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Fisioterapia em Movimento

Print version ISSN 0103-5150On-line version ISSN 1980-5918

Fisioter. mov. vol.25 no.3 Curitiba July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-51502012000300020 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Efeito do treinamento concorrente nos componentes da síndrome metabólica de homens de meia-idade

 

Effect of concurrent training on components of the metabolic syndrome in middle-aged men

 

 

Giovana Vergínia de SouzaI; Cleiton Augusto LibardiII; José Rocha Jr.III; Vera Aparecida MadrugaIV; Mara Patrícia Traina Chacon-MikahilV

IDoutoranda em Atividade Física Adaptada pela Faculdade de Educação Física da Universidade de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP - Brasil, e-mail: gigia@fef.unicamp.br
IIPós-doutorando em Educação Física pela Faculdade de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), pesquisador colaborador da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP - Brasil, e-mail: cleiton.libardi@hotmail.com
IIIDoutor em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), docente da disciplina de Cardiologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, Campinas, SP - Brasil, e-mail: jrocha@fcm.unicamp.br
IVDoutora em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP - Brasil, e-mail: madruga@fef.unicamp.br
VDoutora em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da UNICAMP, Campinas, SP - Brasil, e-mail: marapatricia@fef.unicamp.br

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A prática regular de exercícios físicos é considerada fundamental para prevenção e tratamento da Síndrome Metabólica, porém pouco se sabe sobre a forma ideal de treinamento.
OBJETIVO: Verificar o efeito de 16 semanas de treinamento concorrente (TC) com frequência semanal e duração da sessão similar ao treinamento de força (TF) e treinamento aeróbio (TA) isolados sobre os componentes da síndrome metabólica (SM) de homens de meia-idade.
MÉTODOS: Foram selecionados 42 homens clinicamente saudáveis distribuídos em quatro grupos: TA (n = 13), TF (n = 9), TC (n = 10) e grupo controle (GC, n = 10). Os treinamentos foram compostos por duas etapas (E1 e E2) com duração de oito semanas cada, e frequência de três sessões/semana (TF: dez exercícios com 3 x 8-10 RM; TA: 60 min. de caminhada ou corrida a 55-85% VO2pico; TC: seis exercícios com 3 x 8-10 RM, seguidos de 30 min. de caminhada ou corrida a 55-85% VO2pico). Foram avaliadas circunferência de cintura (CC), perfil lipídico, glicose, pressão arterial (PA) e força máxima e VO2pico.
RESULTADOS: A CC reduziu para o TA (-1,70%; p = 0,023) e TC (-1,66%; p = 0,018) e o LDL para o TF (-25,03%; p = 0,047) e TC (29,74%; p = 0,011). O TC promoveu redução na PA sistólica (-7,83%; p = 0,029). A força máxima e VO2pico aumentaram para os três grupos de treinamento (p > 0,05).
CONCLUSÃO: A realização do TC frequência semanal e duração das sessões similar ao TA e TF isolados é mais eficaz para a melhora de componentes da SM.

Palavras-chave: Perfil lipídico. Pressão arterial. Treinamento aeróbio. Treinamento de força.


ABSTRACT

INTRODUCTION: The practice of regular physical exercise is considered critical to prevention and treatment of metabolic syndrome, but little is known about the ideal form of training.
OBJECTIVE: To investigate the effect of 16 weeks of concurrent training (CT) with weekly frequency and duration of the session similar to strength training (ST) and endurance training (ET) isolates, in the components of metabolic syndrome (MS) of middle-age men.
METHODS: Forty-two clinically healthy men were selected and divided into four groups: ET (n = 13), ST (n = 9), CT (n = 10) and control group (CG, n = 10). The training was composed of two steps (E1 and E2) with a duration of eight weeks each, and frequency of three sessions/week (ST: ten exercises with 3 x 8-10 RM; AT: 60 min. Walking or running at 55 -85% VO2peak, CT: six exercises with 3 x RM 8.10, followed by 30 min. walking or running at 55-85% VO2peak). We evaluated waist circumference (WC), lipid profile, glucose, blood pressure (BP), maximum force and VO2peak.
RESULTS: The WC reduced to the AT (-1.70%, p = 0.023) and CT (-1.66%, p = 0.018) and LDL to the ST (-25.03%, P = 0.047) and CT (29.74%, p = 0.011). The CT promoted the reduction in systolic BP (-7.83%, P = 0.029). The maximum force and peak VO2 increased for the three training groups (p > 0.05).
CONCLUSION: The performance of CT weekly frequency and duration of sessions similar to the ET and ST alone is more effective for the improvement of MS components.

Keywords: Lipid profile. Blood pressure. Endurance training. Strength training.


 

 

Introdução

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, em 2015, mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo apresentarão sobrepeso (IMC ≥ 25 kg/m2) ou obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2). O sobrepeso e a obesidade são resultado do aumento do sedentarismo e da alta ingestão calórica (1), o que contribui para o desenvolvimento da Síndrome Metabólica (SM) (2), que, por sua vez, aumenta a possibilidade do desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 e de doença cardiovascular (DCV) (3).

A prática regular de exercícios físicos é considerada fundamental para prevenção e tratamento da SM (4, 5). Portanto, tem-se sugerido que um regime ótimo de treinamento para os indivíduos que exibem os fatores de risco cardiovascular associados a SM requer a associação do treinamento aeróbio (TA) ao treinamento de força (TF) (6). De fato, importantes diretrizes têm preconizado a realização do treinamento concorrente (TC; i. e. TF e TA em uma mesma unidade de treinamento ou em dias alternados) durante o envelhecimento (7, 8).

Para que o TA e o TF (i. e. TC) sejam realizados, é necessário aumentar o volume do TC quando comparada a realização do TA e do TF de forma isolada. Stewart et al. (9) demonstraram que três sessões semanais de TC melhoram os componentes da SM de indivíduos de meia-idade e idosos, entretanto, o protocolo utilizado foi de aproximadamente duas horas a sessão. Por outro lado, quando a duração da sessão é menor, para que os mesmos benefícios sejam obtidos, parece necessário aumentar a frequência de treinamento (i. e. 2x TA e 2x TF) (10), sendo o dobro das sessões de TA e TF isoladas (i. e. 2x). Dessa forma, é possível que a vantagem do TC para a melhora dos componentes da SM deva-se ao maior volume de treinamento em relação à realização do TA e TF de forma isolada. Embora a redução dos componentes da SM ocorra quando um elevado volume do TC é realizado, duração das sessões e frequência semanal de TC reduzidas podem aumentar a aderência (11), bem como estimular o início da prática de exercícios físicos por pessoas sedentárias. Porém, ainda não se sabe se o TC realizado com frequência semanal e duração da sessão similar ao TA e o TF isolados continua apresentando vantagens para a melhora dos componentes da SM em relação a esses regimes de treinamento.

Dessa forma, o objetivo do presente estudo é verificar o efeito do TC com frequência semanal e duração das sessões similares ao TA e TF nos componentes da SM de homens de meia-idade.

 

Métodos

Amostra

Participaram do estudo 42 homens, com idade entre 40 e 60 anos. Todos foram previamente informados sobre os métodos do estudo e, ao concordarem em participar dele, assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade.

Como critérios iniciais de inclusão, os voluntários deveriam ser considerados irregularmente ativos B ou sedentários, segundo o questionário internacional de nível de atividade física (IPAQ) (12), e não ter participado regularmente de nenhum programa de treinamento físico nos últimos seis meses precedentes ao estudo, segundo o questionário de atividade física habitual "Baecke" (13). Todos os voluntários realizaram avaliação clínica composta de eletrocardiograma de repouso e teste ergométrico, conduzidos por um médico cardiologista, antes do início do estudo. Como critérios de exclusão foram adotados a manifestação de doença isquêmica do miocárdio, arritmias, hipertensão arterial, diabetes mellitus e obesidade mórbida. Somente fizeram parte da amostra do presente estudo os voluntários que participaram de pelo menos 90% das sessões de treinamento realizadas, e que não se ausentaram por mais de duas sessões de treinamento consecutivas.

Delineamento experimental

As avaliações antropométricas, do perfil lipídico, glicose plasmática, pressão arterial, força muscular e cardiorrespiratória foram realizadas antes (pré), e ao fim (pós) do período experimental. Os voluntários foram distribuídos em quatro grupos: TA, n = 13, 46,8 ± 3,4 anos; TF, n = 9, 48,7 ± 5,5 anos; TC, n = 10, 47,5 ± 5,1 anos; GC, n = 10, 49 ± 5,3 anos.

Os grupos TF, TA e TC foram submetidos a 16 semanas de treinamento, enquanto o GC permaneceu por todo o período experimental sem realizar nenhum treinamento físico. Os protocolos de TF, TA e TC foram divididos em etapa 1 (E1) e etapa 2 (E2), com duração de oito semanas consecutivas cada, em que os voluntários realizaram três sessões semanais de treinamento, em dias alternados (segundas, quartas e sextas-feiras). Entre as duas etapas houve um intervalo de uma semana sem treinamento, para realização das avaliações cardiorrespiratórias. A partir dos resultados obtidos na avaliação cardiorrespiratória, foi realizado ajuste na intensidade de caminhada e corrida dos protocolos TA e TC para E2. A duração das sessões de TA, TF e TC foi de aproximadamente 60 minutos. Os programas de treinamento foram descritos detalhadamente (14, 15).

Antropometria

A avaliação da massa corporal foi realizada por meio de balança de plataforma, Filizola® digital modelo ID-1500 (precisão de 0,1 kg) e a estatura foi obtida em um estadiômetro de madeira com precisão de 0,1 cm (16). A partir das medidas de massa corporal e estatura, calculou-se o índice de massa corpórea (IMC), por meio do quociente peso corporal/estatura (2). Foi avaliada, também, a circunferência de cintura (CC), por meio de fita flexível (17).

Perfil lipídico e glicose plasmática

Amostras de sangue (~10 ml) foram obtidas da veia anticubital pela manhã, após 12h de jejum, antes e após o período. As concentrações séricas de triglicerídeos (TG), lipoproteínas de alta densidade (HDL) e glicose foram mensuradas por meio de um analisador automático (Technicon, RA 1000, USA) e kits comercialmente disponíveis (Laborlab, Brazil). A lipoproteína de baixa densidade (LDL) foi calculada de acordo com a equação de Friedwald (18).

Pressão arterial

Ao chegarem ao laboratório, os voluntários permaneceram sentados por cinco minutos. Em seguida, a pressão arterial foi aferida por meio do método auscultatório, utilizando-se de um esfigmomanometro de coluna de mercúrio (Narcosul, Brazil). As medidas foram realizadas em dois dias consecutivos. A média dos valores obtidos foi utilizada para o estudo (19).

Avaliação da força muscular

A força muscular foi mensurada por meio do teste de uma repetição máxima (1-RM) nos exercícios supino reto, leg press e flexão dos cotovelos (20). Todos os exercícios foram precedidos por uma série de aquecimento de dez repetições, com aproximadamente 50% da carga prevista para a primeira tentativa de cada teste de 1-RM, com os testes sendo iniciados três minutos após o aquecimento. Em seguida, os voluntários foram orientados a realizar uma única repetição com a carga prevista para 1-RM. Caso fosse completada, ou mesmo se não fosse, uma segunda tentativa seria realizada após um intervalo de três a cinco minutos, com carga (kg) superior ou inferior à empregada anteriormente. Uma terceira e última tentativa seria realizada se ainda não houvesse determinado a carga correspondente a uma única repetição máxima. Todos os voluntários realizaram duas sessões de testes com intervalo de 48h entre elas, visando à familiarizar-se com eles e, assim, minimizar os efeitos de aprendizagem. Foram consideradas para análise as cargas obtidas na segunda sessão.

Avaliação cardiorrespiratória

Os voluntários executaram um protocolo de teste em esteira ergométrica (Quinton  TM55, Bothell, Washington, EUA), em que as trocas gasosas foram coletadas continuamente, respiração a respiração, por meio de um sistema metabólico de análise de gases (CPX, Medical Graphics, St, Paul, Minnesota, USA). O protocolo consistiu de uma velocidade inicial de aquecimento de 4 km/h por 2 minutos, seguidos de acréscimos de 0,3 km/h a cada 30s, com inclinação constante de 1% (21) até a exaustão física. A isso, seguia-se então um período de 4 minutos de recuperação, sendo o primeiro minuto a 5 km/h, reduzindo-se 1 km/h a cada minuto.

Limiar ventilatório (LV) e ponto de compensação respiratória (PCR), consumo oxigênio pico (VO2pico)

O LV e o PCR foram determinados por meio de uma análise visual gráfica (22), realizada por três observadores previamente treinados, e familiarizados. O VO2pico foi expresso pela média dos valores nos últimos 30 segundos da avaliação cardiorrespiratória (23). Para confirmar a ocorrência do VO2pico, deveriam ser observados pelo menos dois dos três critérios a seguir: (1) um platô no VO2, ou seja, nenhuma ou pouca variação no VO2 (< 2,1 mL,kg-1,min-1), apesar do aumento na intensidade do exercício; (2) razão de trocas respiratórias maior que 1,10; (3) frequência cardíaca (FC) maior que 90% do máximo predito para a idade (24).

Análise estatística

Inicialmente foi realizado o teste de Shapiro-Wilk para testar a normalidade dos dados. Em seguida, foi realizada a análise de variância para medidas repetidas (two-way ANOVA) para comparação inter e intragrupos. Para comparação entre as diferenças percentuais, foi utilizada a análise de variância de um caminho (one-way ANOVA). O teste post hoc de Newman-Keuls foi empregado para a identificação das diferenças específicas nas variáveis em que os valores de F encontrados foram superiores ao do critério de significância estatística estabelecida (p < 0,05). Para todas as análises, foi utilizado o pacote estatístico Statistica® 6.1 (StatSoft Inc.,Tulsa, OK). Os dados são apresentados em média e desvio-padrão.

 

Resultados

Antropometria

Não foram verificadas alterações significantes (p > 0,05) na massa corporal e IMC em nenhum dos grupos estudados. A CC reduziu significantemente para o TA (-1,70%; p = 0,023) e TC (-1,66%; p = 0,018) após 16 semanas de treinamento, sem diferença no percentual de modificação entre os grupos (Tabela 1).

Perfil lipídico e glicose plasmática

Os resultados do perfil lipídico (Tabela 2) demonstraram reduções significantes no LDL para o TF (-25,03%; p = 0,047) e TC (29,74%; p = 0,011), sem alterações para o TA e GC (p > 0,05). O HDL e TG não apresentaram alterações significantes (p > 0,05) para nenhum dos grupos estudados. Já a glicose plasmática apresentou aumento significante no GC (20,61%; p = 0,0001), sem alterações para os demais grupos (Tabela 2).

Pressão arterial

Somente o TC apresentou redução significante na PAS após 16 semanas de intervenção (-7,83%; p = 0,029). Já a PAD não apresentou alterações significantes para os grupos estudados (p > 0,05).            

Componentes da síndrome metabólica

A Figura 1 demonstra o número de componentes da síndrome metabólica dos grupos TA, TF, TC e GC. Somente o TC apresentou reduções do número de componentes da SM após 16 semanas (p = 0,044).

 

 

Consumo de oxigênio pico (VO2pico)

A maioria dos voluntários do presente estudo não apresentou platô no VO2, portanto, foi adotado como critério de potência aeróbia máxima, o VO2pico (24). A Tabela 3 apresenta os resultados do VO2pico pré e pós intervenção. Foi observado aumento significante no VO2pico para o TA (19,48%; p = 0,0001), TF (8,61%; p = 0,042) e TC (11,54%; p = 0,048). Na comparação entre os grupos, verificou-se que o TA apresentou maior percentual de modificação no VO2pico (p = 0,003), quando comparado ao TF e TC.

Força máxima (1-RM)

A força máxima aumentou significantemente no leg press para o TA (33,97%; p = 0,0002), TF (38,11%; p = 0,0001) e TC (34,74%; p = 0,0001), sem diferenças significantes entre os grupos (p > 0,05). O mesmo ocorreu para o supino reto, porém somente para o TF (19,92%; p = 0,0001) e TC (19,70%; p = 0,0001), sem diferenças significantes entre eles (p > 0,05) (Tabela 3).

 

Discussão

O objetivo do presente estudo foi verificar o efeito do TC com frequência semanal e duração das sessões similar ao TA e TF, nos componentes da SM de homens de meia-idade. Os principais achados demonstraram que o TC com duração de aproximadamente 60 min. (i. e. ~30 min. TF e ~30 min. TA) promoveu melhora em mais componentes da SM, comparado ao TA (~60 min.) e TF (~60 min.) isolados, pois apresentou reduções na CC, LDL e PAS. O TF, por sua vez, apresentou reduções somente no LDL, enquanto que o grupo TA reduziu somente a CC. Além disso, todos os grupos apresentaram aumento da força muscular e aptidão cardiorrespiratória.

O aumento da força muscular e da aptidão cardiorrespiratória é de grande importância para a população envelhecendo (7). No presente estudo, embora todos os grupos de treinamento tenham apresentado aumento na força muscular e na aptidão aeróbia, o TA apresentou maior aumento no VO2pico comparado aos demais grupos, provavelmente por ter realizado o dobro do volume de exercícios de caminhada/corrida (i. e. 60 min.), quando comparado ao TC (30 min.). Já em relação aos ganhos de força muscular, para os membros inferiores, os resultados foram similares entre TF, TA e TC, mesmo o TA não tendo realizado exercícios específico para o desenvolvimento dessa capacidade. Contrariando nossos achados, Sillanpää et al. (25) não verificaram aumento do VO2máx após o TF, embora em relação à força muscular seja mais comum encontrar melhoras na força de membros inferiores realizando somente TA (9, 26, 27). É possível que, em virtude do baixo nível de aptidão física dos indivíduos de meia-idade do presente estudo, foi possível observar aumento da força de membros inferiores mesmo com o TA.

O aumento da força muscular e aptidão cardiorrespiratória apresentado nos grupos estudados parecem ser importantes para evitar o desenvolvimento da SM. Demonstrou-se que indivíduos com maior aptidão cardiorrespiratória possuem menor probabilidade de desenvolver doenças crônico-degenerativas, bem como a força muscular parece ser inversamente proporcional à SM. Indivíduos com maior força possuem 34% menos riscos de desenvolver SM (28). Assim, sugere-se que o TA e TF sejam associados (i. e. TC) para a redução dos fatores de risco de doenças cardiovascular em homens de meia-idade. Além disso, parecem fornecer diferentes benefícios (6). Porém, estudos com TC têm demonstrado que a duração da sessão ou a frequência semanal são aumentadas em relação ao TA e ao TF realizados de forma isolada (9, 10), o que pode prejudicar a adesão de indivíduos sedentários a programas de exercícios físicos (11). O presente estudo realizou o TC com frequência semanal e duração da sessão similar ao TA e ao TF isolados e menor que outros estudos que investigaram os efeitos do TC na SM (9, 10) e, mesmo assim, apresentou vantagens em relação ao TA e ao TF.

Um dos componentes que apresentou melhora significante com o TC foi a CC. Estudos têm demonstrado que a CC tem forte correlação com a gordura visceral (29) e que esta é um importante preditor de alterações metabólicas. O acúmulo de gordura visceral aumenta a lipólise e, consequentemente, a liberação de ácidos graxos livres (AGL), resultando em diminuição dos transportadores de glicose (GLUT-4) e conduzindo, assim, a um quadro resistência a insulina (30). O presente estudo demonstrou redução da CC para o TC e TA (-1,70% e -1,66%, respectivamente), possivelmente pelo aumento da utilização de AGL durante o exercício, visto que o predomínio aeróbio desses regimes de treinamento é maior que o TF. Entretanto, a redução da CC não refletiu em alterações nos níveis de glicose plasmática em nenhum dos grupos estudados. Vale ressaltar que os voluntários dos três grupos investigados eram normoglicêmicos, o que pode estar relacionado ao fato de a glicemia não ter sido alterada.

Os grupos TC, juntamente com o TF, demonstraram diminuição do colesterol LDL corroborando, assim, com outros achados da literatura (31, 32). Por outro lado, alguns estudos não têm demonstrado alterações com o TF (33). Sugere-se que alterações no colesterol LDL com TF ocorram somente quando este é realizado com intensidades acima de 70% de 1-RM, por períodos maiores que 12 semanas (34). No presente, a intensidade realizada foi de moderada para alta (i. e. 8-10 RM) durante 16 semanas, podendo assim ter contribuído para as reduções no LDL no grupo TF.

Outro importante componente da SM é a pressão arterial (PA). A manutenção da PA, principalmente na meia-idade, torna-se importante, tendo em vista que o aumento de 20 mmHg na PA sistólica (PAS) e de 10 mmHg na PA diastólica (PAD) dobra o risco de morte nessa faixa etária (35). Porém, a redução PAS e PAD de repouso, por meio do exercício físico, parece mais pronunciada em hipertensos (6,9/4,9 mmHg) em relação a normotensos (1,9/1,6 mmHg) (36). No presente, somente o TC apresentou reduções significantes na PA, especificamente na PAS (7,83%), embora o TA seja apontado como o regime de treinamento mais recomendado para reduções na PA (37). A associação do TA com o TF (i. e. TC) no presente estudo, demonstrou ser mais eficaz que o TA isolado, mesmo este apresentando um volume maior de exercícios aeróbios (60 min.) quando comparado ao TC (30 min.). Recentemente, foi demonstrado que duas séries de seis exercícios realizados a 80% de 1-RM, seguidos de 30 minutos de exercício em cicloergômetro em três diferentes intensidades (50, 65 e 80% do VO2pico), promoveram hipotensão pós-exercício, sendo mais pronunciada a 65% do VO2pico (36). Durante o presente estudo, embora a intensidade nos 30 minutos TA no TC tenha variado entre 50-85% VO2pico, os indivíduos permaneceram mais tempo na zona do limiar ventilatório (entre 60-70% VO2pico), que pode explicar a redução da PAS no TC. 

 

Conclusões

O presente estudo demonstrou que diferentes regimes de treinamento podem contribuir para a melhora de componentes da SM. Entretanto, o TC, com volume (i. e. frequência semanal e duração da sessão) similar ao do TA e do TF e menor que o da maioria dos estudos que investigaram os efeitos do TC na SM (10, 25, 28, 38-40), foi mais eficaz para a melhora dos componentes da SM. Dessa forma, a realização do TC três vezes por semana, com duração das sessões de aproximadamente 60 minutos, pode contribuir para a redução de componentes da SM e prevenção de doenças cardiovasculares.

 

Agradecimentos

Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro a este estudo, à Disciplina de Cardiologia do Departamento de Clínica Médica FCM/Unicamp e ao Projeto de Extensão Musculação FEF/Unicamp.

 

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Recebido: 29/03/2012
Aprovado: 19/07/2012

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