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Fisioterapia em Movimento

versão On-line ISSN 1980-5918

Fisioter. mov. vol.33  Curitiba  2020  Epub 29-Maio-2020

https://doi.org/10.1590/1980-5918.033.ed02 

EDITORIAL

Fase crônica da COVID-19: desafios do fisioterapeuta diante das disfunções musculoesqueléticas

Rodrigo Marcel Valentim da Silvaa 
http://orcid.org/0000-0002-5859-4599

Angelica Vieira Cavalcanti de Sousab 
http://orcid.org/0000-0003-1401-7711

aDoutor em Fisioterapia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, RN, Brasil

bDoutoranda em Ciências da Saúde, Charité Universitätsmedizin, Berlim, Alemanha


O novo coronavírus (SARS-CoV-2) faz parte de um grupo de vírus responsáveis por causar síndromes respiratórias agudas que podem variar de sintomas leves a condições graves, com internação hospitalar, necessidade de ventilação mecânica e significativa taxa de mortalidade 1. Apesar do comprometimento respiratório, outros sintomas sistêmicos podem ser manifestos, tais como distúrbios neurológicos, gastrointestinais e musculoesqueléticos 2.

Embora pouco seja conhecido sobre as consequências físicas da COVID-19 a longo prazo, os pacientes que necessitam de ventilação mecânica na fase mais aguda da doença podem vivenciar sérios efeitos colaterais, desenvolvendo a chamada síndrome pós-cuidados intensivos, que acomete sobreviventes de todas as idades. Essa síndrome é caracterizada primariamente por uma incapacidade prolongada e tem como efeitos secundários disfunção muscular, fadiga, dor e dispneia 3. Uma segunda consequência muito comum nos pacientes graves consiste em fraqueza adquirida na UTI, relacionada à imobilidade, controle glicêmico abaixo do ideal e iatrogenia pelo uso de esteroides e bloqueadores neuromusculares. Outras possíveis alterações subsequentes são a polineuropatia e a miopatia do paciente crítico. Podem ocorrer ainda sequelas físicas menos comuns, decorrentes da imobilidade prolongada, incluindo descondicionamento cardiorrespiratório, instabilidade postural, tromboembolismo venoso, encurtamento muscular, contraturas (miogênicas, neurogênicas, artrogênicas) e úlceras por pressão 4.

A fim de limitar a gravidade de todas as sequelas decorrentes do processo de internação, é essencial a atuação do fisioterapeuta ainda no ambiente hospitalar, na fase mais precoce da doença, o que vai promover uma recuperação funcional mais rápida e acelerar o processo de alta. Em alguns casos, nos quais a infecção gera tosse produtiva, o fisioterapeuta conduzirá técnicas de higiene brônquica que permitirão a eliminação das secreções e ajudarão a diminuir o desconforto respiratório. Em outras situações nas quais haja uma tosse seca e não produtiva, o que é bem mais frequente mediante a COVID-19, a fisioterapia respiratória pode não ser necessária 5. No entanto, considerando que o papel do fisioterapeuta na fase aguda da doença não se restringe ao sistema respiratório, esse profissional permanece indispensável nessa fase, conduzindo exercícios e mobilizações que minimizarão significativamente os déficits musculoesqueléticos decorrentes do imobilismo prolongado.

Nos pacientes não graves, a doença também pode gerar consequências duradouras. Como ainda não foi descoberto um tratamento eficaz no combate direto ao vírus, além dos cuidados de higiene, o isolamento social ainda é a opção mais recomendada pela Organização Mundial de Saúde a fim de conter a alta velocidade de contaminação e minimizar a sobrecarga nos sistemas de saúde. Em contrapartida, essa medida pode acentuar ainda mais uma outra pandemia com a qual o mundo já convive há muitos anos: a inatividade física e o sedentarismo 6.

Mesmo sem uma relação com a COVID-19, o isolamento social é um fator contribuinte para o aparecimento de sintomas musculoesqueléticos, tais como dor miofascial e artralgias, principalmente aquelas ligadas às doenças autoimunes como artrite reumatoide, espondilites e lúpus eritematoso sistêmico. Por intensificar a ansiedade e o estresse, a restrição também pode aumentar a sintomatologia de pacientes com fibromialgia 7) - (9. Nesse contexto, o fisioterapeuta que atua nas disfunções musculoesqueléticas se depara com duas complicações: pacientes que já apresentavam limitações físicas tendo que lidar com a redução da quantidade de exercícios e a minimização dos recursos fisioterapêuticos 10, e a imprevisível resposta de pacientes recuperados de COVID-19 a médio e longo prazo.

A fim de minimizar tais impactos, os conselhos profissionais da fisioterapia no Brasil liberaram os serviços de teleconsultas, teleconsultoria e telemonitoramento como ferramentas aplicáveis e reprodutíveis para permitir a supervisão e atenção aos pacientes que necessitam de intervenção clínica 11. A atividade física diminui o estresse, melhora a autoestima, a capacidade cardiorrespiratória, a força muscular e a coordenação, previne a fragilidade, a sarcopenia e a dinapenia, além de minimizar o risco de quedas e o declínio cognitivo em idosos 12. O monitoramento de exercícios, as orientações posturais e funcionais, bem como o alerta aos pacientes com doenças crônicas sobre o respeito aos princípios de conservação de energia, podem ser recursos fundamentais para evitar a eclosão de um estado de crise desses pacientes, bem como o surgimento de sintomas antes não apresentados 13. Nesse sentido, os profissionais de reabilitação têm um papel fundamental no período de isolamento, ajudando a otimizar a independência funcional e melhorar a qualidade de vida, além de facilitarem uma posterior reintegração comunitária 4.

Estudos realizados com pacientes que apresentaram a SARS (severe acute respiratory syndrome) causada pela forma mais antiga de coronavírus (SARS-CoV) mostraram redução da capacidade cardiorrespiratória, limitação musculoesquelética e redução da qualidade de vida mesmo após o término da doença. Isso mostra a necessidade de recuperação desses pacientes quanto à sua capacidade funcional 14. Os indivíduos apresentavam elevados níveis de estresse, depressão e ansiedade mesmo um ano após a sobrevivência. Outras doenças virais que ocasionam SARS são descritas na literatura como geradoras de incapacidade pulmonar a longo prazo e comprometimento psicológico mesmo dois anos após a alta. Os estudiosos alertam que “os efeitos a longo prazo da doença infecciosa não devem ser ignorados” 15.

Para a melhoria desses sintomas, é importante o monitoramento realizado pelo fisioterapeuta, bem como um programa intensivo de reabilitação física proposto para esses pacientes, com períodos variáveis de 6 meses a 2 anos. Analisando a realidade manifestada em pacientes com COVID-19, percebe-se que os mesmos, ao cursarem com SARS, podem apresentar uma necessidade de suporte terapêutico também em fases crônicas ou após a cura da doença 12.

Assim, conclui-se que uma nova esfera de acompanhamento clínico desses pacientes é despertada para os profissionais de fisioterapia. A necessidade de promover o retorno à plena funcionalidade de pacientes curados da COVID-19, bem como a recuperação física da população em isolamento, prometem ser demandas crescentes, que irão requerer dos fisioterapeutas que atuam fora do ambiente hospitalar uma busca pelo aprimoramento e recuperação dos pacientes que surgirão nos serviços de saúde após os primeiros ciclos da pandemia ocasionada pelo atual coronavírus.

Referências

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3. Falvey JR, Krafft C, Kornetti D. The essential role of home- and community-based physical therapists during the COVID-19 pandemic. Phys Ther. 2020. pii:pzaa069. doi: 10.1093/ptj/pzaa069 [Epub ahead of print] [ Links ]

4. Simpson R, Robinson L. Rehabilitation following critical illness in people with COVID-19 infection. Am J Phys Med Rehabil. 2020. doi: 10.1093/ptj/pzaa069 [Epub ahead of print] [ Links ]

5. Thomas P, Baldwin C, Bissett B, Boden I, Gosselink R, Granger CL, et al. Physiotherapy management for COVID-19 in the acute hospital setting: clinical practice recommendations. J Physiother. 2020;66(2):73-82. [ Links ]

6. Hall G, Laddu DR, Phillips SA, Lavie CJ, Arena R. A tale of two pandemics: how will COVID-19 and global trends in physical inactivity and sedentary behavior affect one another? Prog Cardiovasc Dis. 2020. doi: 10.1016/j.pcad.2020.04.005 [Epub ahead of print] [ Links ]

7. Misra DP, Agarwal V, Gasparyan AY, Zimba O. Rheumatologists' perspective on coronavirus disease 19 (COVID-19) and potential therapeutic targets. Clin Rheumatol. 2020. doi: 10.1007/s10067-020-05073-9 [Epub ahead of print] [ Links ]

8. Li W, Yang Y, Liu ZH, Zhao YJ, Zhang Q, Zhang L, et al. Progression of Mental Health Services during the COVID-19 Outbreak in China. Int J Biol Sci. 2020;16(10):1732-8. [ Links ]

9. Haines KJ, Berney S. Physiotherapists during COVID-19: usual business, in unusual times. J Physiother. 2020;66(2):67-9. [ Links ]

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11. Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO). Resolução no 516, de 20 de março de 2020 - Teleconsulta, Telemonitoramento e Teleconsultoria [acesso 30 abr 2020]. Disponível em: https://www.coffito.gov.br/nsite/?p=15825Links ]

12. Jiméne-Pavón D, Carbonell-Baeza A, Lavie CJ. Physical exercise as therapy to fight against the mental and physical consequences of COVID-19 quarantine: special focus in older people. Prog Cardiovasc Dis. 2020. doi: 10.1016/j.pcad.2020.03.009 [Epub ahead of print] [ Links ]

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