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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.6 São Paulo  2010

https://doi.org/10.1590/S0103-21002010000600014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Uso da Classificação Internacional para as Práticas de Enfermagem na assistência a mulheres mastectomizadas*

 

Uso de la Clasificación Internacional para las Prácticas de Enfermería en el cuidado a mujeres con mastectomía

 

 

Cândida Caniçali PrimoI; Franciéle Marabotti Costa LeiteI; Maria Helena Costa AmorimII; Raquel Marchesini SipioniIII; Shayane Helmer dos SantosIII

IMestre em Saúde Coletiva. Professora da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES - Vitória (ES), Brasil
IIDoutora em Enfermagem. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem e do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES - Vitória (ES), Brasil
IIIEnfermeira, graduada na Universidade Federal do Espírito Santo - UFES Vitória (ES), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Caracterizar o perfil de mulheres submetidas à mastectomia participantes de um Programa de Reabilitação; identificar os diagnósticos de enfermagem mais comuns e elaborar as intervenções para cada diagnóstico, utilizando a Classificação Internacional para as Práticas de Enfermagem - CIPE/versão1.0.
MÉTODOS: Estudo descritivo realizado em hospital de referência para Oncologia em Vitória - ES. A amostra abrangeu 239 prontuários sorteados aleatoriamente e os dados, coletados em maio de 2008, focaram os registros das consultas de enfermagem às mulheres mastectomizadas.
RESULTADOS: Dentre as 239 participantes, 64,8% tinham entre 40 e 59 anos, 55%, eram casadas, 48,2% cursaram o ensino fundamental incompleto, 60,7% eram da região metropolitana do Estado do ES e 34,3% exerciam atividades do lar. Os diagnósticos registrados não possuíam relação exclusiva com o câncer de mama e podem ser verificados em clientes com outras alterações de saúde.
CONCLUSÃO: A CIPE utiliza métodos práticos para elaboração do diagnóstico e seleção das intervenções que facilitam a sistematização da assistência de enfermagem.

Descritores: Diagnóstico de enfermagem; Neoplasias mamárias; Processos de enfermagem; Mastectomia


RESUMEN

OBJETIVO: Caracterizar el perfil de las mujeres sometidas a mastectomía que participan de un programa de rehabilitación, con la finalidad de identificar los diagnósticos de enfermería más comunes y elaborar intervenciones para cada diagnóstico, utilizando la Clasificación Internacional para la Práctica de Enfermería (CIPE), versión1.0.
MÉTODOS: Se trata de un estudio descriptivo realizado en un hospital de referencia de Oncología en la ciudad de Vitoria, ES. La muestra consistió de 239 expedientes seleccionados al azar y los datos fueron recolectados en mayo de 2008, el estudio se concentró en los registros de consultas de enfermería para mujeres con mastectomía.
RESULTADOS: Entre las 239 participantes, 64.8% tenían entre 40 y 59 años, 55% estaban casadas, 48,2% terminaron la escuela primaria completa, 60,7% eran de la región metropolitana del estado de ES y 34,3 % ejercían las tareas del hogar. Los diagnósticos registrados no tenían relación exclusiva con el cáncer de mama y pueden ser verificados en clientes con otras alteraciones de salud.
CONCLUSIÓN: La CIPE utiliza métodos prácticos para hacer el diagnóstico y la selección de las intervenciones que facilitan la sistematización de los cuidados de enfermería.

Descriptores: Diagnóstico de enfermería; Neoplasias de la mama; Procesos de enfermería; Mastectomía


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, o câncer de mama é a neoplasia com maior taxa de mortalidade entre as mulheres, sobretudo em países desenvolvidos, embora sua incidência venha aumentando também nos países em desenvolvimento. Isso pode estar relacionado ao modo de vida da atualidade, no qual encontramos um mundo cada vez mais competitivo, levando as pessoas a adquirirem hábitos que podem estar associados a vários fatores de risco, para o desenvolvimento de uma neoplasia, em especial, o câncer de mama(1).

Entre os tipos de câncer, o de mama é o mais comum, e a segunda causa de morte por câncer entre mulheres ocidentais, fato facilmente comprovado pelo elevado índice de novos casos que são identificados todos os anos. Segundo dados de 2008, por exemplo, foram registrados no Brasil cerca de 49.400 novos casos de câncer de mama, com um risco estimado de 51 casos para cada 100 mil mulheres; para o Espírito Santo, espera-se uma incidência de câncer de mama na ordem de 45,85 casos em 100 mil mulheres e, para a capital, Vitória, uma incidência maior de casos novos: 81,43 casos/ 100.000 mulheres(2).

Além disso, o câncer de mama é uma doença que envolve componentes genéticos, ambientais, pessoais, entre outros, e atinge as mulheres independente da classe social, cor, estado civil, religião, entre outros fatores(1). Fato que nos leva a afirmar a necessidade de um atendimento diferenciado pelos profissionais de enfermagem.

A enfermagem é uma profissão cujo objetivo principal é o cuidar, ou seja, prestar uma assistência de qualidade ao indivíduo que está passando por um processo de doença, de forma a garantir que este atravesse o processo da melhor maneira possível(3). Como se sabe, a mulher que passa pelo câncer de mama, possui várias de suas necessidades humanas básicas alteradas e cabe ao enfermeiro identificá-las e ajudá-la a mudar esse quadro.

Para prestar assistência adequada, é preciso que esse profissional utilize seu conhecimento teórico e o associe à prática. Isso pressupõe o conhecimento das teorias de enfermagem, para utilizar o modelo teórico mais adequado para implementação do processo de enfermagem àquele indivíduo(4).

Existem diversas maneiras de trabalhar o processo de enfermagem. Uma delas, que é muito promissora, é trabalhar os diagnósticos e intervenções de enfermagem (etapas do processo de enfermagem), utilizando-se a Classificação Internacional para as Práticas de Enfermagem (CIPE®), criada pelo Conselho Internacional de Enfermeiros (CIE), em 1989, para que a enfermagem consiga uniformizar seus diagnósticos em nível mundial(5).

Em 1996, foi criada a versão alfa, afirmando-se que a CIPE® forneceria uma estrutura, na qual o vocabulário e as classificações existentes pudessem ser mapeados para comparações dos dados de enfermagem coletados por meio de outros sistemas de classificação. No entanto, ao longo dos anos, com a utilização desse sistema de classificação, percebeu-se que precisava passar por reformulações, para que atendesse aos objetivos citados anteriormente. Dessa forma, em 2005, foi elaborada a mais nova versão da CIPE®, a Versão 1.0, que foi precedida pelas versões Beta (1999) e Beta 2 (2001)(6).

A versão Beta publicada em 1999, forneceu uma oportunidade para expandir a participação no contínuo desenvolvimento da CIPE®. Mas, ao trabalharem com essa versão, enfermeiros recomendaram várias alterações, sobretudo quanto à gramática, correções ou alterações de códigos e correções nas definições, gerando a versão Beta 2(7).

A versão Beta 2 contém um enfoque multiaxial que permite a combinação dos conceitos dos distintos eixos, formulando maior detalhamento e solidez na classificação dos fenômenos, nas ações e resultados de enfermagem. Mas, essa versão trabalhava com um total de 16 eixos em sua estrutura, sendo oito eixos para estrutura da classificação dos fenômenos de enfermagem e oito eixos para estrutura da classificação das ações de enfermagem, o que tornava a elaboração dos diagnósticos e das intervenções de enfermagem um processo longo e trabalhoso(6).

A versão 1.0 veio para simplificar a utilização dessa classificação diagnóstica, pois o modelo que, na versão Beta 2, era de oito eixos passou a ser de sete eixos sendo utilizados tanto para a elaboração dos diagnósticos como para as ações de enfermagem. Nessa versão, os eixos são: foco (área de atenção, que é relevante para a enfermagem), julgamento (opinião clínica ou determinação relacionada ao foco da prática de enfermagem), meios (maneira ou método de desempenhar uma intervenção), ação (processo intencional aplicado a um cliente), tempo (momento, período, instante, intervalo ou duração de uma ocorrência), localização (orientação anatômica e espacial de um diagnóstico ou intervenções) e cliente (sujeito ao qual o diagnóstico se refere e que é o recipiente de uma intervenção)(7).

O propósito do processo de enfermagem, é identificar as necessidades de assistência à saúde do paciente, estabelecendo um plano de tratamento e complementando as intervenções de enfermagem que satisfaçam as necessidades humanas básicas do paciente/cliente(3).

Tendo em vista que a mulher mastectomizada passa por um processo de doença por um tempo muito longo, e várias de suas necessidades humanas básicas estão alteradas, é preciso que haja uma assistência de enfermagem efetiva de forma a auxiliá-la a passar por esse processo com o menor número de danos.

Partindo dessas considerações, este estudo teve como objetivos caracterizar o perfil das mulheres mastectomizadas participantes do Programa de Reabilitação para Mulheres Mastectomizadas (PREMMA), segundo as variáveis: idade, grau de instrução, estado civil, profissão e localidade de moradia; identificar os diagnósticos de enfermagem mais frequentes e elaborar as respectivas intervenções, nas mulheres que realizaram a consulta de enfermagem, utilizando a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE®) - versão 1.0.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo retrospectivo, descritivo na abordagem quantitativa. O estudo foi realizado no PREMMA, localizado no ambulatório do Hospital Santa Rita de Cássia, situado no Município de Vitória - ES.

Para tanto, a amostra foi selecionada de forma aleatória, por meio de sorteio, 239 prontuários de um total de 625 que continham o instrumento de coleta de dados utilizado na consulta de enfermagem, levando-se em consideração a precisão de 5% e o nível de confiança de 95%.

A coleta de dados foi realizada no mês de maio de 2008. Ao examinar os prontuários, foram identificados os termos atribuídos aos fenômenos relativos à prática de enfermagem e elaborados os diagnósticos de enfermagem, utilizando a CIPE® - versão 1.0. Para a construção dos diagnósticos de enfermagem na CIPE®, foi considerada a exata concordância dos termos em linguagem natural (única palavra na lista de termos locais com similaridade exata à presente na versão 1.0), além das concordâncias parciais (presença de sinônimos e termos com conceitos relacionados).

Para compor as afirmativas dos diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem, o CIE recomenda que se utilize o Modelo de Sete Eixos da CIPE® versão 1.0. Para a elaboração do diagnóstico de enfermagem pela CIPE® é obrigatória a utilização de um termo do eixo foco e um termo do eixo julgamento, podendo ser inclusos termos adicionais, conforme a necessidade dos eixos foco/ julgamento e de outros eixos. Para a composição das intervenções de enfermagem, por meio da CIPE® deve ser utilizado obrigatoriamente um termo do eixo ação e, pelo menos, um termo-alvo, que pode ser um termo de qualquer eixo, exceto do eixo julgamento(7). Ao final, foi realizada uma análise descritiva, dos dados das tabelas de frequência.

O estudo foi aprovado pela direção do Hospital Santa Rita de Cássia e pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, sob o número 054/08.

 

RESULTADOS

Dos 239 prontuários analisados, observou-se que 55,2% das pacientes eram casadas, 18% solteiras, 16,3% viúvas, 6,3% separadas e 4,2% possuiam outro tipo de relacionamento.

A idade das mulheres variou entre 27 e 83 anos, a média de idade foi de 52 anos. Notou-se que 64,8% das mulheres encontravam-se na faixa etária entre 40 e 59 anos, conforme mostram os dados apresentados na Tabela 1.

 

 

Com relação ao grau de instrução, 48,2% das mulheres tinham ensino fundamental incompleto, 17,2% concluíram o ensino médio, 13% eram não letradas, 12,6% concluíram o ensino fundamental, 4,25% não concluíram o ensino médio, 2,5% terminaram o ensino superior e 2,1% não concluíram esse nível de ensino.

Observou-se que, 60,7% das mulheres da amostra que frequentavam o Programa eram provenientes da Região Metropolitana do Espírito Santo, 6,3% do Polo de Linhares e 6,3% de outros Estados, como Minas Gerais, Bahia e Rondônia. As demais eram de outras microrregiões do Estado. Para a divisão das localidades, foi utilizada a divisão do Estado por microrregiões realizada pela Secretaria de Economia e Planejamento do Espírito Santo(8).

Quanto à profissão, 34,3% eram do lar, 12,1% empregadas domésticas, 10,6% lavradoras, 7,9% auxiliares de serviços gerais, 7,5% aposentadas, 4,6% costureiras, 3,8% autônomas e 19,2% tinham diversas outras profissões.

A partir dos termos atribuídos aos fenômenos da prática de enfermagem levantados nos prontuários, foram elaborados 20 diagnósticos de enfermagem, os que apresentaram uma frequência maior que 50% foram: falta de padrão de exercícios (74,5%), autocuidado diminuído algumas vezes (69,6%), bem-estar psicológico prejudicado (69,6%), conhecimento escolar diminuído (60,7%), padrão alimentar prejudicado (59%) e ingestão de líquidos diminuída (55,2%), conforme os dados da Tabela 2.

 

 

Para os diagnósticos de enfermagem com maior frequência - percentual acima de 50% - foram elaboradas algumas intervenções de enfermagem, segundo o Modelo de Sete Eixos da CIPE® versão 1.0 e utilizou-se como referencial o material instrucional elaborado pela equipe interdisciplinar do PREMMA(9) (Quadro 1).

 

DISCUSSÃO

Quanto ao estado civil, verificou-se que mais da metade das mulheres (55,2%) eram casadas, dado que concorda com outro estudo realizado no PREMMA, em 2004, que buscou identificar o perfil das mulheres que participavam do programa de reabilitação(10).

Um dos fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de mama é idade superior a 35 anos, visto ser uma doença rara em mulheres com idade inferior. Sua incidência predomina na faixa etária entre 40 e 60 anos(2). Tais dados estão em consonância com o presente estudo, uma vez que 64,8% das mulheres encontravam-se na faixa etária entre 40 e 59 anos de idade. Além disso, a pesquisa sobre câncer de mama: fatores de risco, prognósticos e preditivos revelou que no Brasil o acometimento mediano do desenvolvimento de câncer está na faixa de 52 anos de idade(1). O dado é similar ao encontrado nesta pesquisa, em que foi notado que a média de idade verificada na amostra também foi de 52 anos.

O grau de instrução predominante na amostra foi o ensino fundamental incompleto (48,2%), o que revela níveis educacionais baixos. Este dado está em consonância com o estudo realizado, em 2004, no PREMMA que chegou a resultados similares(10).

Com relação à procedência dessas mulheres, observou-se que a maior parte delas (60,7%) relatou residir na Região Metropolitana. Entretanto, percebeu-se que, nas anotações das consultas, muitas relatavam o endereço de onde estavam hospedadas e não do local onde realmente residiam. Além disso, o instrumento de coleta de dados não possui campos para a diferenciação entre o local de residência e o local de moradia atual. Portanto, os dados relacionados ao local de procedência podem não ser fidedignos.

A maioria das mulheres era do lar (34,3%), seguida por domésticas (12,1%) e lavradoras (10,6%). Estes dados mostram que essa população é constituída por mulheres que têm seus afazeres relacionados sobretudo a cuidados com a família. Como grande parte das mulheres com situação de estresse possuía problemas familiares e financeiros, julgamos que as profissões citadas anteriormente são fatores que podem contribuir para o aumento do nível de estresse dessas mulheres.

Quanto à CIPE®, embora possua uma proposta para unificar as classificações de enfermagem existentes, promovendo uma linguagem em enfermagem que possa ser universalizada e, assim, leve à obtenção de resultados que evidenciem e apoiem a prática clínica da enfermagem, é uma classificação relativamente nova, quando comparada a outras classificações diagnósticas, como o NANDA e, além disso, poucos profissionais de enfermagem a conhecem e sabem utilizá-la corretamente em nosso País. Por tal motivo, foram desenvolvidos poucos estudos, utilizando-a, não sendo encontradas pesquisas sobre a mulher com câncer de mama dentro da área da saúde da mulher(11-12).

Para considerar a importância da CIPE® no desenvolvimento de novos modelos assistenciais, citamos quatro estudos. O primeiro realizado em um complexo hospitalar da rede pública de saúde, na cidade de João Pessoa - PB, na assistência a indivíduos com hanseníase em regime de internação e/ou ambulatorial, no qual foi utilizado a CIPE®- versão Beta 2, para a identificação dos diagnósticos de enfermagem para esses pacientes(13). Outro estudo, realizado em Campo Grande-MS, foi desenvolvido em dois centros regionais de saúde que verificou as intervenções de enfermagem, para os diagnósticos mais frequentes em ginecologia com base na CIPE®- versão Beta 2(11). Ainda outro trabalho buscou a identificação e a classificação das ações de enfermagem com gestantes portadoras de HIV, utilizando a versão Beta 2 em São Paulo - SP(12). O quarto estudo realizado buscou os termos de linguagem de enfermagem presentes em registros de uma UTI neonatal no Estado da Paraíba e comparou-os aos termos presentes no modelo CIPE® - versão 1.0(5).

Fazendo o uso da CIPE®, a análise dos dados obtidos revelou que 74,5% das mulheres apresentavam o diagnóstico falta de padrão de exercício, fato esse que pode ter contribuído para o desenvolvimento do câncer de mama. Como se sabe, existem mecanismos pelos quais a atividade física torna-se um fator protetor contra o câncer. Dentre esses mecanismos, pode-se destacar que a atividade física pode inibir a oxidação do DNA, impossibilitando o processo de iniciação da neoplasia, ajuda na inibição da propagação das neoplasias pela estimulação e função das células NK (Natural Killer) e diminui a secreção adicional de insulina, que é um potencial promotor de neoplasia. Além disso, essa prática tende a diminuir os níveis de gordura corporal, já que a obesidade reduz o número de carreadores proteicos responsáveis pela fixação e pelo transporte de estradiol livre, que contribui para o desenvolvimento de tumores mamários(14).

Cerca de 69,6% das pacientes apresentaram o diagnóstico de autocuidado diminuído algumas vezes. Esse diagnóstico relaciona-se, sobretudo, com a realização de autoexame das mamas (AEM) e do exame Papanicolaou. A realização de tais rastreamentos é fundamental para a prevenção, respectivamente, do câncer de mama e do câncer de colo uterino.

Pela realização do AEM mensal, a mulher passa a conhecer melhor sua anatomia e pode identificar mais precocemente alterações palpáveis em seu tecido mamário(4). Além disso, as mulheres que não praticam o AEM, geralmente apresentam tumores significativamente maiores em comparação com as que o praticam mensalmente ou menos que uma vez por mês, existindo, portanto, uma relação significativa entre o tumor primário e a presença de linfonodos axilares metastásicos e a menor ou nenhuma frequência de realização do AEM. Em relação ao exame Papanicolaou, sua realização periódica oferece uma oportunidade excelente para a realização do exame clínico das mamas pelo profissional de saúde, além de rastrear o câncer de colo uterino(15).

Quanto ao terceiro diagnóstico mais frequente, de bem-estar psicológico prejudicado, esteve presente em 69,6% das pacientes. As situações estressoras que afetam o estado psicológico de um indivíduo, são capazes de modificar sua resposta imunológica, interferindo de modo significativo no mecanismo de supressão tumoral(4).

Além disso, pesquisas confirmam que o sistema imune está intimamente ligado aos sistemas neuroendócrino e autônomo, e as respostas frente às situações estressoras para o organismo podem interagir para iniciar, enfraquecer, estimular ou terminar uma resposta imune e, ainda, que os problemas da vida cotidiana possuem maior impacto sobre a saúde do que os eventos mais importantes, pois apresentam um efeito cumulativo com o passar do tempo(16-17). Tal fenômeno foi constatado neste estudo, pois as situações de estresse relatadas pelas pacientes relacionavam-se sobretudo às dificuldades enfrentadas no dia a dia, como problemas familiares (alcoolismo, uso de drogas e brigas familiares) e financeiros.

Identificamos, que 60,7% das mulheres apresentaram conhecimento escolar diminuído (ensino fundamental incompleto e completo). Esses níveis de escolaridade podem ser atribuídos a dois fatos: a baixa condição financeira, e falta de acesso à educação, pois grande parte dessas mulheres reside ou residia quando crianças em áreas rurais onde o ensino escolar era muito deficiente.

Os fatos podem implicar diretamente na qualidade do autocuidado dessas mulheres, pois o déficit de conhecimento e a aprendizagem tornam-se fatores impeditivos para a correta realização do AEM, bem como limitam a procura pelo serviço de saúde diante de alguma alteração. A afirmação está de acordo com o estudo realizado que evidenciou que o grau de escolaridade influencia na prática do AEM e que o grupo de mulheres com melhor grau de instrução e que conhece o AEM pratica-o de forma mais eficiente(18).

O diagnóstico-padrão alimentar prejudicado esteve presente em 59% dos prontuários, demonstrando que a maioria das pacientes não possuía uma alimentação equilibrada, revelando ingerir grande quantidade de alimentos ricos em gordura. O estrogênio é armazenado no tecido adiposo, e os lipídios ingeridos por meio da alimentação elevam a prolactina hipofisária, aumentando a produção de estrogênio. Como o desenvolvimento de alguns cânceres de mama está relacionado a altas taxas de estrógeno, o consumo de uma dieta rica em gordura torna-se fator de risco para o desenvolvimento desse tipo de câncer(4).

O diagnóstico ingestão de líquidos diminuída esteve presente em 55,2% das mulheres que frequentavam o PREMMA. Por meio desse achado, constatou-se que mais da metade das pacientes ingeria menos de dois litros de líquido por dia. A água participa na excreção de metabólitos do organismo, dessa forma, com a ingestão de líquidos diminuída, a nutrição do indivíduo fica dificultada, além de haver a retenção de restos metabólicos. Como se sabe, grande parte das medicações ingeridas é excretada pela urina e, quando é ingerido líquido em quantidade insuficiente as toxinas que seriam excretadas, ficam por maior tempo retidas no organismo, expondo-o de maneira negativa às mesmas(19).

Por se tratar de um estudo retrospectivo baseado em dados de prontuários apresenta algumas limitações. Por exemplo, o instrumento de coleta de dados da consulta de enfermagem do PREMMA mostrou-se incompleto, visto que no mesmo faltava a investigação de itens que melhor caracterizassem as disfunções de saúde das pacientes, como dados sobre autoestima, dor e movimentação do membro homolateral à cirurgia, espaço para descrição do exame físico, entre outros.

Por ser ainda, utilizada por poucos centros de saúde no Brasil, e pelo fato de o PREMMA ser um programa, no qual participam alunos durante sua formação acadêmica e ser de reabilitação, referência no País, sugere-se que aliada à mudança do instrumento de consulta, seja utilizada a CIPE® para sistematizar a assistência de enfermagem prestada a essas pacientes.

 

CONCLUSÃO

No que se refere ao perfil das mulheres mastectomizadas, neste estudo observou-se, que a média de idade foi de 52 anos, a maior parte das mulheres era casada, com ensino fundamental incompleto, proveniente da região metropolitana do Espírito Santo e do lar.

Os diagnósticos mais frequentes foram: falta de padrão de exercícios (74,5%), autocuidado diminuído algumas vezes (69,6%), bem-estar psicológico prejudicado (69,6%), conhecimento escolar diminuído (60,7%), padrão alimentar prejudicado (59%) e ingestão de líquidos diminuída (55,2%). Os diagnósticos de enfermagem encontrados não possuem relação exclusiva com o câncer de mama, podendo ser encontrados em clientes com outras alterações de saúde.

A construção dos diagnósticos e intervenções de enfermagem utilizando a CIPE® foi uma atividade árdua, pois constatou-se a falta de domínio desse referencial e a dificuldade para construir os diagnósticos de enfermagem neste estudo visto que a CIPE® traz definições curtas e simples, porém, algumas vezes, não são muito claras, deixando margem para dúvidas e/ou diferentes interpretações no eixo foco. No eixo julgamento, também se encontrou dificuldade para compreender as definições, pois se mostravam, às vezes, pouco explicativas.

No entanto, cabe ressaltar que o processo de enfermagem é um instrumento essencial para a sistematização da assistência e deve ser sempre utilizado pelos enfermeiros. Por meio da CIPE®, o enfermeiro compartilha uma linguagem específica com os demais profissionais da equipe de saúde, promovendo sua autonomia ao planejar suas ações para o cuidado ao paciente. Portanto, esta prática contribui para o bom desenvolvimento do planejamento da assistência de enfermagem. A CIPE® utiliza métodos práticos para a elaboração do diagnóstico e das intervenções, facilitando a realização do processo de enfermagem e contempla aspectos que não são abordados por outras classificações diagnósticas existentes.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Cândida Caniçali Primo
R. João de Oliveira Soares, 241/701 - Jardim Camburi
Vitória - ES - Brasil - CEP. 29090-390
E-mail: candidaprimo@gmail.com

Artigo recebido em 04/06/2009 e aprovado em 02/08/2010

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Federal do Espírito Santo.

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