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Acta Paulista de Enfermagem

versão impressa ISSN 0103-2100versão On-line ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.33  São Paulo  2020  Epub 23-Mar-2020

https://doi.org/10.37689/acta-ape/2020ao0296 

Artigo Original

Percepção das crianças acerca da punção venosa por meio do brinquedo terapêutico

Percepción de los niños acerca de la venopunción a través del juguete terapéutico

Maria Clara da Cunha Salomão Barroso1 
http://orcid.org/0000-0003-3817-4017

Ravini dos Santos Fernandes Vieira dos Santos1 
http://orcid.org/0000-0002-2378-371X

Antonio Eduardo Vieira dos Santos1  2 
http://orcid.org/0000-0002-4326-0211

Michelle Darezzo Rodrigues Nunes1 
http://orcid.org/0000-0001-7685-342X

Eduardo Alexander Júlio Cesar Fonseca Lucas3 
http://orcid.org/0000-0001-6638-0788

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

2Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

3Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.


Resumo

Objetivo

Compreender a percepção das crianças acerca da punção venosa por meio do brinquedo terapêutico e compreender de que forma o brinquedo terapêutico pode contribuir para o procedimento de punção venosa e na interação entre a criança e o enfermeiro.

Métodos

Trata-se de um estudo com abordagem qualitativa. Realizada nos setores pediátricos de Enfermaria, Cirurgia e Terapia Intensiva de um hospital universitário do Rio de Janeiro, com sete crianças entre quatro e 11 anos de idade, através de uma entrevista audiogravada submetida à análise temática. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da instituição coparticipante, sob nº do parecer 2.544.589.

Resultados

Ao dramatizar na boneca, manusear os materiais hospitalares e deduzir o propósito final, esse mundo imaginário e repleto de conceitos equivocados torna-se uma experiência positiva tanto para a criança quanto para o enfermeiro. A interação através da brincadeira permite que elas tenham maior esclarecimento sobre o procedimento e maior receptividade à equipe de enfermagem, bem como a novos procedimentos que venham a ser realizados.

Conclusão

Esse estudo deu voz a essas crianças como sujeitos do cuidado na medida que há a ruptura da visão técnico centrada, favorecendo assim o protagonismo infantil. A realização desse estudo possibilitou ressaltar a importância de incorporar o brinquedo terapêutico no processo de cuidar da enfermagem pediátrica, demonstrando seu potencial efeito terapêutico.

Palavras-Chave: Cuidados de enfermagem; Humanização da assistência; Criança hospitalizada; Jogos e brinquedos; Enfermagem pediátrica

Resumen

Objetivo

Comprender la percepción de los niños acerca de la venopunción a través del juguete terapéutico y comprender de qué forma el juguete terapéutico puede contribuir con el procedimiento de venopunción y con la interacción entre el niño y el enfermero.

Métodos

Se trata de un estudio con enfoque cualitativo. Fue realizado en los sectores pediátricos de Enfermería, Cirugía y Terapia Intensiva de un hospital universitario de Rio de Janeiro, con siete niños entre 4 y 11 años de edad, a través de una entrevista que fue grabada y sometida a un análisis temático. El estudio fue aprobado por el Comité de Ética e Investigación de la institución coparticipante, bajo el n° de informe 2.544.589.

Resultados

Al dramatizar en la muñeca, manipular los materiales hospitalarios y deducir el propósito final, ese mundo imaginario y repleto de conceptos equivocados se transforma en una experiencia positiva tanto para el niño, como para el enfermero. La interacción a través del juego permite a los niños tener más claridad sobre el procedimiento y mayor receptividad con el equipo de enfermería, así como con nuevos procedimientos que puedan llegar a realizarse.

Conclusión

Este estudio les dio voz a los niños como sujetos de cuidado en la medida en que hay una ruptura de la visión centrada en lo técnico, lo que favorece el protagonismo infantil. La realización de este estudio permitió destacar la importancia de incorporar el juguete terapéutico en el proceso de cuidado de la enfermería pediátrica y demostró su potencial efecto terapéutico.

Palabras-clave: Atención de enfermería; Humanización de la atención; Niño hospitalizado; Juego e implementos de juego; Enfermería pediátrica

Abstract

Objective

To understand children’s perception of venipuncture through therapeutic toy and how therapeutic toy can contribute to the venipuncture procedure and child-nurse interaction.

Methods

This is a study with a qualitative approach. It was held in pediatric nursing, surgery and intensive care sectors of a university hospital in the city of Rio de Janeiro, with seven children between four and 11 years old. It occurred through an audio-recorded interview submitted to thematic analysis. The research was approved by the Research Ethics Committee of the co-participating institution, under Opinion 2.544.589.

Results

By dramatizing the doll, handling hospital supplies, and deriving the ultimate purpose, this imaginary world full of misconceptions becomes a positive experience for both children and nurses. The interaction through toy allows them to have more clarity about the procedure and greater receptivity to the nursing staff, as well as new procedures that may be performed.

Conclusion

This study gave voice to these children as subjects of care, as there is a rupture of the technical-centered vision, favoring children protagonism. This study made it possible to emphasize the importance of incorporating the therapeutic toy in pediatric nursing care, demonstrating its potential therapeutic effect.

Key words: Nursing care; Humanization of assistance; Child, hospitalized; Play and playthings; Pediatric nursing

Introdução

A hospitalização infantil representa uma situação diferente de todas as vivenciadas pela criança. Ela está inserida em outra realidade, em um ambiente impessoal, repleto de restrições e rotinas, com significados diferentes do seu contexto diário e longe de seus familiares e amigos. Encontra-se cercada por pessoas desconhecidas que realizam procedimentos que lhe causam desconforto.1

Para o atendimento das necessidades emocionais e sociais da criança, é necessário que o enfermeiro pediátrico utilize estratégias de empoderamento da população infantil sob seus cuidados, de forma a propiciar que a criança se torne o sujeito ativo e participante de seu processo de hospitalização.2 Sob este prisma, a utilização de técnicas facilitadoras como o brincar caracterizam-se como elementos indispensáveis para a melhoria na qualidade da atenção no campo da enfermagem pediátrica.

O brincar pode ajudar a criança a ampliar seus relacionamentos com o exterior, criando um elo entre seu mundo imaginário e o do hospital. Através da brincadeira, a criança pode transformar o ambiente no qual está inserida, de modo que ela consiga enfrentar positivamente a situação pela qual está passando.3

A inclusão do brincar no cuidado da criança faz com que o processo de hospitalização seja menos traumático e mais alegre, visto que oportuniza diversão, relaxamento, expressão de sentimentos e interação com outras pessoas.4

No ambiente hospitalar, o brinquedo terapêutico (BT) é uma abordagem que se constitui num brinquedo estruturado para que a criança alivie sua ansiedade mediante as experiências vivenciadas no hospital, que representam à ela, uma ameaça. Deve ser utilizado sempre que o paciente apresentar dificuldade em compreender/lidar com a situação ou para o preparo de procedimentos.5

O enfermeiro usa o BT como uma estratégia adequada para se aproximar da criança, estabelecendo vínculo, empatia e uma relação de confiança. Além de maior compreensão por parte da enfermeira, ampliando e qualificando a assistência pediátrica.6

Em relação ao estado da arte acerca da temática BT, alguns estudos têm sido desenvolvidos com foco na temática, porém seu uso especificamente durante a técnica da punção venosa ainda é escasso7-10 e a maior parte deles aborda a visão do BT sob a ótica dos responsáveis e acompanhantes das crianças,7,9 dos profissionais de saúde,7 ou mesmo abordagens quantitativas.8 A percepção qualitativa da própria criança hospitalizada sobre o BT na punção venosa ainda representa uma lacuna na literatura e justifica a importância da realização deste estudo, principalmente se levarmos em conta que o relato da própria criança é na maioria das vezes a melhor maneira de entender sua visão, o que torna os resultados deste estudo valiosos para esta temática.

Objetivou-se compreender a percepção das crianças acerca dos cuidados recebidos pela enfermagem por meio do brinquedo terapêutico na punção venosa e compreender de que forma o brinquedo terapêutico pode contribuir para o procedimento de punção venosa e na interação entre a criança e o enfermeiro.

Métodos

Trata-se de um estudo com abordagem qualitativa11 realizado nas seguintes unidades pediátricas: Enfermaria de Pediatria, Cirurgia Pediátrica (CIPE) e Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP). Os participantes foram sete pacientes pediátricos de um hospital universitário do Rio de Janeiro entre quatro e 11 anos de idade, capazes de verbalizar suas vivências de forma clara e que haviam sido submetidos à punção venosa periférica (Quadro 1).

Quadro 1 Caracterização dos participantes da pesquisa 

Participantes Idade Sexo Motivo de internação Local de coleta
Relâmpago McQueen 4 anos Masculino Pneumonia + derrame pleural UTIP
Chiquinha 6 anos Feminino Paracoccidoimicose Enfermaria
Ash 7 anos Masculino Miosite Enfermaria
Conow 8 anos Masculino Colonoscopia CIPE
Minnie 9 anos Feminino Doença renal crônica Enfermaria
Bob Esponja 10 anos Masculino Hidronefrose bilateral Enfermaria
Ariel 11 anos Feminino Leucemia Linfóide Aguda Enfermaria

A coleta de dados foi realizada nos meses de março a agosto de 2018 por meio de entrevista audiogravada durante a sessão de BT. Utilizou-se como questão norteadora: “O que você acha dessa brincadeira?”. Os materiais utilizados foram a boneca, algodão, luva de procedimento, álcool, esparadrapo, fita microporosa, flaconetes de solução fisiológica 0,9%, tubos para coleta de sangue, seringas de diversos tamanhos, cateter sobre agulha e cateter agulhado. Para simulação do sangue, foi utilizada uma bexiga inflável com água e corante rosa, instalada no interior do braço da boneca. Dessa forma, quando as crianças realizavam a punção, aspiravam o conteúdo que representava o sangue (Figura 1). Os dados coletados foram transcritos para posterior análise, e em seguida, arquivados por cinco anos, em conformidade com as determinações ético-legais. O anonimato dos entrevistados foi mantido, sendo utilizados codinomes de personagens de desenho, escolhidos pelas próprias crianças, para identificação das falas. Terminada a coleta dos dados, foi realizada uma análise temática dos resultados obtidos, segundo Bardin.12Após as transcrições das entrevistas, a leitura dos textos referentes ao conteúdo permitiu a classificação das falas por cores utilizando o método colorimétrico – o conteúdo foi colorido de acordo com a fala dos participantes com base nas unidades de significação emergentes, agrupando na mesma classificação colorimétrica as expressões que se repetiam. Após essa etapa, os dados foram agregados, gerando a categoria intitulada “Percepção das crianças sobre a punção venosa por meio do brinquedo terapêutico”. Dessa forma, os participantes da pesquisa assinaram duas cópias do Termo de Assentimento Informado Livre e Esclarecido (TALE) uma para o pesquisador e outra para o participante e o responsável da criança assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Como havia riscos mínimos na realização do estudo visto que os participantes poderiam sofrer algum desconforto ou experimentar algum tipo de emoção negativa durante a entrevista, a mesma foi conduzida pausadamente e a criança teve o direito e a possibilidade de desistir sem que houvesse qualquer dano ou prejuízo ao seu atendimento.

Figura 1 Materiais utilizados na sessão de brinquedo terapêutico 

O presente trabalho seguiu as determinações da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, sendo submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da instituição coparticipante, aprovado sob nº do parecer 2.544.589/2018.

Resultados

Mediante as falas dos participantes emergiram oito unidades de significação que deram origem a três subcategorias que fazem parte da categoria central “Percepção das crianças sobre a punção venosa por meio do brinquedo terapêutico” (Figura 2).

Figura 2 Análise de dados 

Categoria central:

Percepção das crianças sobre a punção venosa por meio do brinquedo terapêutico

Essa categoria é caracterizada pela percepção das crianças acerca da realização do procedimento de punção venosa periférica, incluindo os sentimentos provenientes da experiência vivida a luz do brinquedo terapêutico enquanto tecnologia do cuidado, bem como a reprodução da técnica realizada pela enfermagem. Ela é composta por três subcategorias que serão apresentadas a seguir:

Subcategoria 1:

Finalidade da punção venosa

Durante o uso do brinquedo terapêutico, as crianças verbalizavam a finalidade da punção venosa, tais como: hidratação, administração de medicamentos e hemoderivados, bem como a coleta de sangue para exames laboratoriais. Destacaram ainda a importância do procedimento para melhoria de sua saúde, reconhecendo a necessidade da intervenção em tela para sua recuperação, conforme explicitado a seguir:

“Ah é porque é pra colocar “memédio” (...) pra melhorar”. (Chiquinha)

“Pra botar o soro (...) pra passar minha febre, que eu tive febre e dor de cabeça e ouvido inflamado”.(Ash)

“Ahn...eu acho que era pra ver como que tava minha plaqueta (...) é só pra ficar melhor, melhorar e ir embora pra casa logo.” (Ariel)

Subcategoria 2:

A técnica da punção venosa na visão da criança

Os depoimentos que estruturaram esta subcategoria foram determinantes para demonstrar como as crianças conseguiram reproduzir detalhes do procedimento de punção venosa, tanto os relacionados à execução em ordem lógica da técnica e seus equipamentos, como aos relacionados aos problemas e falhas na sua realização.

“O álcool serve pra tirar a bactéria, pra não pegar bactéria! Olha... eu também aprendi que esse negócio aqui (cateter sobre agulha), você fura, e só fica o silicone! (...) pode ficar furando (a boneca), colhendo sangue?” (Bob Esponja)

“Achei! Vou dar uma agulhada! Meu Deus, não to conseguindo! (...) daí eu tiro... Não! Eu pego o algodão e vou tirar e daí boto o algodão no furozinho e fico fazendo assim até o sanguinho não ficar mais assim”(Ash).

“Isso aqui é uma luva pra amarrar no bracinho e o sangue encher a veia e ela aparecer pra poder pegar..(...) e tem que achar uma veinha bem boa, uma veia bem gordinha pra colocar aqui assim, e o sangue, a gente dá uma pressãozinha aqui pro sangue vim, ai a gente colhe o tanto que tem que colher e depois tira e coloca o algodão (...) olha!!! Veio, tia!!! De primeira, viu? (...) aí a gente vem aqui, abre o sorinho e tira do recipientezinho e vai devagarzinho dando uns trancos assim pra ver se a veia tá boa..bem devagar. Aí se a paciente falar que tá doendo é porque pode ter corrido o risco de ter errado a veia (...) se o sangue não refluir também pode ser mais um risco de a gente ter errado a veia (...) agora posso furar desse outro ladinho (da boneca), tia? Porque eu acabei de usar essa veia, provavelmente essa daqui não tem nenhum furinho, deve tá melhor! Aquela ali eu usei pra tirar o sangue!” (Ariel)

“Scalp? A famosa borboletinha! (...) eu acho que eu só vejo quando as tias pegam essa parte aqui debaixo, oh! porque esse daqui depois eles tiram e fica só aquele negocinho de silicone! Aí fica melhor..aí esse daqui fica só a agulha mesmo, ele me incomoda mais! (...) a gente põe pra correr o remedinho. A gente vai conectar por um fiozinho, um caninho que passa lá pra máquina e ajuda o remedinho a correr”. (Ariel)

“Isso tem uma borrachinha aqui que ela fica no seu braço, mas a agulha não fica (...) coloca dentro desse tubo aqui!! Coloca um pouco dentro desse..(...) porque eu vou usar esses dois sangues pra poder fazer tipo uma descobertazinha”. (Minnie)

Subcategoria 3:

Sentimentos relacionados à punção venosa

Dentre os depoimentos colhidos a dor foi o sentimento mais verbalizado e diretamente relacionada ao furo na pele ocasionado pela transfixação desta pela agulha.

“A borboletinha dói menos”. (Conow)

“A criança não gosta de ser furada! Porque dói muito, a gente fica com um pouquinho de trauma (...) quando estão me furando, não gosto de olhar, eu viro pro lado e deixo eles fazerem (...) to achando que ela ta chorando demais (a boneca) porque dói muito e quando a gente vai colocar o remédio no braço a gente sente nossa veia mexer (...) ela dá uma tremidinha ”. (Minnie)

“É que eu grito né, você já sabe!! É que eu tenho pavor de agulha desde criancinha (...) é que na primeira vez eu tomei duas agulhadas de exame de sangue (...) e ontem 4 vezes!! Porque não tava puxando a veia (...) eu achei um absurdo!!! Minhas veias é doida por que ela não puxa!! (...) olha o tamanho dessa agulha!!!”. (Ash)

Discussão

Os dados deste estudo revelam as percepções da criança acerca da punção venosa por meio do brinquedo terapêutico e salientam como o mesmo pode contribuir para a realização do procedimento e na interação entre a criança e o enfermeiro.

Notou-se que crianças com o tempo de internação superior a sete dias e submetidas à múltiplas punções, associavam o ato de ser puncionada com melhora do quadro clínico e possível alta hospitalar. Verificou-se ainda que as idades das crianças entrevistadas foi fator determinante para melhor compreensão da finalidade do procedimento, uma vez que, a partir dos quatro anos a criança entende e consegue verbalizar melhor suas emoções.13

As falas das crianças entrevistadas demonstraram claramente que o BT exerceu papel facilitador para que elas pudessem lidar melhor com a necessidade da punção venosa. Ademais, o BT enquanto tecnologia do cuidado, tornou mais visível a relação entre os motivos, necessidades e benefícios do procedimento com a melhora da saúde física dessas crianças.

Corroborando com a literatura, identificou-se que o preparo de punção venosa com o uso do brinquedo terapêutico é de suma importância, visto que promove a cooperação e adesão das crianças ao tratamento.14 Através dele percebe-se que a criança compreende a necessidade da internação e pode vivenciar este momento de forma mais tranquila.2

Durante as dramatizações, percebeu-se que as crianças estavam familiarizadas com os materiais utilizados na punção venosa. Apesar de não saberem os nomes dos componentes utilizados, a demonstração da técnica foi realizada de forma similar à do enfermeiro, não havendo necessidade, por exemplo, de auxiliar em relação ao manuseio dos dispositivos agulhados e da aspiração da solução fisiológica. Acredita-se que o empoderamento da criança pela equipe de Enfermagem seja um fator facilitador da aproximação do saber científico e do senso comum, resultando em uma maior participação da criança no processo.

Sendo assim, através da aplicação do BT, manuseando os materiais e repetindo o procedimento na boneca, as crianças tiraram suas dúvidas e angústias relacionadas ao procedimento, facilitando sua aproximação com o enfermeiro.

O uso do brinquedo terapêutico no preparo para a punção venosa, promove maior tranquilidade para a criança, compreensão e aceitação da realização do procedimento.14

A criança passa a entender melhor o procedimento e, consequentemente, se torna mais colaborativa, quando se permite que ela visualize e manuseie os instrumentos.15

Bonecos, agulhas e seringas são objetos úteis para que a criança compreenda a experiência de ser puncionada, bem como obter controle de suas emoções. Os enfermeiros são capazes de detectar conceitos equivocados e obter informações acerca de receios e fantasias irreais das crianças através de bonecos e material hospitalar, realizando não somente os cuidados técnicos, mas exercendo também seu papel de facilitador na vivência da hospitalização para a criança e sua família.15

Dessa forma, ele será capaz de proporcionar um tratamento menos traumático, minimizando o sofrimento causado pela enfermidade, contribuindo para a recuperação da criança, valorizando os seus sentimentos e dúvidas que ocorram durante a internação hospitalar.

Apesar de ser esperado que o sentimento de dor fosse algo previsível no contexto deste estudo, os relatos trouxeram à luz uma correlação de ideias muito interessantes após a aplicação da ferramenta do BT nessas crianças: se por um lado é inegável e inevitável a sensação de dor causada pelo procedimento de punção venosa, por outro lado, ao fecharem os olhos ou virarem o rosto durante o procedimento, essas crianças evidenciaram, grosso modo, que algumas estratégias de enfrentamento podem permear as experiências de intervenções invasivas dolorosas na infância.

Ademais, tais atitudes demonstram que a capacidade de resiliência adquirida pela criança pode ser mediada pela aplicação do BT.

O processo de aplicação da técnica do BT facilita a aproximação do profissional de saúde e o estabelecimento de vínculo, ambos elementos necessários para a mediação da relação de confiança.6

O brinquedo terapêutico possui função curativa, sendo uma “válvula de escape”, diminuindo a ansiedade da criança pela catarse emocional.16 Alivia a ansiedade de situações atípicas à idade da criança, descarregando sua tensão.17

Também foi possível notar que em alguns momentos das sessões de brinquedo terapêutico as crianças reproduziam na boneca situações semelhantes às vivenciadas por elas, por vezes utilizando terminologias de uso hospitalar. Assim sendo, através da brincadeira, o sofrimento passivo torna-se um domínio ativo e os episódios traumáticos podem ser melhor dominados.2,15

Autores evidenciam a importância da aplicação desse instrumento para tornar a criança mais cooperativa com a equipe de enfermagem. Antes as crianças mostravam-se inquietas e chorosas, e após o emprego do brinquedo terapêutico elas interagiram melhor com as enfermeiras.18

Quando a criança tem a oportunidade de representar no brinquedo o procedimento doloroso, ela passa de sujeito passivo para sujeito ativo, tornando o brinquedo um meio eficaz para minimizar os efeitos estressantes.1

A criança pode sentir medo do profissional de enfermagem, visto que ela associa a presença dele a procedimentos que lhe possam causar alguma sensação dolorosa.19 Com a utilização do BT, as crianças passam a enxergá-lo como um profissional que não só realiza atividades dolorosas, mas que também brinca.20

O enfermeiro pediátrico é um dos profissionais mais indicados para utilizar o brinquedo terapêutico em decorrência de seus conhecimentos e sensibilidades para identificar sentimentos e causas de estresse.15

É importante ressaltar que o brinquedo é uma forma relevante de comunicação e interação entre o enfermeiro e a criança e deve ser parte integrante da assistência de enfermagem, já que esse profissional conhece melhor as necessidades de seu cliente a partir da utilização do brinquedo terapêutico.17

Quando adequadamente instruída, por meio do brinquedo, a criança aprende sobre sua doença e tratamento e se torna mais participativa. Assim, pela visão holística do tratamento hospitalar, o uso do brinquedo terapêutico propicia à criança aceitação, criação e aprendizagem em um ambiente até então considerado novo e aterrorizante.16

Conclusão

Neste estudo aprofundou-se a compreensão da percepção das crianças acerca da punção venosa por meio do brinquedo terapêutico sob a ótica da própria criança, assim como demonstrou-se de que forma essa tecnologia de cuidado contribui para a minimização do estresse relacionado ao procedimento, bem como na melhoria da interação entre a criança e o enfermeiro. Esse estudo deu voz a essas crianças como sujeitos do cuidado na medida em que a ruptura da visão técnico centrada favoreceu o protagonismo infantil. Emergiram das falas das crianças, sentimentos já esperados como a dor, o medo e a angústia, bem como estratégias de enfrentamento e resiliência que permeiam as experiências de intervenções invasivas e dolorosas na infância. Ao dramatizar na boneca, manusear os materiais hospitalares e deduzir o propósito final, esse mundo imaginário e repleto de conceitos equivocados tornou-se uma experiência positiva tanto para a criança quanto para o enfermeiro. A interação, baseada na brincadeira, permitiu que as crianças entrevistadas verbalizassem acerca das percepções concernentes à punção venosa. Além disso, o BT favoreceu maior receptividade dessas crianças à equipe de enfermagem, bem como a novos procedimentos que venham a ser realizados durante a internação. O brinquedo terapêutico mostrou-se um canal de verbalização, interação e fortalecimento de vínculo, favorecendo a participação da criança no seu cuidado. Sob essa perspectiva, o BT favorece que a atuação da Enfermagem Pediátrica seja centrada na criança e na sua família, isto porque, a equipe de Enfermagem é a categoria profissional de maior contato com a criança, possuindo um papel irrefragável na prestação de uma assistência menos traumática. A utilização de estratégias diferenciadas como a do brinquedo terapêutico, é capaz de criar um elo de comunicação e afeto entre a criança e a equipe de enfermagem, além de minimizar o impacto dos procedimentos invasivos. Conclui-se que a realização desse estudo possibilitou ressaltar a importância de incorporar o brinquedo terapêutico no processo de cuidar da enfermagem pediátrica, demonstrando seu potencial efeito terapêutico na assistência. Além disso, os resultados contribuem para o ensino mediante a sensibilização e reflexão sobre a importância e eficácia dessa terapêutica. Para a pesquisa, este trabalho contribui para o aperfeiçoamento do conhecimento científico acerca do uso do BT enquanto tecnologia facilitadora das práticas de cuidado de Enfermagem à população pediátrica.

Agradecimentos

Agradecemos ao setor de pediatria do hospital universitário pela doação de alguns materiais utilizados na pesquisa.

Referências

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Recebido: 10 de Dezembro de 2018; Aceito: 26 de Agosto de 2019

Autor correspondente. Ravini dos Santos Fernandes Vieira dos Santos E-mail: ravini_uerj@hotmail.com

Colaborações

Barroso MCCS, Santos RSFV, Santos AEV, Nunes MDR e Lucas EAJCF contribuíram com a concepção do projeto, análise e interpretação dos dados, redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação da versão final a ser publicada.

Conflitos de interesse: nada a declarar.

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