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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.13 n.37 São Paulo set./dez. 1999

https://doi.org/10.1590/S0103-40141999000300006 

DOSSIÊ MEMÓRIA

 

Uma autobiografia operária: a memória entre a entrevista e o romance

 

 

J. Sergio Leite Lopes; Rosilene Alvim

 

 


RESUMO

TRATA-SE da apresentação e análise de uma rara autobiografia romanceada feita por um trabalhador e entregue aos pesquisadores após entrevista realizada com o autor em trabalho de campo na vila operária da cidade de Paulista, em Pernambuco. Apesar de apresentar metáforas e fábulas comuns ao gênero de literatura para leitura em voz alta, como o cordel, o autor domina uma narrativa elaborada com três versões de uma história comum, vista por três personagens, com pequenos mistérios e surpresas: só no meio da narrativa é que o leitor percebe se tratar de uma autobiografia. Por meio de uma narrativa ficcional de sua história vivida, o autor aborda suas origens rurais, a importância de alguns membros do grupo familiar na sua infância e adolescência; aspectos não-revelados nas entrevistas que versavam sobre sua participação recente no trabalho industrial. A experiência de migração para os centros metropolitanos, a diversidade de trabalhos na indústria, a relação com a leitura e a autodidaxia desse filho caçula são fatores, como em outras autobiografias operárias de que se tem conhecimento em escala internacional, para explicar esse trabalho reflexivo por escrito sobre o passado e suas origens sociais.


ABSTRACT

IN THIS article is presented and analysed a rare ficional worker's autobiography given to the anthropologists after interviews in fieldwork done in the company-town located at the city of Paulista, Pernambuco. In spite of the use of fables and metaphors that are common to the literary genre for loud voice lecture, as cordel, the author masters an elaborate narrative with three versions of the same story, seen by three characters, with some mysteries and surprises: only in the middle of the text the reader perceives that it is an autobiography. Through fictional narrative of his living history, the author describes his rural origins and the importance of some members of his family unit in his childhood and youth; all non revealed aspects in the interviews that focused in his recent industrial work participation. The experience of migration to metropolitan centres, the diversity of industrial jobs, the relation to lecture and self-instruction, the position of youngest between brothers, are all factors, as show other working-class autobiographies seen in international comparison, to explain this reflexive written work about the past and about social origins.


 

 

NO DECORRER DO TRABALHO de campo numa vila operária têxtil do Nordeste brasileiro, um operário nos ofereceu, um ano após a realização de uma longa entrevista, um singular relato autobiográfico romanceado (1). Trata-se de um testemunho escrito sobre uma experiência de sobrevivência em um contexto de transformação social. O manuscrito, de perto de 50 páginas de um caderno escolar de tamanho grande ostentando o título de Os miseráveis, estava, com efeito, entre os poucos materiais escritos pelos próprios operários dentre o conjunto de nossos dados (2).

No artigo Le témoignage, Michael Pollak mostra o caráter estratégico das entrevistas de história oral, dentre as outras fontes possíveis — no caso do objeto em questão, a saber a experiência de mulheres em campos de concentração —, para ter acesso à versão das detidas por razões não políticas assim como ao cotidiano do campo. Os relatos autobiográficos escritos, textos romanceados ou testemunhos escritos, vinham marcados pela experiência daquelas que tinham facilidade no uso da escritura, por sua passagem por uma escolarização prolongada, em geral pela universidade. Além disso, esses escritos tinham fortes motivações políticas ou étnicas, atraindo também iniciativas editoriais. Para romper com essas mediações textuais e editoriais que enfeixavam o objeto nas suas dimensões mais propriamente políticas e mais aparentes, o autor deixou de lado os relativamente abundantes testemunhos escritos para recorrer ao relato oral provocado, à entrevista aprofundada, para ter acesso a outras parcelas da população que tivessem passado pela experiência concentracionária (3). No caso da experiência de trabalhadores manuais destituídos de escolarização longa, os relatos autobiográficos escritos, muito mais raros, podem dar acesso a outros aspectos do cotidiano, expostos na linguagem desses trabalhadores fora do comum que se aventuram pelas dificuldades da expressão escrita. Embora seja necessário privilegiar as iniciativas que visam entrevistar e constituir narrativas orais, meio de comunicação quase exclusivo das classes populares brasileiras, não se deve menosprezar os poucos relatos autobiográficos escritos por trabalhadores. Assim, a iniciativa do operário Adauto Machado, de nos surpreender com um texto manuscrito desencadeado e influenciado pelo desenrolar de nossa pesquisa junto ao seu grupo social de pertencimento, nos dá a rara oportunidade para que se possa acompanhar de perto o contexto e a fabricação dessa forma pouco freqüente de comunicação escrita (4).

 

Fábulas
e considerações sobre heróis anônimos

Algumas palavras sobre a construção do texto. A narrativa de Adauto utiliza alguns recursos retóricos. Por um lado ele apresenta três versões de uma história comum — vista por três personagens dos quais depois o leitor perceberá sua interligação — e que se enriquece ao longo da progressão do texto. Por outro lado, ele faz comentários genéricos sob a forma de inversões da história oficial ou sob a forma de fábulas, em que seus personagens ocupam um lugar ilustrativo. Além disso, ele constrói uma narrativa atraente, procedendo a uma apresentação mediante pequenos mistérios e surpresas. No primeiro subtítulo do texto, "Os Heróis Anônimos", o autor faz considerações sobre o que ele considera os "heróis ativos" e os "heróis passivos". Os primeiros são os heróis oficiais, cujo modelo subentende os heróis militares, "aqueles que você conhece, um homem qualquer, que tenha matado maior quantidade de seres humanos em uma guerra qualquer, é um herói nacional" (5). Os últimos, em contraposição, são "aqueles que você não conhece, gente que possivelmente você nunca ouviu falar, sabe por que? Não há publicidade para seus feitos heróicos". Utiliza termos genéricos, mas pertinentes para os personagens que ele vai em seguida apresentar. Assim, quando comenta a propósito dos "heróis passivos" — "estou falando de homens comuns que vivem morrendo aos poucos, cada dia que passa eles vão perdendo um pouco de sua existência para que outros possam ter melhores condições" — trata-se do personagem José Farias, que personifica também outra imagem utilizada por Adauto na segunda parte do seu relato, intitulada "O homem do salário mínimo e o jumento nordestino".

Nessa segunda parte, Adauto utiliza imagens presentes na tradição da leitura oral da poesia de cordel nordestina, gênero que por sinal ele praticou (6). Ele descreve como o jumento faz parte da família do camponês do sertão. O jumento é então tomado como imagem do caso-limite de exploração do trabalho: tendo a tarefa e a carga do trabalho duro, depois de fazê-lo durante toda a vida, ele é abatido velho para que o homem coma a sua carne. É a idéia mesma do sacrifício que preside a comparação. Além da imagem do jumento, Adauto serve-se ainda de duas outras para descrever "o homem do salário mínimo".

A primeira vem da areia: "O homem do salário mínimo é um herói, eu o declaro, e lhe concedo todo o meu respeito. Pois na realidade é um homem que não tem o direito de viver, é um homem que não tem o direito de educar seus filhos, não tem o direito de comer, nem vestir, a sua vida é como um monte de areia que o vento vai soprando e vai se desfazendo como por encanto".

A outra imagem é a de um litro de soro ligado a um doente no hospital: "um litro de soro que lentamente vai caindo, gota após gota, até que possa desaparecer todo o seu conteúdo; e quando o litro está vazio joga-se no lixo, e aquele enfermo ficou muitas vezes mais forte".

A idéia de dom desinteressado e de esvaziamento em benefício do outro se completa e torna-se mais desesperada quando o autor assinala a reprodução de sua condição de homem do salário mínimo mencionando suas crianças e a exclusão delas do sistema escolar. Aqui Adauto reproduz uma característica dos escritos autobiográficos dos operários autodidatas ao redor do mundo, a de dar toda a importância à escola e aos estudos dificilmente adquiridos (7).

Se o segundo subtítulo do texto é uma alusão comparativa ao fardo carregado pelo herói anônimo típico da narrativa — "o homem do salário mínimo e o jumento nordestino" —, o terceiro mantém o tom de fábula para reiterar as suas características de sacrifício. "A caçada do leão", terceiro subtítulo do texto, traz uma curta alusão ao caráter subordinado, oprimido e excluído do trabalhador do salário mínimo. Se ele não é representado diretamente pela caça do leão, o é no entanto pela ação daquele pequeno animal que espera o leão satisfazer-se e abandonar os restos da caça, para então poder ter acesso ao sobejo do leão: "É justamente este o nome do salário mínimo, o sobejo do leão" (8). E no final dessa subparte, pela aproximação entre as imagens do sacrifício do animal comido pelo leão e do jumento comido pelo homem, o autor pode voltar ao destino do homem do salário mínimo com uma ponta de ironia: "Acreditamos que o jumento nordestino e o homem do salário mínimo têm muito em comum, só há uma pequena diferença: é que ainda não estão comendo os homens quando ficam velhos e cansados. Mas quem sabe do futuro? O Brasil vai pra frente!"

 

 

A vida real do homem do salário mínimo

Estas considerações genéricas vão se concretizar no personagem José Farias — "um homem que foi vítima, a partir do dia em que nasceu, vítima das circunstâncias; vítima da miséria e depois vítima da própria sociedade". Aqui começamos a entrar na trama do texto romanceado de Adauto, a partir do quarto subtítulo, "José Farias". Esse personagem nasceu em 1934, no município de Nazaré da Mata, dominado pela economia das grandes plantações canavieiras. Adauto ressalta que José Farias, filho de pequenos agricultores pobres, tomou pouco leite quando criança e começou a trabalhar aos sete anos, quando seu pai lhe fabricou uma pequena enxada para que já começasse a ajudar no trabalho familiar. Aos 15 anos José é o filho mais velho entre oito irmãos e irmãs e o braço direito de seu pai em suas atividades de pequeno agricultor e feirante na cidade de Carpina, para onde a família se mudara. Além de ajudar ao pai no trabalho do roçado familiar e em atividades de trabalhador assalariado eventual, ainda vendia frutas e legumes nas ruas. Apesar dos numerosos filhos, a mudança para a nova cidade melhorou um pouco a vida da família e, como ilustração disso, o autor destaca que José podia então freqüentar a escola noturna para completar a segunda série primária. Mas logo seu pai morreu, vítima de um acidente rodoviário no ônibus que o transportava para uma feira em Recife onde ia vender produtos agrícolas. Junto com sua mãe, José partilha, então, toda a responsabilidade de assegurar a sobrevivência do grupo familiar.

Nesse momento do relato, o autor passa a objetivar uma situação de entrevista conduzida por ele mesmo diante de José Farias — o que faz lembrar sua incitação a produzir o texto a partir de nossas próprias entrevistas com ele: "Neste momento estamos chegando na residência do Sr. José Farias, na cidade de Olinda, onde pretendemos continuar a nossa conversa interrompida há alguns dias atrás". A narrativa dá então a palavra a José Farias que apresenta, na primeira pessoa, a maneira como ele trabalhou como assalariado agrícola para ajudar sua mãe e seus irmãos. Sua mãe fazia costura e recebeu a ajuda de freiras católicas para fazer estudar seus filhos. A auto-exploração de José e de sua mãe garantiram, de uma forma ou de outra, a escolarização dos outros irmãos, apesar de estes ajudarem em todo o seu tempo livre a sobrevivência do grupo mediante a venda na rua (ou na escola) de bolos e doces feitos em casa. Aqui aparece no relato o sacrifício do arrimo de família no trabalho assalariado rural, o sacrifício da viúva e, finalmente, o resultado na escolarização dos irmãos, à exceção do mais velho.

"Depois que meu pai morreu eu senti que todos dependiam de mim, eu tinha quinze anos mas era o mais velho, botei a minha enxada nas costas e fui tirar ticuca (9). E o que é ticuca? É uma conta, uma quantidade de terra que o homem media para a gente limpar, ele tinha uma vara e contava doze varas de terra quadrada, aquilo era uma ticuca. Eu ganhava quinze mil réis por cada ticuca. Começava às sete horas [da manhã], e quando terminava muitas vezes já era noite, e eu recebia o dinheiro quando terminava, e eu não podia voltar para casa sem aquele dinheiro, porque lá em casa os meninos me esperavam para comer. Mas eu me sentia bem, uma enorme satisfação dentro de mim quando eu voltava para casa, trazendo comigo fubá, farinha de mandioca, e alguns pedaços de jambiras que era uma espécie de retraços de carne de charque. Os meus irmãos ficavam contentes com a minha chegada, às vezes eu chegava às oito da noite e minha mãe ainda ia fazer aquele cuscuz gostoso para nós podermos jantar

Mas logo a minha mãe começou a costurar; comprara uma máquina de costura à prestação. A máquina, ela tinha que rodar com a mão, porque não tinha aqueles dispositivos para que se pudesse rodar com o pé. Minha mãe começava o trabalho na máquina às cinco da manhã, e às vezes ia até às dez da noite. Graças a isto pudemos comer mais um pouquinho e os meus irmãos menores puderam ir à escola, todos eles aprenderam a ler, o que menos estudou terminou o ginásio; só quem não sabe ler sou eu, muito mal assino o nome."

Em 1955, seis anos depois da morte do pai, a mãe decide mudar-se com a família para a vila operária têxtil de Paulista, onde morava uma irmã. É o caso típico da trajetória de muitas famílias de viúva que chegavam nessa vila operária, fazendo valer a força de trabalho industrial dos filhos já em idade de trabalho. Durante os anos 30 e 40 a fábrica enviava agentes recrutadores à procura de famílias camponesas numerosas, que pudessem visualizar naquela oferta de trabalho proletário uma saída para suas dificuldades de sobrevivência — cujo caso extremo, mas não raro, era o das famílias de viúva, como a de José. Mas em 1955 a fábrica não estava mais em expansão, a rotatividade da força de trabalho era mais intensa e as demissões superavam as admissões. José ocupava um dos postos de trabalho extra-fabris menos estáveis da vila operária, esperando que pouco a pouco seus irmãos e irmãs fossem engajados pela fábrica. Com a idade de 21 anos, como arrimo, ele tinha pressa em aproveitar a primeira oportunidade de trabalho que surgisse, para manter a família; para um trabalhador masculino, os trabalhos pesados estavam disponíveis. Em 1957 sua mãe foi pedida em casamento por um empregado administrativo do setor de casas da vila operária, um viúvo 22 anos mais velho que ela. A subsistência familiar melhorou com o apoio desse homem; o papel de irmão mais velho substituto do pai representado por José tornou-se minimizado e ele se ressentiu com isso, como se fosse uma perda. De fato, José se sentiu jogado, por força do destino, à condição de substituto do pai como camponês, depois trabalhador braçal, deslocado para a condição própria de uma geração anterior à sua na vila operária — a dos pais de família camponeses analfabetos, ou semi-analfabetos, trabalhando nos postos de trabalho mais pesados e menos estáveis da fábrica. Com o casamento da mãe, o valor simbólico de sua auto-exploração em postos de trabalho precários em benefício da sobrevivência familiar foi diminuído. Dois anos depois, já empregado como operário da fábrica, José se casou. Os primeiros anos passaram-se relativamente bem, com o seu salário girando em torno do salário mínimo; mas, com a chegada dos primeiros filhos, o salário tornou-se insuficiente. Nos anos 60 a fábrica demitiu centenas de trabalhadores: como operário servente, foi incluído entre os demitidos. Ele trabalhou então em diversos serviços ocasionais em Recife, mas em 1970 sofreu um acidente de trabalho que o deixou na situação de inválido e de pensionista precoce. Ele tinha então sete filhos e buscou complementar sua precária aposentadoria — abaixo do salário mínimo — com trabalhos ocasionais leves. Seus filhos mais velhos começaram a ajudá-lo em tais trabalhos e não adquiriram uma escolaridade mínima.

A história de José vem contada na primeira pessoa, como a palavra dada a um entrevistado. Adauto assim termina a parte de seu romance dedicada a José Farias, nas palavras de seu personagem-entrevistado: "Meus filhos nunca foram numa escola, a mais velha já vai completar dezoito anos e não sabe fazer o nome dela. (...) Nasci na miséria, vivi e vivo na miséria, naturalmente eu sou um miserável."

O crescimento emocional do relato, com a crise de choro tanto do informante quanto do entrevistador que acompanhou esta última declaração, encontrou seu clímax quando o autor, enfim, revelou que José é seu irmão, e que o texto lhe é dedicado.

 

A mãe

Após um interlúdio de considerações genéricas sobre a injustiça na sociedade, sobre a concentração da propriedade da terra e sobre o esquecimento dos camponeses, pequenos agricultores e trabalhadores rurais esquecidos por parte das autoridades, intermédio intitulado "A fome é uma peste universal", Adauto passou a apresentar seu segundo personagem: "A mulher que não rendeu-se". O relato apresenta-se como outra situação de entrevista recolhida pelo autor e redigido na primeira pessoa. Dona Antônia nasceu no interior de um engenho, o Engenho Boa Fé, que ela vê, de forma retrospectiva, como um lugar isolado. Seu pai era um morador relativamente bem colocado na hierarquia do engenho:

"Vivíamos completamente isolados do mundo e, quando lá chegava uma pessoa desconhecida, eu e meus irmãos corríamos a nos esconder. (...) Na nossa casa faltava conforto mas todos tinham a barriga cheia. Aos sete anos eu fui para uma escola e aprendi a ler e escrever. Aos dez anos eu trabalhava na enxada como um adulto. Meu pai gostava muito de mim. Muitas vezes eu pegava uma conta de mato para limpar igual com ele e terminava primeiro. Então eu ria e mangava dele, e ele ficava encabulado, mas depois me carregava nas costas, era uma felicidade singela mas a gente não conhecia outra melhor."

Aos 20 anos ela morava com a família numa vila do município de Nazaré, para onde tinham vindo desde a saída do engenho. Lá ela se casou com um homem que havia tido experiências de trabalho na grande cidade, mas não tinha uma prática de trabalho rural. Em 1947 eles se mudam para Carpina, cidade regional ao norte de Recife, onde morava um irmão de dona Antônia. Nessa ocasião o trabalho de seu marido e de seu filho mais velho era suficiente para que considerassem ter melhorado um pouco de vida, permitindo que seus outros filhos pudessem freqüentar a escola. Mas aos 36 anos ela perdeu o marido num acidente na estrada. Teve então que sobreviver com o trabalho de seu filho mais velho e com os ganhos provenientes de suas atividades remuneradas de lavagem de roupa e de costura. Ela tinha então oito filhos com idade entre 15 e menos de um ano. Os filhos chegavam da escola (salvo o mais velho, sacrificado no trabalho em tempo integral) e já saiam para vender na rua o produto do trabalho doméstico da mãe: bolos de mandioca, de coco, de milho etc. Já se pode desconfiar que se trata da mãe do autor, mas nessa versão da história há mais detalhes sobre a organização deste ascetismo da sobrevivência, agravado no caso de família de viúva. Quando de uma doença do filho mais velho, Antônia conseguiu ser admitida como cozinheira no dispensário da cidade, dirigido por freiras católicas. O filho mais velho se recuperou nesse dispensário e as freiras a ajudaram a colocar, em escolas internas no Recife, três de seus outros filhos: duas meninas e um menino.

O período foi marcado, segundo o relato da mãe, pela fuga desse menino do internato para onde foi mandado; a viagem de Antônia a Recife para procurá-lo, suas démarches diante do juiz de menores, a procura por anúncios de jornal e rádio, as buscas inúteis por três dias, e finalmente a volta do menino a Carpina, dez dias depois, por seus próprios pés.

Em 1955 Antônia deslocou a família para a grande vila operária de Paulista, onde morava sua irmã. Um de seus filhos, o mais velho, trabalhava na companhia, enquanto as duas filhas mais novas foram para o colégio interno, juntando-se a outra irmã, enquanto a mais velha foi retirada do mesmo internato para ajudar em casa. O relato mostra uma sucessão de deslocamentos estratégicos dos filhos, efetuados pela mãe. Quando ela se casou com um viúvo de 69 anos, empregado da companhia, ela almejava enfim um teto para todas as suas filhas: naquela ocasião, três estavam no internato e Antônia queria vê-las juntas com a filha mais velha, em casa. Dos seus filhos, somente o mais velho estava lá: o segundo, depois de longa estadia na cidade, voltou muito doente, morrendo em seguida; outro fazia o serviço militar; um terceiro estava na casa de familiares, em Carpina. Eles teriam a ocasião de se reagruparem, o que fazia Antônia feliz. Três anos depois do casamento, no entanto, o alcoolismo de seu marido se manifesta fortemente e ela terá de lutar durante cinco anos, até que ele abandonasse a bebida. "Faz agora 20 anos que estou casada", diz ela na presença de seu velho marido, de sete filhos e de 28 netos, nos informa o autor, que retoma a narrativa reservando um novo efeito de surpresa aos leitores, indicando-lhes que suas entrevistas com a mãe terminam em uma reunião familiar completa.

O miserável que fugiu da miséria

A última parte do romance, intitulada "Machado", é uma forma de entrevista consigo mesmo, pois que se pode adivinhar tratar-se agora de fazer do autor, ele próprio, um personagem. Assim, como no relato sobre os dois personagens anteriores, cujos respectivos depoimentos eram dados por intermédio de entrevistas, o autor, ele próprio, se dá a palavra como personagem, falando também na primeira pessoa, mas desta vez sem explicar como ele foi ao seu encontro. O relato começa quando Machado tem oito anos, por ocasião da morte de seu pai. "Eu era então um menino que gostava de comer terra. Anêmico, uma das coisas que eu aprendi depressa foi a mentira. Era uma forma de defesa pessoal". Ele teve então a oportunidade de estudar no dispensário das freiras e fazer assim seus estudos primários.

O episódio de sua fuga do internato em Recife, para o qual ele tinha sido encaminhado pelas freiras a pedido de sua mãe, é ilustrativo do seu desembaraço; não é por acaso que ele dedicou bom espaço de seu relato a detalhá-lo. Levado por uma das freiras de Carpina, a primeira impressão que o pequeno Machado teve do internato foi má, vendo uma centena de garotos na hora do recreio:

"Tinha uma média de cem meninos, todos eles magros como se há muito eles não vissem comida. Logo que eu cheguei comeram minha pasta de dente. Eu fiquei espantado: nunca tinha visto ninguém comer pasta de dente. E eu calculei que a fome ali era maior que na minha casa, e pensei que se assim fosse eu estaria perdido."

Depois de alguns dias, sabendo por experiência própria que o diálogo com os dirigentes do internato era impossível, Machado fez um plano de fuga baseado no seguinte princípio (de acordo com sua capacidade de mentir e dissimular): "o tamanho do sucesso do sabido deve-se à sua cara de trouxa." Assim ele se informou com os colegas e com os funcionários do internato sobre a sua localização relativamente aos bairros de Recife, como bom ignorante novato da geografia da cidade. Ele também se informou com alguns, dentre os meninos, se eles tinham tentado fugir e quais foram as conseqüências. O autor ocupa com gosto algumas páginas para descrever os detalhes da sua fuga do internato durante a noite, o ônibus que tomou para o centro da cidade e, em seguida (depois de ter se informado), o trem em direção a um subúrbio, onde ele sabia que morava uma amiga de sua mãe; a ajuda que essa amiga lhe deu para que ele voltasse para casa em ônibus intermunicipal, a maneira repentina como se apresentou para sua mãe desconsolada (que ele vira pela janela ao se aproximar de maneira furtiva de sua casa), evitando assim o castigo. A narrativa aqui funciona como uma história exemplar iniciática de seu desembaraço e de sua malandragem.

A propósito de sua chegada na cidade operária de Paulista, Adauto não assinalou no seu romance — como também havia feito por ocasião de entrevistas e conversas que mantivemos — o fato de ele ter trabalhado na fábrica, com a idade de 14 anos, como aprendiz. Ele destacou no seu texto, no entanto, o fato de poder continuar seus estudos ainda por dois anos no curso secundário, depois que sua mãe se casou com o viúvo empregado da companhia. Concluído o serviço militar, Machado continua a trabalhar no exército por alguns anos, apreciando bastante a possibilidade de se mostrar corajoso em ações de patrulha, assim como o exercício do seu trabalho de domar cavalos e burros.

Seu casamento com uma jovem de família operária de Paulista e a chegada do primeiro filho o levou a deixar o exército em virtude do baixo salário. "Amansei muitos burros, agora precisava amansar a mim": ele entrava em várias fábricas e não ficava muito tempo (segundo a lógica dos jovens operários que combinava mal com a disciplina da fábrica e o autoritarismo dos chefes). Depois, mais de acordo com a vida de casado, ele trabalhou durante três anos em um grande moinho de trigo do Recife. Mas, com a crise industrial ocorrida entre 1964 e 1965, ele foi demitido nesse último ano. Já tinha então três filhos e morava com sua família na casa de seus sogros em Paulista. Depois de seis meses de desemprego, ele manifestou o desejo de emigrar para São Paulo, mas sua esposa e a família dela foram contrários. Enraizada em Paulista, essa família era testemunha da forte identidade e do "carisma de grupo" (10) que caracterizava esse grupo operário, estabelecido há algumas gerações na vila operária.

A última parte do romance trata de sua segunda fuga, isto é, a sua emigração para São Paulo. Um antigo contra-mestre da fábrica que tinha decidido partir para São Paulo, propõe a Machado pagar sua passagem de ônibus. Ele engana sua família, dizendo que teve oferta de trabalho numa cidade vizinha. Na viagem para São Paulo, endividado pelas despesas de alimentação que se tornam maiores do que as previstas, durante um enguiço do ônibus, ele se desentende com seu amigo e perde a rede de contatos que previa encontrar ao chegar à cidade paulistana. Sem saber para onde ir, é encaminhado por um policial ao serviço de acolhida dos imigrantes, onde pode encontrar abrigo do inverno paulista. Lá, ele travou conhecimento com um homem que lhe ofereceu trabalho em terras alugadas no Paraná. O encontro com esse homem no serviço de imigração é uma das características dos relatos de aventuras nas viagens por operários feitas em diversas partes do mundo.

Um grupo de homens estava hostilizando uma moça que se encontrava sozinha no abrigo e Adauto a defendeu, inclusive fisicamente. O irmão da moça, que a acompanhava na viagem, tinha ido comprar cigarros e, ao chegar, ajudou a terminar a briga, ficando muito agradecido a Adauto. Ele o convidou para seguir com eles e trabalhar na agricultura, mais ao Sul do país. Nosso autor aceitou o convite e ficou por lá durante alguns meses; tendo escrito para a família (da mulher) em Pernambuco, esta lhe enviou — já que o mal de ir para o Sul estava feito — o endereço de um parente em São Paulo, que poderia ajudá-lo a conseguir trabalho.

Finalmente, estabelecido em São Paulo com mulher e filhos, Adauto trabalhou em diversas empresas e fez seu aprendizado em profissões de manutenção de fábricas, trabalhando como mecânico, carpinteiro e eletricista. Mas durante um inverno, perdeu uma filha de pouca idade por complicações pulmonares e precário atendimento médico. Ele acabou brigando com o patrão, na empresa em que trabalhava, por ter se recusado a lhe dar um adiantamento de salário para custear as despesas funerárias. O episódio fez com que Adauto reavaliasse a sua vida em São Paulo e começasse a providenciar o seu retorno a Recife, agora com quatro filhos, dois nascidos em São Paulo, outro ali falecido.

Enquanto Adauto esteve em São Paulo, houve o estabelecimento de um pólo industrial, justamente na região de Paulista, na Grande Recife, com a implantação de filiais de empresas do Sul do país. Machado era um operário sob medida para ser recrutado por essas novas fábricas, que necessitavam de operários qualificados: o fato de ter experiência de trabalho em São Paulo era muito valioso para elas. Assim, ele voltou para a casa dos sogros em Paulista e começou uma nova carreira como mecânico de manutenção numa nova fábrica têxtil estabelecida na região. Foi nessa condição que ele nos concedeu várias entrevistas, indicado pela rede de antigos operários, cujo elo remonta à sua participação comum nas atividades da JOC local de Paulista (11). Aliás, dessas atividades Adauto nada mencionou na sua narrativa escrita (e quase nada nas entrevistas). Talvez para sublinhar, inconscientemente, seus próprios méritos nas suas aventuras e na sua trajetória, que se desloca para o alto, em direção a um grupo operário qualificado e aparentemente mais estável.

Ele pode então terminar seu relato no momento de seu retorno, de São Paulo para Recife, com demonstração de orgulho pela experiência adquirida como trabalhador. Após ter prestado homenagem aos miseráveis — seu irmão mais velho, sua mãe e, até certo ponto, ele próprio — conclui, confiante na sua trajetória até então ascendente de operário qualificado: "Não tinha economias, minha riqueza estava sobre os meus ombros, experiências e profissões que não me deixariam passar fome em nenhum lugar do mundo."

 

Um romance
reflexivo desencadeado pela etnografia

A singularidade dessa narrativa autobiográfica escrita pode ser comparada com outros escritos do gênero feitos por operários. Eles são significativamente pouco numerosos no Brasil, acompanhando a baixa escolaridade relativa e a reduzida difusão da leitura silenciosa e do hábito da escrita entre as classes populares (12). A comparação com os casos de Inglaterra, Alemanha, França e México seria pertinente a fim de se avaliar as condições e possibilidades de tal difusão (13).

O relato de Adauto Machado guarda pontos comuns com outros produtos do gênero. Um desses pontos refere-se ao destaque dado ao esforço como autodidata empreendido pelo autor e por alguns de seus próximos. Tal foco no esforço como autodidata surge nas diferenças entre Adauto e seu irmão José Farias, aparece no acesso precoce à escrita por parte de sua mãe, é acentuado nos esforços desta para assegurar a educação de seus filhos, valorizado na menção aos anos de escolarização suplementar no ensino secundário conseguido pelo personagem principal, que é o próprio autor. Outro ponto característico do gênero é a narrativa de viagens e de aventuras; o relato de espertezas, desembaraços, malandragens e valentias; a descrição da confrontação com outras experiências culturais; a descrição das relações de família; o desejo de singularização com relação ao grupo social de origem (por exemplo as fugas). Como em outros escritos do gênero, aparece a religião (pelas freiras do dispensário), aparece a comunicação entre o estilo oral e o escrito, a necessidade de registro das origens ameaçadas (nas regiões rurais), a experiência da sobrevivência e a superação das dificuldades da pobreza e da imigração e, finalmente, o destaque à melhoria das condições de vida, apesar das dificuldades (14).

Outras dificuldades seriam enfrentadas por Adauto Machado e seus colegas operários após a produção deste relato, com a crise industrial de 1983 e o crescimento do desemprego industrial na região. Demitido da fábrica juntamente com levas de outros operários, ele teve que se organizar para entrar no comércio informal de peças do vestuário masculino trazidas das pequenas cidades do interior, que desenvolveram uma produção artesanal a baixo custo; era revendida por ele nas portas de fábrica e nos bairros operários e populares. Mas essa é outra história, que poderia dar margem ao trabalho de reconstituição de um novo período de sua vida e da maior parte do grupo operário de que fazia parte. Mas se este é o período de um presente com novas dificuldades desconhecidas, Adauto Machado continua a ser portador da mesma história social de suas origens, que ele pôde trabalhar num esforço auto-analítico mediante a produção do texto escrito. A atualidade de seu texto, que acaba quando da sua volta promissora de São Paulo para Recife, com sua experiência de trabalho, continua como testemunho de um período em que o trabalho operário era uma perspectiva mais generalizante, e, em alguns casos, de trajetórias sociais ascendentes. Ao concluir, antes do seu novo período de trabalho operário mais estável que vai durar mais 13 anos, Os miseráveis conserva sua atualidade ao insistir sobre a experiência de transformação da vida camponesa para uma vida operária e urbana, que depois irá se abalar com as dificuldades de emprego industrial nos anos 80 e 90.

Como escrito autobiográfico derivado de uma pesquisa antropológica utilizando o trabalho de campo, as entrevistas aprofundadas e a coleta de histórias de vida (15), a obra de Adauto Machado oscila entre o testemunho e a observação, entre o engajamento e o distanciamento. Assim, se ele próprio é o terceiro personagem de Os miseráveis, por vezes, no entanto, ele se coloca como alguém que superou aquela condição e que pode ser agora um observador. Logo no início de seu escrito, quando está caracterizando os "heróis anônimos", sua presença como personagem é provisoriamente excluída:

"Vamos conhecer agora dois heróis anônimos e através do conhecimento poderemos dar um pouco de respeito, um pouco de compreensão, um pouco de afeto, pra eles que realmente merecem" [o irmão e a mãe].

Não é por acaso que o episódio da fuga do colégio interno na infância tem tanta importância na narrativa, aparecendo na versão da mãe, na sua versão e sendo reeditada pela fuga para São Paulo na idade adulta. O autor parece contrapor ao sacrifício total do irmão mais velho e ao sacrifício da mãe, que terá uma recompensa ao fim da vida, o seu próprio sacrifício inicial, superado desde a infância por meio da esperteza, do desembaraço e da malandragem. Assim, o autor parece encarnar algo semelhante ao que se encontra em personagens de contos populares e da literatura de cordel, como o de Pedro Malazartes (16).

É interessante também observar que Adauto não incorpora em sua narrativa fatos que nos contou em conversas posteriores às primeiras entrevistas (e que foram depois registradas em caderno de campo) referentes ao seu trabalho como aprendiz na fábrica têxtil de Paulista. Apesar de ter então vivido uma história de valentia ao responder à rispidez do chefe imediato e ser demitido, Adauto não destacou tal episódio, que estaria de acordo com a defesa de seu ponto de honra, nem nas entrevistas, nem em seu texto. Talvez a fábrica têxtil de Paulista esteja por demais associada, por um lado, à proteção de seu padrasto, que dispensa sua continuação como operário naquela fábrica, e o prosseguimento dos duelos entre jovens operários e chefes de seção; por outro lado, posteriormente, ao seu sogro, à família de sua mulher; relações estas que configuram dependências familiares que não se conformam ao padrão de independência, esperteza e desembaraço que gostaria de passar na sua narrativa.

Também não é escrita a sua história recente de operário qualificado nas novas fábricas da região: o curso em escola profissional proporcionado pela nova fábrica, suas relações com colegas e subordinados e suas observações sobre o ambiente de trabalho. Tal história recente pôde sair do diálogo das entrevistas, do interesse dos pesquisadores e do próprio entrevistado. Mas parece ser uma história muito recente e desinteressante para o enredo do romance sobre Os miseráveis e sobre a superação da miséria pelo trabalho no campo, pelos deslocamentos espaciais e sociais — do campo para a cidade, do Nordeste para o Sul e de volta — mas, principalmente, pela esperteza. Também a sua participação nas atividades da JOC local, em particular no teatro, lembradas por seus contemporâneos naquela associação católica, não são por ele mencionadas; como se não tivessem importância para o relato da luta pela sobrevivência em que ele é bem sucedido mais por sua esperteza do que pelas atividades coletivas de que também foi protagonista.

Por outro lado, se há silêncio no texto de Adauto com relação a fatos e áreas importantes da sua vida, que conhecemos por entrevistas e conversas informais, há também aspectos fortemente descritos e enfatizados no seu romance. Essa reflexão escrita foi desencadeada por entrevistas anteriores, mas serviu para salientar aspectos que a situação de entrevista não beneficiou. Ao comparar Os miseráveis com os seus depoimentos orais, podemos observar como o encaminhamento inicial das entrevistas se referia ao trabalho fabril e, portanto, já começava do período posterior ao seu serviço militar. A riqueza do conteúdo e da fluência dessas entrevistas acabavam deixando pouco tempo para um aprofundamento do período anterior à chegada na vila operária da fábrica, que era a unidade social e espacial central da nossa pesquisa. As entrevistas puderam contemplar o período do trabalho inicial de Adauto em Recife, depois a ida para São Paulo, sua experiência de trabalho no Sul e, finalmente, a experiência mais recente como operário qualificado em Recife e Paulista, após a volta de São Paulo. A iniciativa de Adauto de escrever seu romance autobiográfico revelou-nos a riqueza da reconstituição de sua infância e adolescência, por um trabalho de sócio-análise envolvendo a si próprio e a seus familiares mais significativos; sua mãe e o irmão mais velho, substituto do pai.

Pode-se pensar que a sua razão para escrever se deve a uma propensão, socialmente produzida, para um trabalho reflexivo sobre o passado e sobre suas origens sociais. Através de um trabalho literário esboçam-se as determinações sociais complexas de sua relação com a história social de sua família de origem. A necessidade de explicar e compreender a lógica social da vida camponesa e de trabalhador rural — com suas estratégias familiares diversificadas no contexto de uma pequena cidade — a partir de uma experiência operária e de migração para os grandes centros metropolitanos; a compulsão para a explicação de sua diferença com o seu irmão mais velho, sua posição de irmão caçula e franzino para o trabalho rural pesado (e depois industrial ou urbano), proporcionando-lhe uma escolarização mais prolongada; todas essas particularidades que o fazem se afastar ou querer se afastar de seu grupo social de origem, levam-no a buscar a reflexão solitária diante do papel e a expressão escrita como meio de efetuar um trabalho simbólico sobre o passado (17). A associação entre pesquisa antropológica, história oral e produção de texto autobiográfico escrito pode assim ter efeitos interessantes para a produção do conhecimento, bem como ser um instrumento libertador de autoconhecimento utilizado por indivíduos peculiares das classes populares, mesmo quando estas têm fortes e históricas dificuldades com relação à escolarização e à escrita, como ainda é o caso das classes trabalhadoras brasileiras.

 

Notas

1 O trabalho de campo localizou-se no município de Paulista, hoje na região metropolitana de Recife. A primeira estadia teve lugar em 1976, quando a primeira entrevista foi realizada. O manuscrito nos foi entregue em 1977, quando de uma segunda estadia. Várias estadias se seguiram nos anos 80. Esse trabalho de campo contribuiu para a produção de dois estudos monográficos sobre o mesmo grupo operário, um sobre a história e a etnografia da família; outro sobre a formação de um modo de dominação específico em uma vila operária têxtil. Cf. Rosilene Alvim, A sedução da cidade; os operários-camponeses e a fábrica dos Lundgren, Rio de Janeiro, Graphia, 1997;         [ Links ]J.Sergio Leite Lopes, A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das chaminés. São Paulo/Brasília, Marco Zero/Editora da UnB, 1988;         [ Links ]ver também R. Alvim & J.S.L. Lopes, Famílias operárias, famílias de operárias, Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.14, p. 7-17, out. 1990;         [ Links ]e L'usine et la véranda: théâtralisation de la domination industrielle, Etudes Rurales, n. 131-132, p. 39-56, dec. 1993.        [ Links ]

2 Dentre esses poucos materiais estavam as atas das assembléias e reuniões sindicais, outros documentos sindicais, documentos da JOC [Juventude Operária Católica], e da ACO [Ação Católica Operária] locais ou regionais. Obtivemos também um livro de crônicas e lembranças locais, publicado pelo próprio autor, um funcionário municipal casado com uma ex-operária. Quanto ao título do escrito autobiográfico romanceado, devemos assinalar que o autor (Adauto Machado) não foi inspirado pelo romance homônimo de Victor Hugo, que não conhecia.

3 Cf. Michael Pollak, Le témoignage, Actes de la recherche en sciences sociales, n. 62-63, juin 1986;         [ Links ]do mesmo autor, L'expérience concentrationnaire, Paris, Metaillié, 1990.        [ Links ]

4 Essa ligação entre a evidência escrita, suscitada por iniciativas de pesquisa que implicam a produção de entrevistas, e a evidência oral, é discutida na introdução à coletânea Our common history; the transformation of Europe (London, Pluto Press, 1982, p. 14-15), feita por seu organizador, Paul Thompson.         [ Links ]O mesmo autor menciona experiências de educação de adultos na Grã-Bretanha, que estimulam a escritura de autobiografias após estímulos dados pela prática da história oral, como é o caso da coleção londrina de folhetos Our lives (cf. P. Thompson, A voz do passado: história oral. São Paulo, Paz e Terra, 1992, cap.6, p. 224-225).         [ Links ]Ver ainda E. Bosi, Memória e sociedade; lembranças de velhos, 3 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994;         [ Links ]D. Bertaux, Les récits de vie, Paris, Nathan, 1997.        [ Links ]

5 Aqui, ele inclui mesmo os heróis subversivos, como Tiradentes, mas que se tornam, algum tempo depois, heróis nacionais.

6 Adauto Machado fez um folheto de cordel a pedido da Ação Católica Operária no final dos anos 70, sobre o tema do alto custo de vida para as classes populares brasileiras, dirigido ao trabalho de educação popular levado a efeito por aquela entidade. Alguns membros operários da ACO de Recife foram colegas de fábrica e de bairro de Adauto em Paulista e com ele conviveram quando jovens na Juventude Operária Católica. Embora não fosse militante da ACO, Adauto prestou alguma colaboração eventual, associada aos seus talentos literários. Para mais informações sobre a literatura de cordel nordestina, cf. A.A. Arantes, O trabalho e a fala; estudo antropológico sobre os folhetos de cordel. São Paulo/Campinas, Kairós/Funcamp, 1982;         [ Links ]Candace Slater, A vida no barbante; a literatura de cordel no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984;         [ Links ]Alexandra Silva, Entre a feira e a academia; o cordel no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1997. Dissertação (mestrado). Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro.        [ Links ]

7 Cf. o magnífico trabalho de coleta de autobiografias de operários de John Burnett, David Vincent & David Mayall (eds.), The autobiography of the working class; an annotated, critical bibliography. Brighton, The Harvester Press, 1984, 3 v.,         [ Links ]para a Inglaterra.

8 É interessante como essa imagem miserabilista do homem do salário mínimo neste texto romanceado guarda uma relação com as discussões sociológicas francesas em torno da imagem da cultura das classes populares como um repoussoir, termo em francês, que significa aquilo que causa repulsa, ou também aquilo que chega deteriorado, falsificado ou como simulacro das classes dominantes até as classes populares. Esta imagem está contida em texto de P. Bourdieu sobre o gosto de necessidade definido como relação de privação (La distinction. Paris, Minuit, 1979, p. 200);         [ Links ]a discussão em torno dela está em C. Grignon & J.C. Passeron, Le savant et le populaire; misérabilisme et populisme en sociologie et en littérature. Paris, Hautes Etudes/Gallimard/Le Seuil, 1989, p. 115-151;         [ Links ]e em P.Bourdieu, Les usages du 'peuple', in Choses dites. Paris, Minuit, 1987, p. 178-184.        [ Links ]

9 Na definição do dicionário Aurélio, ticuca, expressão proveniente de Pernambuco, tem a ver com a prática de limpar mato: "Rolo que se faz com o mato depois da roçagem em que se usa o gancho". Na acepção mais relacional e menos substancialista usada pelo nosso autor, trata-se de uma medida do trabalho de limpeza do mato, de roçagem, para o pagamento do trabalho assalariado por produção, pela tarefa.

10 Cf. N. Elias & J.L. Scotson, The established and the outsiders, a sociological enquiry into community problems. London, Sage Publications, 1994, introducão.        [ Links ]

11 Para a importância da Juventude Operária Católica local entre os anos 1930 e 1960 na formação de uma rede de sociabilidade e de formação de lideranças operárias, cf. R. Alvim & J.S.L. Lopes, Reconversions politiques d'une militance religieuse; la génération jociste dans une cité ouvrière textile du Nordeste brésilien. Biographie et société, n 13;         [ Links ]Pratiques Sociales et Travail en Milieu urbain, n. 11, Paris, déc. 1989.        [ Links ]

12 No decorrer do ano de 1970, e em especial nos últimos anos desta década, com o ressurgimento do movimento sindical, vários relatos autobiográficos de trabalhadores começaram a aparecer. Um dos primeiros foi o do operário Manoel do Ó, 100 anos de suor e sangue. Petrópolis, Vozes, 1971, 139 p., (prefácio de Alceu de Amoroso Lima),         [ Links ]escrito por uma equipe de educadores da ACO do Recife a partir de relatos orais deste operário por ocasião de seus cem anos. Pela mesma editora católica foram publicados os livros do operário sindicalista dos estaleiros navais do Rio e de Niterói, também católico e nordestino, Abdias José dos Santos, O biscateiro, 1977, 66 p.         [ Links ]e O dia a dia do operário na indústria, 1978, 130 p.         [ Links ]O padre operário Ignácio Hernandez escreve sua experiência como metalúrgico no estado de Minas Gerais em Memória operária; cidade industrial: Contagem-Belo Horizonte, 1968/1978. Belo Horizonte, Editora Vega, 1979, 160 p. (prefácio de Edgar da Mata Machado).         [ Links ]O escritor Roniwalter Jatobá, ex-operário das fábricas automobilísticas de São Paulo, escreveu Crônicas da vida operária. São Paulo, Global/Versus, 1978, 60 p. (prefácio de Fernando de Morais).         [ Links ]O favelado Manoel Gomes escreveu As lutas do povo do Borel. Rio de Janeiro, Edições Muro, 1980, 73 p. (prefácio de Luís Carlos Prestes).         [ Links ]Anteriormente a esse período de redemocratização contra um regime militar, quando tais publicações foram mais freqüentes, pode-se encontrar poucos textos autobiográficos de trabalhadores. O mais famoso desse gênero é o de Carolina Maria de Jesus, favelada de São Paulo, Quarto de despejo; diário de uma favelada. São Paulo, Ática, 1995, 4ª ed., 174 p. (1ª ed. em 1960; prefácio de Audálio Dantas [jornalista que descobriu e editou os manuscritos];         [ Links ]há traduções em língua estrangeira). A autora ainda publicou quatro livros. Nas pesquisas de um de nós com operários do açúcar no Nordeste (cf. J.S.L Lopes, O vapor do diabo; o trabalho dos operários do açúcar. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976),         [ Links ]encontrou-se o livro do ex-operário do açúcar José Martins, operário autodidata que escreveu crônicas e episódios pitorescos nas usinas. Gente de uzina. Recife, 1954.        [ Links ]

13 Cf. Paul Thompson, A voz do passado, op. cit.; J. Burnett, D.Vincent & D. Mayall, The autobiography of the working class, op. cit.; Patrick Joyce, Visions of the people; industrial England and the question of class, 1848-1914, Cambridge, Cambridge University Press, 1991, cap. 8, 11 e 12;         [ Links ]H. Beynon & T. Austrin, Masters and servants; class and patronage in the making of a labour organization, London, Rivers Oram Press, 1994, cap.12;         [ Links ]Georges Duveau, La pensée ouvrière sur l'éducation pendant la seconde république et le second empire, Paris, Domat Montchrétien, 1948;         [ Links ]Roger Chartier, Revisitando um conceito historiográfico, Estudos Históricos, n. 16, jul./dez. 1995, p. 179-192;         [ Links ]Werner Plum, Relatos de operários sobre os primórdios do mundo moderno do trabalho, Bonn, Friedrich-Ebert-Stiftung, 1979;         [ Links ]Amigos del Museo Nacional de Culturas Populares, Relatos obreros mexicanos, Coyoacán, Museo Nacional de Culturas Populares, 1984, 2 v. [         [ Links ]textos selecionados pelo concurso sobre o relato operário convocado por este museu em todo o país].

14 Cf. a introdução à coletânea de autobiografias de operários organizada por Burnett, Vincent & Mayall (op.cit.).

15 Cf. as reflexões feitas por Paul Thompson sobre diferentes gêneros literários associados a autobiografias e a entrevistas; em A Voz do passado, op. cit., cap. 9, p. 311-315.

16 Pedro Malazartes, personagem de uma narrativa popular encontrada em várias partes do Brasil, cuja variante clássica é a registrada pelo folclorista Câmara Cascudo, Contos tradicionais do Brasil, Rio de janeiro, Edições de Ouro, 1967.         [ Links ]Uma análise antropológica do mito de Pedro Malazartes encontra-se em Roberto Da Matta, Pedro Malazartes e os paradoxos da malandragem, in Carnavais, malandros e heróis; para uma sociologia do dilema brasileiro, Rio de Janeiro, Zahar, 1979.         [ Links ]Pedro Malazartes é um trabalhador rural que utiliza à perfeição a máxima de Adauto Machado, "o tamanho do sucesso do sabido deve-se à sua cara de trouxa".

17 Esta relação entre escrito autobiográfico e, mesmo, romance autobiográfico e a reflexão sobre as origens sociais e o pertencimento à família de origem aparece claramente entre os professores primários franceses de origem rural no início do século. Cf. a análise feita por Francine Muel-Dreyfus (em Le métier de l'éducateur, Paris, Minuit, 1983,         [ Links ]cap.2: Trajectoire sociale et roman des origines) sobre os textos autobiográficos provocados e os romances autobiográficos anexados às quatro mil respostas a um questionário enviado pelo correio nos anos 1960 a 20 mil professores primários pelo historiador Jacques Ozouf. Ver também Jacques Ozouf, Nous les maîtres d'école; autobiographies d'instituteurs de la Belle Époque, Paris, Gallimard, 1973         [ Links ](collection archives) e Jacques Ozouf & Mona Ozouf, La république des instituteurs, Paris, Hautes Études/Gallimard/Le Seuil, 1992.        [ Links ]

 

 

J. Sergio Leite Lopes é professor do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Rosilene Alvim é professora do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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