história da Sociologia, no Brasil.

Os primeiros artigos que publicou datam de época em que freqüentava os eventos promovidos pela Comissão Paulista de Folclore, nos primeiros anos do decênio de 1950. Foram publicados na imprensa comum, se não me engano, no Correio Paulistano que sempre tinha espaço à disposição dos membros da Comissão Paulista de Folclore e dos freqüentadores dos eventos que promovia. O primeiro deles foi sobre os cognomes das cidades paulistas; o segundo, em colaboração com o sociólogo norte-americano recentemente chegado ao Brasil, Frank Goldman, foi sobre o costume do "footing", observado em várias cidades paulistas, com o peneiramento sócio-econômico dos participantes que implicava.

Em 1961, publicou dois artigos sobre a situação sócio-econômica dos trabalhadores brasileiros: "Situação econômico-social da classe trabalhadora no Brasil", na Revista de Estudos Sócio-Econômicos, mês de setembro, e "Padrão de vida da população brasileira", na mesma revista, mês de novembro.

Em 1968, publicou o livro O sindicato no Brasil. Seu papel no Desenvolvimento Econômico (São Paulo: Difusão Européia do Livro), com 2a edição em 1979 (São Paulo: Símbolo).

Em 1970, publicou o artigo "Ecologia urbana de Lisboa no século XVI" (AnáliseSocial , vol. 8, n2 29).

Em 1971, dirigiu e publicou, em edição mimeografada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, em três volumes, A pesquisa científica e tecnológica no Estado de São Paulo , resultado de um "survey" financiado pela FAPESP.

Em 1976, saiu seu artigo "Movimento sindical y situación de la clase obrera en el Brasil" ( Nueva Sociedad, n2 26).

Em 1978, publicou, como organizador e autor da "introdução", Durkheim (São Paulo: Ática, Coleção "Grandes Cientistas Sociais", dirigida por Florestan Fernandes); e, em 1984, na mesma Coleção, Pareto.

A relação de suas publicações mostra que seus temas prediletos eram o movimento sindical e as condições de vida da massa trabalhadora.

Acima de tudo, Albertino foi um homem modesto, dedicado aos seus deveres e sempre preocupado e disposto a contribuir pelo advento de um mundo social mais justo e mais fraterno. Com o seu inesperado desaparecimento e de Ada, cobrem-se de luto os que compartilhavam do mesmo ideal.

Recebido: Janeiro de 1993

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