SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.32 número67Cânones e colônias: a trajetória global da sociologiaSOCIOLOGIAS INDÍGENAS IORUBA: A ÁFRICA, O DESCONCERTO E ONTOLOGIAS NA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Estudos Históricos (Rio de Janeiro)

versão impressa ISSN 0103-2186versão On-line ISSN 2178-1494

Estud. hist. (Rio J.) vol.32 no.67 Rio de Janeiro maio/ago. 2019  Epub 05-Set-2019

https://doi.org/10.1590/s2178-14942019000200003 

ARTIGO

ROGER BASTIDE, ANTONIO CANDIDO E A TESE INTERROMPIDA SOBRE O CURURU1

Roger Bastide, Antonio Candido and the interrupted thesis on the cururu

Roger Bastide, Antonio Candido y la tesis interrumpida acerca del cururu

I Universidade de São Paulo(USP), São Paulo - SP, Brasil.

II Universidade de São Paulo(USP), São Paulo - SP, Brasil.

III Universidade de São Paulo(USP), São Paulo - SP, Brasil.


Resumo

Abordaremos neste texto as relações entre o programa de pesquisa em sociologia da arte liderado por Roger Bastide na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), nas décadas de 1940 e 1950, e a tese incompleta de Antonio Candido sobre o cururu. A análise desse material e de seu contexto permite avaliar conexões teóricas e metodológicas entre os autores e flagrar as possíveis disputas em jogo nesse momento em torno da sucessão do sociólogo francês na USP por seus discípulos e discípulas paulistas.

Palavras-chave: Roger Bastide; Antonio Candido; Sociologia paulista; Intelectuais

Abstract

In this text, we will discuss the relations between the research program in sociology of art led by Roger Bastide in the Faculty of Philosophy, Letters and Human Sciences of the University of São Paulo (FFCL-USP) in the 1940s and 1950s, and the incomplete thesis Antonio Candido on the cururu. The analysis of this material and its context allows us to evaluate theoretical and methodological connections between the authors and to pinpoint the possible disputes in play at that moment around the succession of the French sociologist at USP by his disciples from São Paulo.

Keywords: Roger Bastide; Antonio Candido; Sociology of São Paulo; Intellectuals

Resumen

En este texto, las relaciones entre el programa de investigación en sociología del arte liderado por Roger Bastide en la Facultad de Filosofía, Letras y Ciencias Humanas de la Universidad de São Paulo (FFCL-USP), en las décadas de 1940 y 1950, y la tesis incompleta de Antonio Candido acerca del cururu. El análisis de este material y de su contexto permite evaluar conexiones teóricas y metodológicas entre los autores y flagrar las posibles disputas en juego en ese momento en torno a la sucesión del sociólogo francés en la USP por sus discípulos paulistas.

palabras clave: Roger Bastide; Antonio Candido; Sociología paulista; Intelectuales

INTRODUÇÃO

Este livro teve como origem o desejo de analisar as relações entre a literatura e a sociedade; e nasceu de uma pesquisa sobre a poesia popular, como se manifesta no Cururu - dança cantada do caipira paulista -, cuja base é um desafio sobre os mais vários temas, em versos obrigados a uma rima constante (carreira), que muda após cada rodada.

A pesquisa foi mostrando que as modalidades observadas em diversos lugares eram verdadeiros extratos superpostos, em grau variável de mistura, mas podendo ser reduzidos a alguns padrões. Estes correspondiam a momentos diferentes da sociedade caipira no tempo. As modalidades antigas se caracterizavam pela estrutura mais simples, a rusticidade dos recursos estéticos, o cunho coletivo da invenção, a obediência a certas normas religiosas. As atuais manifestavam individualismo e secularização crescentes, desaparecendo inclusive o elemento coreográfico socializador, para ficar o desafio na sua pureza de confronto pessoal. Não era difícil perceber que se tratava de uma manifestação espiritual ligada estreitamente às mudanças da sociedade, e que uma podia ser tomada como ponto de vista para estudar a outra. Foi assim que a coerência da investigação levou a alargar pouco a pouco o conhecimento da realidade social em que se inscrevia o cururu, até suscitar um trabalho especial, que é este (o outro, empreendido inicialmente, talvez nunca passe do estado de rascunho). (Candido, 1964: xii)

Os conhecidos parágrafos iniciais do Prefácio de 1964 de Os parceiros do Rio Bonito recuperam o processo de mudança de objeto, do cururu para a sociedade caipira, que teria se consumado no fim do primeiro semestre de 1953, como indicam anotações no esboço da tese interrompida, intitulada inicialmente “Poesia popular e mudança social” e depois “Poesia popular e estrutura social”. Ainda no Prefácio, Antonio Candido informa que teria começado a redigir a nova tese em agosto de 1953 e que a teria concluído em setembro de 1954. Tais dados sugerem que Os parceiros foi escrito em apenas um ano, informação que pode escapar ao leitor. A defesa ocorreria um mês depois, em outubro de 1954.

De todo modo, parece-nos significativo que a abertura de um livro apresente uma pesquisa anterior abandonada e seu argumento central. Vale a pena lembrar que as investigações sobre o cururu foram iniciadas em 1947 (Candido, 1964: xiii) e que todas as idas a campo anteriores a 1953 e o material nelas recolhido o tinham como motivação principal. Tudo isso sugere a importância que a pesquisa interrompida tinha para o então professor assistente da cadeira de sociologia II da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP).

O trabalho nunca foi concluído, mas partes foram publicadas, em particular o que deveria ser a Introdução da tese. Segundo o último Índice contido na pasta, que reúne todo o material que Antonio Candido havia produzido, a Introdução deveria conter dois capítulos: o primeiro intitulado “O que é e como foi feito este trabalho” e o segundo chamado “Origem e evolução de uma prática folclórica”. O primeiro foi modificado e incluído em Literatura e sociedade (1965), como “Estímulos da criação literária”, terceiro capítulo da primeira parte do livro. As menções diretas à pesquisa sobre o cururu foram excluídas, e a reflexão teórica e metodológica, ampliada e rearranjada. O segundo foi publicado como artigo na Revista de Antropologia, com o título “Possíveis raízes indígenas de uma dança popular” (Candido, 1956). Os capítulos centrais da tese, entretanto, não foram publicados nem mesmo como artigos.

O argumento da tese interrompida, resumido a posteriori pelo próprio Antonio Candido na abertura de Os parceiros, revela ainda conexões diretas com o programa de pesquisa liderado por Roger Bastide em sociologia da arte, cuja origem seria o curso sobre essa especialidade, ministrado por ele em 1939 e 1940. O livro Arte e sociedade (1945) foi, segundo as palavras do autor em sua epígrafe, “um resumo muito sintético” desses cursos.

Abordaremos neste texto as relações entre o programa de pesquisa em sociologia da arte liderado por Roger Bastide na FFCL-USP, nas décadas de 1940 e 1950, e a tese incompleta de Antonio Candido sobre o cururu. A análise desse material e de seu contexto permite avaliar conexões teóricas e metodológicas entre os autores e flagrar as possíveis disputas em jogo nesse momento em torno da sucessão do sociólogo francês na USP por seus discípulos e discípulas paulistas.

O PROGRAMA DE ROGER BASTIDE

Embora de modo flexível e aparentemente desinteressado, Roger Bastide criou e dirigiu um programa de pesquisa em sociologia da arte na FFCL-USP entre 1939 e 1954, o que se comprova pelo conjunto numeroso de publicações de sua autoria e de seus alunos no período e depois, como resultados indiretos. Todos esses trabalhos encamparam um mesmo método e objeto geral. Os primeiros livros de Bastide editados no Brasil, Psicanálise do cafuné e estudos de sociologia estética brasileira (1941), A poesia afro-brasileira (1943), Imagens do Nordeste místico em branco e preto (1945) e Arte e sociedade (1945), são seus primeiros frutos. Formulações programáticas podem ser encontradas nesses trabalhos, como a seguinte, retirada da Introdução do primeiro:

Seria apaixonante a aplicação no Brasil da sociologia aos problemas da estética. [...] Eu desejaria, neste livro, contribuir com alguns fatos, que servissem de material a uma sociologia da arte brasileira, e isso no intuito, unicamente, de suscitar futuras pesquisas entre os estudiosos das coisas da arte e trabalhar, assim, junto com eles, e com o mesmo amor, para a glorificação da beleza do Brasil. (1941: 11-12)

O desenvolvimento mais consistente, contudo, do ponto de vista teórico, seria construído em Arte e sociedade. Com base num balanço inicial sobre o desenvolvimento da sociologia da arte em diversas vertentes analíticas, Bastide percorre as dimensões principais dos processos de produção e circulação artística, defendendo a tese de que, mesmo nas expressões eruditas e de vanguarda, a criação seria em boa medida coletiva, justificando a perspectiva que define como “estética sociológica”, envolvida no estudo da gênese social dos valores artísticos. Com esse objetivo geral, o autor examina as instâncias principais de tais processos, a produção, a recepção, as instituições e, por fim, o jogo de determinações recíprocas entre arte e sociedade. Seu esquema supõe, entretanto, a arte como instituição social, rompendo as visões dicotômicas que implicam uma separação estanque entre tais domínios.

Desse ponto de vista, a análise sociológica seria indispensável a qualquer estudo sistemático da atividade artística e de seus produtos. Por tudo isso, a sociologia da arte e da cultura propiciaria um olhar privilegiado para entender processos históricos e sociais mais amplos. Vale mencionar que sua proposta seria reconhecida posteriormente na França, sobretudo por Nathalie Heinich, como precursora da sociologia da arte e da cultura constituída no terço final do século XX, em especial em torno de Pierre Bourdieu.1

Na primeira edição do livro (1945), Roger Bastide apresenta, no fim de cada capítulo, uma seção intitulada “assuntos para pesquisa”, suprimida na segunda edição (1971). É possível interpretar tais sugestões como tópicos de um programa de pesquisa em sociologia da arte que o sociólogo francês teria liderado entre as décadas de 1940 e 1950 na FFCL-USP. Esse programa supunha a realização de trabalhos sobre cultura erudita - artes plásticas, literatura, arquitetura, música, teatro - e popular - música, literatura e dança. Nas duas frentes, e também em seus estudos sobre religião, o autor defendia o método sociológico como eixo da análise a respeito desses diversos objetos. A ambição mais ampla desse programa seria perscrutar a sociedade brasileira e o processo de “interpenetração de civilizações” no qual ela havia se formado (Peixoto, 2000). A arte e a cultura seriam, portanto, “porta de acesso” privilegiada para entender esse país de raízes coloniais, escravista e “mestiço”.

Esse programa foi desenvolvido com base na cadeira de sociologia I, da qual Bastide era catedrático, e incorporou professores assistentes e auxiliares de ensino dessa e de outras cadeiras, que haviam sido seus alunos desde seu ingresso como professor na USP, em 1938. Bastide ficara responsável por lecionar sociologias especiais - enquanto Paul Arbousse-Bastide ensinava sociologia geral -, entre as quais ofereceu cursos de sociologias estética, estética brasileira, dos mitos, do folclore, entre outros. Ele publicou diversos trabalhos derivados de tais cursos, como livros e artigos em revistas especializadas, bem como em jornais de grande circulação. Além disso, estimulou seus alunos a realizarem pesquisas, propondo temas e objetos que deveriam ser abordados na mesma perspectiva analítica. Esse foi o caso, por exemplo, da pesquisa de Gilda de Mello e Souza sobre a moda, proposta por ele e notavelmente realizada por ela (Braga, 1994).

Além desse trabalho, mesmo depois do retorno de Bastide à França, em 1954, várias análises sobre cultura erudita de seus antigos alunos acionaram os pressupostos teóricos e metodológicos do programa formulado pelo sociólogo francês. De tal modo, mesmo que indiretamente, poderíamos interpretar como resultados do projeto coletivo liderado por ele os trabalhos em sociologia da literatura de Antonio Candido, sobretudo A formação da literatura brasileira (1959) e Literatura e sociedade (1965); os de Ruy Coelho, “Marcel Proust e nossa época” (1941) e “Aspectos sociológicos da obra de Kafka” (1966); os de sociologia da arte de Lourival Gomes Machado, Retrato da arte moderna no Brasil (1947) e O barroco mineiro (1969); os estudos sobre cinema de Paulo Emílio Salles Gomes, em particular Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte (1974); os estudos sobre teatro de Décio de Almeida Prado, como João Caetano: o ator, o empresário e o repertório (1972).

A novidade de todos esses trabalhos não está no objeto cultural, erudito ou popular, já enfrentado por críticos e ensaístas, sobretudo no modernismo, e sim no esforço de inscrever tais objetos na vida social por meio de uma análise sociológica.2

Sobre cultura popular, além do próprio Bastide - especialmente nos livros A psicanálise do cafuné (1941) e Sociologia do folclore brasileiro (1959) -, realizaram trabalhos, mais diretamente relacionados ao programa de pesquisa em questão: Oswaldo Elias Xidieh, em Narrativas pias populares (1967) e Semana santa cabocla (1972); Lavínia Costa Villela, em Algumas danças populares do estado de São Paulo (1945) e “Festa do Divino em São Luiz do Paraitinga” (1946); Florestan Fernandes, em “As trocinhas do Bom Retiro” (1944), Folclore e mudança social na cidade de São Paulo (1961) e O folclore em questão (1978); Maria Isaura Pereira de Queiroz, em Sociologia e folclore: a dança de São Gonçalo num povoado baiano (1958) e Carnaval brasileiro: o vivido e o mito (1992); e Antonio Candido, em “Possíveis raízes indígenas de uma dança popular” (1957).3

Nessa última seara, a perspectiva analítica de Bastide, estabelecendo uma distância entre sua proposta e a dos folcloristas,4 extensiva aos trabalhos dos estudantes, pode ser apreendida em passagens como a seguinte, retirada de A sociologia do folclore brasileiro:

Em todo o caso, o fato aí está: se as estruturas sociais se modelam conforme as normas culturais, a cultura por sua vez não pode existir sem uma estrutura que não só lhe serve de base, mas que é ainda um dos fatores de sua criação ou de sua metamorfose. O folclore não flutua no ar, só existe encarnado numa sociedade, e estudá-lo sem levar em conta essa sociedade é condenar-se a apreender apenas sua superfície. (1959: 2, grifos nossos)

Como dito, Bastide apostava na sociologia da arte (erudita e popular) como perspectiva importante para problematizar as transformações em curso na sociedade brasileira. Desse ponto de vista, um texto como “A sociologia do folclore brasileiro”, redigido em 1949, pode ser entendido como esboço de interpretação das diversas expressões e substratos sociais do folclore brasileiro a ser ampliado por uma série de pesquisas posteriores, com a expectativa de “abrir terreno e formular hipóteses de trabalho, indicando novos campos de ação” (1959: 10). A questão decisiva seria averiguar, nas diversas manifestações particulares, a função exercida pelo folclore em processos de ajustamento, resistência e recriação social articulados às transformações gerais em curso.

O autor investiga a formação do folclore brasileiro desde a colonização. A interação entre os troncos português, africano e ameríndio, mais por justaposição do que por fusão, caracterizaria esse processo. O primeiro seria predominante, mas teria ocorrido também a assimilação de tradições negras e ameríndias, frequentemente mobilizadas, para o autor, em resistência à dominação branca. Em relação às tradições ameríndias, Bastide avaliava com otimismo suas possibilidades de sobrevivência:

As civilizações originais ameríndias eram assim destruídas, mas delas subsistiam pelo menos alguns elementos motores. Alguns desses jogos conservaram-se até agora e constituem um dos primeiros elementos do folclore brasileiro. O sairé, o cateretê, a dança da Santa Cruz, o cururu são testemunhos desse sincretismo entre o catolicismo jesuíta e os jogos dos indígenas. (1959: 17)

Do ponto de vista sociológico, o que o interessava em primeiro plano não eram as manifestações em si mesmas, mas o enraizamento nos grupos sociais, necessariamente envolvidos em sua transmissão e transformação. Essa abordagem se manifesta num texto posterior centrado no cururu - “O ‘cururu’, expressão da alma paulista” -, publicado em O Estado de S. Paulo. Nele, Bastide chama a atenção para a centralidade do cururu nas origens e nas transformações da sociedade paulista, em geral, e caipira, em particular, daí o título do artigo. Vejamos um parágrafo do texto:

Remontando-se assim o curso da história, o “cururu” não permanece coisa morta, um fragmento de folclore cristalizado, vai evoluir, pois, cheio de vida, nunca perde sua força dinâmica, adaptando-se a todas as transformações da estrutura social, o que bem prova o seu caráter de expansão do gênio paulista - o qual se conserva o mesmo através de todas as mudanças. A urbanização do Estado de S. Paulo, com efeito, não destruirá o “cururu”, como no caso de tantas formas do folclore, particularmente o folclore africano. Apenas essa urbanização vai fazer que apareça ao lado do “cururu” rural, um novo tipo de “cururu”, o “cururu” urbano. (1951: 5)

A análise subsequente, realizada por Bastide, a respeito dos dois tipos de cururu e dos significados das mudanças é retomada e aprofundada na tese interrompida de Antonio Candido (1953), como veremos adiante, o que poderia sugerir que o último se apoiara na formulação anterior do francês. Mas sugerimos que houve a construção compartilhada entre mestre e discípulo de uma interpretação sociológica sobre o cururu, lembrando que Candido já trabalhava com o cururu desde 1947. Na sequência do texto, avançaremos com uma abordagem atenta ao contexto institucional e às relações travadas entre ambos a fim de subsidiar uma discussão sobre os possíveis motivos da interrupção da tese por Antonio Candido.

ROGER BASTIDE, ANTONIO CANDIDO E O CURURU

O programa de pesquisa liderado por Roger Bastide teve como suporte vínculos pessoais muito próximos, envolvendo trabalho e amizade, entre ele e seus alunos e alunas. Além da bibliografia (Braga, 1994; Pontes, 1998; Peixoto, 2000; Garcia, 2002; Pulici, 2008), inúmeros depoimentos sugerem que o sociólogo francês logrou construir, desse modo, um ambiente de trabalho muito profícuo. Em alguns casos, com Florestan Fernandes, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido, as relações eram muito estreitas, embora houvesse tensões entre mestre e discípulos e entre estes, envolvidos nas disputas pela progressão na carreira acadêmica, inerentes a esse contexto.

Além das relações institucionais, das pesquisas orientadas, das influências teóricas, o casal Gilda e Antonio Candido traduziu muitos trabalhos de Bastide - livros, artigos científicos, artigos para jornais -, assim participando diretamente, quase como coautores, da produção intelectual do sociólogo francês (Candido, 1997: 12), o que teria enorme impacto no trabalho e no pensamento de ambos, como atestam trechos de dois depoimentos de Antonio Candido:

Além da produção escrita, foi grande a sua influência através do contato direto com amigos e alunos. Eu, pessoalmente, lhe devo muito e às vezes me surpreendo relendo a anos de distância algum escrito dele, ao verificar até que ponto certas ideias que julgava minhas são na verdade não apenas devidas à sua influência, mas já expressamente formuladas por ele.

[...]

Os pontos de vista de Bastide se incrustaram de tal modo na minha mente, que perdi a noção do quanto lhe devo” (1978, 1990 e 1996: 99 e 105).

A trajetória incomum de Antonio Candido foi favorecida, inicialmente, por sua origem social elevada. Não obstante, em função das circunstâncias nas quais se desenvolveu sua carreira, tensões diversas - crítica literária/sociologia, neutralidade política/militância, crítica estética/crítica sociológica - se relacionam com seu dilema central: decidir-se profissionalmente pela sociologia ou pela crítica literária. Antonio Candido nasceu em 1918, no Rio de Janeiro, mas toda a sua infância transcorreu no interior de Minas Gerais. Seu pai, médico, e sua mãe descenderam de famílias tradicionais dos dois estados5 e tiveram acesso privilegiado à cultura própria dos círculos intelectualizados das oligarquias estaduais.

Desse modo, obteve educação elevada desde criança. Sua iniciação literária foi precoce, mas adquiriu formação intelectual sistemática sobretudo no curso de ciências sociais da FFCL-USP (1939-1941), em especial sob o ensino de professores da missão francesa. Na faculdade, formou com outros jovens estudantes o Grupo Clima,6 do qual fizeram parte Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes e Gilda de Moraes Rocha (posteriormente Gilda Rocha de Mello e Souza), com quem se casou. A experiência deu projeção a todos no cenário intelectual paulista da década de 1940 (e seguintes). A aliança matrimonial, em 1943, foi decisiva profissionalmente ao casal, apesar de ter impulsionado mais a ele.7 No mesmo ano, Antonio Candido assumiu o cargo de primeiro assistente de Fernando de Azevedo, na cadeira de sociologia II da FFCL-USP, na qual permaneceu até 1958. Quase ao mesmo tempo, passou a escrever semanalmente na Folha da Manhã (1942-1945) e, depois, no Diário de São Paulo (1945-1947), ingressando no círculo prestigioso dos críticos que escreviam para os grandes jornais de São Paulo e Rio de Janeiro.8

A derrota no conhecido concurso na FFCL-USP para a cadeira de literatura brasileira em 1945 - vencido por Mário Pereira de Souza Lima -, apesar do seu excelente desempenho e de sua aprovação, que lhe garantiu o título de livre-docente em letras, o levaria a apostar mais decididamente na carreira de sociólogo. Em 1947, afastou-se dos jornais e passou a se dedicar ao ensino e à pesquisa sociológica, o que se explica também pela mudança do regime de trabalho dos “professores assistentes”, que passou de tempo parcial para integral.

A partir dessa data, até o fim da década seguinte, publicou um conjunto significativo de textos sociológicos9 e iniciou a preparação de sua tese em sociologia, que, como vimos, se voltou antes ao cururu e depois à transformação dos meios de vida do caipira paulista. A tese Os parceiros do Rio Bonito seria defendida em 1954 e publicada como livro somente dez anos depois. É preciso lembrar que, no mesmo período, o autor escreveu e publicou A formação da literatura brasileira (1959), sua obra mais reconhecida.

A definição do tema inicial do doutorado foi condicionada por sua relação com Bastide e afinada com seu programa de pesquisa, a despeito de orientada formalmente por Fernando de Azevedo, descompasso ao qual voltaremos no próximo item. A escolha pelo cururu teria ocorrido após pesquisa de campo solicitada por Bastide sobre atividades folclóricas em Piracicaba, em 1946, realizada em conjunto com Gilda (Candido, 1996/2018: 263). A partir de então, Candido iria diversas vezes a campo, entre 1947 e 1953, nos municípios paulistas de Piracicaba, Tietê, Porto Feliz, Conchas, Anhembi, Botucatu e Bofete - a última viagem a esta cidade, em janeiro/fevereiro de 1954, já visava recolher informações para Os parceiros -, além de Cuiabá e Várzea Grande, no Mato Grosso, com o intuito de recolher dados sobre o cururu, compartilhados e discutidos com Bastide.

O material inédito reunido na pasta “Poesia popular e mudança social”, apesar de incompleto, comprova que Antonio Candido trabalhou na tese até agosto de 1953, quando decidiu mudar o rumo do trabalho. De acordo com o último sumário da tese em preparação, ela deveria se dividir, além de Prefácio, Introdução e Conclusão, em três partes principais, voltadas à descrição, à análise e à interpretação dos três tipos de cururu - “de sítio”, “de escritura” e “de assunto” -, que expressariam três etapas na transição da “comunidade tradicional” para a “sociedade urbanizada”, construção tipológica apoiada em boa medida no livro Folk Culture of Yucatan, de Robert Redfield, que o autor havia lido nos seminários de Emílio Willems, como explicitado na Introdução.

Não obstante, as relações entre a tese do cururu e o programa de Bastide podem ser percebidas nos diversos níveis de construção do trabalho. No primeiro item da Introdução da tese, depois reelaborado e incluído, como vimos, em Literatura e sociedade (1965), com o título “Estímulos da criação literária”, as diferenças entre literatura popular e erudita são discutidas, sobretudo, em função do processo de individualização da criação literária, que caracterizaria a passagem histórica entre uma e outra.10 Demarcando os terrenos da crítica literária e da sociologia, a primeira seria reivindicada como a disciplina mais diretamente capacitada ao estudo da literatura erudita. A sociologia, diante desse objeto, seria uma disciplina auxiliar, eventualmente descartável. No caso da literatura popular, entretanto, o jogo se inverteria, assumindo a sociologia (e a antropologia) a condição de disciplina prioritária, apta a reconstruir a lógica necessariamente coletiva da criação literária e artística nas sociedades tradicionais.

Em relação às posições assumidas por Bastide em Arte e sociedade, sintetizadas acima, Candido é mais reticente quanto ao alcance analítico da sociologia em face dos objetos literário e artístico. Para o primeiro, o estudo sistemático da literatura erudita não poderia prescindir do instrumental sociológico; para o segundo, essa abordagem figuraria como possível, mas não obrigatória, em função da especificidade do objeto em questão. No estudo da literatura popular, as posições de ambos coincidem. Nessa direção, as manifestações populares ou folclóricas só poderiam ser compreendidas por meio da abordagem sociológica, que permitiria aprendê-las como práticas ligadas, nos termos do autor, “a uma dada estrutura, no caso, o cururu e a sociedade paulista em mudança” (Tese inédita: sem numeração).

A reflexão teórica conduzida na Introdução da tese interrompida estava articulada à pesquisa sobre o cururu, e, nesse formato, aparentemente mais restrito - em relação à versão posterior incluída em Literatura e sociedade -, a ambição teórica da tese se expressava em toda a sua amplitude. Tratava-se de escapar da reflexão abstrata sobre as relações entre literatura e sociedade e “buscar sua articulação real que se dá no terreno particular dos casos concretos” (Tese inédita: sem numeração). Mais especificamente, o autor pretendia, com sua pesquisa sobre o cururu, dar conta de dois grandes desafios. O primeiro seria o “estudo da emergência progressiva do indivíduo na criação literária”, relacionado à separação entre o criador e o público, transformação decisiva não apenas no caso analisado, mas na própria conformação histórica da literatura erudita no Ocidente:

Procuraremos assim sugerir de que modo a literatura erudita se desprende, com as suas características próprias, da literatura popular - sem assistir a todo o processo, mas apenas indicando a sua direção e parando por assim dizer no limiar da literatura erudita (Tese inédita: sem numeração).

O segundo desafio da pesquisa seria problematizar os efeitos da “mudança sociocultural sobre as formas literárias”, mas também as funções variadas desempenhadas pela literatura popular (o cururu) no processo de mudança social (urbanização) que afetava a sociedade caipira. Nessa direção, talvez a grande pretensão da sociologia da cultura de Bastide - a de que, com base num objeto restrito, a análise poderia problematizar processos históricos e sociais amplos - é reivindicada por Antonio Candido no trecho final da Introdução:

Antes que nos façam a censura de que o assunto é demasiado restrito, limitando-se a um dos traços do folclore paulista, lembremos que em bom método científico devemos começar pelos casos mais simples. Neles, com efeito, é possível delimitar e de algum modo reduzir os fatores, baseando a explicação na série menos complexa de fenômenos - sobretudo em disciplina como esta, caracterizada pela intervenção de tantos imponderáveis, variáveis sociais e pessoais que tornam bastante precária a pretensão de causalidade que não se revestir da devida modéstia metódica. E aos que disserem que o tema é não apenas restrito, mas tênue, diremos que se para as andorinhas de Machado de Assis um desvão do telhado é o mundo, também o é para o sociólogo qualquer desvão de realidade, contanto que possa, por meio dela, construir uma visão coerente das coisas (Tese inédita: sem numeração).

A análise detida do material etnográfico é realizada no miolo da tese, baseada na descrição, na análise e na interpretação (infelizmente não concluída) das modalidades de cururu construídas pelo autor. A descrição do que seriam o cururu de sítio, o cururu de escritura e o cururu de assunto é minuciosa e sensível às diversas dimensões dessa modalidade de literatura popular. No que toca aos dois primeiros tipos, o calendário de festas tradicionais é reconstituído, e em seu interior o cururu é exposto em toda a sua complexidade formal, incluindo a louvação, a coreografia, os cantos, os assuntos etc. Para o último tipo, a prática folclórica é examinada no compasso de sua mudança, diretamente condicionada pela urbanização, que traz à tona um processo de autonomização em relação ao sistema social de origem, que levaria “do folclórico ao popularesco, do sagrado ao secular, do coletivo ao individual” (Tese inédita: sem numeração).

Na parte seguinte, de análise, o cururu é discutido do ponto de vista das transformações de suas funções nos diversos estágios de assimilação da sociedade caipira à sociedade urbana. O cururu de sítio, “como prática eminentemente coletiva”, seria entendido como um elemento simbólico integrador das comunidades tradicionais. Diante da urbanização, nas cidades, o cururu de assunto, individualizado e secularizado, favoreceria a inserção do caipira na sociedade em mudança, amaciando tensões. Do outro lado, na sociedade tradicional acossada pelos elementos materiais e culturais urbanos, o cururu de assunto amorteceria impactos, favorecendo uma mudança social e cultural menos disruptiva.

A TESE INTERROMPIDA

Sabemos que a tese foi interrompida e finalizaremos este artigo especulando as possíveis razões dessa decisão. A mudança de objeto, do cururu para a sociedade caipira, teria sido uma decisão tomada, segundo o autor, pela falta de conhecimento da linguagem musical, que empobreceria o trabalho. Acreditamos que tal decisão possa ter sido também afetada por outros motivos.

Uma interpretação recente sugere que a alteração de percurso teria como referência a militância política de Antonio Candido no Partido Socialista Brasileiro (PSB), cuja direção nacional teria solicitado às seções estaduais pesquisas sobre o problema agrário brasileiro, a fim de subsidiar a atuação do partido no debate parlamentar sobre a reforma agrária, iniciado em 1948 (Gimenes, 2018).11 Nessa direção, Os parceiros enfrentaria mais diretamente essa conjuntura política do que a tese interrompida sobre o cururu. Outro motivo, de ordem institucional, pode ser associado a esse de ordem política. Embora não seja possível alcançar uma resposta definitiva para esse problema, sugeriremos, baseados em alguns indícios, que esse desvio de rota teria também relação com as disputas em torno da sucessão de Bastide na cadeira de sociologia I.

O problema dessa sucessão foi discutido pela bibliografia, sobretudo pelas análises interessadas nas clivagens de gênero vigentes nesse período inicial de institucionalização das ciências sociais em São Paulo (Pontes, 1998; Spirandelli, 2011; Silva, 2016), enquanto vigorava o sistema de cátedras. Nessa direção, a disputa pela cátedra teria se dado entre Gilda de Mello e Souza, então a primeira assistente de Bastide nessa cadeira, e Florestan Fernandes, à época o segundo assistente de Fernando de Azevedo na sociologia II.12

Gostaríamos de aventar a possibilidade de que Antonio Candido também nutrisse a expectativa de ser o sucessor de Bastide e que, mesmo sendo falsa essa hipótese, o desfecho dessa disputa institucional, a favor de Florestan, teria afetado decisões profissionais e intelectuais futuras de Antonio Candido, como veremos a seguir. Sugerir a existência de uma disputa entre ambos nesse episódio não implica desconsiderar a forte amizade que nutriam um pelo outro. Se competiram, foi em função das constrições do regime de cátedra, que restringia demais as possibilidades de progressão na carreira, mesmo para os jovens professores e professoras mais destacados.

A decisão tomada por Bastide, de indicar Florestan Fernandes para substituí-lo na cátedra, teria se tornado pública no fim de 1952 e, segundo o depoimento de Florestan, provocado um mal-estar em relação a Fernando de Azevedo, então o catedrático da sociologia II:

Durante o longo período em que nós convivemos, fui assistente dele de 45 até 51,52, não me lembro direito agora. A partir de certo momento, o Bastide me convidou para passar para a cadeira dele, trocando de segundo assistente da cadeira II para ser primeiro assistente da cadeira I. Foi um pouco difícil a transferência, tive até atritos com Fernando de Azevedo, porque ele ficou ciumento, mas a questão foi aprovada no Departamento [...] Acontece que o Bastide disse que a escolha que ele ia fazer era do seu sucessor e que ele não escolheria outra pessoa senão eu, que ele havia me consultado, que eu estava de acordo, então o Departamento tinha que decidir. O Departamento decidiu a favor da transferência e o Fernando de Azevedo realmente não gostou, não ajudou nada na transferência e eu tive até grande conflito com ele por causa disso. Mas, depois, tudo terminou bem porque somos duas pessoas de bom caráter e os atritos foram superados sem ressentimento (2015: 193).

Nesse momento, Bastide solicitou a transferência de Florestan da sociologia II, da qual ele era o segundo assistente, para a sociologia I, com a intenção de viabilizar a sucessão futura, que afinal ocorreria no fim de 1954. Esse episódio deve ser contextualizado.

Não sabemos por que não foi realizado um concurso de cátedra, uma vez que essa era a regra institucional vigente, segundo o Regimento de Concurso para Provimento dos Cargos de Professor Catedrático e Livre-Docente na FFCL-USP, aprovado no Decreto nº 13.426, de 23 de junho de 1943. De acordo com o Anuário da FFCL-USP (1939-1949), nesse período, 14 cadeiras em vários cursos da faculdade foram providas por concurso. Em ciências sociais, entretanto, o primeiro concurso propriamente dito ocorreria apenas em 1956, para a cadeira de política, vencido por Lourival Gomes Machado. Todas as nomeações anteriores decorreram de arranjos internos, sendo bastante provável que, desde o começo da década de 1940, a influência exercida por Fernando de Azevedo, diretor da faculdade entre 1941 e 1943, tenha sido determinante para a reorganização do curso.

Em 1941, foram unificadas as duas cátedras de sociologia (I e II) e criadas as de antropologia e política. Roger Bastide assumiu a de sociologia; Paul Arbousse-Bastide, a de política; e Emílio Willems - antigo assistente de Fernando de Azevedo na sociologia educacional -. a de antropologia. Após o término do mandato de Fernando de Azevedo como diretor da faculdade, em 1943, a cadeira de sociologia foi novamente dividida. Bastide assumiria a sociologia I, e o próprio Fernando de Azevedo, a sociologia II.

Nesse período, foram também contratados diversos professores assistentes para essas cadeiras, entre os quais Gilda, Florestan e Antonio Candido. Ela, por Bastide, na sociologia I, e eles por Fernando de Azevedo, na sociologia II. As duas grandes promessas masculinas foram recrutadas por Fernando de Azevedo, apesar da filiação intelectual de ambos a Roger Bastide.

O quadro é revelador das disputas em curso. As cátedras de sociologia eram ocupadas por um dos professores mais destacados da missão francesa, que, como vimos, liderou um programa de pesquisa vigoroso e produziu, em curto prazo, escritos numerosos e qualificados. Sob sua regência, com exceção de Mário Wagner Vieira da Cunha, todos os cargos de professor assistente foram supridos por mulheres13 - Lucila Hermann, Lavínia da Costa Villela, Gioconda Mussolini, Gilda de Mello e Souza -, até a transferência de Florestan, no fim de 1952. Sugerimos que Bastide ocupava o polo científico do curso de ciências sociais.

De outro lado, estava o articulador institucional do curso, herdeiro direto de Julio Mesquita Filho e representante do projeto fundacional que Irene Cardoso (1982) designou como “comunhão paulista”, no polo político/institucional. Filiados intelectualmente a Roger Bastide e institucionalmente a Fernando de Azevedo, Antonio Candido e Florestan Fernandes avançaram na carreira acumulando trunfos entre as décadas de 1940 e 1950, no decorrer do período fundacional de implantação das ciências sociais em São Paulo. Mas cada um o fez à sua maneira, direcionados pelos capitais (social e cultural) de que dispunham - o primeiro como herdeiro, dividido entre a crítica literária e a sociologia; o segundo, como trânsfuga de classe, totalmente dedicado à sociologia.

No início dos anos de 1950, quando Bastide já havia decidido voltar para a França, Gilda, Antonio Candido e Florestan eram os candidatos prováveis à sucessão,14 e é possível que uma das razões para a não realização do concurso fosse evitar o enfrentamento interno e externo, na eventualidade de candidatar-se alguém de fora da USP. Florestan obtivera até então os títulos de mestre em ciências sociais/antropologia (Elsp, 1947) e de doutor em sociologia (USP, 1951), estava trabalhando com Bastide na pesquisa sobre preconceito racial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), fato que certamente pesou na decisão sobre a sucessão, e era segundo assistente de Fernando de Azevedo na cadeira de sociologia II.

Gilda era a primeira assistente de Bastide, tendo ingressado na cadeira em 1940, e havia se doutorado em sociologia em 1950. Contra ela pesava sua condição feminina, dada a assimetria de gênero vigente a favor dos homens, e por isso suas chances eram reduzidas. Não seria tão estranha, então, a pretensão eventual de Antonio Candido, esposo de Gilda, de ser o escolhido, e suas credenciais o habilitavam com folga a pleitear o cargo em disputa. Tanto quanto Florestan, mas em outras frentes, Candido compartilhara projetos e interesses comuns com Bastide, sobretudo no plano da sociologia da literatura erudita e popular. Embora não dispusesse do título de doutor em sociologia, era o único livre-docente entre os três - tal título era, depois da cátedra, o segundo mais elevado na hierarquia do corpo docente da faculdade, superado apenas pelo de catedrático.

Decidida a sucessão pela indicação de Florestan por Bastide no fim de 1952, consumava-se também a vitória do sociólogo francês e do polo científico na queda de braço com o polo institucional representado por Fernando de Azevedo, que teve que aceitar a decisão. A disputa pela sucessão envolvia, assim, além dos pretendentes diretos ao cargo, os catedráticos, que buscavam controlar esse processo, o que seria a posteriori explicitado por Florestan em depoimento:

Éramos subordinados e uma espécie de auxiliares que [Fernando de Azevedo] via com muito egoísmo. Ele não estava lá querendo que fizéssemos carreira. Ele próprio queria fazer nossa carreira, queria promover a nossa ascensão no curso, e esta era uma matéria na qual não se podia mexer. Não posso contar alguns exemplos, para ilustrar, mas ele estava decidido que seríamos professores, e quem nos levaria as cartas seria ele. Quer dizer, absorveu ambições que deveriam ser nossas e isso, eu notei, chegava até a nos prejudicar, porque, é claro, nem eu nem Antonio Candido somos pessoas de ambição destituída de valor. Tínhamos um senso de valor e havia um conflito de geração. Essa relação que ele teve conosco era nitidamente amorosa, mas ao mesmo tempo era uma relação de posse, que ditaria uma espécie de capacidade dele em decidir o nosso destino. (1995: 191-192)

Florestan Fernandes faria, em 1953, sua livre-docência, possivelmente para dirimir qualquer dúvida na comparação entre as credenciais dos candidatos. Lembramos que Antonio Candido era doutor e livre-docente em letras desde 1945 e que, conquanto não tivesse doutorado em sociologia, estava em vias de obter o título e poderia, se tivesse sido o indicado, acelerar o passo e defender a tese. De todo modo, em 27 de novembro de 1952 Florestan Fernandes seria transferido da sociologia II para a sociologia I e nomeado primeiro assistente de Roger Bastide. Em 1º de janeiro de 1955, assumiria provisoriamente a cátedra como “professor contratado”, até a efetivação, ocorrida por concurso, apenas em 23 de fevereiro de 1965. Como se sabe, anos mais tarde, em 24 de abril de 1969, ele seria afastado por aposentadoria compulsória, por aplicação do AI-5, pela ditadura militar (Sacchetta, 1996).

Apesar de não ser possível comprovar a hipótese de que o desvio de rota no doutorado de Antonio Candido tenha sido afetado por esses acontecimentos, ela ganha força se lembrarmos que a decisão se deu no calor da hora, sob a impacto da escolha de Bastide. Isso pode ter acontecido mesmo que Antonio Candido não tivesse a pretensão explícita de assumir a cátedra e que sua reação de mudar de objeto, por essa razão, tenha sido inconsciente. Vale lembrar a continuidade direta que havia entre a tese sobre o cururu e o programa de Bastide, do qual Os parceiros o afastaria. Além disso, a mudança o aproximaria do debate sobre o desenvolvimento capitalista, que, desde o pós-guerra e a criação da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), se constituiu como tema central das ciências sociais em toda a América Latina. A intenção de se aproximar dessa discussão pode ter sido também uma motivação para a mudança de objeto. Ao examinar as transformações da sociedade caipira diante do avanço da economia de mercado, Antonio Candido enfrentou essa questão pelo avesso.

Nos anos seguintes ao doutorado de Antonio Candido (1954) e à nomeação de Florestan como professor contratado (1955) à frente da cátedra de sociologia I, Fernando de Azevedo se esforçaria para remediar a situação de Antonio Candido, para quem a posição de assistente se tornara insuficiente. Esse foi um dos motes das cartas trocadas por Fernando de Azevedo e Antonio Candido em 1957. Fernando de Azevedo propôs inicialmente a recriação da cadeira de sociologia da educação,15 que acabou não vingando. Ele enviou a Antonio Candido uma cópia do documento que redigiu no dia 7 de agosto de 1957, autorizado pelo Conselho do Departamento de Sociologia e Antropologia, para ser enviado à Congregação da Faculdade. Tal documento propunha duas medidas a serem tomadas visando à progressão da carreira de Antonio Candido:

Certamente o nome mais indicado para essa disciplina [Sociologia da Educação], a ser criada, é o Professor Antonio Candido. Não há, neste Departamento, duas opiniões a respeito. Mas, como a criação de uma disciplina depende de lei e a marcha de um projeto de estatuto legal, por maior empenho que se ponha em apressá-la, é sempre um pouco lenta, propõe o Conselho de Professores do Departamento 1) a nomeação do Prof. Antonio Candido de Mello e Souza para professor Cooperador da cadeira de Sociologia II, e 2) simultaneamente, a criação da disciplina de Sociologia da Educação, para a qual será contratado o referido Professor por proposta deste Departamento.

Antonio Candido respondeu a Fernando de Azevedo em carta datada de 12 de agosto. Gostaríamos de destacar três pontos dessa carta. Antonio Candido (1) recusou o cargo de professor cooperador em função da (2) expectativa de retomar a pesquisa sobre o cururu, que havia sido interrompida em 1953, o que sabemos hoje que acabou não acontecendo, mas que reforça a importância que ele atribuía a essa pesquisa, a despeito de ter ou não conhecimento musical para concluí-la. Por fim, (3) aceitou a possibilidade de assumir a cadeira de sociologia da educação, o que também não se concretizaria. De qualquer forma, as cartas trocadas demonstram o empenho de Fernando de Azevedo em solucionar em definitivo a situação profissional de Antonio Candido, o que viria a acontecer pouco tempo depois.

Tal solução se concretizaria, como se sabe, no início da década de 1960, já com Antonio Candido afastado da sociologia e lecionando na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis. Fernando de Azevedo foi quem articulou, no curso de letras da FFCL-USP, a criação de uma nova cátedra, a de teoria geral da literatura - depois teoria literária e literatura comparada -, segundo consta em carta que enviou a Antonio Candido em 22 de maio de 1959 (Anexo). Se essa interferência foi decisiva à criação da cátedra, não podemos esquecer que articulações como essa foram frequentes durante a vigência do sistema de cátedras. Devemos lembrar também que, no mesmo ano de 1959, seria finalmente publicada A formação da literatura brasileira, que inscreveria seu autor no panteão da história literária e da crítica brasileira, justificando com sobras sua necessária nomeação como catedrático, depois de tanta reviravolta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. A sociologia no brasil: Florestan Fernandes e a escola paulista. In: MICELI, Sérgio(org.). História das ciências sociais no Brasil. São Paulo: Sumaré/Fapesp, 1995, p. 107-131. [ Links ]

BASTIDE, Roger. Arte e sociedade. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1945. [ Links ]

BASTIDE, Roger. Imagens do Nordeste místico em branco e preto. Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1945 [ Links ]

BASTIDE, Roger. O cururu: expressão da alma paulista. O Estado de S. Paulo, 1951. [ Links ]

BASTIDE, Roger. Psicanálise do cafuné e estudos de sociologia estética brasileira. Curitiba: Guaíra, 1941. [ Links ]

BASTIDE, Roger. Sociologia do folclore brasileiro. São Paulo: Editora Anhembi, 1959. [ Links ]

BRAGA, Maria Lúcia Santana. A sociologia pluralista de Roger Bastide. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Universidade de Brasília, Brasília, 1994. [ Links ]

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750 - 1880. 14. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2013. [ Links ]

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965. [ Links ]

CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito. São Paulo: José Olympio, 1964. [ Links ]

CANDIDO, Antonio. Poesia popular e estrutura social. Tese (inacabada), 1953. [Inédito]. [ Links ]

CANDIDO, Antonio. Possíveis raízes indígenas de uma dança popular. Revista de Antropologia, v. IV, n. 1, jun. 1956. [ Links ]

CANDIDO, Antonio CARDOSO, Irene. A Universidade da Comunhão Paulista. São Paulo: Cortez, 1982. [ Links ]

CORRÊA, Mariza, MICELI, Sérgio(org.). História das ciências sociais no Brasil. São Paulo: Sumaré/Fapesp, 1995. [ Links ]

GARCIA, Sylvia Gemignani. Destino ímpar: sobre a formação de Florestan Fernandes. São Paulo: Editora 34, 2002. [ Links ]

GIMENES, Max Luiz. Entre parceiros e companheiros: por uma releitura política de Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 69, abr. 2018. [ Links ]

JACKSON, Luiz Carlos. A tradição esquecida: os parceiros do Rio Bonito e a sociologia de Antonio Candido. 2 ed.ampl. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018. [ Links ]

JACKSON, Luiz Carlos; BLANCO, Alejandro. Sociologia no espelho: ensaístas, cientistas sociais e críticos literários no Brasil e na Argentina. São Paulo: Editora 34, 2014. [ Links ]

PEIXOTO, Fernanda. Diálogos Brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2000. [ Links ]

PONTES, Heloisa. A paixão pelas formas: Gilda de Mello e Souza. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 74, 2006. [ Links ]

PONTES, Heloisa. Destinos mistos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. [ Links ]

PULICI, Carolina. Entre sociólogos: versões conflitivas da “condição de sociólogo” na USP dos anos 1950-1960. São Paulo: Edusp, 2008. [ Links ]

RAMASSOTE, Rodrigo. A formação dos desconfiados: Antonio Candido e a crítica literária acadêmica (1961-1978). Dissertação (Mestrado em Antropologia) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006. [ Links ]

SILVA, Dimitri. Jogo de damas: trajetórias de mulheres das ciências sociais paulistas. Cadernos Pagu, Campinas, v. 46, 2016. [ Links ]

SPIRANDELLI, Claudinei. Trajetórias intelectuais: professoras do curso de ciências sociais da FFCL-USP (1934-1969). São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2011. [ Links ]

1 Em A sociologia da arte, Nathalie Heinich atribui explicitamente a Roger Bastide o papel de precursor da “sociologia da arte de pesquisa”, constituída em torno de Pierre Bourdieu, ao mobilizar um “recorte moderno” que enfoca relações entre produtores, amadores e instituições, ultrapassando a disjuntiva entre arte e sociedade, propondo o entendimento da “arte como sociedade” (2008: 63-64).

2 Para uma análise detida das relações entre Roger Bastide e os modernistas, em especial com Mário de Andrade e Gilberto Freyre, ver Peixoto (2000).

3 Os trabalhos sobre cultura erudita foram realizados sobretudo por homens de origem elevada, ao passo que os trabalhos sobre cultura popular foram feitos por homens com origem popular/média e mulheres.

4 Sobre o movimento folclorista, ver Vilhena (1997).

5 Sobre a origem familiar de Antonio Candido, ver Ramassote (2013).

6 O nome do grupo derivou da revista Clima, que editaram entre 1941 e 1944. Sobre a revista e o grupo, ver Pontes (1998).

7 Sobre os dilemas de gênero enfrentados por Gilda de Mello e Souza e suas colegas de geração na FFCL-USP, ver: Corrêa (1995), Arruda (1995), Pontes (2006), Spirandelli (2011) e Silva (2016).

8 Sobre a crítica de rodapé de Antonio Candido, ver Ramassote (2011) e Rodrigues (2018).

9 Além da tese Os parceiros do Rio Bonito, constituem esse conjunto os trabalhos “Opinião e classes sociais em Tietê” (1947), “O nobre, contribuição para seu estudo” (1948), “Sociologia, ensino e estudo” (1949), “The Brazilian Family” (1951), “Euclides da Cunha sociólogo” (1952), “A estrutura da escola” (1953), “Informação sobre a sociologia em São Paulo” (1954), “A vida familial do caipira” (1954), “Papel do estudo sociológico da escola na sociologia educacional” (1955), “L’état actuel et les problèmes les plus importants des études sur les sociétés rurales du Brésil” (1955), “Possíveis raízes indígenas de uma dança popular” (1956) e “A sociologia no Brasil” (1957).

10 Em Psicanálise do cafuné, no capítulo “Dos duelos de tambores ao desafio brasileiro”, há uma discussão sobre o processo de individualização que acompanharia essa passagem.

11 A favor dessa hipóte1se, vale mencionar que Antonio Candido registrou no Anuário da FFCL-USP (1939-1949), publicado em 1953, que já em 1948 desenvolvia pesquisa sobre “Os meios de vida num grupo rural do município de Bofete” (1953: 657).

12 Muitas mulheres foram preteridas por homens nas disputas pela cátedra até 1969, quando esse sistema foi abolido. Pensando na cadeira de antropologia, Mariza Corrêa o qualificou como “patriarcal”: “Sistema hierárquico, o de cátedra era também patriarcal: se os titulares da cadeira foram todos homens, as assistentes eram todas mulheres” (1995: 54). Em relação à FFCL, Maria Arminda do Nascimento Arruda resumiu a participação das mulheres nos seguintes termos: “No período privilegiado por nós, 1939-1973, término do regime antigo, as mulheres ganhavam visibilidade crescente, mas não galgavam o nível mais alto da carreira” (1995: 219).

13 É um dado instigante que os primeiros doutorados em sociologia tenham sido concluídos por mulheres.

14 Em carta a Fernando de Azevedo, datada de fevereiro de 1949, Roger Bastide manifesta preocupação com sua substituição próxima e sinaliza a preferência por Florestan Fernandes. Em cartas posteriores, consultadas no Arquivo do IEB-USP, o assunto não é mais tratado.

15 Os dois textos de sociologia da educação de Antonio Candido foram publicados em 1953 e 1955.

16 Este artigo reivindica, para além de seu argumento, a valorização do trabalho coletivo nas ciências sociais. Agradecemos ao Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), especialmente à Elisabete Marin Ribas, pela possibilidade de consultar o Acervo Pessoal Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, a ser aberto ao público a partir de novembro de 2019. A carta transcrita, como anexo a este artigo, pertence a esse acervo.

Anexo

S. Paulo, 22 de maio de 1959

Meu caro Antonio Candido,

Como sabe, por várias vezes tenho me entendido com os professores da Seção de Letras sobre a criação, na Faculdade, de uma cadeira de Teoria Geral da Literatura. Nas conversas que tivemos, declarei expressamente que seria para v. a referida cadeira, cujo primeiro provimento, em caráter interino, deveria ser por contrato, até a efetivação nos termos das leis em vigor. Cadeira criada ad hominem. A ideia foi acolhida com a maior simpatia. Todos os que ouvi; de acordo. Ficaram de ver qual dentre eles devia encarregar-se da elaboração da proposta que seria apresentada por eles e assinada por todos nós. Mas parece que a iniciativa não é o forte daquele grupo. Nem a iniciativa nem a rapidez nas decisões. Grupo sem líder... Cada um fica à espera de que outro dê o primeiro passo.

V. compreende porque preferia que deles partisse a ideia desde a elaboração da proposta. Razões de política interna. Não queria dar-lhes a impressão de invadir território alheio. Como de lá, porém, estava custando vir a iniciativa, resolvi tomá-la, mas com as cautelas necessárias. Eu redigiria, como o fiz, a proposição que seria subscrita por eles em primeiro lugar e, a seguir, por nós do Departamento de Sociologia, pelos professores da Seção de Pedagogia, do Departamento de Filosofia, do de História e pelos demais amigos comuns. Assim a iniciativa, embora tomada por mim, passaria como da Seção de Letras, que se encarregaria de apresentar a proposta, incumbindo-nos nós de defendê-la na Congregação. Não desejaria, porém, dar início ao nosso trabalho sem antes ouvir v. sobre detalhes do texto de anteprojeto de lei e sobre os termos de sua justificação. É o que submeto ao seu parecer, pedindo-lhe a crítica e as alterações que julgar convenientes e v. fará, como obséquio especial a mim, com a maior liberdade e franqueza. Comuniquei somente ao Cruz Costa e ao Ruy Coelho que ia consultá-lo sobre o documento. Entendem os dois que assim devia agir.

Enquanto não for encaminhado por mim aos professores da Seção de Letras, dele ficam tendo conhecimento, sob reserva, somente aqueles dois amigos e v. Já estou no fim de minha carreira e caminhando mais rapidamente do que poderia pensar, para o de minha vida. Mas espero ter antes a alegria de vê-lo novamente entre nós nesta Faculdade que é sua, e em que continuará a servir, com sua capacidade excepcional, ao ensino e à cultura, na especialidade de sua predileção.

Escreva-me logo.

Com um saudoso abraço do sempre seu,

Fernando de Azevedo

Mesma casa

Rua Bragança, 55 - S. Paulo

Recebido: 10 de Março de 2019; Aceito: 17 de Junho de 2019

*

Mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo (USP), sob orientação de Fernando Pinheiro. (william.santana.santos@usp.br)

**

Doutorando em sociologia na Universidade de São Paulo (USP), sob orientação de Maria Arminda do Nascimento Arruda. (maxluizgimenes@gmail.com)

***

Professor de sociologia na Universidade de São Paulo (USP). (ljackson@usp.br)

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons