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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.8 no.2 São Paulo July/Dec. 1996

https://doi.org/10.1590/ts.v8i2.86298 

ARTIGOS

As elites de cor e os estudos de relações raciais

The colour elites and the studies of race relations in Brazil

ANTONIO SÉRGIO ALFREDO GUIMARÃES1 

1Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia


RESUMO

A partir da segunda metade dos anos 30, com a visita de Herskorvitz, Franklin Frazier, Donald Pierson e Ruth Landes à Bahia, o Brasil se transforma numa espécie de laboratório de pesquisa sobre relações raciais harmoniosas. Tal condição será de certo modo reconhecida internacionalmente na década dos 50, quando a UNESCO patrocinou um ciclo de estudos sobre as relações raciais no Brasil. Os estudos realizados na Bahia, sob a coordenação, a orientação ou a influência de Thales de Azevedo se constituem hoje num acervo fundamental para as nossas ciências sociais. Nessa comunicação, reconstruo a evolução da análise de Thales de Azevedo sobre a situação racial na Bahia, partindo de seus primeiros estudos sobre o Povoamento da cidade de Salvador e seguindo-a até a sua crítica à "democracia racial" nos anos 70. Concentro-me, todavia, no seu núcleo empírico, que indiscutivelmente está em As elites de cor na Bahia, publicado em 1953.

Palavras-Chave: Thales de Azevedo; relações raciais; Bahia; As elites de cor

ABSTRACT

Inspired by the seminal studies of Melville Herskovitz, Franklin Frazier, Donald Pierson, and Ruth Landes in Bahia, Brazil has become in the postwar period a research laboratory for the study of harmonious race relations. This condition was internationally acknowledge when UNESCO sponsored a cycle of studies on race relations in Brazil in the 50s. The Bahian studies, made under the coordination or intelectual influence of Thales de Azevedo, became since then a hallmark for the social sciences in Brazil. In this paper I reconstruct the theoretical analysis of Azevedo on the Bahian race situation from his early study on the Povoamento da Cidade de Salvador until his critique of racial democracy in the 70s. I concentrate, however, on his main empirical work, The colour elites in Bahia of 1953.

Key words: Thales de Azevedo; race relations; Bahia; The colour elites

Texto completo disponível em PDF.

Comunicação apresentada à XX Reunião Anual da Associação Brasileira de Antropologia, Salvador, 14-19 de abril de 1996.

Notas

1O primeiro destes estudos foi Race and class in rural Brasil (Paris, 1952), organizado por Charles Wagley, trazendo importantes ensaios sobre a Bahia assinados por Marvin Harris, W.H. Hutchinson e Ben Zimermann. Para um breve histórico dos estudos patrocinados pela UNESCO no Brasil, ver Maria D. Azevedo Brandão (1966).

2Na edição francesa, de 1953, Thales esclarece que Salvador foi escolhida por ser uma cidade "qui depuis longtemps est citée comme un modèle d'harmonie raciale" (p. 5). O trabalho de campo de Pierson é feito entre 1935 e 1937 e o de Ruth Landes entre 1938 e 1939. Ver Donald Pierson (1942); Franklin E. Frazier (1942a e 1942b); M. J. Herskovits (1942 e 1943); Ruth Landes (1947).

3Diz Maria Brandão, "Nessa seqüência, observam-se dois momentos de maior densidade de produção, além do ciclo inicial de 1951/53. São os períodos de 1956/57 e 1961/62. A partir daí, Thales se ocupa com uma grande variedade de temas e um novo grande ciclo de pesquisas, nascido em 1952 – sobre catolicismo popular, que derivaria em estudos sobre Estado/Igreja e até mesmo sobre ideologia civil – além da elaboração de uma monografia de história econômica e da retomada do tema da imigração italiana; discute intermitentemente o tema das relações inter-étnicas, publicando afinal, em 1975, Democracia racial, uma coletânea de artigos seus, cujo sub-título – Ideologia e realidade revela sua posição crítica às motivações originais do ciclo da UNESCO".

4"Mas Thales evolui para a ênfase no peso do preconceito e da discriminação raciais em si, a partir de vários artigos – sobretudo Classes sociais e grupos de prestígio, publicado em 1956, mas na verdade esboçado, juntamente com Índios, brancos e pretos no Brasil colonial; as relações inter-raciais na Cidade da Bahia, publicado em 1953, como parte de Les elites" (Brandão, 1996).

5"Na Bahia, os contatos mercantis com a Inglaterra e até a residência dalgumas famílias de negociantes ingleses, as leituras francesas, as viagens a Portugal alimentavam o gosto da elegância, das boas festas dançantes, dos banquetes, das modas requintadas. Nos traços arquitetônicos e urbanísticos, na educação, na exterioridade religiosa, nos costumes e sentimentos, no privatismo, na vida sossegada e amena dos brancos, na própria liberdade despreocupada e ruidosa dos negros e sobretudo dos mulatos, a Bahia era a mais típica cidade portuguesa do Brasil, caráter que firmara desde os seiscentos e que em pleno sec. XIX impressionaria os viajantes europeus que a visitavam" (Azevedo, 1969, p. 219).

6

"A opportunidade é cousa que não se deve perder: dahi, tendo se extraviado os números deste mez da Gazeta de Noticias, anteriores a 3, para não perder o momento psychologico damos hoje mesmo a 3a. das cartas que sob o titulo acima aquella gazeta está publicando editorialmente.

Eil-a: III

Ao Sr. Dr. Manoel Victorino

Ora, aqui estou eu, sr. doutor! Acabou o estado de sitio e acabou tambem o manifesto de V.S. – graças a Deus! já podemos conversar em liberdade. V.S. não pode imaginar qual foi a anciedade deste creoulo bahiano (tão bahiano quanto V.S.) durante todo o tempo da suspensão das garantias!... foi um supplício!... foi um horror!

E estando V.S. sem garantias, estava sem garantias a Bahia que o meu chefe Dantas dizia ser a alma mater do Brasil. Também o meu chefe Deodoro quando falava da Bahia dizia: "mulata velha"... E veja V.S. a vasta intuição philosófica que esta phrase revela... mulata velha!... ninguem quer ser mulato no Brasil, mas, enfim, todo mundo gosta daquella formosa avó, que é a Bahia – veneranda e serena mulata velha" (Correio de Notícias, 9/3/1898, p. 1). Este trecho me foi cedido por Jefferson Bacelar, a quem agradeço.

8Dirá Thales em Índios, brancos e pretos no Brasil colonial: "A mestiçagem foi, por sua vez, o mais vigoroso fator de democratizaçào social no Brasil, fornecendo, com os mestiços, os primeiros elementos de reação contra os Senhores de Engenho". (p. 95); para acrescentar em seguida: "... dois fatores agiam desde os primeiros dias da colonização atenuando as linhas que separavam como classes as raças que entraram na formação do povo brasileiro. Um desses fatores foi a religião que, pelo batismo tornava iguais, ao menos idealmente, os 'bárbaros' da terra e os pagãos africanos aos colonizadores europeus. [...] O outro fator, imediatamente desencadeado pelo próxima convivência das três raças, foi a mestiçagem; esta, muito cedo, começou a quebrar as arestas do regime social e a abrir o caminho à democratização racial" (Azevedo, 1966b, p. 97).

9"Já nossos avós diziam que há crioulas de 'barriga limpa'. Seus filhos, sendo também filhos de homem mais claro, puxam ao pai. Talvez a Bahia seja uma cidade com muitas pretas de barriga limpa. Todos notam que marchamos para uma população totalmente mestiça, mas com aparência de branca"(Valadares, 1951, p. 91). Outro intelectual local, Nestor Duarte, é citado em Índios, brancos e pretos no Brasil colonial (Azevedo, 1966b, p. 94), dizendo que a Bahia: "apesar das suas características culturais negras, é a cidade mais européia do Brasil".

10"Uma alta autoridade colonial acreditava que 'o demasiado favor que têm conseguido' na Corte portuguesa os homens pardos da Bahia, obtendo honrarias e proventos oficiais, muito contribuía para 'aumentar mais a vaidade e presunção que se constitui o seu caráter, fazê-los mais atrevidos'" (Azevedo, 1966b, p. 101).

11Ver a esse respeito Sociologia, X(2-3), 1948, onde Donald Pierson, Emílio Willems e Florestan Fernandes, discutem o conceito de classes sociais.

12"O que é realmente importante na análise é o conceito bio-social sintético de 'cor'. Se cedêssemos, sem maior exame da questão, à idéia de persistência de um prejuízo de raça propriamente dito, seríamos levados inevitavelmente a admitir que o Brasil só difere de outros países em grau de intolerância, não em natureza. A única distinção verdadeira estaria no modo de conceituar 'raça" (Azevedo, 1966c, p. 62).

13Sobre o clima intelectual que predominou na Faculdade de Medicina da Bahia até a segunda década desse século, ver, entre outros, Lilia Schwarcz (1993, p. 202-217).

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Recebido: Agosto de 1996

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