SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.31The creation of listening-flânerie: a psychoanalytic study with socioeducatorsHealth care: from citizen assistance to the autonomy of a subject author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.31  São Paulo  2020  Epub Mar 20, 2020

https://doi.org/10.1590/0103-6564e190109 

Artigo

Sobre a relação humano-cão1

Concerning the human-dog relationship

La relation homme-chien

Sobre la relación humano-perro

Francisco Giugliano de Souza Cabrala  * 
http://orcid.org/0000-0003-3487-5879

Carine Savallib 
http://orcid.org/0000-0001-7388-7616

aUniversidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Experimental. São Paulo, SP, Brasil

bUniversidade Federal de São Paulo, Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva. Santos, SP, Brasil


Resumo

Neste artigo são discutidos aspectos concernentes ao início do convívio entre cães e humanos e às diferenças culturais que afetam as relações entre as duas espécies. O estudo das interações entre humanos e cães precisa trazer à tona a pluralidade de fenômenos interconectados: o processo de domesticação iniciado há milhares de anos, os efeitos evolutivos da relação entre as duas espécies e os aspectos culturais que influenciam a convivência entre nós. Considerando essa visão holística, enxergamos de maneira ampla o cenário interacionista, estabelecendo paralelos muitas vezes ignorados por estudos pontuais e/ou enviesados por paradigmas experimentais de baixa relevância ecológica para os animais.

Palavras-chave: cães; domesticação; construção de nicho; interação interespécies; cultura

Abstract

This article discusses the beginning of the relationship between dogs and humans and the cultural differences that affect the relationships between the two species. The study of interactions between humans and dogs needs to bring to light its plurality of interconnected phenomena: the domestication process that began thousands of years ago, the evolutionary effects of their relationship and the cultural aspects that influence such coexistence. Given this holistic view, we perceive this interaction scenario broadly, establishing parallels often ignored by one-off studies and/or biased by experimental paradigms of low ecological relevance to animals.

Keywords: dogs; domestication; niche construction; interspecies interaction; culture

Résumé

Dans cet article sont discutés des aspects liés au début de la cohabitation entre les chiens et les humains et les différences culturelles qui affectent ces relations interspécifiques. L’étude des interactions entre humains et chiens doit faire apparaître la pluralité des phénomènes reliés entre eux : le processus de domestication qui a commencé il y a milliers d’années, les effets évolutifs de cette relation et les aspects culturels qui influencent la coexistence entre nous. Compte tenu de cette vision holistique, c’est possible de voir largement le scénario interactionniste, et d’établir des parallèles souvent ignorés par les études individuelles ou biaisé par des paradigmes expérimentaux d’importance écologique négligeable pour les animaux.

Mots-clés : chiens; domestication; construction de niche; interaction interspécifique; culture

Resumen

Este artículo analiza los aspectos relacionados con el comienzo de la relación entre perros y humanos, y las diferencias culturales que afectan las relaciones entre las dos especies. El estudio de las interacciones entre humanos y perros necesita sacar a la luz la pluralidad de fenómenos interconectados: el proceso de domesticación que comenzó hace miles de años, los efectos evolutivos de la relación entre las dos especies y los aspectos culturales que influyen en la convivencia entre nosotros. Teniendo en cuenta esta visión holística, vemos el panorama interaccionista de manera general, estableciendo paralelos a menudo ignorados por estudios específicos y/o sesgados por paradigmas experimentales de baja relevancia ecológica para los animales.

Palabras clave: perros; domesticación; construcción del nicho; interacción entre especies; cultura

A interação humano-cão (Canis familiaris) é bastante notória na nossa rotina urbana: para observá-la basta sair para caminhar num domingo à tarde, passear num parque ou até mesmo ir ao shopping. Os cães exercem várias funções na sociedade: são companheiros no nosso dia a dia, detectam narcóticos e explosivos (Goldblatt, Gazit, & Terkel, 2009; Jezierski et al., 2014), auxiliam pessoas com deficiência visual e auditiva, identificam sinais de epilepsia (Catala et al., 2019), atuam no pastoreio, realizam resgates, estão presentes em sessões de terapia e em asilos (Fernworn, 2009; Haubenhofer, 2009; Helton, 2009; Sachs-Ericsson & Merbitz, 2009), entre outras. De acordo com Kotrschal (2018), eles também são “catalisadores sociais”, estimulando a comunicação e o contato entre as pessoas. O início dessa relação próxima entre as duas espécies ainda é debatido pela comunidade científica. Entretanto estudos genômicos e arqueológicos recentes de Frantz et al. (2016) sugeriram que o processo de domesticação ocorreu de maneira independente na parte oriental e ocidental da Eurásia, a partir de populações distintas de ancestrais canídeos há cerca de quinze mil anos. Galibert, Quignon, Hitte e André (2011) sustentam, assim como outros pesquisadores, que o cão foi o primeiro animal a ser domesticado.

Segundo Coppinger e Coppinger (2001), humanos e cães formaram uma associação que traz benefícios mútuos até hoje. Evidenciada essa relação, por diversas vezes os pesquisadores se perguntaram sobre aspectos relacionados a nossa comunicação: quais sinais, emitidos por nós, são utilizados pelos cães? Nossa estreita e duradoura relação exerceu influências nas habilidades comunicativas dos cães? Essas são apenas algumas das questões que surgem a partir da coexistência com os nossos “melhores amigos”. Ao conviverem diariamente conosco, desde o início da domesticação, os cães passam vidas inteiras ao lado de seus tutores - observam as pessoas com quem eles conversam, quando e como fazem refeições, como se locomovem no ambiente, como se comunicam, quando estão dispostos ou não a oferecer alimentos etc. Diante disso tornam-se relevantes os estudos etológicos sobre cães, considerando esse cenário evidentemente interacionista (que envolve um duradouro vínculo de apego e cooperação).

Percebemos que essa interação não é apenas instrumental (no sentido de que os cães prestam serviços a nós, somente), mas também afetiva (Serpell, 2004). Tal fato é claro na atualidade, quando observamos os cães de estimação. Nesse caso, a relação humano-cão se assemelha, em muitos aspectos, àquela estabelecida entre pais e filhos, havendo, portanto, características de apego, como as postuladas pela etologia clássica (Bowlby, 1984; Palmer & Custance, 2008; Zilcha-Mano, Mikulincer, & Shaver, 2012). É possível afirmar que esse tipo de interação afetiva vem ocorrendo desde os primórdios da domesticação. Como evidência podemos citar Janssens et al. (2018), que reexaminaram os restos mortais do famoso “cão de Bonn-Oberkassel” (com aproximadamente 14.223 anos de idade), descobrindo que ele morrera ainda jovem (com 27-28 semanas), provavelmente em virtude de uma infecção causada por um vírus que gera marcas específicas no esmalte dos dentes e que apresenta alta taxa de mortalidade. A hipótese dos autores sugere que esse cão não poderia ter sobrevivido o tempo que sobreviveu se não estivesse sob cuidados humanos, uma vez que essa doença causa morte após um período de três semanas, quando não há tratamento. Assim, os humanos provavelmente mantiveram a alimentação, temperatura e higiene do animal. Tal interação seria indicativa de um vínculo afetivo, sem benefícios materiais aos humanos envolvidos, já que o cão não poderia exercer qualquer função instrumental durante o período (como caçar ou vigiar).

Além do exemplo citado, Guagnin, Perri e Petraglia (2017) analisaram gravuras em relevo em Shuwaymis e Jubbah, na Arábia Saudita, que retratam humanos caçando ao lado de cães, em cooperação. Segundo os pesquisadores, as representações em rocha foram realizadas, aproximadamente, no oitavo milênio a.C2. Um aspecto digno de nota diz respeito à presença de coleiras nos cães retratados sugerindo, de acordo com os autores, um alto nível de controle exercido por humanos. Já alguns não as possuem, e talvez esse seja um indício de que desempenhavam tarefas distintas dos demais (poderiam ser cães de companhia). O trabalho realizado por Perri (2016), que analisou sítios arqueológicos da cultura Jomon (c. 12.500 - 2.350 AP3), também é ilustrativo desse tipo de relação “utilitarista”, mas que igualmente guarda laços afetivos. Nele foram analisados enterramentos de cães nos quais havia (em diversos casos) artefatos intencionalmente posicionados, um indício da relevância desses animais para as comunidades. Ademais, por diversas vezes, a disposição dos elementos e o tipo de enterramento se assemelhavam aos dos humanos tidos como ótimos caçadores (conferindo status social elevado ao cão, comparável ao dos grandes caçadores dos grupos). Examinando o número desses locais de sepultamento, pôde-se correlacionar o aumento em sua frequência - indício de uma maior cooperação entre as duas espécies - com as mudanças climáticas da transição do Pleistoceno para o Holoceno, as quais causaram uma rápida difusão de florestas temperadas no centro-norte do Japão. Tais alterações geraram aumento da população de ungulados4, o que pode ter levado a uma mudança no comportamento de caça dos humanos locais (Mellars, 1975 e Rowley-Conwy, 1986 citados por Perri, 2016). Diante do aumento da oferta de presas nas florestas (menos acessíveis do que os hábitats do período glacial anterior), a presença de cães durante as caçadas se tornou vantajosa e, consequentemente, esses animais passaram a ocupar um papel socialmente relevante e cooperativo (auxiliavam os humanos a caçar e recebiam abrigo e alimento, passando a integrar nosso nicho ecológico). Nesse estudo, essa relação é considerada como uma adaptação humana às mudanças de vegetação e fauna, num contexto em que modificamos ambientes seletivos, afetando nossa evolução e a de outros organismos.

Em meio a tais conjunturas de evidente interação é possível perceber o papel intervencionista e construtivo dos humanos. Por meio de alterações ambientais e das práticas culturais fomos capazes, ao longo do tempo, de mudar o comportamento e a morfologia de diversas espécies. Nesse sentido, Smith (2007) enfatiza que “para cada uma das centenas de espécies de plantas e animais as quais sofreram processos de domesticação em diferentes períodos e locais ao redor do mundo, as sociedades humanas desenvolveram novos e únicos conjuntos de comportamentos espécie-específicos” (p. 193, tradução nossa). Em diálogo com esse fato, Laland, Odling-Smee e Feldman (2001), trabalhando sobre a ideia de que existe uma interação contínua e bidirecional entre organismos, genes e ambientes (e que cada elemento é tanto causa quanto efeito) (Lewontin, 2001), definem o conceito de construção de nicho como o processo pelo qual organismos modificam seus próprios nichos ecológicos e os dos demais por meio de suas atividades, escolhas e metabolismo, alterando as pressões seletivas atuantes nas espécies envolvidas, o que confere a elas consequências evolutivas. Os humanos, possuidores de uma notável cultura cumulativa (Mesoudi, 2011), impactam de maneira intensa os ecossistemas numa constante tentativa de preservar seu bem-estar: minimizam a exposição a predadores e às intempéries climáticas e aprimoram a produção de alimentos, por exemplo (Kareiva, Watts, McDonald, & Boucher, 2007). Diante desse cenário de acentuada construção de nicho, nossos ancestrais deram início à domesticação de plantas, animais e até mesmo, de maneira mais abrangente, de ecossistemas (Kareiva et al., 2007; Smith, 2007). Os efeitos evolutivos dessa construção só podem ocorrer a partir da persistência de seus impactos ao longo das gerações por herança ecológica e/ou cultural - no caso humano, a transmissão por meio da cultura garante essa persistência de modo mais evidente (Laland & O’Brien, 2011). Flynn, Laland, Kendal e Kendal (2013) afirmam que somos notáveis construtores de ambientes de desenvolvimento, já que criamos recursos e artefatos herdáveis por meio de nossas modificações ambientais. Essas heranças atuam selecionando genes humanos e de outros seres, mas também orientam trajetórias de desenvolvimento e oferecem oportunidades de aprendizagem aos organismos afetados por essa construção.

Inserido nesse cenário, destaca-se o padrão ultracooperativo dos humanos (Tomasello & Vaish, 2013) atrelado a essa intensa construção de nicho. A singular cooperação humana e a prossocialidade (Tomasello, Melis, Tennie, Wyman, & Herrmann, 2012) certamente facilitaram o início da nossa interação com os ancestrais do cão doméstico, no contexto da autodomesticação canina (Hare, Wobber, & Wrangham, 2012). Nesse processo, os ancestrais canídeos que eram exploradores e/ou que apresentavam maior afabilidade eram atraídos pelos restos de alimentos e dejetos gerados nos assentamentos dos Homo sapiens, obtendo vantagem na sobrevivência e reprodução (Coppinger & Coppinger, 2001) - o que deu início a uma convivência harmoniosa com os nossos antepassados longínquos, que teriam permitido essa aproximação. Nesse cenário, os “protocães” conseguiam se alimentar e os humanos eram favorecidos do ponto de vista da higiene (diminuição da quantidade de detritos), segurança contra predadores e eficiência nas caçadas (Frantz et al., 2016; Reid, 2009), caracterizando a relação de cooperação. A partir dessa aproximação inicial veio a segunda etapa de domesticação, caracterizada por sua intencionalidade - quando passamos a selecionar características caninas principalmente para o trabalho (pastoreio, vigilância, caça etc.) (Galibert et al., 2011).

Perante esse contexto, segundo Hare e Tomasello (2005), os cães adquiriram grande competência na interpretação do comportamento social e comunicativo humano, em virtude da convivência conosco. Eles são capazes de utilizar pistas comunicativas como gestos ostensivos (como “apontar”) e orientação corporal para localizar alimentos escondidos (Hare & Tomasello, 1999, 2005). Também conseguem distinguir uma aproximação amigável de uma ameaçadora, observando sinais como postura e movimentação do corpo (Vas, Topál, Gácsi, Miklósi, & Csányi, 2005). Além disso, chamam atenção por conseguirem avaliar o contexto social do ambiente ao seu redor (situações de cooperação entre humanos). Conforme Chijiiwa, Kuroshima, Hori, Anderson e Fujita (2015) constataram em seu experimento, cães aceitaram com menor frequência petiscos oferecidos por atores que se recusaram a cooperar com os tutores na abertura de um pote. Por terem evitado esses humanos podemos perceber que a sensibilidade às pistas sociais comunicativas integra uma relevante competência desenvolvida pelos cães. Indo mais além, suas habilidades também englobam a percepção emocional: Albuquerque et al. (2016) demonstraram que eles são capazes de reconhecer emoções humanas e caninas e que, sobretudo, conseguem integrar estímulos auditivos e visuais com valência emocional (realizam integração sensorial bimodal, indicando uma representação cognitiva complexa, segundo os autores). Tal habilidade e as demais descritas afetam a manutenção de uma interação benéfica, embora existam variações ao redor do mundo: nem todas as culturas enxergam o cão da mesma maneira, como veremos a seguir.

A visão ocidental (de “estimação”) em relação aos cães e a realidade mundial

Existem mais de quatrocentas raças de cães no mundo exibindo grande variação fenotípica entre elas, em virtude de características artificialmente selecionadas pelos humanos nas últimas centenas de anos (Galibert et al., 2011). Essa seleção intencional promoveu o surgimento de animais especializados em determinadas tarefas como guarda, caça, pastoreio e companhia, como já salientado. Ainda de acordo com Galibert et al. (2011), ocorreu um relevante incremento no número de raças durante o período medieval e da Renascença e, nos séculos seguintes, a continuidade da seleção realizada por nós priorizou padrões específicos de pelagem, morfologia, porte etc., os quais satisfizeram interesses essencialmente humanos. Tapper (1988), no livro What is an animal?, editado por Tim Ingold, apresenta uma importante discussão sobre nossa relação com os animais, envolvendo aspectos morais e da formação das sociedades. Em sua linha de pensamento referente à construção histórica da noção de natureza no ocidente (e sobre as mudanças na relação humana com os demais animais), cabe destacar que a filosofia e a teologia medieval e renascentista pregavam que “a natureza havia sido criada para servir aos interesses da humanidade” (Tapper, 1988, p. 48, tradução nossa), sendo desmedidamente antropocêntricas. Por conseguinte, “todo animal é [era] concebido para servir a algum propósito humano, se não prático, então moral ou estético” (Thomas 1983, p. 19 citado por Tapper, 1988, p. 48). Somada a isso, a noção de que a humanidade era possuidora da razão e “feita à imagem e semelhança de Deus” autorizava que tratássemos os animais não-humanos (tidos como essencialmente diferentes de nós) como bem entendêssemos.

Partindo dessa concepção antropocêntrica, nossas relações com os animais foram moldadas de modo que, muitas vezes, tornaram-se moralmente questionáveis em algumas sociedades. Tapper (1988) discorre que, no início da modernidade, o interesse científico na história natural ganhou destaque, o que inevitavelmente levou à observação de que compartilhávamos semelhanças com outros animais. Thomas (1983), citado novamente por Tapper (1988), destaca a influência do surgimento da nova ordem industrial e do crescimento das cidades no processo de afastamento dos animais não-humanos do núcleo produtivo urbano, o que lentamente fez gestar uma consciência moral direcionada a eles. Nesse sentido, o antropocentrismo radical (medieval e renascentista, em origem) passou a dar lugar a um antropomorfismo (Tapper, 1988) direcionado, cabe ressaltar, a apenas algumas espécies animais (e com variação entre as culturas humanas).

Diante dessa conjuntura cabe a nós contrastar a visão mais difundida no mundo ocidental5 sobre os cães com visões provenientes de realidades diversas da nossa. Tomando por base a perspectiva criada pelas pesquisas conduzidas no campo da cognição canina, predominantemente europeias e estado-unidenses, percebemos que os cães são vistos como amigos, irmãos e até mesmo como filhos, algo reforçado, em partes, nos estudos que utilizam os de estimação - grupo extremamente antropomorfizado principalmente pelas populações das cidades (Tapper, 1988), com algumas exceções (veremos mais adiante o caso da Coréia do Sul). Assim, muitas vezes são conferidos a eles estados mentais como sentimentos, pensamentos, motivações e crenças (Serpell, 2003) implicitamente urbano-industriais, de classe média e do século XX (num exemplo de “etnomorfismo”), como aponta Tapper (1988) quando analisa as relações estabelecidas nas cidades ocidentalizadas (como cães vestindo roupinhas, recebendo festas de aniversário com bolo etc.). Perceptivelmente a antropomorfização influencia, em larga medida, nosso oferecimento de alimento, abrigo e conforto aos cães (com sua inserção no contexto social humano e familiar) (Serpell, 2003). No entanto, idealmente, ela não pode influenciar em demasia a visão dos pesquisadores, que devem prezar pelo delineamento de estudos mais próximos da realidade canina (Horowitz & Hecht, 2014), que não utilizem aparatos complexos ou objetos de pouca relevância ecológica ao animal. Os cães possuem sua própria “visão de mundo”6 e modo de agir sobre ele. Nesse sentido, as discussões precisam sempre levar em consideração essa perspectiva e a conjuntura da situação canina em diferentes culturas (não só a do investigador). Consequentemente, o apontamento de realidades díspares merece maior destaque na comunidade científica para que seja possível criar um campo de pesquisa diverso e dialógico (a partir de interações humano-cão distintas).

Segundo estimativas de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2015), cães de companhia estão presentes em 44,3% dos domicílios brasileiros, totalizando uma população de 52,2 milhões de animais. Números semelhantes são encontrados em outros países como, por exemplo, nos Estados Unidos (American Pet Products Association, 2017). Entretanto esse quadro não corresponde à realidade mundial. Partindo da premissa de que “considerações ecológicas, psicológicas, culturais e utilitárias estão envolvidas na determinação das atitudes e do tratamento que as pessoas têm em relação às outras espécies” (Ucko, 1988, p. XI, tradução nossa), e que também existe uma variação histórica nessas relações, se faz necessária a criação de um panorama sobre a relação humano-cão, levando em conta a grande população canina de rua e que vive de forma livre/selvagem. De aproximadamente um bilhão de cães existentes no mundo (Gompper, 2015), cerca de 850 milhões sobrevivem de modo errante por meio de uma interação marginal com os humanos (Coppinger & Coppinger, 2016 citados por Westing, 2016). Tais cães englobam apenas uma pequena parcela de “ferais” (que não dependem de humanos para sobreviver), sendo a maioria deles animais de rua (vivendo em vilas, bairros e nos arredores de aterros sanitários), de acordo com os autores citados. Essas populações possuem um contato com os humanos que guarda algumas peculiaridades importantes e que diferem daquelas observadas na relação com os animais de estimação (os quais compreendem cerca de 15% do total de cães no mundo, apenas, e que fazem parte de um contexto predominantemente industrializado e desenvolvido) (Coppinger & Coppinger, 2016 citado por Westing, 2016). Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (World Health Organization, 2015), entre 35 até 60 mil mortes humanas anuais são causadas por raiva transmitida por cães de vida livre, representando um problema que continua sem solução, principalmente em países africanos e da Ásia (World Health Organization, 2013).

Acharya e Dhakal (2015) pesquisaram sobre a população de cães de rua no vale Pokhara, no Nepal, averiguando a opinião dos residentes sobre a razão da existência e persistência numérica desses animais na localidade. Foram registrados 1.767 cães, e a principal razão apontada pelas pessoas (24,53% de 371 entrevistados) para explicar esse número foi a existência de muitos matadouros geridos de modo inadequado, que representam uma fonte abundante de alimento para esses animais (na forma de descarte impróprio de carne). Em segundo lugar, 15,4% dos entrevistados disseram que muitos cães são abandonados por terem adquirido doenças e seus tutores não terem condições de pagar por tratamento veterinário. Além disso, é comum que cães acolhidos por cidadãos da região não fiquem restritos somente à residência (semidomiciliados), podendo interagir com indivíduos contaminados principalmente nas regiões dos matadouros, o que facilita a transmissão de doenças, inclusive de raiva (segundo os autores, cerca de duzentas pessoas morrem por ano no Nepal ao contraírem o vírus de cães). Outros motivos para abandono também foram apontados: 11,32% das pessoas mencionaram a facilidade de reprodução e prole numerosa (poucos cães são esterilizados, os tutores não têm condições de cuidar dos filhotes e poucas pessoas podem adotá-los); 10,24% têm a opinião de que a agressividade canina é um dos principais motivos de abandono; e apenas 2,69% disseram que o número de cães de rua permanece basicamente o mesmo por causa da ausência de planos governamentais de controle populacional (como programas de esterilização) (Acharya & Dhakal, 2015). Ao concluírem o artigo, os autores esclarecem que o abandono dos animais, aparentemente, é a razão preponderante da persistência populacional de cães de rua e que ele ocorre por razões teoricamente simples, que podem ser contornadas a partir de cuidados veterinários apropriados atrelados ao controle de natalidade. Além disso, destacam a necessidade de um trabalho de conscientização direcionado aos tutores, ou seja, informá-los sobre guarda responsável. Recomendam também que serviços veterinários sejam mais acessíveis à população.

É possível notar a susceptibilidade da interação humano-cão aos fatores socioeconômicos, culturais e político-governamentais. A relação estabelecida pode sofrer mudanças significativas a depender dessa rede multifatorial criada por nós, humanos, vivendo em sociedades que possuem diferentes problemas e atributos. Os cães, em próximo convívio conosco, também respondem a tais particularidades, gerando padrões comportamentais que nos influenciam. Afinal, nota-se uma bidirecionalidade entre causas e consequências, atuante nas nossas associações. Assim, contrastando com a pesquisa anteriormente mencionada, podemos citar a conjuntura da Suécia. Nesse país, de acordo com Malm (2010), existem aproximadamente 730 mil cães, sendo que 70% são de companhia ou atuam na caça recreacional, são de raça pura e registrados no Swedish Kennel Club. Surpreendentemente e em extrema oposição à realidade de Pokhara, três quartos desses cães possuem tutores que pagam planos de saúde para eles. Além disso, a população canina errante é virtualmente inexistente, muito embora grande parte dos cães não seja esterilizada (Bonnett & Egenvall, 2010). Serpell (2004), em consonância com Ucko (1988), explicita que nossas atitudes direcionadas aos cães e também a outros animais podem tomar forma a partir de dois tipos de julgamentos: um deles baseado no valor prático, econômico ou instrumental do animal (utilitário), e o outro a partir de uma avaliação assentada em emoções e sentimentos (afetivo). Partindo dessa constatação, Serpell e Hsu (2016) ilustram tal realidade de modo pertinente e atual quando descrevem que um cão de vida livre na China e numa área suscetível à raiva poderia ser caracterizado como detentor de um valor instrumental negativo. Em contrapartida, um border collie de trabalho em outro lugar do mundo provavelmente teria valor positivo, nessa mesma dimensão. Igualmente, um cão de companhia localizado num apartamento de Manhattan seria altamente valorizado no campo afetivo por seu tutor, ao passo que um cão idêntico, vivendo nas ruas de Mogadíscio ou de Bagdá, não teria a mesma importância, podendo inspirar valor afetivo negativo aos transeuntes. Percebemos, portanto, a disparidade de valores relacionados ao cão doméstico e notamos a existência de problemas sérios na manutenção do bem-estar desses animais em alguns países. Por exemplo, em áreas rurais do Zimbábue, de acordo com Butler e Bingham (2000), os cães têm valor instrumental relevante no que se refere à proteção de propriedade privada e de rebanhos (aproximadamente 60% dos domicílios possuem cães). Entretanto eles vivem de modo livre, são subnutridos e não esterilizados, aspectos que influenciam negativamente os indicadores de bem-estar. Além disso, sua expectativa de vida é de 1,1 ano, em média (sendo que 71,8% morrem ainda no primeiro ano de vida). A discrepância relativamente à conjuntura de países desenvolvidos é indubitável: no Japão, por exemplo, a expectativa de vida de cães (segurados por planos de saúde) é de 13,7 anos, em média (Inoue, Hasegawa, Hosoi, & Sugiura, 2015).

Embora os valores instrumentais e afetivos influenciem consideravelmente nossas atitudes direcionadas aos cães, eles não explicam por completo a variabilidade de interações entre as duas espécies, segundo Serpell e Hsu (2016). Tais autores discorrem sobre três categorias que interferem nas avaliações emocionais e afetivas que pautam a relação humano-cão: fatores culturais (crenças ideológicas, religiosas e históricas); atributos caninos (raças, porte e comportamentos); e atributos humanos (efeitos do gênero das pessoas na interação com cães). Focaremos em exemplos culturais uma vez que alguns deles contrastam de modo mais evidente com a perspectiva difundida na Europa e nas Américas. Um caso específico - o da Coréia do Sul - merece especial atenção, pois nesse país o consumo de carne proveniente de cães tem valor simbólico-cultural (Dugnoille, 2018). Essa nação teve um considerável influxo de capital e valores ditos “ocidentais” a partir da Segunda Guerra Mundial, quando da ascensão dos “Tigres Asiáticos”, sofrendo rápida modernização capitalista e transformação sociocultural (Silva, 2016). Dessa maneira criou-se um conflito entre o valor instrumental/de costumes (cão visto como alimento) e afetivo (cão visto como companhia), no sentido de que atualmente “existem cães que os sul-coreanos comem e cães que sul-coreanos não comem”, como revela Dugnoille (2018, p. 214, tradução nossa). O antropólogo ressalta em seu trabalho a existência de um discurso na sociedade sul-coreana que diferencia cães de companhia de cães de consumo (alimento), além dos que têm pedigree versus sem pedigree. No entanto, na prática, essas diferenças não são tão claras e servem ao propósito de evitar julgamentos por parte de estrangeiros (de culturas diversas, portanto) que consideram a prática de se alimentar de cães domésticos algo moralmente reprovável. Muitos cidadãos sul-coreanos exibem flexibilidade em seus discursos e atitudes em relação ao consumo de cães, uma vez que principalmente os com pedigree são vistos como alimentos “poderosos”, imbuídos de valores medicinais e de emancipação social. Nesse sentido, Dugnoille (2018) conclui que quaisquer receios morais concernentes à relação humano-cão são minorados diante dos aspectos culturais e simbólicos fortemente arraigados na sociedade sul-coreana, a qual enxerga a carne canina de pedigree como um símbolo da singularidade nacional (de uma pureza étnica) e de status social elevado. Tal ambiguidade de atitudes nessa cultura reflete quão contraditória pode ser a relação que os seres humanos estabelecem com os cães.

Como demonstram Serpell e Hsu (2016), crenças religiosas também influenciam nossa percepção sobre os cães. Menache (1998) menciona que, do ponto de vista histórico, as grandes religiões monoteístas eram contrárias à criação desses animais, considerando-os como impuros e perigosos, ou seja, não havia uma explicação claramente teológica em origem, mas ecológica. Nesse sentido, a autora menciona o nicho ocupado pelos humanos durante a formação dessas religiões, que englobava regiões desérticas da Ásia Menor e que eram suscetíveis a ataques de cães selvagens. Do ponto de vista dogmático, de acordo com o trabalho da autora, fica claro que, embora as religiões monoteístas tenham pregado claramente que cães eram animais impuros, na realidade muitos fiéis tinham relações próximas a eles, ainda que apenas o aspecto utilitário fosse mais notório. A afetividade, por suposição também presente, era atenuada em importância por causa do antropocentrismo calcado na concepção de um Deus especialmente necessitado de adoração irrestrita e única (por ter criado a humanidade “à sua imagem e semelhança”). Assim, o estabelecimento de relações com animais não-humanos que envolvessem afeto, apego e admiração era visto como prejudicial à fé em um único Deus. Obviamente, essa abordagem em relação ao tema não resistiu ao tempo, e a ideologia foi superada pela experiência diária com os cães que claramente demonstraram suas admiráveis singularidades em diversos campos relevantes a nós (Menache, 1998).

Percebemos a pluralidade de relações humano-cão no âmbito mundial (e no histórico) sendo que, em alguns casos, podemos nos referir até a situações paradoxais, como no contexto da Coréia do Sul. Em suma, é impossível não ficarmos admirados diante desse cenário tão diverso de relações próximas e duradouras entre as duas espécies. Quantas histórias trilhamos juntos? Quantas características (humanas e caninas) foram influenciadas por esse convívio? Desde o cão de Bonn-Oberkassel (Janssens et al., 2018), que foi acolhido por humanos, passando pelos enterramentos dos “grandes cães caçadores” da cultura Jomon (Perri, 2016), até os dias atuais no contexto urbano ou rural, os cães (de rua, de companhia ou de trabalho) afetam nossas vidas de modo único. A partir da cooperação fortalecida ao longo do tempo, não podemos deixar de cogitar que a própria evolução humana também tenha sido alterada, guardadas as devidas proporções, considerando os relevantes serviços “prestados” pelos cães (seja durante as caçadas de nossos ancestrais pré-neolíticos, seja atualmente, nas grandes cidades, atuando como guias, companheiros etc.). A miríade de interações estabelecidas entre nós encerra um fenômeno socioecológico relevante, pois envolve não somente a cooperação entre as duas espécies e todos os aspectos afetivos e instrumentais relacionados, mas também contextos de disseminação de doenças e de interações agonísticas, principalmente nas regiões mais pobres, que afetam tanto o bem-estar humano quanto o dos cães (Arluke & Atema, 2017). Nesse sentido, pesquisas sobre o comportamento canino são fundamentais para que possamos entender e aprimorar as relações que desenvolvemos com esses animais.

Referências

Acharya, M., & Dhakal, S. (2015). Survey on street dog population in Pokhara valley of Nepal. Bangladesh Journal of Veterinary Medicine, 13(1), 65-70. [ Links ]

Albuquerque, N., Guo, K., Wilkinson, A., Savalli, C., Otta, E., & Mills, D. (2016). Dogs recognize dog and human emotions. Biology Letters, 12(1), 20150883. doi: 10.1098/rsbl.2015.0883 [ Links ]

American Pet Products Association. (2017). Pet industry market size & ownership statistics. Recuperado de http://www.americanpetproducts.org/press_industrytrends.aspLinks ]

Arluke, A., & Atema, K. (2017). Roaming dogs. In L. Kalof (Ed.), Oxford handbook of animal studies (Vol. 1). Oxford, UK: Oxford University Press. doi: 10.1093/oxfordhb/9780199927142.013.9 [ Links ]

Bonnett, B. N., & Egenvall, A. (2010). Age patterns of disease and death in insured Swedish dogs, cats and horses. Journal of Comparative Pathology, 142(suppl. 1), S33-S38. doi: 10.1016/j.jcpa.2009.10.008 [ Links ]

Bowlby, J. (1984). Apego (Vol. 1). São Paulo, SP: Martins Fontes. [ Links ]

Butler, J. R. A., & Bingham, J. (2000). Demography and dog-human relationships of the dog population in Zimbabwean communal lands. Veterinary Record, 147(16), 442-446. doi: 10.1136/vr.147.16.442 [ Links ]

Catala, A., Grandgeorge, M., Schaff, J.-L., Cousillas, H., Hausberger, M., & Cattet, J. (2019). Dogs demonstrate the existence of an epileptic seizure odour in humans. Scientific Reports, 9(1), 4103. doi: 10.1038/s41598-019-40721-4 [ Links ]

Chien, J. (2006). Of animals and men: a study of Umwelt in Uexküll, Cassirer, and Heidegger. Concentric: Literary and Cultural Studies, 32(1), 57-79. [ Links ]

Chijiiwa, H., Kuroshima, H., Hori, Y., Anderson, J. R., & Fujita, K. (2015). Dogs avoid people who behave negatively to their owner: third-party affective evaluation. Animal Behaviour, 106, 123-127. doi: 10.1016/j.anbehav.2015.05.018 [ Links ]

Coppinger, R., & Coppinger, L. (2001). Dogs: a startling new understanding of canine origin, behavior, and evolution. New York, NY: Scribner. [ Links ]

Dugnoille, J. (2018). To eat or not to eat companion dogs: symbolic value of dog meat and human-dog companionship in contemporary South Korea. Food, Culture and Society, 21(2), 214-232. doi: 10.1080/15528014.2018.1429075 [ Links ]

Fernworn, A. (2009). Canine augmentation technology for urban search and rescue. In W. S. Helton (Ed.), Canine ergonomics: the science of working dogs (pp. 205-243). Boca Raton, FL: CRC Press. [ Links ]

Flynn, E. G., Laland, K. N., Kendal, R. L., & Kendal, J. R. (2013). Target article with commentaries: developmental niche construction. Developmental Science, 16(2), 296-313. doi: 10.1111/desc.12030 [ Links ]

Frantz, L. A. F., Venters, B. J., Pugh, B. F., Kireeva, M. L., Komissarova, N., Waugh, D. S.,... Larson, G. (2016). Genomic and archaeological evidence suggests a dual origin of domestic dogs. Science, 352(6290), 1228-1231. [ Links ]

Galibert, F., Quignon, P., Hitte, C., & André, C. (2011). Toward understanding dog evolutionary and domestication history. Comptes Rendus Biologies, 334(3), 190-196. doi: 10.1016/j.crvi.2010.12.011 [ Links ]

Goldblatt, A., Gazit, I., & Terkel, J. (2009). Olfaction and explosives detector dogs. In W. S. Helton (Ed.), Canine ergonomics: the science of working dogs (pp. 136-169). Boca Raton, FL: CRC Press. [ Links ]

Gompper, M. E. (Ed.). (2015). Free-ranging dogs and wildlife conservation. Oxford, UK: Oxford University Press. doi: 10.1093/acprof:osobl/9780199663217.001.0001 [ Links ]

Guagnin, M., Perri, A. R., & Petraglia, M. D. (2018). Pre-Neolithic evidence for dog-assisted hunting strategies in Arabia. Journal of Anthropological Archaeology, 49, 225-236. doi: 10.1016/j.jaa.2017.10.003 [ Links ]

Hare, B., & Tomasello, M. (1999). Domestic dogs (Canis familiaris) use human and conspecific social cues to locate hidden food. Journal of Comparative Psychology, 113(2), 173-177. [ Links ]

Hare, B., & Tomasello, M. (2005). Human-like social skills in dogs? Trends in Cognitive Sciences, 9(9), 439-444. doi: 10.1016/j.tics.2005.07.003 [ Links ]

Hare, B., Wobber, V., & Wrangham, R. (2012). The self-domestication hypothesis: evolution of bonobo psychology is due to selection against aggression. Animal Behaviour, 83(3), 573-585. doi: 10.1016/j.anbehav.2011.12.007 [ Links ]

Haubenhofer, D. (2009). Signs of physiological stress in dogs performing AAA/T work. In W. S. Helton (Ed.), Canine ergonomics: the science of working dogs (pp. 281-299). Boca Raton, FL: CRC Press. [ Links ]

Helton, W. S. (2009). Canine ergonomics: introduction to the new science of working dogs. In W. S. Helton (Ed.), Canine ergonomics: the science of working dogs (pp. 1-16). Boca Raton, FL: CRC Press. [ Links ]

Horowitz, A., & Hecht, J. (2014). Looking at dogs: moving from anthropocentrism to canid umwelt. In A. Horowitz (Ed.), Domestic dog cognition and behavior: the scientific study of Canis familiaris (pp. 201-219). Heidelberg: Springer-Verlag. doi: 10.1007/978-3-642-53994-7 [ Links ]

Inoue, M., Hasegawa, A., Hosoi, Y., & Sugiura, K. (2015). A current life table and causes of death for insured dogs in Japan. Preventive Veterinary Medicine, 120(2), 210-218. doi: 10.1016/j.prevetmed.2015.03.018 [ Links ]

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2015). Pesquisa nacional de saúde 2013: acesso e utilização dos serviços de saúde, acidentes e violências: Brasil, grandes regiões e unidades da federação. Rio de Janeiro, RJ: IBGE. [ Links ]

Janssens, L., Giemsch, L., Schmitz, R., Street, M., Van Dongen, S., & Crombé, P. (2018). A new look at an old dog: Bonn-Oberkassel reconsidered. Journal of Archaeological Science, 92, 126-138. doi: 10.1016/j.jas.2018.01.004 [ Links ]

Jezierski, T., Adamkiewicz, E., Walczak, M., Sobczyńska, M., Górecka-Bruzda, A., Ensminger, J., & Papet, E. (2014). Efficacy of drug detection by fully-trained police dogs varies by breed, training level, type of drug and search environment. Forensic Science International, 237, 112-118. doi: 10.1016/j.forsciint.2014.01.013 [ Links ]

Kareiva, P., Watts, S., McDonald, R., & Boucher, T. (2007). Domesticated nature: shaping landscapes and ecosystems for human welfare. Science, 316(5833), 1866-1869. doi: 10.1126/science.1140170 [ Links ]

Kotrschal, K. (2018). How wolves turned into dogs and how dogs are valuable in meeting human social needs. People and Animals: The International Journal of Research and Practice, 1(1), 1-18. Recuperado de https://docs.lib.purdue.edu/paij/vol1/iss1/6Links ]

Laland, K. N., & O’Brien, M. J. (2011). Cultural niche construction: an introduction. Biological Theory, 6(3), 191-202. doi: 10.1007/s13752-012-0026-6 [ Links ]

Laland, K. N., Odling-Smee, F. J., & Feldman, M. W. (2001). Niche construction, ecological inheritance, and cycles of contingency in evolution. In S. Oyama, P. E. Grifths & R. D. Gray (Eds.), Cycles of contingency: developmental systems and evolution (pp. 117-126). Cambridge, MA: MIT Press. [ Links ]

Lewontin, R. C. (2001). Gene, organism and environment. In S. Oyama, P. E. Grifths & R. D. Gray (Eds.), Cycles of contingency: developmental systems and evolution (pp. 59-66). Cambridge, MA: MIT Press. [ Links ]

Malm, S. (2010). Breeding for improved hip and elbow health in Swedish dogs (Tese de doutorado) Uppsala: Sveriges Iantbruksuniversitet. Recuperado de https://pub.epsilon.slu.se/2395/Links ]

Menache, S. (1998). Dogs and human beings: a story of friendship. Society & Animals, 6(1), 67-86. doi: 10.1163/156853098X00069 [ Links ]

Mesoudi, A. (2011). Variable cultural acquisition costs constrain cumulative cultural evolution. PLOS One, 6(3), e18239. doi: 10.1371/journal.pone.0018239 [ Links ]

Palmer, R., & Custance, D. (2008). A counterbalanced version of Ainsworth’s Strange Situation Procedure reveals secure-base effects in dog-human relationships. Applied Animal Behaviour Science, 109(2-4), 306-319. doi: 10.1016/j.applanim.2007.04.002 [ Links ]

Perri, A. R. (2016). Hunting dogs as environmental adaptations in Jōmon Japan. Antiquity, 90(353), 1166-1180. doi: 10.15184/aqy.2016.115 [ Links ]

Reid, P. J. (2009). Adapting to the human world: dogs’ responsiveness to our social cues. Behavioural Processes, 80(3), 325-333. doi: 10.1016/j.beproc.2008.11.002 [ Links ]

Sachs-Ericsson, N., & Merbitz, N. H. (2009). Benefits of animal contact and assistance dogs for individuals with disabilities. In W. S. Helton (Ed.), Canine ergonomics: the science of working dogs (pp. 301-323). Boca Raton, FL: CRC Press. [ Links ]

Serpell, J. A. (2003). Anthropomorphism and anthropomorphic selection: beyond the “cute response”. Society and Animals, 11(1), 83-100. doi: 10.1163/156853003321618864 [ Links ]

Serpell, J. A. (2004). Factors influencing human attitudes to animals and their welfare. Animal Welfare, 13(1), 145-151. [ Links ]

Serpell, J. A., & Hsu, Y. (2016). Attitudes to dogs in Taiwan: a case study. In M. Prȩgowski (Ed.), Companion animals in everyday life (pp. 145-165). New York, NY: Palgrave Macmillan. [ Links ]

Silva, R. L. (2016). Capitalismo, confucionismo e teoria weberiana: reflexões empíricas sobre o caso sul-coreano. Tempo Social, 28(1), 179. doi: 10.11606/0103-2070.ts.2016.107998 [ Links ]

Smith, B. D. (2007). Niche construction and the behavioral context of plant and animal domestication. Evolutionary Anthropology, 16(5), 188-199. doi: 10.1002/evan.20135 [ Links ]

Tapper, R. (1988). Animality, humanity, morality, society. In T. Ingold (Ed.), What is an animal? (pp. 47-62). New York, NY: Routledge. [ Links ]

Tomasello, M., Melis, A. P., Tennie, C., Wyman, E., & Herrmann, E. (2012). Two key steps in the evolution of human cooperation. Current Anthropology, 53(6), 673-692. doi: 10.1086/668207 [ Links ]

Tomasello, M., & Vaish, A. (2013). Origins of human cooperation and morality. Annual Review of Psychology, 64(1), 231-255. doi: 10.1146/annurev-psych-113011-143812 [ Links ]

Ucko, P. J. (1988). Foreword. In T. Ingold (Ed.), What is an animal? (pp. IX-XII). New York, NY: Routledge. [ Links ]

Vas, J., Topál, J., Gácsi, M., Miklósi, Á., & Csányi, V. (2005). A friend or an enemy? Dogs’ reaction to an unfamiliar person showing behavioural cues of threat and friendliness at different times. Applied Animal Behaviour Science, 94(1-2), 99-115. doi: 10.1016/j.applanim.2005.02.001 [ Links ]

Von Uexküll, J. (2001). The new concept of umwelt: a link between science and the humanities. Semiotica, 134(1-4), 111-123. doi: 10.1515/semi.2001.018 [ Links ]

Westing, A. H. (2016). Review of How dogs work and What is a dog? Journal of Mammalogy, 98(1), 312-314. doi: 10.1093/jmammal/gyw164 [ Links ]

World Health Organization. (2013). WHO Expert Consultation on Rabies: second report. Geneva: World Health Organization. Recuperado de http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/85346/1/9789240690943_ eng.pdfLinks ]

World Health Organization. (2015). Rationale for investing in the global elimination of dog-mediated human rabies. Geneva: World Health Organization. doi: 10.4103/0976-5042.165700 [ Links ]

Zilcha-Mano, S., Mikulincer, M., & Shaver, P. R. (2012). Pets as safe havens and secure bases: the moderating role of pet attachment orientations. Journal of Research in Personality, 46(5), 571-580. doi: 10.1016/j.jrp.2012.06.005 [ Links ]

1Compreende uma parte do primeiro capítulo da dissertação de mestrado do autor

2Antes de Cristo.

3Antes do presente.

4Grupo que inclui mamíferos cujas extremidades dos dedos possuem cascos (cavalos, porcos, antílopes).

5Engloba as sociedades e culturas da Europa Ocidental ou aquelas fortemente influenciadas por ela.

6 Von Uexküll (2001) já chamava atenção para o fato de que é necessário adotar a perspectiva particular do animal relacionada ao seu modo de vivenciar o mundo, discorrendo sobre o conceito de Umwelt, que pode ser traduzido livremente como surrounding-world (“mundo ao redor”) (Chien, 2006): “all animals are disposed for different things that each perceives and that it reacts upon. Every animal is surrounded with different things, the dog is surrounded by dog things and the dragonfly is surrounded by dragonfly things” (Von Uexküll, 2001, p. 117).

Recebido: 12 de Agosto de 2019; Revisado: 28 de Novembro de 2019; Aceito: 31 de Janeiro de 2020

*Endereço para correspondência: francabral@gmail.com

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons