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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.14 n.40 São Paulo set./dez. 2000

https://doi.org/10.1590/S0103-40142000000300023 

CRIAÇÃO / DANÇA

 

Os primeiros 25 anos deste Corpo

 

 

Helena Katz

 

 

DEMARCAR um território com um processo autoral talvez constitua um indispensável mecanismo de sobrevivência que se aprende com a natureza. Quem atentar para a história do Grupo Corpo vai encontrar nela esta sabedoria. Parece que estes mineiros descobriram cedo que seria preciso se separar do igual para conquistar a chance de ser reconhecido. Afinal, como já aprendemos com Lacan, é o outro quem valida a nossa existência quando nos devolve o seu olhar. Num mundo onde as informações circulam rapidinho e tendem a pasteurizar os seus habitantes, a identidade se torna moeda forte.

Tudo o que é posto no mundo deseja nele permanecer e durar, mas as condições que cercam quem vive no Brasil e faz dança são adversas. Elas obrigam seus artistas a praticarem a criatividade não somente no palco, mas principalmente fora dele. Aqui, quem faz da dança a sua profissão precisa inventar sempre. Também por causa disso, a conquista de uma identidade conta muito.

Quando Paulo Pederneiras pediu a seus pais (e ganhou) a espaçosa casa onde a família morava para fazer, junto com seus irmãos também envolvidos com a dança, uma escola e depois uma companhia, ninguém poderia prever que os Pederneiras começariam lá, na rua Barão de Lucena 66, na Belo Horizonte de 1971, uma trilha de inaugurações. Os irmãos Rodrigo (que se tornaria coreógrafo), Pedro (que se transformaria no diretor técnico) e Mirinha (ex-bailarina e atual ensaiadora e assistente de Rodrigo), e mais um grupo de amigos, entre os quais Carmen Purri (a Macau, ex-bailarina e hoje também ensaiadora e assistente de Rodrigo), levariam adiante um projeto único. Esse núcleo, ao qual o pintor, escultor e arquiteto Fernando Velloso e a arquiteta, designer e paisagista Freusa Zechmeister se juntariam mais tarde, viria a produzir não uma companhia profissional de dança, mas uma griffe em termos de qualidade na área. O hoje empresário e produtor Emilio Kalil, que abandonou o jornalismo e sua cidade depois de assistir à companhia em Porto Alegre, em 1978, ajudou a consolidar essa marca, pois integrou-se ao Corpo, que passou a co-dirigir, ao lado de Paulo Pederneiras, até 1989.

Esse ano (1989) demarca a passagem para uma nova estrutura, que Kalil ajudou a erguer. Foi quando se iniciou a parceria com a Shell, que se constituiria como um marco inaugural no marketing brasileiro. Robert Broughton, então presidente da empresa, que morava há três anos no Rio de Janeiro e, no Carnaval, desfilava pela Mangueira, decidiu patrocinar o grupo. Eles surpreenderam o mercado com um inédito contrato para três anos - forma encontrada para garantir uma certa estabilidade para o patrocinado. O relacionamento Corpo-Shell tornou-se um verdadeiro case de muito sucesso, que duraria exatos 10 anos.

A partir daí, o grupo pôde, por exemplo, passar a encomendar e lançar todas as trilhas dos seus espetáculos e produzir seus vídeos. Mas o que a data mais marca é o início de uma trajetória de maior segurança e com continuidade. Nessa época, começaria também a definição dos papéis do quarteto central que se tornaria o responsável pelo produto que o país passaria a reconhecer com orgulho e viria a cativar as suas platéias.

Fernando Velloso começou como iluminador da primeira coreografia de Rodrigo Pederneiras, Cantares, em 1978, e estrearia como cenógrafo em Missa do Orfanato, em 1989. Em O Corpo, que estreou em agosto, pela primeira vez assinou os figurinos junto com Freusa Zechmeister, há quase 20 anos a responsável pelo que os bailarinos usam em cena (roupas, sapatos e cabelos). Freusa aderiu depois de assistir a um ensaio de Interânea, em 1981.

Quem acompanha o grupo desde sempre, consegue identificar algumas fases da companhia. A primeira agrupa Maria, Maria (1976) e O Último Trem (1980), e nelas Rodrigo Pederneiras atuava somente como bailarino. Para coreografar ambas, o convidado foi Oscar Araiz, a figurinha carimbada da época e, para a trilha sonora, nada menos do que encomendas de composições inéditas para Milton Nascimento/Fernando Brandt. Embora apontando para um tipo de entendimento de dança que a companhia viria a abandonar, já sinalizava para uma busca de acabamento e rigor e para um compromisso com a música especialmente composta para a dança.

Ainda dentro da estética vinculada a Oscar Araiz, mas já sem a sua presença, pode-se lembrar de uma outra fase, que se refere à gestação do futuro coreógrafo Rodrigo Pederneiras. Ela começa ainda entre Maria, Maria e O Último Trem, com uma obra chamada Cantares (1978). Há ainda mais cinco coreografias nesse eixo, produzidas depois de O Último Trem, que ninguém mais lembra de associar a ele, a saber: Tríptico e Interânea (1981), Noturno e Reflexos (1982), e Sonata (1984).

Prelúdios (1985) muda tudo. Rodrigo começa a ser considerado um coreógrafo profissional de primeira linha e o país inteiro passa a celebrá-lo como um artista em quem apostar. Daí até 21 (1992), são 13 criações nas quais rascunha um domínio cada vez maior de estruturas e espaços e leva a técnica do balé clássico a se tornar apta a receber contaminações transformadoras.

Prelúdios traz a matriz dos fluxos que irão distinguir o modo como Pederneiras iria passar a tratar o palco. As terminações das frases e suas articulações surgem lá como logotipias do seu pensamento coreográfico. Daí para a frente, são muitas as situações em que vai exercitar um talento voltado para as ações do corpo que dança. Vão surgindo peças cada vez mais especializadas na tarefa de propor modos de deslocar conjuntos e de juntar bailarinos. Bachiana, Carlos Gomes Sonata (1986), Canções, Duo, Pas-du-Pont (1987), e Schumann Ballet, Rapsódia, Uakti (1988) vão deixando cada vez mais claro que dois tipos de estrutura estão convivendo: aquela onde Rodrigo explora invenções em escala menor (seus instigantes e cada vez mais intrigantes pas-de-deux) e outra, onde trabalha as linhas no espaço, especialmente os "entra-e-sai de cena" da companhia.

A certa altura, acontece Mulheres (1988). Convidada por Emilio Kalil, Susanne Linke passa um tempo em Beagá e monta esta sua coreografia para o Grupo Corpo. Pronto. Era o momento certo para a virada que irromperia depois. A informação trazida por ela, do gesto mais dramatizado em que a expressividade se acomoda, resultaria em Missa do Orfanato, no ano seguinte. Ou seja, seria preciso um vírus externo ao ambiente que a companhia respirava para colocá-la para percorrer outros trilhos. Em Missa do Orfanato, também a cultura pop (o Thriller, de Michael Jackson) se faz presente.

A Criação (1990), Variações Enigma e Três Concertos (1991) parecem esgotar um percurso povoado de obras de exercício de um tipo de maestria que hoje pode ser entendido como um mapeamento de combinações necessário para amadurecer o domínio da herança do balé clássico.

Com 21, outra época se instaura e se espraia até hoje. Apenas com a produção mais recente, O Corpo, com música de Arnaldo Antunes, brota um outro algo desse mesmo caldo larvar. Com 21 começa a ficar mais clara a obsessão de Rodrigo Pederneiras por decifrar essa técnica que o alimentou a vida toda e que se torna capaz de adentrar numa conversação mais direta com as danças que não sobem aos palcos dos teatros. Como cabe a um coreógrafo que se entende sendo, primeiro, todo ouvidos, ele nos fazia pensar que sua tarefa consistia em dar visualidade à sua audição. Hoje, o movimento ao qual dá nascimento vem claramente salpicado pelo conjunto dos cinco sentidos, e não somente pelo ouvir. A carnalidade cada vez mais clara, a sensualidade cada vez mais expandida, as tribos brasileiras urbanas e suburbanas cada vez mais abrigadas. Sua antena tateia pelas formas, visualiza o movimento que estava contido em outro e faz com que ganhe a luz, cheira o que ainda não existiu e passa para nós, seu público, o paladar de uma mistura que agora já tem nome: é do Corpo.

Tudo isso clama por doses generosas de energia, por corpos cada vez mais bem preparados. Os elencos que durante estes 25 anos tornaram possível o nascimento da dança de Rodrigo Pederneiras podem ser considerados co-responsáveis pelo sucesso desse empreendimento. Mas hoje, sem dúvida, tornam-se cada vez mais co-autores de uma arte que, à medida que o tempo passa, vai ficando cada vez mais jovem, falando com públicos mais amplos e dando abrigo a mais tipos de comportamentos. Se era o brejeiro em Nazareth (1993, com uma partitura de José Miguel Wisnik que é uma lição de tradução intersemiótica entre Ernesto Nazareth, Machado de Assis e música), e o afro-brasileiro em Benguelê (1998, com uma inspiradora composição de João Bosco), agora é a contaminação mais desenfreada que vive do seu entorno. Basta assistir a O Corpo (2000, com uma trilha na qual Arnaldo Antunes trata suas sonoridades como organismo resultante de um pensamento de arquiteto de pulsares e sonares).

Isso que todos identificam como Grupo Corpo resulta da soma dos fazeres do seu núcleo básico com seus elencos sempre refinados. O relacionamento entre Paulo e Rodrigo Pederneiras, Freusa Zechmeister e Fernando Velloso, e mais Macau, Pedro e Mirinha Pederneinas é a diferença que faz a diferença. Eles produzem um tipo de informação capaz de levantar platéias mundo afora. E vão promovendo primeiras vezes também no exterior. Por exemplo, em toda a história do mais antigo dos festivais norte-americanos, o respeitado e hoje histórico Jacob's Pillow, nunca uma companhia foi convidada por dois anos seguidos. Mas o Corpo rompeu a regra. Foi também a primeira das companhias brasileiras a conquistar uma residência internacional quando Guy Darmet, diretor da Maison de la Danse, em Lyon, convidou-os para lá realizarem as suas estréias européias.

O Grupo Corpo vai desenhando um mapa onde a dança e o corpo que dança não recitam normas um para o outro. Os dois vão abrindo espaço neles mesmos e, nesse movimento, conseguem ser a rajada que sopra beleza e prazer por onde passa.

 

 

Helena Katz, crítica de arte, é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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