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Revista Brasileira de Terapia Intensiva

Print version ISSN 0103-507XOn-line version ISSN 1982-4335

Rev. bras. ter. intensiva vol.32 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2020  Epub May 08, 2020

http://dx.doi.org/10.5935/0103-507x.20200005 

ARTIGO ORIGINAL

Epidemiologia e desfecho dos pacientes de alto risco cirúrgico admitidos em unidades de terapia intensiva no Brasil

João Manoel Silva Júnior1  2  6 
http://orcid.org/0000-0003-1494-0784

Renato Carneiro de Freitas Chaves1  3 
http://orcid.org/0000-0001-7324-272X

Thiago Domingos Corrêa1 
http://orcid.org/0000-0001-9546-3910

Murillo Santucci Cesar de Assunção1 
http://orcid.org/0000-0002-0741-4869

Henrique Tadashi Katayama4 

Fabio Eduardo Bosso5 

Cristina Prata Amendola6 

Ary Serpa Neto1 
http://orcid.org/0000-0003-1520-9387

Luiz Marcelo Sá Malbouisson2 

Neymar Elias de Oliveira7 

Viviane Cordeiro Veiga8 
http://orcid.org/0000-0002-0287-3601

Salomón Soriano Ordinola Rojas8 

Natalia Fioravante Postalli8 

Thais Kawagoe Alvarisa8 

Bruno Melo Nobrega de Lucena2 

Raphael Augusto Gomes de Oliveira2 

Luciana Coelho Sanches6 

Ulysses Vasconcellos de Andrade e Silva6 

Antonio Paulo Nassar Junior9 
http://orcid.org/0000-0002-0522-7445

Álvaro Réa-Neto10 

Alexandre Amaral11 

José Mário Teles11 

Flávio Geraldo Rezende de Freitas12 

Antônio Tonete Bafi12 

Eduardo Souza Pacheco12 

Fernando José Ramos13 

José Mauro Vieira Júnior13 

Maria Augusta Santos Rahe Pereira14 

Fábio Sartori Schwerz14 

Giovanna Padoa de Menezes14 

Danielle Dourado Magalhães15 

Cristine Pilati Pileggi Castro15 

Sabrina Frighetto Henrich15 

Diogo Oliveira Toledo16 

Bruna Fernanda Camargo Silva Parra16 

Fernando Suparregui Dias17 
http://orcid.org/0000-0002-0407-8126

Luiza Zerman17 

Fernanda Formolo17 

Marciano de Sousa Nobrega18 

Claudio Piras19 

Stéphanie de Barros Piras19 

Rodrigo Conti19 

Paulo Lisboa Bittencourt20 

Ricardo Azevedo Cruz D’Oliveira20 

André Ricardo de Oliveira Estrela20 

Mirella Cristine de Oliveira21 

Fernanda Baeumle Reese21 

Jarbas da Silva Motta Júnior22 

Bruna Martins Dzivielevski da Câmara22 

Paula Geraldes David-João22 

Luana Alves Tannous23 

Viviane Bernardes de Oliveira Chaiben23 

Lorena Macedo Araújo Miranda24 

José Arthur dos Santos Brasil25 

Rafael Alexandre de Oliveira Deucher10 

Marcos Henrique Borges Ferreira26 

Denner Luiz Vilela26 

Guilherme Cincinato de Almeida26 

Wagner Luis Nedel27 
http://orcid.org/0000-0003-2539-4256

Matheus Golenia dos Passos27 

Luiz Gustavo Marin27 

Wilson de Oliveira Filho28 

Raoni Machado Coutinho28 

Michele Cristina Lima de Oliveira28 

Gilberto Friedman29 

André Meregalli29 

Jorge Amilton Höher29 

Afonso José Celente Soares30 

Suzana Margareth Ajeje Lobo7 
http://orcid.org/0000-0003-2726-2441

1Hospital Israelita Albert Einstein - São Paulo (SP), Brasil.

2Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

3Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Santos - Santos (SP), Brasil.

4Hospital do Servidor Público Estadual “Francisco Morato de Oliveira” - São Paulo (SP), Brasil.

5Universidade Cidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

6Hospital de Câncer de Barretos, Fundação Pio XII - Barretos (SP), Brasil.

7Hospital de Base, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - São José do Rio Preto (SP), Brasil.

8Hospital Beneficência Portuguesa - São Paulo (SP), Brasil.

9AC Camargo Cancer Center - São Paulo (SP), Brasil.

10Hospital Vita Batel - Curitiba (PR), Brasil.

11Hospital de Urgências de Goiânia - Goiânia (GO), Brasil.

12Hospital Sepaco - São Paulo (SP), Brasil.

13Hospital Sírio-Libanês - São Paulo (SP), Brasil.

14Associação Beneficente de Campo Grande - Campo Grande (MS), Brasil.

15Hospital São Vicente de Paulo - Passo Fundo (RS), Brasil.

16Hospital e Maternidade São Luiz Itaim, Rede D’Or - São Paulo (SP), Brasil.

17Hospital Pompeia - Caxias do Sul (RS), Brasil.

18Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil.

19Vitoria Apart Hospital - Serra (ES), Brasil.

20Hospital Português da Bahia - Salvador (BA), Brasil.

21Hospital do Trabalhador de Curitiba - Curitiba (PR), Brasil.

22Hospital Marcelino Champagnat - Curitiba (PR), Brasil.

23Hospital Universitário Cajuru - Curitiba (PR), Brasil.

24Hospital Erasto Gaertner - Curitiba (PR), Brasil.

25Instituto de Neurologia de Curitiba - Curitiba (PR), Brasil.

26Hospital Nossa Senhora de Fátima - Patos de Minas (MG), Brasil.

27Hospital Nossa Senhora da Conceição - Porto Alegre (RS), Brasil.

28Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto - Manaus (AM), Brasil.

29Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre - Porto Alegre (RS), Brasil.

30Hospital de Força Aérea do Galeão - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.

0103-507X-rbti-32-01-0017-suppl01.pdf


RESUMO

Objetivo:

Definir o perfil epidemiológico e os principais determinantes de morbimortalidade dos pacientes cirúrgicos não cardíacos de alto risco no Brasil.

Métodos:

Estudo prospectivo, observacional e multicêntrico. Todos os pacientes cirúrgicos não cardíacos admitidos nas unidades de terapia intensiva, ou seja, considerados de alto risco, no período de 1 mês, foram avaliados e acompanhados diariamente por, no máximo, 7 dias na unidade de terapia intensiva, para determinação de complicações. As taxas de mortalidade em 28 dias de pós-operatório, na unidade de terapia intensiva e hospitalar foram avaliadas.

Resultados:

Participaram 29 unidades de terapia intensiva onde foram realizadas cirurgias em 25.500 pacientes, dos quais 904 (3,5%) de alto risco (intervalo de confiança de 95% - IC95% 3,3% - 3,8%), tendo sido incluídos no estudo. Dos pacientes envolvidos, 48,3% eram de unidades de terapia intensiva privadas e 51,7% de públicas. O tempo de internação na unidade de terapia intensiva foi de 2,0 (1,0 - 4,0) dias e hospitalar de 9,5 (5,4 - 18,6) dias. As taxas de complicações foram 29,9% (IC95% 26,4 - 33,7) e mortalidade em 28 dias pós-cirurgia 9,6% (IC95% 7,4 - 12,1). Os fatores independentes de risco para complicações foram Simplified Acute Physiology Score 3 (SAPS 3; razão de chance − RC = 1,02; IC95% 1,01 - 1,03) e Sequential Organ Failure Assessment Score (SOFA) da admissão na unidade de terapia intensiva (RC =1,17; IC95% 1,09 - 1,25), tempo de cirurgia (RC = 1,001; IC95% 1,000 - 1,002) e cirurgias de emergências (RC = 1,93; IC95% 1,10 - 3,38). Em adição, foram associados com mortalidade em 28 dias idade (RC = 1,032; IC95% 1,011 - 1,052) SAPS 3 (RC = 1,041; IC95% 1,107 - 1,279), SOFA (RC = 1,175; IC95% 1,069 - 1,292) e cirurgias emergenciais (RC = 2,509; IC95% 1,040 - 6,051).

Conclusão:

Pacientes com escores prognósticos mais elevados, idosos, tempo cirúrgico e cirurgias emergenciais estiveram fortemente associados a maior mortalidade em 28 dias e mais complicações durante permanência em unidade de terapia intensiva.

Descritores: Procedimentos cirúrgicos operatórios/ epidemiologia; Procedimentos cirúrgicos operatórios/mortalidade; Cuidados pós-operatórios; Complicações pós-operatórias/mortalidade; Unidades de terapia intensiva; Brasil

ABSTRACT

Objective:

To define the epidemiological profile and the main determinants of morbidity and mortality in noncardiac high surgical risk patients in Brazil.

Methods:

This was a prospective, observational and multicenter study. All noncardiac surgical patients admitted to intensive care units, i.e., those considered high risk, within a 1-month period were evaluated and monitored daily for a maximum of 7 days in the intensive care unit to determine complications. The 28-day postoperative, intensive care unit and hospital mortality rates were evaluated.

Results:

Twenty-nine intensive care units participated in the study. Surgeries were performed in 25,500 patients, of whom 904 (3.5%) were high-risk (95% confidence interval - 95%CI 3.3% - 3.8%) and were included in the study. Of the participating patients, 48.3% were from private intensive care units, and 51.7% were from public intensive care units. The length of stay in the intensive care unit was 2.0 (1.0 - 4.0) days, and the length of hospital stay was 9.5 (5.4 - 18.6) days. The complication rate was 29.9% (95%CI 26.4 - 33.7), and the 28-day postoperative mortality rate was 9.6% (95%CI 7.4 - 12.1). The independent risk factors for complications were the Simplified Acute Physiology Score 3 (SAPS 3; odds ratio - OR = 1.02; 95%CI 1.01 - 1.03) and Sequential Organ Failure Assessment Score (SOFA) on admission to the intensive care unit (OR = 1.17; 95%CI 1.09 - 1.25), surgical time (OR = 1.001, 95%CI 1.000 - 1.002) and emergency surgeries (OR = 1.93, 95%CI, 1.10 - 3.38). In addition, there were associations with 28-day mortality (OR = 1.032; 95%CI 1.011 - 1.052), SAPS 3 (OR = 1.041; 95%CI 1.107 - 1.279), SOFA (OR = 1.175, 95%CI 1.069 - 1.292) and emergency surgeries (OR = 2.509; 95%CI 1.040 - 6.051).

Conclusion:

Higher prognostic scores, elderly patients, longer surgical times and emergency surgeries were strongly associated with higher 28-day mortality and more complications during the intensive care unit stay.

Keywords: Surgical procedures, operative/epidemiology; Surgical procedures, operative/mortality; Postoperative care; Postoperative complications/mortality; Intensive care units; Brazil

INTRODUÇÃO

As taxas de mortalidade e complicações perioperatórias relatadas para todos pacientes cirúrgicos são, respectivamente, de 7,7% e 20%.(1,2) Em pacientes acima de 55 anos de idade submetidos a cirurgias eletivas, a taxa de mortalidade é de aproximadamente 8,2% e complicações ocorrem em 15,8% dos casos.(3) Em pacientes com câncer, a mortalidade é de 20,3%, sendo significativamente maior em cirurgias de emergência (49,4%) do que em eletivas (5,7%).(4) Estudo envolvendo 105 mil pacientes cirúrgicos desmonstrou que presença de qualquer complicação nos primeiros 30 dias de pós-operatório foi o principal determinante do risco de morte.(5)

Em 2011, foi demonstrada, em estudo conduzido em 28 países europeus com 46.539 pacientes submetidos a cirurgias não cardíacas, taxa de mortalidade hospitalar de 4%, com significativa variação da mortalidade entre os diversos países europeus.(6) No Brasil, segundo dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), de um total de 4.405.782 procedimentos cirúrgicos realizados em 2014, 558.988 (12,7%) foram de alta complexidade e apresentaram taxa de mortalidade de 2,8%.(7) Adicionalmente, estudo brasileiro de 2008 realizado em 21 unidades de terapia intensiva (UTI) demostrou taxa de mortalidade na UTI de 15% e mortalidade em 90 dias de 20,3% em pacientes cirúrgicos, sendo a sepse (24,7%) a complicação mais comum no pós-operatório.(8)

Sabe-se que o desfecho clínico dos pacientes cirúrgicos de alto risco é influenciado, predominantemente, pelo estado fisiológico pré-operatório, pelo risco cirúrgico e pelos cuidados no período pós-operatório.(9) Desta forma, dados atualizados e mais abrangentes, assim como preditores de risco de morbidade e mortalidade de pacientes cirúrgicos no Brasil tornam-se indispensáveis.

O objetivo deste estudo foi determinar as características demográficas dos pacientes cirúrgicos internados nas UTIs brasileiras, a incidência e os possiveis fatores associados às principais complicações pós-operatórias, mortalidade em 28 dias, UTI e hospitalar.

MÉTODOS

Estudo de coorte prospectivo, multicêntrico, realizado entre 1º de maio a 1º de novembro de 2017, com seguimento de 28 dias. Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em pesquisa do centro coordenador do estudo, o Hospital Israelita Albert Einstein (CAAE: 55828016.1.1001.0071), e em todos os centros participantes. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi obtido de todos os pacientes ou seus representantes legais. Dois centros participantes obtiveram dispensa do TCLE devido à natureza observacional do estudo.

O recrutamento das UTIs participantes foi realizado em conjunto com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira network (AMIBnet) por meio de convites, via website e e-mails, e por cartas destinadas individualmente a cada um dos médicos intensivistas coordenadores de equipes de UTIs no Brasil, sendo selecionados para atingir o cálculo da amostra, seguindo proporcionalmente o censo de 2016,(10) isto é, aproximadamente 55% dos pacientes provenientes da Região Sudeste, 15% da Sul, 15% do Nordeste e 15% das Regiões Centro-Oeste e Norte.

Antes do início do estudo, um questionário sobre as características estruturais e operacionais dos hospitais envolvidos foi encaminhado para os centros que aceitaram participar. As unidades de terapia intensiva convidadas deveriam ser localizadas em hospitais terciários com, no mínimo, cem leitos, dos quais pelo menos dez leitos de UTIs e 50% dos atendimentos no mês de pacientes cirúrgicos. Considerando quanto maior fosse o número de atendimento, melhor seria o desempenho do centro incluído,(11) essa seleção contemplou hospitais de grande e especial porte, com capacidade e experiência ao atendimento a pacientes cirúrgicos que necessitassem de cuidados intensivos no pós-operatório.

Foram incluídos pacientes com idade ≥ 18 anos submetidos a cirurgias não cardíacas com necessidade de pós-operatório na UTI. Como os critérios para determinar cuidados intensivos no pós-operatório não foram padronizados entre os centros, todos os pacientes com esta indicação foram considerados como de alto risco.

Foram excluídos pacientes portadores de câncer terminal, em cuidados paliativos e portadores de insuficiência hepática grave (Child C), pois poderiam originar resultados irreais, uma vez que podem apresentar pouca ou nenhuma perspectiva de cura. Gestantes também foram excluídas.

Ainda, excluímos pacientes com tempo de internação hospitalar inferior a 12 horas, por não ser possível determinar acompanhamento na UTI ou por não caracterizarem alto risco; com múltiplas reoperações na mesma internação hospitalar; e readmitidos na UTI na mesma internação da inclusão, pois não poderiam participar mais que uma vez no estudo.

Foram coletados dados demográficos, Simplified Acute Physiology Score 3 (SAPS 3),(12) Sequential Organ Failure Assessment Score (SOFA) da admissão na UTI,(13) sistema de classificação de status físico da American Society of Anesthesiologists (ASA),(14) comorbidades e características das cirurgias realizadas como prioridade cirúrgica, local da operação e tempo cirúrgico. Durante os 7 primeiros dias de pós-operatório ou até a alta da UTI − o que ocorresse primeiro −, foram avaliados diariamente o SOFA(13) e as ocorrências de complicações. Adicionalmente, foram coletados tempos de internação na UTI e no hospital, mortalidade na UTI, no hospital e em 28 dias. Todos os dados foram obtidos usando um formulário eletrônico (Research Electronic Data Capture - REDCap).(15,16) Instruções para o adequado preenchimento da ficha de coleta de dados foram disponibilizadas aos investigadores.

Desfechos

O desfecho primário foi óbito em 28 dias de pós-operatório, avaliado presencialmente ou por contato telefônico. O seguimento de 28 dias foi escolhido visando padronizar o tempo de acompanhamento relacionado especificamente à cirurgia.

Como desfechos secundários, avaliamos tempo de permanência na UTI e no hospital, mortalidade na UTI e hospitalar, e a incidência das seguintes complicações:

Cardiovascular: caracterizada pela necessidade de vasopressor por mais de 1 hora, a despeito de ressuscitação volêmica adequada, infarto agudo do miocárdio, arritmias ou parada cardíaca.

Respiratória: relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada de oxigênio (PaO2/FiO2) < 200 em pacientes sem doença cardíaca prévia, necessidade de reintubação, presença de broncoespasmos ou pneumotórax.

Renal: presença de lesão renal aguda determinada pelo aumento agudo de creatinina sérica em 30% do valor basal, ou débito urinário < 0,5mL/kg/hora, ou SOFA renal maior que dois pontos, ou necessidade de terapia renal substitutiva durante internação na UTI em pacientes sem histórico de insuficiência renal crônica.

Neurológica: Escala de Agitação e Sedação de Richmond (RASS)(17) agudamente flutuante e diferente de zero dentro de 24 horas, agitação determinada com RASS ≥ +2, crises convulsivas ou acidente vascular encefálico documentados.

Coagulação: redução de contagem de plaquetas superior a 30% do valor basal no pré-operatório, ou atingir valores abaixo de 100.000mm3, ou sangramentos agudos acima de 100mL/hora associado à queda de 3 pontos de hematócrito.

Gastrintestinal: presença de distensão abdominal aguda, náuseas e vômitos incontroláveis, necessidade de nutrição parenteral, mais de três episódios de diarreia em 24 horas, hemorragia digestiva aguda, insuficiência hepática aguda, pancreatite aguda ou presença de fístulas de moderado a alto débito.

Análise estatística

Considerando dados da literatura, assumimos taxa de mortalidade mínima de 15% em pacientes cirúrgicos de alto risco.(8,18-22) Estimamos que, no mínimo, mil pacientes seriam necessários para a realização do estudo, permitindo a inclusão de dez variáveis explicativas em um modelo robusto de regressão logística, tendo mortalidade em 28 dias como variável dependente.

Variáveis categóricas foram apresentadas como frequências absolutas e relativas. Variáveis quantitativas foram apresentadas como média e desvio padrão (DP), ou como mediana e intervalo interquartil (IQR), quando apropriado. Utilizamos o teste de Kolmogorov-Smirnov para avaliar o padrão de distribuição das variáveis numéricas contínuas.

Proporções foram comparadas utilizando-se o teste qui-quadrado ou o teste exato de Fisher, quando apropriado. Variáveis quantitativas foram comparadas com análise de variância (ANOVA) ou teste Kruskal-Wallis, quando apropriado.

As associações entre variáveis explicativas e resposta foram avaliadas utilizando-se modelos fixos de regressão logística. Variáveis estatisticamente significante nas análises univariadas (p < 0,05) foram selecionadas para os modelos de regressão logística múltipla. Colinearidade foi avaliada primeiramente examinando a matriz de dispersão e o coeficiente de correlação de Pearson para variáveis contínuas, ou a tabulação cruzada para variáveis categóricas. Avaliamos ainda a colinearidade com a análise do fator de inflação da variância. Variáveis com colinearidade substancial (fator de inflação da variância ≥ 10) foram excluídas. Os resultados das análises de regressões logísticas foram expressos em razões de chance (RC) e respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%).

Todas as probabilidades de significância (valores de p) apresentadas foram do tipo bicaudal. Os valores de p foram considerados estatisticamente significantes quando < 0,05. Os softwares Statistical Package for Social Sciences (SPSS Inc.®; Chicago, IL, USA), versão 20.0, e R v.3.4.1 (R Foundation for Statistical Computing, Vienna, Austria) foram utilizados para realização das análises.

RESULTADOS

Características dos centros e dos pacientes estudados

Foram selecionadas para participação no estudo 55 UTIs de 55 hospitais. Destas, 12 (21,8%) não atingiram elegibilidade requerida para participação por diferentes motivos: 5 UTIs (9,1%) recusaram participar por não atenderem pacientes cirúrgicos suficientemente conforme planejado e 9 (16,4%) retornaram questionários incompletos a respeito de dados do estudo. No total, 29 UTIs participaram do estudo (Figura 1). Aproximadamente metade das UTIs participantes localizava-se na Região Sudeste (14/29; 48,3%), seguido da Sul (8/29; 27,6%), do Centro-Oeste (4/29; 13,7%) e do Norte e Nordeste (3/29; 10,3%) (Tabela 1). Não houve diferenças significantes entre as características operacionais das UTIs quando comparadas as regiões do país (Tabela S1 - Material suplementar).

Figura 1 Fluxograma dos participantes do estudo. UTI - unidade de terapia intensiva. 

Tabela 1 Perfil dos pacientes incluídos no estudo, de acordo com a distribuição geográfica 

Características Todos Sudeste Sul Centro-Oeste Norte e Nordeste Valor de p
Idade 62 (50 - 72) 62 (51 - 72) 63 (49 - 74,5) 57 (39,2 - 70,7) 64 (57-73) 0,225 *
Homens 444 (53,8) 269 (54,7) 102 (47,4) 57 (68,7) 16 (45,7) 0,008
SAPS 3 escore 42 (32 - 53) 39 (31 - 49) 44 (34 - 54) 59,5 (43 - 70) 44,5 (37 - 55) < 0,001 *
SOFA admissão UTI 2 (1 - 5) 2 (1 - 5) 2 (1 - 4) 4 (1 - 7) 1 (1 - 2) < 0,001 *
IMC 25 (22 - 28) 25 (23 - 28) 25 (23 - 28) 24 (20 - 25) 25 (20 - 27) < 0,001 *
Etnia
Caucasiano 585 (71,3) 343 (71,3) 198 (91,7) 39 (47,0) 5 (12,5) < 0,001
Pardo 157 (19,1) 77 (16,0) 13 (6,0) 35 (42,2) 32 (80,0) < 0,001
Negro 61 (7,4) 49 (10,2) 1 (0,5) 8 (9,6) 3 (7,5) < 0,001
Outros 17 (2,1) 12 (2,4) 4 (1,9) 1 (1,2) 0 (0,0) 0,774
ASA 2 (2 - 3) 2 (2 - 3) 2 (2 - 3) 3 (2 - 3) 2 (2 - 3) 0,044 *
Duração da cirurgia, minuto 240 (180 - 360) 300 (180 - 390) 180 (120 - 300) 180 (120 - 300) 210 (155 - 300) < 0,001 *
Tipo de cirurgia
Eletiva 613 (69,2) 401 (76,4) 154 (64,7) 26 (31,3) 32 (80,0) < 0,001
Urgência 147 (16,6) 84 (16,0) 32 (13,4) 26 (31,3) 5 (12,5) 0,002
Emergência 126 (14,2) 40 (7,6) 52 (21,8) 31 (37,3) 3 (7,5) < 0,001
Cirurgias
Abdominal 252 (28,1) 130 (24,4) 53 (22,0) 32 (38,6) 37 (92,5) < 0,001
Oncológica 250 (27,9) 197 (37,0) 27 (11,2) 2 (2,4) 24 (60) < 0,001
Neurológicos 186 (20,8) 88 (16,5) 79 (32,7) 19 (23,0) 0 (0,0) < 0,001
Ortopédicos 143 (16,0) 71 (13,3) 53 (22,0) 19 (23,0) 0 (0,0) < 0,001
Vascular 74 (8,3) 57 (10,7) 8 (3,3) 9 (12,2) 0 (0,0) < 0,001
Torácica 53 (5,9) 27 (5,1) 16 (6,6) 7 (8,4) 3 (7,5) 0,567
Urológical 48 (5,4) 40 (7,5) 5 (2,1) 2 (2,4) 1 (2,5) 0,007
Cabeça e pescoço 39 (4,4) 28 (5,3) 9 (3,7) 2 (2,4) 0 (0,0) 0,278
Ginecológica 19 (2,1) 14 (2,6) 3 (1,2) 1 (1,2) 1 (2,5) 0,589
Outras cirurgias 55 (6,1) 48 (9,0) 4 (1,7) 1 (1,2) 2 (5,0) < 0,001
Doença subjacente 707 (80,4) 444 (84,9) 180 (77,3) 52 (62,7) 31 (77,5) < 0,001
Hipertensão arterial 396 (44,2) 260 (48,9) 89 (36,9) 28 (33,7) 19 (47,5) 0,003
Câncer 191 (21,3) 143 (26,9) 29 (12,0) 4 (4,8) 15 (37,5) < 0,001
Diabetes mellitus 188 (21,0) 131 (24,6) 31 (12,9) 16 (19,3) 10 (25,0) 0,002
Tabagismo 134 (15,0) 85 (16,0) 33 (13,7) 14 (16,9) 2 (5,0) 0,251
ICO 67 (7,5) 47 (10,6) 8 (3,3) 4 (4,8) 8 (20,0) < 0,001
DPOC 54 (6,0) 34 (6,4) 13 (5,4) 3 (3,6) 4 (10,0) 0,520
IRC 48 (5,4) 40 (7,5) 2 (0,8) 4 (4,9) 2 (5,0) 0,002
AVC 27 (3,0) 16 (3,0) 8 (3,3) 3 (3,6) 0 (0,0) 0,700
Etilismo 46 (5,1) 28 (5,3) 11/ (4,6) 7 (8,4) 0 (0,0) 0,241
Arritmia 44 (4,9) 30 (5,6) 9 (3,7) 2 (2,4) 3 (7,5) 0,391
Outras comorbidades 251 (28,0) 157 (29,5) 70 (29,0) 16 (19,3) 8 (20,0) 0,162
Tipo de anestesia < 0,001
Geral 642 (73,6) 389 (75,4) 171 (73,4) 62 (74,7) 20 (50,0)
Neuraxial 80 (9,2) 40 (7,8) 21 (9,0) 16 (19,3) 3 (7,5)
Geral e neuraxial 150 (17,2) 87 (16,9) 41 (17,6) 5 (6,0) 17 (42,5)
Total 904 (100) 539 (59,6) 241 (26,7) 84 (9,3) 40 (4,4)

SAPS 3 - Simplified Acute Physiology Score 3; SOFA - Sequential Organ Failure Assessment Score; UTI - unidade de terapia intensiva; IMC - índice de massa corporal; ASA - American Society of Anesthesiologists; ICO - insuficiência coronariana; DPOC - doença pulmonar obstrutiva crónica; IRC - insuficiência renal crônica; AVC - acidente vascular cerebral.

*Análise de variância;

teste do qui-quadrado.

Resultados expressos como n (%) ou mediana (intervalo interquartil).

Durante o período do estudo, 25.500 pacientes foram submetidos a cirurgias não cardíacas. Destes, 904 (3,5%; IC95% 3,3% - 3,8%) foram admitidos nas UTIs e incluídos no estudo (Figura 1).

A mediana (IQR) da idade dos pacientes foi de 62 (50 - 72) anos, sendo 53,8% dos pacientes do sexo masculino. A mediana (IQR) do SAPS 3 foi 42 (32 - 53) pontos. Aproximadamente metade (51,7%) dos pacientes incluídos no estudo foi proveniente de UTIs públicas. Cerca de 80,4% dos pacientes possuíam ao menos uma comorbidade, sendo hipertensão arterial sistêmica, câncer e tabagismo as mais frequente. As características clínicas e demográficas e os tipos de cirurgias realizadas de acordo com a distribuição geográfica estão demonstrados na tabela 1.

Desfecho primário

A mortalidade em 28 dias do pós-operatório em toda coorte foi 9,6%. No modelo de regressão logística, os fatores independentes associados à mortalidade em 28 dias foram idade (RC = 1,032; IC95% 1,011 - 1,052), SAPS 3 (RC = 1,041; IC95% 1,107 - 1,279), SOFA da admissão na UTI (RC = 1,175; IC95% 1,069 - 1,292) e cirurgias emergenciais (RC = 2,509; IC95% 1,040 - 6,051) (Tabela 2).

Tabela 2 Fatores relacionados à mortalidade após 28 dias da cirurgia 

Univarida Multivariada
OR IC95% Valor de p OR IC95% Valor de p
Sexo masculino 1,105 0,658 - 1,855 0,707
Etnia caucasiana 0,926 0,115 - 7,492 0,943
Idade (anos) 1,019 1,003 - 1,035 0,017 1,032 1,011 - 1,052 0,003
IMC (kg/cm2) 0,971 0,918 - 1,027 0,301
SAPS 3 escore (unidade) 1,076 1,057 - 1,096 0,000 1,041 1,018 - 1,065 0,001
SOFA admissão (unidade) 1,281 1,198 - 1,369 0,000 1,175 1,069 - 1,292 0,001
ASA (unidade) 2,326 1,684 - 3,213 0,000 1,283 0,884 - 1,863 0,190
Tempo de cirurgia (minutos) 0,998 0,996 - 1,000 0,065
Tipo de cirurgia
Eletiva Referência
Urgência 3,577 1,880 - 6,806 0,000 1,535 0,690 - 3,414 0,294
Emergência 6,739 3,659 - 12,411 0,000 2,509 1,040 - 6,051 0,041
Cirurgia
Cabeça e pescoço 4,247 1,077 - 16,754 0,039 3,100 0,847 - 11,351 0,088
Abdominal 3,988 1,613 - 9,856 0,003 1,441 0,694 - 2,993 0,327
Oncológica 0,39 0,434 - 1,622 0,602
Neurológica 3,754 1,331 - 10,593 0,012 1,519 0,630 - 3,664 0,352
Ortopédica 2,186 0,774 - 6,75 0,140
Vascular 2,124 0,604 - 7,463 0,240
Torácica 1,176 0,195 - 7,101 0,854
Urológica 2,374 0,680 - 8,293 0,175
Ginecológica 1,325 0,151 - 11,596 0,799
Doenças crônicas
Hipertensão arterial 1,083 0,775 - 1,514 0,639
Câncer 1,089 0,597 - 1,920 0,774
Diabetes mellitus 1,199 0,639 - 2,164 0,557
Tabagismo 1,165 0,576 - 2,221 0,654
Insuficiência coronariana 1,010 0,365 - 2,393 0,983
Acidente vascular cerebral 2,689 0,689 - 9,162 0,123
Doença pulmonar obstrutiva crônica 1,325 0,471 - 3,227 0,560
Insuficiência renal crônica 2,039 0,786 - 5,289 0,143
Etilismo 1,361 0,435 - 3,579 0,558
Arritmia 3,007 1,181 - 7,656 0,021 0,765 0,218 - 2,686 0,676
Anemia prévia a cirurgia (Hb < 10g/dL) 1,211 0,246 - 5,954 0,814
Outras comorbidades 1,271 0,738 - 2,189 0,388
Tipo de anestesia
Anestesia geral Referência
Anestesia neuroaxial 0,522 0,183 - 1,489 0,224
Anestesia combinada (geral + neuroaxial) 0,544 0,252 - 1,172 0,120
Tipo de hospital
Privado Referência
Público 1,332 0,804 - 2,207 0,265

OR - odds ratio; IC95% - intervalo de confiança de 95%; IMC - índice de massa corporal; SAPS 3 - Simplified Acute Physiology Score 3; SOFA - Sequential Organ Failure Assessment Score; ASA - American Society of Anesthesiologists; Hb - hemoglobina. Área sob a curva: 0,843; intervalo de confiança de 95% 0,813 - 0,870.

Desfechos secundários

A incidência total de complicações pós-operatórias foi de 29,9% (265/886), com maiores ocorrências de complicações cardiovasculares (16,9%), renais (15,8%), respiratórias (8,2%) e neurológicas (7,7%) (Figura 2). A mediana (IQR) do tempo de internação na UTI foi 2 (1 - 4) dias. A mediana (IQR) do tempo de internação hospitalar foi 9,5 (5,4 - 18,6) dias.

Figura 2 Ocorrências e intervalos de confiança de mortalidade (A) e complicações pós-operatória (B). UTI - unidade de terapia intensiva. 

Pacientes com maiores valores de SAPS 3 (RC = 1,02; IC95% 1,01 - 1,03) e SOFA da admissão na UTI (RC = 1,17; IC95% 1,09 - 1,25), tempo de cirurgia (RC = 1,001; IC95% 1,000 - 1,002) e cirurgias de emergências (RC = 1,93; IC95% 1,10 - 3,38) apresentaram associação independente com ocorrências de complicações na UTI (Tabela 3).

Tabela 3 Fatores relacionados a complicações no período pós-operatório 

Univariada Multivariada
OR IC95% Valor de p OR IC95% Valor de p
Sexo masculino 1,205 0,874 - 1,667 0,257
Etnia caucasiana 0,835 0,289 - 2,410 0,739
Idade (ano) 1,003 0,995 - 1,012 0,458
IMC (kg/cm2) 0,984 0,953 - 1,016 0,324
SAPS 3 escore (unidade) 1,048 1,037 - 1,061 < 0,001 1,025 1,012 - 1,039 0,000
SOFA admissão (unidade) 1,249 1,189 - 1,316 < 0,001 1,172 1,095 - 1,254 0,000
ASA, unidade 1,345 1,106 - 1,638 0,003 0,993 0,778 - 1,267 0,956
Tempo de cirurgia (minutos) 1,002 1,000 - 1,003 0,009 1,001 1,000 - 1,002 0,012
Tipo de cirurgia
Eletiva Referência
Urgência 2,111 1,441 - 3,092 < 0,001 1,418 0,868 - 2,315 0,163
Emergência 3,570 2,398 - 5,316 < 0,001 1,928 1,100 - 3,381 0,022
Cirurgia
Cabeça e pescoço 0,592 0,268 - 1,305 0,194
Ginecológica 1,503 0,576 - 3,921 0,405
Abdominal 1,665 1,221 - 2,270 0,001 1,153 0,791 - 1,682 0,458
Vascular 1,161 0,697 - 1,936 0,566
Torácica 1,113 0,613 - 2,019 0,725
Neurológica 0,836 0,582 - 1,201 0,332
Urológica 0,863 0,449 - 1,658 0,658
Oncológica 1,276 0,493 - 3,599 0,627
Ortopédica 0,796 0,531 - 1,195 0,272
Doenças crônicas previas
Hipertensão arterial 1,083 0,775 - 1,514 0,639
Diabetes mellitus 0,903 0,600 - 1,359 0,625
Tabagismo 1,446 0,935 - 2,234 0,097
Etilismo 1,939 1011 - 3,718 0,046 1,171 0,557 - 2,459 0,678
Insuficiência renal crônica 2,047 1,107 - 3,708 0,031 1,180 0,554 - 2,515 0,668
Arritmia 1,643 0,840 - 3,096 0,133
Insuficiência coronariana 0,933 0,524 - 1,660 0,813
Câncer 1,011 0687 - 1,466 0,956
Acidente vascular cerebral 1,377 0,600 - 3,161 0,450
Doença pulmonar obstrutiva crônica 0,888 0,438 - 1,676 0,726
Anemia prévia a cirurgia (Hb < 10g/dL) 3,024 1,025 - 8,921 0,045 2,504 0,726 - 8,630 0,146
Outras comorbidades 0,909 0,658 - 1,256 0,564
Tipo de anestesia
Anestesia geral Referência
Anestesia neuroaxial 1,681 0,632 - 4,012 0,264
Anestesia combinada (geral + neuroaxial) 1,453 0,763 - 2,673 0,240
Tipo de hospital
Privado Referência Referência
Público 1,992 1,183 - 3,424 0,011 1,049 0,729 - 1,511 0,796

OR - odds ratio; IC95% - intervalo de confiança de 95%; IMC - índice de massa corporal; SAPS 3 - Simplified Acute Physiology Score 3; SOFA - Sequential Organ Failure Assessment Score; ASA - American Society of Anesthesiologists; Hb: hemoglobina. Área sob a curva: 0,755; intervalo de confiança de 95% 0,722 - 0,786.

Finalmente, para mortalidade na UTI e hospitalar, a aplicação do mesmo modelo de regressão realizado para mortalidade em 28 dias revelou os mesmos fatores de risco para mortalidade hospitalar. Contudo, para mortalidade em UTI, as cirurgias abdominais também foram relacionadas a maior risco de morte (RC = 1,067; IC95% 2,865 - 7,691) (Figura 3).

Figura 3 Fatores de risco relacionados à mortalidade na unidade de terapia intensiva e hospitalar (análise multivariada). UTI - unidade de terapia intensiva; SAPS 3 - Simplified Acute Physiology Score 3; SOFA - Sequential Organ Failure Assessment Score; ASA - American Society of Anesthesiologists

Comparações entre unidades de terapia intensiva públicas e privadas

Aproximadamente 52% das UTIs participantes do estudo eram públicas (Tabela S2 - Material suplementar).

No modelo de regressão, não ocorreram diferenças entre UTIs públicas e privadas, tanto para mortalidade como para complicações (Tabelas 2 e 3).

DISCUSSÃO

Neste estudo de coorte prospectivo nacional foram avaliadas a epidemiologia, as complicações e a mortalidade dos pacientes de alto risco cirúrgico no Brasil. Os principais achados do estudo foram associados a ocorrência de mortalidade aos 28 dias de 9,6% e a complicações no pós-operatório de 30%, sendo estas mais frequentemente relacionadas aos sistemas cardiovascular e renal. Fatores de risco para complicações e mortalidade foram identificados como elevados valores de SAPS 3 e SOFA na admissão da UTI, idade elevada, tempo cirúrgico prolongado e cirurgias emergências. Foi também observada baixa taxa de internação em UTI em relação à demanda de cirurgias.

Os dados do atual estudo identificaram taxas de mortalidade na UTI de 4,9%, 8,9% hospitalar e 9,6% aos 28 dias de seguimento. Estes dados são semelhantes aos de estudo europeu (EuSOS)(6) e outro africano (SASOS),(23) que investigaram e acompanharam por pelo menos 7 dias os pacientes no pós-operatório de cirurgias não cardíacas e relataram taxas de 3% a 5% de mortes na UTI, com mediana de tempo de internação nessa unidade de 2 a 3 dias e hospitalar de 9 a 10 dias. Além disso, comparando-se os resultados do presente estudo com dados de estudo prévio brasileiro(8) em população bastante semelhante, as taxas de morbimortalidade diminuíram de forma substancial, sendo anteriormente reportados 15% a mortalidade na UTI e 20% hospitalar. Estes dados, juntamente dos de outros grandes estudos mais recentes realizados em outros países,(24) que também apresentaram taxas decrescentes de mortalidade e complicações, sugerem que os resultados estão melhorando em pacientes de maior risco cirúrgico, embora isto possa ser explicado por diferenças não perceptíveis entre as populações incluídas nos estudos.

No entanto, as complicações na UTI foram elevadas, principalmente as relacionadas às disfunções renal e cardiovascular. As complicações permanecem como importante determinante de curto tempo de sobrevida, mesmo em pacientes que sobrevivem à internação hospitalar.(2)

Dentre as complicações pós-operatórias, as cardiovasculares e renais são responsáveis por proporção considerável de morbidade e mortalidade relacionadas às cirurgias.(25,26) Fatores relacionados aos cuidados perioperatórios, como sobrecarga hídrica(22,27) e condição hemodinâmica desfavorável, podem contribuir para a deterioração da função cardíaca e renal.

Algumas características chamam atenção nesta amostra, como elevada idade de 62 (50 - 72) anos, SOFA da admissão na UTI de 2 (1 - 5) e tempo cirúrgico prolongado de 240 (180 - 360) minutos. Essas variáveis, somadas a elevado SAPS 3 e cirurgias emergenciais, foram fortemente associadas a mortalidade em 28 dias e complicações pós-operatórias.

Os critérios de inclusão anteriormente reportados em outros estudos(9,28-31) exibiram condições semelhante aos achados presentes deste estudo, como idade elevada, condições clínicas e cirurgias extensas.

Em contrapartida, alguns escores prognósticos, na prática clínica, são utilizados frequentemente para estratificação do risco de morte em pacientes cirúrgicos, como o ASA Physical Status Classification, porém este não incorpora variáveis específicas do procedimento cirúrgico - talvez, por esse motivo, não encontramos, por meio deste estudo, correlação do status ASA com morte ou complicações pós-operatória. Todavia, o escore prognóstico SAPS 3 tem ganhando destaque em estudos brasileiros de pacientes cirúrgicos de alto risco.(12,32)

Somando-se a estas premissas, as cirurgias de grande porte impõem estresses fisiológicos, que podem causar morbidade e mortalidade significativas no período perioperatório.(2,33) No entanto, somente 3,5% (IC95% 3,3 - 3,8) dos pacientes submetidos a cirurgias de maior porte no período foram encaminhados à UTI. Um estudo do Reino Unido em pacientes cirúrgicos, com taxa global de mortalidade perioperatória de 2%, demonstrou que 80% dessas mortes ocorreram em pequeno subgrupo de procedimentos, que constituem apenas 12% da população cirúrgica.(34) Isto demonstra que morbidade e mortalidade tendem a ocorrer em extensão relativamente pequena de pacientes cirúrgicos. Por tal motivo, é importante serem identificados os pacientes de maior risco.

Nosso estudo possui alguns pontos fortes e limitações, que devemos considerar, como o caráter multicêntrico e a inclusão de UTIs com perfis semelhantes e de forma proporcional à distribuição regional das UTIs no Brasil, conforme censo AMIB de 2016. Apesar disso, nosso modelo de estudo não é tão robusto para ser conclusivo sobre os dados em nível nacional, já que menos de 5% das UTIs localizaram-se nas Regiões do Norte e Nordeste, e um grau variável de viés de seleção pode resultar em diferenças importantes entre os relatórios. Em adição, houve razoável taxa de recusa para participação no estudo, comprometendo, em parte, a validade externa.

Ocorreram falhas na captura de alguns dados relevantes e outros que poderiam ser incluídos nas análises, como dados do intraoperatório, mas este não era o principal objetivo do estudo, pelo caráter epidemiológico e menos preocupado com os cuidados individuais dos pacientes.

Ainda assim, a necessidade de obtenção de TCLE em estudos epidemiológicos como este tende a enviesar a amostra, por não consentimento de pacientes mais graves, em casos em que a família pode estar psicologicamente sensibilizada. Outro aspecto a considerar foi a falta de padronização entre os centros a respeito de indicação de cuidados intensivos pós-operatórios. Além de tudo, este estudo não foi capaz de avaliar complicações e mortalidade em longos prazos, e algumas complicações podem ter ocorrido após o período determinado no estudo.

CONCLUSÃO

Nesta amostra de unidades de terapia intensiva do Brasil, as taxas de mortalidade de pacientes cirúrgicos de alto risco vêm diminuindo e são comparáveis às de outras regiões do mundo. Complicações são ainda frequentes, ocorrendo em cerca de um terço dos pacientes. Idade, SAPS 3, SOFA na admissão da unidade de terapia intensiva, cirurgias emergenciais e tempo cirúrgico foram associados a mortalidade em 28 dias e complicações pós-operatórias.

AGRADECIMENTOS

À equipe de coleta de dados de cada unidade de terapia intensiva, ao Hospital Israelita Albert Einstein e ao Hospital de Câncer de Barretos, pelo suporte para a realização do estudo.

O estudo foi endossado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (AMIBnet).

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Recebido: 15 de Fevereiro de 2019; Aceito: 18 de Novembro de 2019

Autor correspondente: João Manoel Silva Júnior, Divisão de Anestesiologia, Instituto Central, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo Avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255 - Cerqueira César, CEP: 05403-000 - São Paulo (SP), Brasil. E-mail: joao.s@usp.br

Conflitos de interesse: None.

Editor responsável: Flávia Ribeiro Machado

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