SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 issue1Evaluation of the content of Atenolol tablets divided with a knife and homemade machine cutterMeanings of hierarchies in hospital work in Brazilian public hospitals from empirical studies author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.24 no.1 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002011000100012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Pessoa com deficiência física e sensorial: percepção de alunos da graduação em enfermagem*

 

 

Cristiana Brasil de Almeida RebouçasI; Kariane Gomes CezarioII; Paula Marciana Pinheiro de OliveiraII; Lorita Marlena Freitag PagliucaIII

IPrograma de Doutorado do Departamento de Enfermagem, Universidade Federal do Ceará.- UFC, Fortaleza (CE), Brasil
IIPrograma de Doutorado do Departamento de Enfermagem, Universidade Federal do Ceará.- UFC, Fortaleza (CE), Brasil. Bolsista da Capes
IIIDepartamento de Enfermagem, Universidade Federal do Ceará.- UFC, Fortaleza (CE), Brasil. Pesquisadora do CNPq

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a percepção de acadêmicos de enfermagem antes e após a ministração da disciplina optativa - Pessoa com deficiência física e sensorial: abordagem e tendências na enfermagem.
MÉTODOS: Estudo exploratório, descritivo, com abordagem qualitativa, desenvolvido por meio de questionário aplicado em três períodos: 2007.2; 2008.2 e 2009.1. Participaram do estudo 96 alunos que descreveram suas percepções em relação à disciplina supracitada nesse instrumento de coleta de dados.
RESULTADOS: A idade desse grupo de alunos situou-se entre 17 e 37 anos e encontravam-se matriculados no 1º, 2º e 5º semestres letivos. As respostas foram agrupadas em cinco categorias: Comunicação e relacionamento com pessoas com deficiência; Relevância da disciplina; Crescimento proporcionado; Capacitação de profissionais, e Pontos positivos / negativos e sugestões.
CONCLUSÃO: Concluiu-se que a disciplina contribuiu na formação dos alunos ao capacitar futuros profissionais de enfermagem para o cuidado às pessoas com deficiência.

Descritores: Educação em enfermagem; Pessoas com deficiência; Enfermagem


 

 

INTRODUÇÃO

Pessoas com deficiência são aquelas com algum tipo de alteração nos segmentos motor, mental, sensorial e múltiplo. Na concepção da Organização Mundial de Saúde (OMS), a deficiência é uma perda ou anormalidade de estrutura do corpo ou função corporal fisiológica, incluindo as mentais(1). Segundo se estima, 24,6 milhões de pessoas, ou 14,5% da população total, apresentam algum tipo de deficiência, como dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou, ainda, deficiência física ou mental(2).

Atualmente, a prática da inclusão social é discutida em âmbito nacional e parte do princípio de que, para inserir todas as pessoas, a sociedade deve ser capaz de atender às demandas de todos seus membros. Neste sentido, também não pode admitir qualquer tipo de preconceito, discriminação, barreira social, cultural e pessoal. Cabe-lhe possibilitar o acesso aos serviços públicos, bens culturais e produtos decorrentes dos avanços social, político, econômico e tecnológico da sociedade(3-4).

Entretanto, conforme se percebe, embora a temática da inclusão esteja sendo ressaltada e o número de deficientes seja considerável, os serviços de saúde ainda não desempenham um papel satisfatório em relação à proposta da OMS que previa saúde para todos até o ano 2000. Em estudo sobre o mapeamento da acessibilidade da pessoa com deficiência física às instituições de saúde, se observou nas vias públicas que existe insegurança no caminho para as unidades básicas de saúde. Na própria instituição, as condições de acesso inviabilizam o trânsito das pessoas com deficiência física, como pessoas com cadeiras de roda, usuários de muletas e com mobilidade reduzida(5). Mas, esta dificuldade de acesso não está relacionada apenas à pessoa com deficiência motora, pois estende-se às pessoas com deficiência, em geral. Quase sempre o ambiente é inacessível, e os profissionais são despreparados. A situação influencia no atendimento a esta clientela e na melhoria da qualidade de vida.

Assim, urge que o sistema de saúde atue especificamente em determinados aspectos, como: fazer cumprir as normas que asseguram o acesso ao ambiente físico e a edificações, implantar instrumentos, utilizando o braille para auxiliar os cegos, além de contratar intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para facilitar a comunicação com pessoas com deficiência auditiva(6). Desse modo, com a capacitação dos próprios profissionais, o cliente poderá se sentir mais valorizado e confiante ao expor suas necessidades.

Dentro das diretrizes da Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência, a capacitação de recursos humanos em saúde para o cuidado a esta clientela é prioritária. Formar profissionais em saúde capacitados para atuar, desde a atenção básica, na Estratégia Saúde da Família, até o nível terciário de atendimento, incluindo-se aí aqueles que trabalham na reabilitação, é uma das estratégias principais desta política(3-4). Dentre estes trabalhadores, destaca-se o enfermeiro.

Por sua vez, este possui formação generalista que o capacita a atuar na promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde, tanto dos indivíduos, como da família e/ou comunidade. Além disso, em sua prática profissional, procura cumprir os princípios das políticas públicas de saúde, respeitando os valores e direitos humanos(7). Essa perspectiva corrobora exatamente com as demandas e aptidões necessárias aos profissionais de saúde que atuam com pessoas com deficiência, sejam físicas ou sensoriais.

No referente aos cuidados e assistência de enfermagem às pessoas com deficiência, enumeram-se atividades relacionadas ao autocuidado, tais como: higiene, nutrição, eliminação, atividades de vida diária associadas ao lar, cuidados à criança, dentre outras(8). Também é relevante destacar pesquisas em enfermagem cujo objeto de estudo aborda as características da comunicação entre pessoas com deficiência sensorial e enfermeiros, com vistas a aprimorar a prática assistencial, mediante a construção de modelos de comunicação verbal e não verbal(9-11).

Além disso, são diversas as possibilidades de atividades de educação e promoção da saúde junto com esta clientela, nas mais variadas temáticas. A literatura aponta o desenvolvimento de oficinas e tecnologias para a promoção da saúde relacionadas à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, uso de drogas psicoativas, câncer de mama, câncer de próstata, hipertensão arterial, promoção da saúde sexual e reprodutiva, prevenção de acidentes, dentre outras(12-14).

Com esta finalidade, uma proposta mais explícita de ensino sobre as habilidades de atuação dos enfermeiros com pessoas com deficiência, na graduação em enfermagem, pode fomentar a compreensão de que o processo de cuidado e interação com as pessoas com deficiência transcende as palavras e tem consequências diretas e profundas na eficácia do cuidado de enfermagem.

Diante desta realidade, justifica-se capacitar nos cursos de graduação em enfermagem os futuros enfermeiros para atuar de forma eficaz com pessoas com deficiências. O fato deve-se à importância decorrente das pesquisas sobre a relação profissional-paciente além das recomendações das novas Diretrizes Curriculares Nacionais, impondo-se como campo de conhecimento a ser contemplado nos projetos pedagógicos de formação de futuros profissionais de saúde(15).

O ensino destas habilidades deve ocorrer ao longo do curso de graduação e não se limitar à responsabilidade exclusiva de uma disciplina ou período. Diversas experiências práticas específicas devem ser inseridas no treinamento, e, ao mesmo tempo, destaca-se formalmente as situações interacionais havidas, os comportamentos dos elementos envolvidos e as consequências da interação para ambos. Outro aspecto essencial é a avaliação dos alunos quanto à metodologia adotada na disciplina, bem como as técnicas pedagógicas utilizadas para ministrar o conteúdo. Essa visão do corpo discente é extremamente útil para auxiliar e validar as propostas e objetivos da disciplina(16).

Desse modo, em atendimento à problemática já citada, foi implantada uma disciplina optativa para alunos de graduação em enfermagem, na qual se abordam aspectos do relacionamento do enfermeiro com o paciente com deficiência visando à capacitação dos futuros profissionais para atuar de forma holística e eficaz. Portanto, o objetivo deste estudo foi descrever a percepção de acadêmicos de enfermagem antes e após a ministração da disciplina optativa - Pessoa com deficiência física e sensorial: abordagem e tendências na enfermagem.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo exploratório, descritivo, com abordagem qualitativa, desenvolvido no Departamento de Enfermagem, especificamente no Laboratório de Comunicação em Saúde (LabCom_Saúde), da Universidade Federal do Ceará. A pesquisa exploratória investiga e desvenda as várias maneiras pelas quais um fenômeno se manifesta, assim como os processos a ele associados. Um estudo descritivo objetiva descrever e elucidar fenômenos relacionados com a profissão de enfermagem(17).

O LabCom_Saúde é um ambiente onde se realizam experimentos de comunicação nos diversos contextos do cuidado em saúde. Como ambiente específico, existem paredes especiais feitas de lã de vidro, concreto e gesso para isolá-lo completamente do ambiente externo e impedir que ruídos interfiram no andamento e nas gravações dos experimentos. Preenchidas com material isolante, as portas de madeira contribuem para a manutenção da acústica do local. Dispõe-se ainda de diversificada aparelhagem tecnológica com computadores de última geração, mesa de som e vídeo, câmeras filmadoras, televisões, multimídia e microfone. É dividido em cinco áreas: Antessala destinada a reuniões, espera e acomodação dos participantes, antes da atividade planejada; Sala de filmagem, espaço amplo onde situações fictícias e reais de comunicação podem ser realizadas; Aquário onde se localizam equipamentos, como computador, mesas de edição e controle das câmeras; banheiro; e copa.

A oferta da disciplina ocorreu em três períodos distintos, a saber: 2007.2; 2008.2 e 2009.1. Participaram da disciplina 96 alunos matriculados nos 1º, 2º e 5º semestres em virtude do dia de oferta da disciplina não coincidir com as disciplinas obrigatórias. Os dados foram obtidos por meio de questionários. No início da disciplina, solicitou-se aos alunos que descrevessem sua percepção sobre como se comunicavam e relacionavam-se com pessoas com deficiência, expectativas e motivação em relação à participação na disciplina. Ao término da disciplina, foram feitos os mesmos questionamentos, e os alunos descreveram individualmente sua percepção sobre a comunicação e seu relacionamento com as pessoas com deficiência física e sensorial, diante dos conteúdos e experiências proporcionadas. Neste momento, apresentaram sugestões para melhorar as relações pessoais entre profissionais da saúde e estas pessoas, além de abordarem pontos positivos e negativos observados na disciplina.

Organizaram-se categorias para melhor compreensão das respostas dos alunos no referente aos depoimentos pré-atividade, que resultaram duas categorias: Comunicação e relacionamento com pessoas com deficiência, e Relevância da disciplina diante das expectativas dos alunos. Nas avaliações pós-atividades, encontraram-se três categorias: Crescimento proporcionado pela disciplina; Capacitação de profissionais e Pontos positivos/negativos e Sugestões.

Para preservar o anonimato dos alunos, os depoimentos foram identificados por letras do alfabeto A a Z, seguidas do semestre que cursavam.

Como exigido, foram respeitados os aspectos éticos-legais e os sujeitos assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme a Resolução n.º 196/96 do Conselho Nacional de Saúde que regulam as pesquisas com seres humanos. Ressalta-se, ainda, que este trabalho está inserido no Projeto Acessibilidade, do Labcom_Saúde, com parecer deaprovação no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará (Protocolo n.º124/02).

 

RESULTADOS

Participaram da disciplina Pessoa com deficiência física e sensorial: abordagem e tendências na enfermagem 96 alunos com idade entre 17 e 37 anos. Destes, apenas quatro eram do sexo masculino.

Categoria 1: Comunicação e relacionamento com pessoas com deficiência

Entende-se a comunicação como um processo de compreensão e socialização de mensagens trocadas entre o emissor e o receptor de determinado conteúdo. Considera-se uma necessidade inerente e característica do ser humano e, no caso dos profissionais de enfermagem, serve de base no desenvolvimento da sistematização da assistência de enfermagem(18). Nas falas, evidencia-se esta categoria.

Nunca tive nenhum contato com deficientes físicos e sensoriais (A, S2).

Não sei direito como agir, para que a pessoa sinta-se bem. A comunicação, portanto, costuma ser bastante complicada e limitada (B, S2).

Por vezes, me sinto incapaz de atender algumas necessidades dessas pessoas (C, S2).

[...] ficaria temerosa e receosa ao lidar com deficientes físicos/sensoriais (D, S5).

Na verdade, não me comunico! (E, S5).

Chamaram atenção não só o conteúdo das falas, mas também o fato de parcela significativa dos alunos afirmar ter tido pouco ou nenhum contato com essa clientela durante toda a vida. Excetua-se o relato de uma acadêmica, cujos pais possuem deficiência auditiva e que desde a mais tenra idade desenvolveu a habilidade de se comunicar com eles.

Categoria 2: Relevância da disciplina diante das expectativas dos alunos

Outro ponto a sobressair nas respostas dos acadêmicos de enfermagem foi a valorização da iniciativa de implementação da referida atividade complementar. Como se percebe pelas falas, há todo um discurso de valorização da pessoa com deficiência, bem como a necessidade de buscar formação nesta área.

Faz-se necessário dentro do currículo universitário incluir uma disciplina [...], para que se tenha um conhecimento mínimo (E, S5).

Programas que beneficiem o deficiente no Sistema Único de Saúde (F, S5).

Uma maior abordagem desses temas dentro das disciplinas [curriculares] (G, S1).

Promover projetos de atualização (H, S1).

Dentre as expectativas encontradas, quanto ao início da atividade complementar, é consenso que um diferencial curricular, bem como o desejo de prestar uma assistência adequada às necessidades específicas da clientela com deficiência, são as principais motivações para se implementar esta formação.

Espero amadurecer muito e me tornar um profissional diferenciado (I, S2).

Que possamos compreender um pouco a dimensão do deficiente como pessoa, cidadão, paciente e usuário do sistema de saúde (J, S5).

[...] que possamos ter a oportunidade de conhecermos instituições que apoiam deficientes (K, S5).

Categoria 3: Crescimento proporcionado pela disciplina

Conforme as respostas descritas pelos alunos, a comunicação e o relacionamento com pessoas com deficiência física e sensorial, após a disciplina optativa, melhoraram e, com isso, existe segurança e certa habilidade. Alguns estudantes vivem diariamente com estas pessoas, mas tanto para estes como àqueles que não têm o convívio diário, a interação será de forma benéfica. Segundo os relatos, a disciplina, no geral, foi positiva, sobretudo, por ressaltar detalhes antes despercebidos, como mostram as falas.

A comunicação agora se faz de forma bem mais tranquila. Não vejo mais com um olhar de pena. Vejo como seres batalhadores, que superam mais essa dificuldade em suas vidas (L, S2).

Hoje, creio que o relacionamento será bem mais natural e espontâneo. Agora, acho que já saberei lidar de uma forma natural (M, S1).

Foi uma experiência fantástica (N, S5).

Me sinto relativamente mais segura, agora no final do curso, com relação à comunicação (O, S5).

Ainda não tenho muita comunicação, mas tenho certeza que, ao abordar alguém com deficiência, hoje iria tratá-lo bem melhor do que no começo [da disciplina](P, S2).

Todos os aspectos citados pelos estudantes são fundamentais, visto que o enfermeiro deve adquirir habilidades de comunicação verbal e não verbal durante o processo de cuidado na relação com o cliente, no intuito de contribuir para a melhoria da qualidade da assistência prestada.

Categoria 4: Capacitação de profissionais

Questionados sobre sugestões para melhorar as relações pessoais entre profissionais da saúde e pessoas com deficiência, os alunos mencionaram a capacitação dos profissionais. Nesta, os estudantes retrataram:

Capacitação dos profissionais de saúde[...], bem como preparação prévia destes no ambiente da universidade, como acadêmicos (Q, S1).

Incluir no curso disciplinas que orientam sobre a melhor forma de lidar com esse tipo de público. Será interessante colocar, como uma disciplina obrigatória (R, S2).

Preparação. Especialização. Pessoas com deficiência devem poder contar com profissionais bem preparados, que saibam de fato lidar com sua potencialidade e sua limitação. E respeito acima de tudo (T, S1).

Seria bom que, ao menos, em cada hospital da cidade existissem os profissionais da saúde (principalmente, enfermeiros) que soubessem LIBRAS. A infraestrutura dos hospitais e clínicas; profissionais de saúde treinados como conduzir cegos[...] (U, S5).

Segundo os alunos sugeriram, para melhorar as relações interpessoais entre profissionais de saúde e pessoas com deficiência física e sensorial, deve existir capacitação. De acordo com alguns, este processo deve ser iniciado ainda na graduação, outros referiram nas instituições de saúde. Destacaram também a necessidade de profissionais qualificados, para a comunicação e relacionamento específicos no intuito de prestar um atendimento com qualidade.

Categoria 5: Pontos positivos/negativos e sugestões

Quanto aos pontos positivos encontrados em relação à disciplina optativa ministrada, os alunos referiram as palestras proferidas por pessoas com deficiência, visitas às instituições, estrutura da sala, quantidade de alunos, tecnologias utilizadas, climatização e iluminação da sala, cronograma seguido e conhecimento da professora. Com todos estes aspectos, houve influência significativa no conhecimento, experiência e sensibilização destes estudantes, conforme relatos a seguir:

As visitas às instituições permitiram que os alunos tivessem a experiência de conviver com profissionais que trabalham, especialmente, atendendo pessoas com deficiência e conhecer estruturas adaptadas[...] (V, S5).

A professora da disciplina tem muito conhecimento sobre o assunto, devido aos estudos e experiências com trabalhos em instituições especializadas no atendimento aos deficientes (X, S1).

Em vários momentos, nos levou a nos colocar no lugar de um deficiente e observar o quanto é difícil não ser 'perfeito' (X, S1).

É uma disciplina nova, diferente das outras, que trouxe uma nova visão para nós, futuros enfermeiros. Deu a oportunidade de conhecer mais a realidade dos portadores de deficiência com suas limitações e superações (Y, S2).

Outros pontos positivos são a estrutura da sala, a quantidade de alunos e as tecnologias utilizadas (filmes, palestras, visitas) (W, S5).

Bom seguimento do cronograma da disciplina (Z, S5).

Seria bom, além das visitas para conhecer as instituições, outras visitas para podermos interagir com os usuários (M, S1).

Transformar a disciplina de optativa para efetiva ou tornar o horário da disciplina acessível a máximo e aumentar o número de visitas (C, S2).

Quanto aos pontos negativos foram observados os seguintes:

O horário, pois quanto mais alunos forem despertados quanto ao cuidado às pessoas com deficiência melhor para a humanização da assistência (D, S5).

A dificuldade de conciliar os horários das visitas com os horários das aulas, bem como o horário das palestras (T, S1).

Ausência de prática em instituições, ações educativas, por exemplo (I, S2).

Deveria ter mais visitas às instituições com atuação mais direta e próxima com esses pacientes (P, S2).

Os alunos deveriam desenvolver um trabalho de educação em saúde, com um tipo de deficiente (V, S5).

O tempo curto da disciplina, as visitas às instituições que poderiam ser ampliadas, a realização de atividades educativas com as pessoas com deficiência, a coincidência de término de uma disciplina e início de outra, foram registrados como pontos negativos. Tais aspectos, revistos no planejamento podem contribuir para o aprimoramento dessa disciplina.

 

DISCUSSÃO

No caso específico das pessoas com deficiência sensorial, a comunicação é, muitas vezes, limitada pelas diferenças de uso dos meios verbal e não verbal, das características corporais, entre outros aspectos(9). Para os referidos acadêmicos de enfermagem, sem nenhuma formação e/ou capacitação prévia, essas dificuldades também estão presentes e são expressas em diversos momentos.

Estes dados corroboram a literatura quando se afirma que o estudante de enfermagem, em virtude da falta de formação adequada, possui dificuldades ou até mesmo evita estabelecer um contato mais próximo com clientes com deficiência, transferindo a outra pessoa, geralmente, esta responsabilidade(9).

O estímulo ao desenvolvimento de disciplinas, atividades e capacitações referentes à temática em discussão nas instituições de ensino superior, especialmente, as universidades públicas, cada dia mais tem sido abordado e implementado. Na mencionada universidade federal, existem iniciativas e projetos nas áreas de educação, arquitetura e urbanismo e biblioteconomia, entre outras. No caso da área da saúde, esta iniciativa da enfermagem é pioneira e fruto de mais de 15 anos de trabalhos de pesquisa e extensão com as pessoas com deficiência.

A referida atividade e sua relevância correspondem à demanda de disciplinas e conteúdos na parte de promoção, prevenção, reabilitação e atenção em saúde às pessoas com deficiência, de acordo com o preconizado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Esta incorporação aos currículos de graduação em saúde objetiva uma melhoria na assistência a esta clientela, sejano âmbito do Sistema Único de Saúde ou da assistência suplementar(3).

As possibilidades de atuação do enfermeiro diante do paciente com algum tipo de deficiência contemplam o cuidado e a educação em saúde para o autocuidado dessas pessoas, atendendo às suas necessidades biopsicossociais e espirituais. Outro aspecto para o qual se deve atentar, é a inserção desta categoria profissional nas instituições de apoio às pessoas com deficiência, não apenas no concernente à reabilitação, mas também nos aspectos de promoção da saúde(19).

Conforme evidenciado em estudo anterior, em situações comuns de comunicação, alunos e enfermeiros sentem dificuldades para abordar o cliente, seja para explicar rotinas diárias, identificar necessidades, fornecer orientações, informar sobre os procedimentos a serem executados ou, simplesmente, ouvi-lo(20). Estas dificuldades são ainda maiores quando o paciente apresenta limitação sensorial.

No concernente às pessoas com deficiência sensorial, o processo de comunicação guarda formas particulares consideradas mais eficazes. Como proposto, o profissional precisa adequar sua maneira de comunicação e interação, de acordo com o paciente, pois cada tipo de deficiência tem sua característica. Para isto, é preciso saber também qual o nível de escolaridade do paciente e, a partir daí, estabelecer a melhor forma para esta comunicação e relacionamento(10).

A formação dos profissionais de enfermagem deve basear-se cada vez mais em uma relação de parceria entre as instituições de ensino e as instituições de saúde. Dessa forma, espera-se formar profissionais com conhecimentos sólidos, capazes de inovar, trabalhar em equipe, de modo a gerir a incerteza e a complexidade dos cuidados de enfermagem. Um dos objetivos da disciplina foi sensibilizar futuros profissionais a buscarem aprofundamento com vistas a torná-los diferentes quanto ao relacionamento e comunicação com as pessoas com deficiência, pois este tema não tem sido trabalhado durante a formação acadêmica no ensino superior. Desse modo, percebe-se a educação como uma metodologia dinâmica e contínua de edificação do conhecimento. Este, movido pelo desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo, e pelas relações humanas, leva à criação de compromisso pessoal e profissional, ao capacitá-lo para a transformação da realidade(21).

Na busca do conhecimento, evidenciou-se a urgência da criação da disciplina, decorrente, sobretudo, dos achados encontrados em pesquisas anteriormente desenvolvidas em que se identificou dificuldade de acesso aos serviços de saúde por parte das pessoas com deficiência, além do despreparo dos enfermeiros no atendimento à saúde desta população. Com base nesses dados, notaram-se lacunas no processo ensino e aprendizagem dos alunos de graduação em enfermagem nas habilidades de cuidado e comunicação com deficientes.

Diante desta realidade, submeteu-se à coordenação do curso de enfermagem o projeto da disciplina com a ementa e o conteúdo programático a ser adotado. Após, obteve-se o parecer favorável à implantação da disciplina, mas, para ser desenvolvida como atividade complementar, a princípio. Com a oferta da atividade em dois semestres, percebeu-se a necessidade de introduzi-la como disciplina optativa. Isto ocorreu em 2009, quando foi criada a disciplina intitulada Enfermagem em situações especiais no Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Esta disciplina permite mais de uma ementa, e os alunos se matriculam naquela de seu interesse.

No ensino de graduação em saúde, os currículos estão fragmentados e estruturados em disciplinas e ciclos, concentrando o ensino teórico em sistemas anatomopatológicos e por meio da ótica biomédica. Abordam-se temas de pequena abertura para outras áreas do conhecimento, além de priorizar o modelo hospitalocêntrico(22). Isto contradiz a proposta do atendimento integral e holístico que deve ser priorizado e ensinado aos estudantes. No cuidado à pessoa com deficiência, este atendimento deve ser qualificado, pois cada deficiência tem suas particularidades.

A pedagogia apresenta diferentes abordagens, desde o ensino no qual se tem como foco o professor até outras centradas no estudante. Atualmente, percebe-se um processo de interação permanente entre alunos, professor e objeto de conhecimento. No intuito de interagir com as ideias dos alunos, o professor provoca questionamentos concretos, dispõe fontes e materiais, responde a questões, assinalando alternativas e sugerindo novas relações(23). Esta relação propõe ao estudante espaço de interação e liberdade de participação. Na disciplina apresentada, procurou-se esse relacionamento na busca pelo conhecimento e crescimento, tanto pessoal como profissional.

Como adverte a literatura, para planejamento e preparação de aulas, é necessário o número adequado de alunos, conforme o espaço e o número de formadores, espaço adequado, materiais de apoio diversos e adequados, tudo na perspectiva de uma formação eficaz e eficiente(24).

As últimas Diretrizes Curriculares Nacionais aprovadas pelo Ministério da Educação desencadearam um processo de implantação de novos currículos nos cursos de graduação na área da saúde, tendo-se como perfil do egresso/profissional um enfermeiro com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva. Enfim, um profissional habilitado para o exercício da enfermagem, com conhecimento científico, intelectual e pautado nos princípios éticos(25).

Na categoria que retratava os pontos negativos da disciplina, um dos aspectos apontados pelos alunos foi a necessidade de educação em saúde para as pessoas com deficiência. Neste sentido, ao relacionar essa concepção de educação com a profissão de enfermagem, entende-se que, em todas as ações deenfermagem, estão inseridas ações educativas. É preciso promover efetivas oportunidades de ensino, baseadas na conscientização do valor da educação, como meio de crescimento e aprimoramento dos profissionais da enfermagem, bem como o reconhecimento deles pela função educativa no desenvolvimento do processo de trabalho. O conhecimento é um valor necessário do agir cotidiano e embasa as suas ações(26).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste estudo, de acordo com as categorias comunicação e relacionamento com pessoas com deficiência, capacitação de profissionais, pontos positivos e negativos da disciplina optativa, observou-se a necessidade de inserir nas universidades conteúdos sobre tal temática. Os futuros profissionais de enfermagem precisam se qualificar, em especial, porque nas unidades de saúde estas pessoas têm direito a um atendimento de qualidade.

Quanto às críticas, são bem-vindas, mas parte das enunciadas pelos alunos pode ser decorrente da incompreensão do caráter informativo da disciplina, ou seja, não se pretendeu instrumentalizar o aluno para uma atuação com a pessoa com deficiência, atividade esta que exigirá maior carga horária e poderá constituir uma segunda disciplina, a ser ministrada quando o aluno tiver domínio de outras habilidades para o cuidado. A meta da disciplina foi sensibilizar o graduando para a compreensão das questões inerentes à pessoa com deficiência na sociedade e na saúde. Tal meta presume-se, foi alcançada.

 

REFERÊNCIAS

1. Organização Mundial da Saúde. Classificación internacionalde las deficiências, actividades e participación: um manualde las dimensiones de la inhabilitación e su funcionamento. Genebra: Organização Mundial de Saúde; 1997.         [ Links ]

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2000. Rio de Janeiro; 2000. [citado 2008 Mar 8]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br.         [ Links ]

3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política nacional de saúde da pessoa portadora dedeficiência. Brasília: Ministério da Saúde; 2009.         [ Links ]

4. França ISX, Pagliuca LMF, Baptista RS. Política de inclusão do portador de deficiência: possibilidades e limites. Acta Paul Enferm. 2008;21(1):112-6.         [ Links ]

5. Vasconcelos LR, Pagliuca LMF. Mapeamento da acessibilidade do portador de limitação física a serviços básicos de saúde. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2006;10(3):494-500.         [ Links ]

6. França ISX, Pagliuca LMF. Acessibilidade das pessoas comdeficiência ao SUS: fragmentos históricos e desafios atuais. Rev RENE. 2008;9(2):129-37.         [ Links ]

7. Brasil. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução 160: código de ética dos profissionais de enfermagem. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Enfermagem; 1993.         [ Links ]

8. França ISX, Pagliuca LMF. Inclusão social da pessoa com deficiência: conquistas, desafios e implicações para a enfermagem. Rev Esc Enferm USP. 2009;43(1):178-85.         [ Links ]

9. Pagliuca LMF, Régis CG, França ISX. Análise dacomunicação entre cego e estudante de enfermagem. Rev Bras Enferm. 2008;61(3):296-301.         [ Links ]

10. Pagliuca LFM, Fiúza NLG, Rebouças CBA. Aspectos da comunicação da enfermeira com o deficiente auditivo. Rev Esc Enferm USP. 2007;41(3):411-8.         [ Links ]

11. Macedo KNF, Pagliuca LMF. Características da comunicação interpessoal entre profissionais de saúde e deficientes visuais. Rev Paul Enferm. 2005;23(3/4): 221-6.         [ Links ]

12. Cezario KG, Mariano MR, Pagliuca LMF. Comparando o comportamento sexual de cegos e cegas diante das DSTs. Rev Eletrônica Enferm. [Internet]. 2008;10(3): 686-94. [citado em 2008 Jun 10] Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n3/v10n3a14.htm.         [ Links ]

13. Cezario KG, Pagliuca LMF. Tecnologia assistiva em saúde para cegos: enfoque na prevenção de drogas. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2007;11(4):677-81.         [ Links ]

14. Pagliuca LMF, Costa EM. Tecnologia educativa para o auto-exame das mamas em mulheres cegas. Rev RENE.2005;6(1):77-85.         [ Links ]

15. Rossi PS, Batista NA. O ensino da comunicação na graduação em medicina: uma abordagem. Interface Comun Saúde Educ. 2006;10(19):93-102.         [ Links ]

16. Carvalho EC, Bachion MM, Almeida LCP, Medeiros RN. O ensino de comunicação em enfermagem: um desafio. Rev Latinoam Enferm. 1997;5(3):27-34.         [ Links ]

17. Polit DF, Beck CT, Hungler BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem: métodos, avaliação e utilização. 5a ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.         [ Links ]

18. Stefanelli MC, Carvalho EC, organizadoras. A comunicação nos diferentes contextos da enfermagem. Barueri: Manole;2005.         [ Links ]

19. França ISX, Pagliuca LMF, Sousa RA. Discurso político-acadêmico e integração das pessoas com deficiência: das aparências aos sentidos. Rev Esc Enferm USP. 2003;37(4):24-33.         [ Links ]

20. Azevedo RCS. A comunicação como instrumento do processo de cuidar: visão do aluno de graduação. Nursing (São Paulo). 2002;5(45):19-23.         [ Links ]

21. Paschoal AS, Mantovani MF, Méier MJ. Percepção da educação permanente, continuada e em serviço para enfermeiros de um hospital de ensino. Rev Esc Enferm USP. 2007;41(3): 478-84.         [ Links ]

22. Brasil. Ministério da Saúde. Seminário: incentivos às mudanças na graduação das carreiras da saúde. Brasília: Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde; 2003.         [ Links ]

23. Pettengill MAM, Nunes CB, Barbosa MAM. Professor e aluno compartilhando da experiência de ensino-aprendizagem: a disciplina de enfermagem pediátrica da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Rev Latinoam Enferm. 2003;11(4):453-60.         [ Links ]

24. Silva CC, Silva ATMC, Oliveira ICC, Leon CGRMP, Serrão MCPN. Abordagem por competências no processo de ensino-aprendizagem. Rev Bras Enferm. 2005;58(1):91-4.         [ Links ]

25. Barbosa ECV, Viana LO. Um olhar sobre a formação do enfermeiro/docente no Brasil. Rev Enferm UERJ. 2008;16(3):339-44.         [ Links ]

26. Domingues TAM, Chaves EC. O conhecimento científicocomo valor no agir do enfermeiro. Rev Esc Enferm USP. 2005;39(N Esp):580-8.         [ Links ]

 

 

Autor Correspondente:
Cristiana Brasil de Almeida Rebouças
R. Gonçalves Ledo, 95
Fortaleza - CE - Brasil Cep: 60110-260
E-mail: cristiana_brasil@hotmail.com

Artigo recebido em 24/08/2009 e aprovado em 22/09/2010

 

 

* Trabalho desenvolvido no Laboratório de Comunicação em Saúde do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Pesquisa financiada pelo CNPq. Apresentado no 61º Congresso Brasileiro de Enfermagem em 2009 e premiado com o 1º lugar no Prêmio Vilma de Carvalho, Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de janeiro (RJ), Brasil.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License