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Physis: Revista de Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 0103-7331

Physis vol.2 no.1 Rio de Janeiro  1992

https://doi.org/10.1590/S0103-73311992000100003 

Feminino : a controvérsia do obvio

 

Femaleness : the controversy of the obvious

 

Le féminin : la controverse de l'évidence

 

 

Jacqueline Muniz

Cientista social-UFF, Mestre em Antropologia Social, Museu Nacional, UFRJ. Integrante do Grupo de Estudo Religião e Modernidade organizado pelo prof. Dr. Otávio Velho

 

 


RESUMO

Este artigo procura refletir acerca do estatuto do "Feminino" a partir do modo como ele se põe na linguagem. Não se trata, evidentemente, de uma apreciação pormenorizada do referido objeto. Ao contrário, nos limites deste lexto, procuramos antes fazer aparecer os gaps e impasses cognitivos que isso que reconhecemos como feminino ou feminilidade produz e sustenta no plano da significação. Procurou-se, então, tratar o feminino como um controvertido episódio do sentido por meio do qual se podem discutir os domínios da linguagem, seus problemas e limites.


ABSTRACT

The article is a reflection on the nature of femaleness as it is expressed through language. The text does not, of course, pretend to be a detailed appreciation of this object but rather an attempt to bring to light the cognitive gaps and impasses created and sustained within the realm of signification by that which we recognize as femaleness, or femininity. Femaleness is thus approached as a controversial episode of signification, which can be used to explore the domains, problems, and limits of language.


RESUME

Cet article représente une tentative de penser le statut du féminin à partir de la manière selon laquelle il se situe au niveau du langage. II ne s'agit pas évidemment d'une étude détaillée de cet objet. Bien au contraire, dans les limites de son texte, 1'auteur s'est efforcé de faire apparaitre les gaps et les impasses cognitives que ce que nous reconnaissons comme féminin ou féminité produit et soutient au niveau de la signification. II a ensuite cherché à traiter le féminin comme un épisode eontroversé du sens au moyen duquel on peut étudier les domaines du langage, ses problèmes et ses limites.


 

 

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

 

 

1 Ver LEVI-STRAUSS, C.Opensamento selvagem, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1976 e Da Matta,         [ Links ] R. Carnavais, malandros e heróis: pura uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1983.         [ Links ]
2 Conferir PARKER, R.G, "Within Four Walls": The Cultural Construction of Sexual Mea-nittgs in Contemporary Rrazil. Rerkeley, Umversity of Califórnia, 1988.         [ Links ]
3 Novo Dicionário Aurélio, ls edição, Nova Fronteira.
4 As expresssões "homem de agá maiúsculo" e "homem de agá minúsculo" ainda são muito empregadas no interior do Brasil quando se trata de relatar a vinlidade de alguém.
5 Sobre Sal concepção o mito de Adão e Eva é bastante ilustrativo.
6 A associação entreo nascimento de um menino e o recebimento de uma dádivaé um presságio ainda muito presente na vida brasileira.
7 Na linguagem chula os termos "dotada" e "superdotado" referem-se ao tamanho do pênis.
8 É voz corrente no Brasil dizer que toda mulher é tagarela porque possui muitas bocas e que o homem pensa mais porque já nasce com duas cabeças.
9 Para uma discussão acerca das perspectivas que advogam uma insuficiência na realidade ver Clément Rosset, O princípio da crueldade, Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1989.         [ Links ]
10 A possibilidade de encenar, simultaneamente, o papel de caça e caçador também aparece no ritual realizado pelos Hidatsa de caça às águias analisado por Lévi-Strauss, O pensamento selvagem, op. cit.
11 O termo "bacurau" é uma designação popular para um conjunto de aves da família dos caprimulgídeos.
12 Os albinos são sujeitos portadores de uma anomalia congênita caracterizada pela ausência completa ou parcial do pigmento da pele, dos pêlos, da íris e da coróide.
13 Ver Chevalier, J. & Gheerbrant, A. Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Ed., 1990.         [ Links ]
14 Sobre os aracnídeos consultamos Storer, I. Tracy & Usinger, L. Rohert, Zoologia Geral, São Paulo, Companhia Ed. Nacional, 1978.         [ Links ]
15 Ao mesmo tempo nocivos e úteis, estes artrópodes combatem as pragas das plantações, exterminam insetos transmissores de moléstias e são tamhém detonadores de um tipo de peeonha muito ativa tios mamíferns
16 Como impecáveis simuladores, estes aracnídeos escavam labirintos subterrâneos que, por mais modestos, sempre apresentam uma via de entrada, saída de emergência, câmaras falsas e túneis sem saída que confundem os improváveis inimigos.
17 Em algumas regiões da Europa, particularmente na Itália, acredita-se queapicadadatarântula ou Lycosa Turentula (aracnídeo provindo da família dos Licosídeos), causa febres e delírios que, segundo a crendice, produzem efeitos singulares que levariam o suposto doente a afastar a morte cantando e dançando. Tal ritual c conhecido como Tarantismo. Também na Itália existe uma dança muito popular conhecida como Tarantela.
18 A expressão "chave de coxa" reporta-sc a certos movimentos corporais femininos que, segundo a crendice popular, trancam ou engolem o pênis.
19 Ver Lévi-Strauss, op. cit.
20 No Brasil, costumamos identificar bons e maus presságios através do olfato.
21 Tal propriedade adquire dimensões antropomórficas nas tradicionais figuras das "parcas" e "carpideiras", que retratam aquelas mulheres que manipulam misteriosamente o destino e que acompanham os funerais pranteando os mortos.
22 Ver Chevalier, J. & Gheerbrant, A., op. cito
23 Esta imagem é explorada por Platão em sua reflexão sobre o mito da caverna.
24 ConfIra Lévi-Strauss, A oieira ciumenta. São Paulo. Ed. Brasiliense, 1986.
25 Para uma reflexão acerca da morte ver Ariès, P., História da morte no Ocidente, Rio de Janeiro, Francisco Alves Ed., 1977 e Rodrigues,         [ Links ] J.C, Tabu da morte, Rio de Janeiro, Ed. Achiamé, 1983.         [ Links ]
26 Lévi-Strauss, op. cit.
27 Parker, R„ op. cit, p. 130-131.
28 Parker, R„ p. 132, op. cit.
29 Costumamos dizer que as mulheres menstruadas devem evitar a ingestão de alimentos com aromas fortes para não piorar o cheiro natural que exalam.
30 Sobre a apropriação simbólica do corpo e da corporalidade ver Rodrigues, J.C., Tabu do corpo, Rio de Janeiro, Ed. Achiamé, 1980.         [ Links ]
31 A idéia do signo feminino encenar a exigência de relação aparece em Lévi-Strauss, C., As estruturas elementares do parentesco, Petrópolis, Ed. Vozes, 1982 e BARTHES,         [ Links ] R., Fragmentos de um discurso amoroso, Rio de Janeiro, Francisco Alves Ed., 1989.         [ Links ]
32 Ver Parker, op. cit.; e MISSE, M., O estigma do passivo sexual, Rio de Janeiro, Ed. Achiamé e Socii, 1981.
33 Ibid.
34 Da Matta R., A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1985.         [ Links ] O autor ousa, com muita propriedade, dizer que esta característica relacional de nossa realidade dá à sociedade brasileira uma tonalidade por demais feminina. Exploramos tal proposição em outro trabalho. Ver Muniz, "Mulher com mulher dá jacaré, uma abordagem antropológica da homossexualidade feminina", Rio de Janeiro, PPGAS, Museu Nacional, Dissertação de Mestrado, Inédito.
35 Da Matta, op. cit., 1985.
36 Parker,op. cito
37 Da Mattá, op. cit., 1983.
38 A respeito do adultério feminino costumamos dizer que a mulher é de tal maneira propensa ao pecado que "a única mulher que andou na linha o trem matou".
39 Do vasto repertório de saberes populares aparecem advertências como "quem deita de bruços nunca mais fica de pé"' e "quem dá uma vez, dá sempre", que corroboram a ameaça de feminilização à qual estamos nos referindo.
40 Freire, Gilberto, Casa grande & senzala, Rio de Janeiro, José Olimpio Ed., 1977.         [ Links ]
41 Ibid.
42 Sobre o indizível e sua notabilidade ver MUNIZ, 1.. op. cit.
43 Parker, R., op. cit.
44 Estas observações foram coletadas nas entrevistas realizadas durante o trabalho de campo.
45 Ibid.
46 Sobre a dimensão do não-dito e sua tragicalidade, ver MUNIZ, J., op. cit.
47 Ver LÉVI-STRAUSS, op. cit.
48 A respeito dos mecanismos pelos quais os discursos e demais outras manifestações do dizível questionam alinguagem, ver FOUCAULT, M.História da sexualidade I: a vontade de saber, Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1980;         [ Links ] História da sexualidade 1/: o uso dos prazeres, Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1988; BARTHES, R., Crítica e verdade, São Paulo, Ed. Perspectiva, 1982;         [ Links ] LÉVI-STRAUSS, C. op. cit.; MUNIZ, J., op. cit.

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