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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.23 no.2 Santa Maria May/Aug. 1993

https://doi.org/10.1590/S0103-84781993000200007 

AVALIAÇÃO DE GENÓTIPOS DE FEIJOEIRO EM SANTA MARIA, RS.

 

EVALUATION OF THE BEAN GENOTYPES IN SANTA MARIA. RS.

 

Wilson Manara1 Osmar Souza dos Santos2 Nerinéia Dalfollo Ribeiro2 Valduíno Estefanel1

 

 

RESUMO

Com o objetivo de avaliar o comportamento de genótipos de feijoeiro em Santa Maria, RS, foram conduzidos quatro experimentos nos anos agrícolas 1987/88, 1988/89, 1989/90 e 1991/92. Utilizou-se o delineamento blocos ao acaso, com quatro repetições, onde os tratamentos constituíram-se de 59 genótipos, em número variável em cada experimento. Os resultados obtidos evidenciaram que os genótipos BR-IPAGRO 3 - Minuano, CNF 5490 e CNF 5491 foram superiores quanto ao número de vagens por planta, número de sementes por vagem, resistência ao acamamento, apresentando ciclo entre 82 e 84 dias e alta produtividade.

Palavras-chave: feijão, genótipos, rendimento de grãos, acamamento, ciclo.

 

SUMMARY

With the aim to study the behaviour of bean genotypes in Santa Maria, RS, four experiments were conducted in the seasons of 1987/88, 1988/89, 1989/90 and 1991/92. The experimental design was a complete randomized block with four replications. On the four experiments 59 genotypes were evaluated one or more times. The results showed that BR - IPAGRO 3 -Minuano, CNF 5490 and CNF 5491 genotypes produced higher number of pods per plant and higher number of seed per pod, had higher resistance to lodging, presenting cycle between 82 and 84 days and high productivity.

Key words: beans, genotype, grain yeld, lodging, cycle.

 

 

INTRODUÇÃO

O feijão constitui um dos principais alimentos proteicos (15-25% de proteína), especialmente para as populações latino-americanas. Contém em torno de 65% de carboidratos, principalmente amido, além de outros elementos como fibras, vitaminas e sais minerais (AZZOLIN & RAMOS, 1986), tendo grande importância na dieta alimentar brasileira.

A produtividade média nacional situa-se, historicamente, em torno de 500kg/ha. Uma das causas da baixa produtividade é a utilização de sementes de baixa qualidade, de genótipos indefinidos ou não aprovados pela pesquisa. A Comissão Estadual de Pesquisa de Feijão - CEPEF do Rio Grande do Sul dispõe de recomendações de cultivares melhoradas de grãos pretos e de cor, com informações sobre características botânicas, aspectos nutricionais, tolerância às doenças e rendimentos. As mais recentes recomendações para o Rio Grande do Sul incluem as cultivares Rio Tibagi, Guateian 6662, Empasc 201 - Chapecó, Capixaba Precoce, Carioca, Iraí, BR - IPAGRO 1 - Macanudo, BR - IPAGRO 2 -Pampa, BR - IPAGRO 3 - Minuano, FT-120 e FT-206 (CRC, 1992). No entanto, os genótipos apresentam comportamento diferenciado de acordo com o ambiente, o que acentua a importância dos ensaios estaduais realizados em localidades distintas, definido as melhores cultivares para cada região.

Com o objetivo de avaliar o comportamento de genótipos de feijoeiro em Santa Maria, RS, para fins de verificação da adaptação das cultivares recomendadas e linhagens avançadas às condições regionais de ambiente, foi realizado o presente estudo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Quatro experimentos foram conduzidos em área do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria, nos anos agrícolas 1987/88, 1988/89, 1989/90 e 1991/92, em solo da unidade de mapeamento Santa Maria (Brunizem Hidromórfico). As coordenadas geográficas são 29B41'25" de latitude sul e 53°48'4" de longitude oeste, com altitude de 95m. A temperatura média normal do mês mais quente ocorre em janeiro (24,8°C), sendo a média normal das máximas deste mês 31,5°C e a média normal das mínimas 18,7°C (MACHADO, 1950). As precipitações pluviométricas normais para os meses de setembro, outubro e novembro são respectivamente, 163, 152 e 121 mm.

O delineamento experimental adotado foi bloco ao acaso, com quatro repetições, onde os tratamento constituíram-se de 59 genótipos de feijoeiro, em número variável em cada experimento (Tabela 1). As parcelas foram compostas de quatro fileiras, com 4m de comprimento, espaçadas de 0,5m, com densidade de 15 sentes por metro. A área útil da parcela constou das is fileiras centrais, nas quais foram desprezados 0,5m extremidades, totalizando 3,0m2.

 

 

A adubação, realizada no sulco de semeadura, baseou-se na análise química do solo, seguindo as Recomendações de Adubação e Calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (SIQUEIRA et al, 1987). As quantidades de adubo, nos três primeiros anos agrícolas, foram 55kg/ha de P2O5 (superfosfato triplo), 50kg/ha de K2O (cloreto de potássio), 15kg/ha de N (uréia) na semeadura e 70kg/ha de N (uréia) em cobertura, aos 33 dias após a semeadura. No ano agrícola 1991/92, foram usados 30kg/ha de P2O5, 60kg/ha de K2O, 10kg/ha de N na semeadura e 70kg/ha de N em cobertura, com as mesmas fontes de adubos utilizadas nos experimentos anteriores.

As datas de semeadura dos experimentos foram 07/10/1987, 11/10/1988, 29/09/1989 e 12/09/1991. No último experimento, foram realizadas três irrigações por sulco nos períodos de maior deficiência hídrica, que ocorreram nos estádios V1, V4 e R7, de acordo com a escala fenológica proposta por FERNÁNDEZ et al 82).

Foi avaliado o número de dias da semeadura até a floração (DAF) e o número de dias da semeadura até a maturação (DAM). O grau de acamamento das plantas foi medido através de escala de números de 1 a 9, onde 1 corresponde a 100% de plantas eretas e 9 a 100% de plantas acamadas. A leitura de crestamento bacteriano comum foi realizada seguindo a metodologia sugerida pelo CIAT (1987). Foram determinados ainda os seguintes componentes do rendimento: número de vagens por planta, número de grãos por vagem e peso de 100 grãos, além do rendimento de grãos.

Os dados obtidos foram analisados conjuntamente pelo programa GLM do "pacote" estatístico SAS versão 6.06 e as médias foram comparadas pelo teste de Duncan (P=0,05). Nas tabelas foi colocada apenas a letra "a", indicando a maior média e aquelas que não diferiram significativamente dela, optando-se por não colocar as demais letras, porque o teste mostrou grande estratificação.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A tabela 1, que apresenta as médias de rendimento de grãos dos genótipos e a classificação pelo teste Duncan (P < 0,05) permite distinguir, como mais produtivos, os genótipos, 86533, MP 89103, CNF 5490, CNF 5491, LA 720130, BR - IPAGRO 3 - Minuano, IAPAR 31 e IAPAR 44, não diferindo significativamente entre si. Alguns destes genótipos haviam se destacado em outros experimentos (ANTUNES et al, 1989; ANTUNES et al, 1990). Os genótipos 86533, MP 89103 e CNF 5490 foram, em valores relativos, superiores à melhor testemunha, BR - IPAGRO 3 - Minuano, em 2,8%, 2,4% e 0,1%, respectivamente. No ano agrícola 1991/92, o alto nível de rendimento alcançado pode ser creditado às três irrigações, pois foi o ano de maior deficiência hídrica (246mm).

ANTUNES et al (1989) realizaram análise conjunta de produtividade de grãos no ensaio estadual de feijão safra 1988/89 onde avaliaram 30 genótipos, em onze localidades do Rio Grande do Sul, verificando que os genótipos CNF 5488 (BR - IPAGRO 3 - Minuano), CNF 5491 e CNF 5490, foram superiores à melhor testemunha, EMPASC 201 - Chapecó, em 40,8%, 35,0% e 31,7%, respectivamente, não diferindo significativamente entre si. Na safra 1989/90, os genótipos CNF 5488 (BR -IPAGRO - 3 - Minuano), CNF 5491, CNF 5490, LM 30074 e LM 30063 superaram, a cultivar BR - IPAGRO - 1 - Macanudo, melhor testemunha de grão preto, em 14,8%, 8,9%, 7,6%, 2,2% e 0,5%, respectivamente (ANTUNES et al, 1990).

Considerando como boa a produtividade obtida pêlos melhores genótipos, na média dos quatro experimentos, deve-se ter em conta outros fatores que podem limitar sua indicação para cultivo. Destacam-se a duração do ciclo vegetativo, o grau de acamamento e a infecção de crestamento bacteriano comum.

Os dados obtidos (Tabela 2) mostraram que a cultivar Irai foi mais precoce para floração (30 dias). Observou-se que a cultivar Capixaba Precoce entrou em floração três dias depois que a Iraí, porém ambas tiveram ciclo total (DAM) semelhantes. Este fato, segundo VIEIRA (1991), mostra que nem sempre a capacidade de florescer mais cedo permite classificar uma cultivar como precoce.

 

 

A duração de ciclo vegetativo (DAM) apresentou comportamento diferenciado para os genótipos avaliados, os quais foram reunidos em dois grupos: aqueles com ciclo até 84 DAM que, pelo teste de Duncan, não diferiram do mais precoce, e os de ciclo de mais de 84 DAM. No ano agrícola 1987/88 verificou-se deficiência hídrica nos estádios R7 e R8 refletindo em encurtamento de ciclo, concordando com resultados obtidos por ROBINS & DOMINGO (1956).

Quanto ao acamamento, extremamente prejudicial à colheita, constata-se que a grande maioria dos genótipos apresentou baixos valores (Tabela 2). A média dos quatro experimentos, permite destacar no grupo com menor nível de acamento valores de 1,5 (MP 89103) a 4,5 (CNF 0158). No ano agrícola 1988/89, observou-se o maior acamamento médio, que pode ser explicado pela melhor distribuição de chuvas, propiciando maior crescimento das plantas.

A análise estatística conjunta dos dados de crestamento bacteriano comum, dos quatro experimentos, mostrou significância apenas para genótipos, não sendo significativas as diferenças entre anos e nem a interação ano x genótipo, o que indica o mesmo comportamento dos genótipos quanto ao crestamento bacteriano comum nos diferentes anos. Os genótipos mais resistentes foram LM 20785, A 227, CNF 3993, EEP 52775, não diferindo significativamente entre si.

Os dados de componentes do rendimento (número de vagens por planta, número de grãos por vagem e peso de 100 grãos), importantes no aumento da produtividade e um dos principais fatores considerados na indicação de genótipos para cultivo, apresentaram significância para ano e genótipo, o que indica comportamento diferenciado dos genótipos e dos diferentes anos.

Os genótipos que apresentaram maior número de vagens por planta foram BR - IPAGRO 3 -Minuano, EMP 89, FT 8486, CNF 5491, CNF 5490, L 25026 e CNF 0480, não diferindo significativamente entre si. A maioria dos genótipos com quatro a cinco grãos por vagem pertenceu ao melhor grupo, na comparação entre médias de rendimento de grãos. Observou-se no ano agrícola de 1987/88 o número médio de dois grãos por vagem, enquanto nos anos posteriores esta média foi de quatro grãos por vagem. Acredita-se que a deficiência hídrica ocorrida nos estádios R8 e R9, no referido ano agrícola, tenha limitado o número de grãos por vagem.

Com relação ao peso de 100 grãos, a cultivar Iraí foi significativamente superior às demais, 36,6g (Tabela 3). Observou-se no ano agrícola 1987/88 que o peso médio de 100 grãos foi de 17,0g, enquanto nos anos posteriores foi de 21,0g. Este fato pode ser atribuído à deficiência hídrica ocorrida nos estádios R8 e R9, restringindo o número de vagens por planta, o número de grãos por vagem, o peso de 100 grãos e, conseqüentemente, o rendimento de grãos no referido ano agrícola.

 

 

Os genótipos BR - IPAGRO 3 - Minuano, CNF 5490 e CNF 5490 e CNF 5491 mostraram-se superiores quanto ao número de vagens por planta, número de grãos por vagem e resistência ao acamamento, ainda que o BR - IPAGRO 3 - Minuano seja um pouco mais suscetível que os demais. Essas características aliadas às suas altas produtividades, demonstram adaptação na região de Santa Maria. Por sua vez, os genótipos IAPAR 31, 86533, MP 89103, LA 720130 e IAPAR 44, por apresentarem altos rendimentos, devem permanecer nos ensaios estaduais a fim de serem avaliados por um período maior.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Engenheiro Agrônomo, Professor Titular, Departamento de Fitotecnia, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 97119-900 - Santa Maria. RS.

2Engenheiro Agrônomo, aluna do Curso de Pós-Graduação em Agronomia, bolsista do CNPq, UFSM.

Recebido para publicação em 22.10.92. Aprovado para publicação em 23.12.92.

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