SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número2Maria Antonia a interrogação sobre um lugar a partir da dorFederação, autoritarismo e democratização índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.8 no.2 São Paulo jul./dez. 1996

https://doi.org/10.1590/ts.v8i2.86293 

ARTIGOS

Linchamento o lado sombrio da mente conservadora

Lynching, the dark side of the conservative mind

JOSÉ DE SOUZA MARTINS1 

1Professor do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP


RESUMO

Os numerosos casos de linchamento no Brasil, nos últimos 20 anos, sugerem que as mudanças sociais estão ocorrendo em direção oposta à das orientações cognitivas adotadas pelos cientistas sociais. Os linchamentos indicam que a cultura popular, nas circunstâncias do desenvolvimento e da modernização excludentes, nem sempre é e nem está necessariamente voltada para a a afirmação de tradições que dignificam o homem e afirmam sua emancipação e sua liberdade. Eles revelam sem dúvida uma mentalidade de compromisso com o primado do social e dos direitos da sociedade em relação ao indivíduo. Mas, revelam-no em sua dimensão mais opressiva e punitiva, assumindo formas violentas de exclusão e desumanização ritual de suas vítimas.

Palavras-Chave: linchamentos; vigilantismo; justiça popular; justiça antijudiciária

ABSTRACT

The various cases of lynching in Brazil in the last 20 years suggest that the social changes are occuring in a direction opposed to the one of social scientists' cognitive orientations. The lynchings point out that popular culture in the circumstances of excluding development and modernization is not always and necessarily concerned with affirming traditions which dignify the man and assert his emancipation and liberty. There is no doubt the lynchings reveal a mentality compromised with the primacy of the social and of the rights of society regarding the individual. But they reveal it in its most opressing and punitive dimension, incorporating violent forms of exclusion and of ritual dehumanization of its victims.

Key words: lynchings; vigilantism; popular justice; antijudicial justice

Texto completo disponível em PDF.

A pesquisa sobre Linchamentos no Brasil recebe um auxílio da FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e é apoiada pelo CNPQ - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico com uma bolsa de pesquisa.

Trabalho apresentado no Painel Extra-legal violence in Brazil: Popular Justice, Vigilantism and Lynching, 3ª Conferência do Brazilian Studies Association, Cambridge (Reino Unido), 7-10 de setembro de 1996.

1Para uma visão de conjunto dos linchamentos no Brasil, cf. José de Souza Martins (1989, p. 21-27).

3Com a devida cautela, que de fato se deve ter no uso dessa concepção, Benevides fala em "linchamentos comunitários" (cf. Benevides, 1982, p. 99).

4Na congérie de conflitividades que marcou o período mais repressivo da ditadura, nos anos 70, era compreensível a dificuldade para distinguir o lugar social e histórico (e os alvos) das diferentes formas de ação coletiva da população, especialmente da população urbana. É o que, no meu modo de ver, explica a hipótese de trabalho de alguns estudos sobre movimentos sociais, aliás bem feitos e sugestivos, estudos esses orientados para a busca das referências estruturais e de classe das explosões urbanas. Cf., por exemplo, José Álvaro Moisés e Verena Matinez-Alier (1977, p. 13-63); Edison Nunes (1982, p. 93) e José Álvaro Moisés (1982, p. 51-52).

5A dependência dos estudiosos do tema em relação ao noticiário dos jornais, nos Estados Unidos, tem motivado estudos sobre a confiabilidade e a abrangência dessa fonte de informação. Infelizmente, apesar da importância documental crescente do noticiário jornalístico nos estudos sociológicos no Brasil, ainda não dispomos de avaliações do mesmo tipo. Esses estudos são úteis sobretudo para determinar as limitações e deformações do dado jornalístico sobre linchamentos. Cf. Warren Breed (1958, p. 291- 298); David Snyder e William R. Kelly (1977, p. 105-123); Maurine Beasley (1982, p. 86- 91) e Jill Goetz (1987, p. 60).

6Os dados mostram que os linchamentos se enquadram no que Foucault designa como ato de justiça popular profundamente antijudiciário. Cf. Foucault (1982, p. 43).

7Cerca de 90,0% das vítimas de tentativas de linchamento foram salvas, em grande número de casos com ferimentos. As polícias militares e civis foram responsáveis por 76,7% dos salvamentos.

8Os cálculos foram feitos sobre um total de 677 linchamentos e tentativas de linchamento e 952 vítimas, entre mortos, feridos e evadidos.

9Canetti destaca que é apenas na multidão que o homem se livra do medo de ser tocado (cf. Canetti (1973, p. 16). Essa é uma característica de situações familísticas e comunitárias.

10O dever, o encargo e a responsabilidade da vingança permanecem muito fortes em algumas regiões, sobretudo rurais, como observou Andrade, no sertão do Maranhão entre crianças filhas de pais assassinados, por isso mesmo, também elas sob risco de morte (cf. Maristela Andrade, 1991, p. 37-50).

11Rudé, um especialista em história das multidões, chama a atenção para o fato de que "formas passadas ou 'arcaicas' podem estender- se até o presente", pois, sobretudo nos períodos de transição, esses arcaismos tendem a se constituir numa solução transitória para as demandas sociais, não se confundindo com formas de ação coletiva do passado nem com as modernas formas de ação coletiva (cf. Rudé, 1991, p. 3-5).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Maristela. (1991) Violência contra crianças camponesas na Amazônia. In: MARTINS, José de Souza (coord.). O massacre dos inocentes (a criança sem infância no Brasil). São Paulo, Editora Hucitec. [ Links ]

BEASLEY, Maurine. (1982) The muckrakers and lynching: a case study in racism. Journalism History, 9 (3-4): 86-91, autumn-winter. [ Links ]

BENEVIDES, Maria Victoria. (1982) Linchamentos: violência e 'justiça' popular. In: DA MATTA, Roberto et alii. Violência brasileira. São Paulo, Brasiliense. [ Links ]

BLUMER, Herbert. (1962) Comportamento coletivo. In: LEE, Alfred McClung (ed.). Princípios de sociologia. Trad. Francisco M. D. Leão et alii. São Paulo, Editora Herder. [ Links ]

BOXER, C. R. (1969) A idade de ouro do Brasil. Trad. Nair Lacerda, 2ª edição. São Paulo, Companhia Editora Nacional. [ Links ]

BREED, Warren. (1958) Comparative newspaper handling of the Emmett Till case. Journalism Quarterly, Urbana, 35: 291-298. [ Links ]

BROWN, Richard Maxwell. (s.d.) The American vigilant tradition. In: GRAHAM, Hugh Davis & GURR, Ted Robert (eds.). The history of violence in america. New York, Frederick A. Praeger Publishers. [ Links ]

CANETTI, Elias. (1973) Crowds and power. Trad. Carol Stewart. Harmondsworth, Penguin Books. [ Links ]

Diário Popular. (1996) São Paulo, 1º de março. [ Links ]

FORACCHI, Marialice Mencarini. (1982) A participação social dos excluídos. São Paulo, Editora Hucitec. [ Links ]

FOUCAULT, Michel. (1982) Microfísica do poder. 3ª edição. Rio de Janeiro, Edições Graal Ltda. [ Links ]

GOETZ, Jill. (1987) Lost in the crowd. Psychology Today, 21, june. [ Links ]

HOLLON, W. Eugene. (1974) Frontier violence - another look. New York, Oxford University Press. [ Links ]

LE BON, Gustave. (1977) The crowd - a study of the popular mind. Harmondsworth, Penguin Books. [ Links ]

MARTINS, José de Souza. (1989) Linchamentos - a vida por um fio. Travessia, São Paulo, Centro de Estudos Migratórios, Ano II (4): 21-27, maio-agosto. [ Links ]

MOISÉS, José Álvaro & MARTINEZ-ALIER, Verena. (1977) A revolta dos suburbanos ou 'patrão, o trem atrasou'. In: MOISÉS, José Álvaro et alii. Contradições urbanas e movimentos sociais. Rio de Janeiro/São Paulo, Paz e Terra/Cedec - Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. [ Links ]

______. Protesto urbano e política: o quebra-quebra de 1947. In: MOISÉS, José Álvaro et alii. Cidade, Povo e Poder. Rio de Janeiro/São Paulo, Paz e Terra/Cedec - Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. [ Links ]

NUNES, Edison. (1982) Inventário dos quebra-quebras nos trens e ônibus em São Paulo e Rio de Janeiro, 1977-1981. In: MOISÉS, José Álvaro et alii. Cidade, povo e poder. Rio de Janeiro/São Paulo, Paz e Terra/ Cedec - Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. [ Links ]

O Dia. (1996) Rio de Janeiro, 1º de março. [ Links ]

RUDÉ, George. (1991) A multidão na história (estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra, 1730-1848). Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, Editora Campus [ Links ]

SEDERBERG, Peter C. (1978) The phenomenology of vigilantism in contemporary America: an interpretation. Terrorism, 1(3-4): 287-305. [ Links ]

SNYDER, David & KELLY, William R. (1977) Conflict intensity, media sensivity and the validity of newspaper data. American Sociological Review, 42(1):105-123, February. [ Links ]

VAINFAS, Ronaldo. (1995) A heresia dos índios. São Paulo, Companhia das Letras. [ Links ]

Recebido: Agosto de 1996

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.