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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.12 n.32 São Paulo jan./abr. 1998

https://doi.org/10.1590/S0103-40141998000100009 

DOSSIÊ RÚSSIA

 

Sobre um desenho de Amedeo Modigliani

 

 

Nicolai Khárdjiev

 

 

QUERO DIZER algumas palavras sobre um desenho com o qual me extasiei a primeira vez há quase 35 anos. Na longa série de representações de Ana Akhmátova, pictóricas, gráficas e esculturais, o desenho de Modigliani, sem dúvida alguma, ocupa o primeiro lugar. Pela força e expressividade, só pode ser confrontado com ele o lacônico retrato em versos criado por Óssip Mandelstam.

Não deixa de ser interessante observar que a Akhmátova de Modigliani tem uma semelhança casual, mas quase retratística, com o seu desenho a bico de pena que está na coleção do Dr. Paul Alexander, Maud Abrantes écrivant au lit. Do ponto de vista estilístico, esses desenhos são distantes entre si e caracterizam diferentes etapas na evolução do pintor. Esboço ligeiro do natural, que obriga a lembrar os croquis geniais de Toulouse-Lautrec, o retrato de Maud Abrantes (1908) foi desenhado um ano antes do encontro de Modigliani com o escultor Constantin Brancusi.

Como se sabe, influenciado por Brancusi, Modigliani se apaixonou pela arte negra e se ocupou de escultura por alguns anos. O retrato de Akhmátova, que pertence a esse período, foi executado pelo artista como uma composição figural e extremamente parecida com um desenho preparatório para escultura. Aqui Modigliani atinge uma extraordinária expressividade do ritmo linear, lento e equilibrado. A ocorrência da forma artística do estilo monumental permite a esse pequeno desenho suportar quaisquer metamorfoses de proporção.

 

 

A amizade com Brancusi, um dos fundadores da arte abstrata, não levou Modigliani ao domínio do experimentalismo formal puro e simples. No período da hegemonia do cubismo, Modigliani, sem temer as censuras de tradicionalismo, permaneceu fiel à imagem humana e criou uma galeria admirável de retratos de seus contemporâneos. Em toda a extensão de seu caminho, ele não perdeu a ligação viva com a cultura artística do Renascimento italiano. Pode-se ler sobre isso, tanto nas reminiscências de amigos do artista quanto nos trabalhos dos estudiosos de sua obra.

Por conseguinte, não há nada de inesperado no fato de que a imagem de Akhmátova faça eco a uma das construções arquitetônico-esculturais mais famosas do século XVI. Tenho em vista a figura alegórica da Noite, na tampa do sarcófago de Giuliano Medici, essa talvez a mais significativa e misteriosa imagem feminina de Michelangelo (1). Liga-se com a Noite a própria construção composicional do desenho de Modigliani. À semelhança de a Noite, a figura de Akhmátova repousa inclinada. O pedestal, com que ela forma um todo construtivo, repete a linha em arco (fragmentada em duas) da tampa do sarcófago bigrífico de Medici. À diferença da pose tensa de a Noite, que parece deslizar de seu leito inclinado, a figura no desenho de Modigliani é estática e firme como uma esfinge egípcia. Mas isso se explica pela dessemelhança de princípio de dois sistemas heterocrônicos de construção arquitetônica (2).

 

 

Segundo testemunho de Akhmátova, Modigliani tinha então uma idéia muito vaga sobre o dom de poeta de sua amiga, tanto mais que ela estava então apenas iniciando a atividade literária. E apesar de tudo, o artista conseguiu, com a penetração visionária que lhe era inerente, fixar a imagem interior de uma personalidade criadora.

Diante de nós não temos a representação de Ana Andriéievna Gumiliova em 1911, mas a imagem acrônica do poeta, que ausculta sua voz interior.

Assim dormita a 'Noite' de mármore no sarcófago florentino.

Ela dormita, mas é o cochilar de uma vidente.

4 de maio de 1964

 

Notas

1 Michelangelo dedicou à sua Noite uma quadra, traduzida para o russo por Tiutchev.

2 Ao ler estas linhas, A. A. Akhmátova, lembrou que numa das conversas com ela, Modigliani citou Michelangelo. "Os grandes homens não devem ter filhos - disse ele - C'est ridicule d'être le fils de Michel-Ange".

 

 

Nicolai Khárdjiev, falecido recentemente, foi um estudioso importante das vanguardas russas. O texto sobre o retrato de Akhmátova por Modigliani apareceu no mesmo anuário em que saíram as reminiscências da poeta sobre o seu convívio com o pintor.
Tradução de Bóris Schnaiderman.

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