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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.24 no.2 Santa Maria  1994

https://doi.org/10.1590/S0103-84781994000200019 

USO DA CERCLAGEM E RESINA ACRÍLICA EM FRATURAS MANDIBULARES DOS EQUÍDEOS

 

UTILIZATION OF THE ACRILIC RESIN ASSOCIATED WITH CERCLAGE IN EQUINE MANDIBULAR FRACTURES

 

Carlos Augusto Araújo Valadão1 José António Marques1 João Guilherme Padilha Filho1 Celso Antonio Rodrigues2 Homem Israel Ferreira3

 

 

RESUMO

Relata-se o emprego da associação da ligadura interdentária, com fio de aço (cerdagem), à resina acrílica, no tratamento de fraturas mandibulares (espaço interdental e placa alveolar) em equídeos. Observou-se o restabelecimento precoce da função mastigatória. Além disso, foi possível a reimplantação dos dentes incisivos extraídos pelo trauma. Desta forma, pode-se assegurar que a técnica mostrou-se eficiente, prática e de baixo custo.

Palavras-chave: mandíbula, fixação de fraturas, eqüinos.

 

SUMMARY

Reduction and immobilization of mandibular fractures (interdental space and alveolar plate) by cerdage associated with acrilic resin was performed in 8 equides. Early recuperation of the masticatory function was observed in all cases treated. This technic permited to replace the incisives tooth lost due the traumatic process. It was concluded that this device was effective, inexpensive and easily applicable for fractures in the alveolar region of the equine incisives teeth.

Key Words: mandibles, fractures fixation, horses.

 

 

INTRODUÇÃO

As fraturas que atingem a mandíbula dos eqüinos têm grande importância por interferirem na alimentação e colocarem em risco a vida do animal, principalmente quando acometem a região dos dentes incisivos ou o espaço interdental, pois impedem ou dificultam a preensão dos alimentos (KRAHWINKEL et al., 1969; HURTIENNE & WISSDORF, 1972).

As les es mais freqüentes envolvem a região da placa alveolar dos incisivos e o espaço interdental (GABEL, 1969; HURTIENNE & WISSDORF, 1972; MEAGHER & TROUT, 1980) e muitas vezes incorrem em perda dentária (DART & PASCOE, 1987).

Desta forma, após a lesão os animais apresentam salivação, desalinhamento dentário, associado a lesões da mucosa oral. edema local, e ainda, mobilidade dentária anormal que radiograficamente confirma a descontinuidade óssea (MEAGHER & TROUT, 1980; SCHNEIDER, 1990).

Assim, uma vez determinada a lesão óssea, a escolha do método de imobilização poderá variar. Atualmente, tem sido destacado os bons resultados alcançados com a combinação da cerdagem com resinas acrílicas (PIANCENZA & BOHM. 1985; DART & PASCOE, 1987; SCHNEIDER. 1990).

Neste trabalho, relata-se o uso da associação da cerciagem interdental com resina acrílica na correção de fraturas localizadas nos processos alveolares dos dentes incisivos e/ou no espaço interdental de eqüinos atendidos no Hospital Veterinário "Governador Laudo Natel" da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, Campus de Jaboticabal.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram tratados 8 eqüinos adultos, de diversas idades e raças e um asinino da raça Pega, que apresentavam a seguinte sintomatologia: salivação, disfagia, desalinhamento dentário e por vezes queda do lábio inferior, cuja origem esteve relacionada a mordidas em objetos duros, coices e choques contra obstáculos. Tais lesões foram facilmente detectadas por estarem comprometendo a placa alveolar dos incisivos e/ou a região do espaço interdental da mandíbula (diástema). Assim, o exame radiográfico foi utilizado como forma de avaliação da extensão da lesão, logo após o animal ter sido submetido à anestesia geral inalatória com Fluotanoa. Naquelas fraturas localizadas na placa alveolar, onde existiu a exposição das raízes dentárias, deve-se salientar que quando houveram soluções de continuidade na gengiva, estas foram suturadas, salvo aquelas consideradas contaminadas. Em todos os casos, efetuou-se a limpeza do foco de fratura com solução fisiológica acrescida de neomicinab (1g/l). Nos 3 casos que ocorreu queda dos incisivos centrais, procedeu-se a curetagem das raízes destes dentes, seguindo-se do reimplante nos alvéolos no momento de redução da fratura.

O processo de redução nos casos de fraturas com exposição dos alvéolos dentários constou de reencaixe dos dentes nos alvéolos, realinhamento e fixação por fio de açoc, entrelaçado nos outros dentes incisivos contra-laterais. Posteriormente com outro pedaço de fio de aço fixado no dente canino ou no osso mandibular através de perfuração, manteve-se os dentes incisivos inferiores alinhados com os superiores.

Nos casos de fraturas situadas bilateralmente na região do diástema, perfurou-se o osso mandibular, anteriormente ao 1° pré-molar e, passou-se o fio de aço por este orifício, torcendo-o sobre si mesmo para então entrelaçá-lo e ancorá-lo sobre os incisivos, produzindo a redução do processo. Esta conduta foi repetida para o lado oposto.

Por outro lado, em um animal, que apresentava fratura unilateral oblíqua próxima a raiz do primeiro pré-molar, praticou-se uma bucotomia lateral, para facilitar a passagem do fio de aço ao redor do segundo e do primeiro pré-molar, em forma de oito, seguindo-se da torção sobre o colo dentário do primeiro pré-molar. Na seqüência, as suas pontas foram tracionadas e ancoradas sobre os dentes incisivos do mesmo lado.

Assim, após a fixação com fio de aço, o próximo passo foi a aplicação de resina acrílicad sobre a cerciagem encobrindo a mesa dentária dos dentes incisivos e também sobre aquela porção do fio metálico situado sobre a região do diástema, ou ainda, quando fosse o caso, junto ao primeiro dente pré-molar, formando um único bloco entre a resina e o fio de aço. As figuras 1a, 1b, 1c, ilustram a aplicação desta técnica em alguns dos tipos de fraturas mandibulares dos eqüinos, aqui discorridos.

 



 

Para minimizar os efeitos da temperatura produzida no momento da secagem da resina (reação exotérmica) aplicou-se uma compressa cirúrgica embebida em solução fisiológica, sobre a mesma.

O tratamento pós-operatório constou do fornecimento de alimentos tenros e de fácil mastigação, durante a primeira semana e, procedeu-se também, a lavagem da cavidade oral, duas vezes ao dia com solução fisiológica com iodo povidinee a 1%.

Por via sistêmica aplicou-se a associação de penicilina e estreptomicinaf durante 7 dias. A partir deste período, não havendo complicações, os animais recebiam alta, sendo recomendada a lavagem periódica do local com água corrente, para evitar o acúmulo de resíduos e também foi solicitado que retomassem no quadragésimo dia para o controle radiográfico e retirada da prótese, quando recuperados.

 

RESULTADOS

A aplicação da cerdagem associada à resina acrílica conferiu estabilidade ao foco de fratura, favorecendo o restabelecimento precoce da função mastigatória, devido à rápida adaptação dos animais ao aparelho. Não foram observadas alterações teciduais adjacentes à tala acrílica a não ser aquelas resultantes do acúmulo de resíduos alimentares que foram facilmente contornadas através da limpeza diária.

Assim, encontram-se resumidos na Tabela 1 os dados clínicos e tempo de recuperação dos animais tratados.

 

 

 

DISCUSSÃO

As fraturas da mandíbula são freqüentemente acompanhadas de lesões da mucosa oral e, às vezes, de exposição do osso fraturado, que deverão ser cuidadosamente tratadas e debridadas, antes da redução da fratura (GABEL, 1969; WHEAT, 1976; MEAGHER & TROUT, 1980). Segundo PIANCENZA & BOHM (1985) devem ser retirados do foco de fratura os restos de alimentos, coágulos sangüíneos e fragmentos ósseos. HURTIENNE & WISSDORF (1972); HERTSCH et al. (1976); WHEAT (1976); PIANCENZA & BOHM (1985); DART & PASCOE (1987), descreveram que a sutura da mucosa, após a redução da fratura limita a contaminação, sendo desnecessário este procedimento em caso de comprovada contaminação. Assim, mesmo diante destes cuidados, no presente trabalho optou-se também pela aplicação de substâncias antibióticas locais e sistêmicas como proteção adicional.

Segundo os relatos de PIANCENZA & BOHM (1985); DART& PASCOE (1987); SCHINEIDER (1990) o período de recuperação das fraturas de mandíbula varia com o método empregado. Para a imobilização com fio de aço recoberto por resina foi recomendada a retirada entre 4 a 6 semanas (ANTIPLIOGLÚ, 1970; HERTSCH et al., 1976), contudo, nos casos aqui tratados, observou-se que a recuperação efetiva ocorreu ao redor de 6 a 8 semanas para aquelas fraturas completas, enquanto que naqueles casos que envolveram a placa alveolar esta recuperação ocorreu mais precocemente. No entanto sabe-se que o principal referencial para se remover a imobilização é o exame radiográfico, que revela a consolidação da fratura (PIANCENZA & BOHM, 1985; DART & PASCOE, 1987).

A imobilização das fraturas mandibulares e/ou maxilares, através da fixação externa com tala acrílica previamente moldada sobre a região fraturada, com posterior fixação por fios metálicos torcidos sobre os dentes, enquanto a resina ainda encontrava-se mole, foi recomendado por SCHNEIDER (1990). De forma inversa, no presente trabalho optou-se pelo entrelaçamento prévio dos fios de aço sobre os dentes seguido do recobrimento (dentes e fios) com acrílico e alcançou-se plenamente a meta de imobilizar o foco, além de permitir ao animal alimentar-se normalmente, o mais breve possível, tal como foi referido por PIANCENZA & BOHM (1985); DART & PASCOE (1987). Muito embora, alguns animais apresentassem certa dificuldade na preensão, conforme foi descrito por HORT (1968); HUTIENNE & WISSDORF (1972); IAMAGUTI et al. (1973); HERTSCH et al. (1976), tornou-se desnecessário seguir a recomendação de BURGER (1955); GARNER & THURMON (1968); GABEL (1969); KRAHWINKEL et al. (1969), WALLACE (1971); MURCH (1980); PIANCENZA & BOHM (1985); DART & PASCOE (1987), quanto ao uso de sonda naso-gástrica na alimentação dos animais, pois, após um curto período de tempo (2 a 5 dias), os animais se adaptaram ao aparelho e passaram a alimentar-se voluntariamente.

A realização da bucotomia lateral, para posterior passagem do fio de aço entre os pré-molares, procedimento praticado por PIANCENZA & BOHM (1985) e DART & PASCOE (1987), se fez necessário principalmente naquele caso da fratura localizada no diástema. Assim, passou-se o fio de aço no espaço entre os primeiros pré-molares, fato que assegura o perfeito alinhamento e redução do processo. O recobrimento com a resina, conferiu estabilidade ao foco de fratura favorecendo assim ao animal uma rápida recuperação. Neste particular, deve-se frizar que os fios foram ancorados junto a amarração dos incisivos do mesmo lado, fato que tornou desnecessário o ancoramento junto ao lado oposto por sob a língua, evitando a ação traumática e obstrutiva sobre o conduto da glândula sublingual, conforme foi relatado por DART & PASCOE (1987).

A associação da cerdagem com a resina acrílica conferiu uma boa redução das fraturas e o rápido retorno da função mastigatória, de forma simples e objetiva, dispensando o emprego de técnicas mais dispendiosas como aquelas descritas por PIANCENZA & BOHM (1985) e DART & PASCOE (1987). Por outro lado, a técnica aqui descrita assegurou o reimplante dos dentes incisivos extraídos pelo trauma, conservando-os e tomando desnecessária a extração dos mesmos tal como descreveu IAMAGUTI et al. (1973).

Diante do exposto, pode-se assegurar a eficiência e praticidade da associação da cerdagem com a resina acrílica no tratamento de fraturas mandibulares e/ou maxilares localizadas na região dos incisivos e diastemática.

 

FONTES DE AQUISIÇÃO

a - Fluotane - ICI;

b - Neobiotic-L 50 mg/ml - TUCO;

C-Acyflex 4-ETHICON;

d - Simplex o Dental Fillings Ind. e Com. Ltda;

e - Riodeine - Ind. Farmacêutica Rioquímica Ltda;

f - Pentabiótico Reforçado Veterinário 6.000.000 - WYET

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Médico Veterinário, Professor Assistente, Doutor, Departamento de Clinica e Cirurgia Veterinária (DCCV), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), UNESP, Campus de Jaboticabal. 14870-000 Jaboticabal, SP.

2Médico veterinário. Aluno do Curso de Pós-Graduação em cirurgia do DCCV, FCAV, UNESP.

3Médico Veterinário, Professor Titular, Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Recebido para publicação em 18.02.94. Aprovado em 10.05.94.

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