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Scientia Agricola

versão On-line ISSN 1678-992X

Sci. agric. v.56 n.3 Piracicaba Jul. 1999

https://doi.org/10.1590/S0103-90161999000300011 

Diversidade inter- e intra-específica e uso de análise multivariada para morfologia da mandioca (Manihot esculenta Crantz): um estudo de caso

 

Nivaldo Peroni1,4*; Paulo Sodero Martins2; Akihiko Ando3
1Pós-Graduando do Depto. de Genética - ESALQ/USP.
2in memoriam
3Depto. de Genética - ESALQ/USP, C.P. 83 - CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.
4Bolsista do CNPq.
*e-mail: nperoni@imagenet.com.br

 

 

RESUMO: A agricultura itinerante, caracterizada por ciclos de uso e pousio, é uma técnica utilizada por muitos agricultores no mundo, assim como por agricultores tradicionais da região de Cananéia (SP). Estes agricultores herdaram toda um gama de conhecimentos transmitidos oralmente sobre a agricultura praticada por povos indígenas desde o período pré colonial. A mandioca é o principal cultivo neste sistema, o que a torna um organismo chave para entender as especificidades do sistema agrícola itinerante. Foram obtidas informações sobre as espécies cultivadas no sistema itinerante, e mais especificamente sobre as etnovariedades de mandioca. Entrevistas com os agricultores permitiram caracterizar o sistema utilizado, demonstrando que na propriedade estudada podem ser cultivadas até 62 etnovariedades pertencentes a 15 espécies diferentes, mostrando a grande diversidade tanto inter como intra específica. O objetivo principal foi aferir a identificação feita pelo agricultor das etnovariedades de mandioca (Manihot esculenta Crantz) cultivadas intra-roça e a divergência morfológica entre elas. Através da avaliação de 21 caracteres morfológicos avaliados in situ, em uma roça de agricultores tradicionais da comunidade de Ariri (Cananéia), e utilizando análise de componentes principais (PCA) e análise de agrupamento, foi possível agrupar as etnovariedades em grupos coerentes com a classificação local. Além disso a metodologia empregada mostrou grande eficiência com dados tomados em condições não experimentais.
Palavras-chave: agricultura itinerante, mandioca (Manihot esculenta), diversidade intra específica, etnobiologia, análise de agrupamento, análise de componentes principais

 

Inter- and intraspecific diversity and use of multivariate analysis for the morphology of cassava (Manihot esculenta Crantz): a case study

ABSTRACT: Shifting cultivation, or slash-and-burn agriculture, is a technique used by many farmers all over the world and also by traditional farmers of Cananéia (SP). These farmers have inherited a set of skills and knowledges, orally transferred through generations, about the agriculture carried out by indigenous people, since Brazil's pre-colonialist period. Cassava (Manihot esculenta Crantz) is the main crop in this system, representing a key crop for the understanding of the specificities of the shifting cultivation. Information about the crop species and ethnovarieties was obtained. Interviews with the farmers allowed to characterize the system used in the region, showing that 62 ethnovarieties of 15 different species were cultivated in the studied propriety, reflecting the high inter- and intraspecific diversity. Principal component analysis (PCA) and cluster analysis were used to characterize cassava samples. Through the evaluation of 21 morphological characters in one traditional farmer's field, it was possible gather cassava ethnovarieties in groups coherent with the local classification. The employed methodology seems to be very efficient with data gathered in non-experimental conditions.
Key words: shifting cultivation, cassava (Manihot esculenta), intraspecific diversity, ethnobiology, cluster analysis, principal component analysis (PCA)

 

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos 25 anos, tem se intensificado a preocupação com conservação de recursos genéticos in situ manejados por populações ou comunidades tradicionais e indígenas no mundo. Isto se deve ao potencial que as espécies e variedades locais possuem para a indústria e agricultura, sendo atualmente de importância estratégica para todos os países do mundo (Martins, 1994). O papel de agricultores tradicionais em promover a conservação in situ também tem se evidenciado (Cleveland et al., 1994).

O termo "agricultura tradicional" designa sistemas agrícolas que são caracterizados pela prevalência de técnicas utilizadas por gerações contínuas de agricultores e transmitidas através de tradição oral. Uma das características dos sistemas itinerantes, além de um período de uso e outro maior de pousio, é a grande diversidade inter e intraespecífica de espécies cultivadas e a manutenção de processos evolutivos, onde estão presentes interações planta-homem, conservação de germoplasma e conservação de seus respectivos ambientes (Oldfield & Alcorn, 1987; Salick, 1995). Estimativas indicam que, nos países do terceiro mundo, do total da área cultivada com trigo, arroz e milho, 50% esteja ocupada com variedades locais (Cleveland et al., 1994).

Sob o ponto de vista agrícola, as etnovariedades, variedades locais, ou "folk varieties", representam recursos genéticos agrícolas que vêm sendo coletados e utilizados pelos centros de germoplasma e conservados de forma ex situ. As consequências, objetivos e interesses da conservação ex situ se diferenciam dos da conservação in situ efetuada por agricultores tradicionais. Os melhoristas formais se preocupam em manter a máxima diversidade genética armazenada nos bancos de germoplasma enquanto que os agricultores estão preocupados na diversidade e na estrutura populacional que garanta maior adaptação local (Soleri & Smith, 1995).

Muitos estudos têm sido feitos para estimar a variabilidade de diferentes espécies manejadas por estes agricultores. Entretanto, apesar da importância destes sistemas, poucos estudos genéticos descrevem e interpretam a variação genética e a estrutura de populações das plantas cultivadas (Brush, 1995).

A caracterização destes sistemas agrícolas pode estar voltada para a grande diversidade de espécies cultivadas em conjunto e pode estar relacionada a uma espécie estudada sob o ponto de vista populacional, que reflita as interações do manejo agrícola com os processos de sua história vital (Cury, 1993; Sambatti, 1998).

A mandioca é uma espécie chave nos sistemas itinerantes existentes no Brasil por várias razões: 1) há consenso que a mandioca foi domesticada nas terras baixas e quentes das Américas (Nassar, 1978; Brücher, 1989; Allen, 1994); 2) a relação da espécie com os povos aqui existentes é muito antiga e a passagem do estado selvagem para o estado domesticado está permeado por toda um ampla variedade de técnicas e usos; 3) existência de um grande número de variedades locais (Chernela, 1987; Kerr, 1987; Salick et al., 1997). A mandioca é uma espécie preponderantemente de propagação vegetativa, que entretanto não perdeu a capacidade de reprodução via processo sexual. Isso favorece o surgimento de variabilidade em roças itinerantes pois possibilita o cruzamento entre variedades diferentes, permite auto-fecundação, e permite cruzamentos entre espécies do mesmo gênero (Cury, 1993). Nas condições de cultivo itinerante, isso faz com que os processos geradores de variabilidade estejam sob influência tanto de processos de seleção artificial como processos de seleção natural, fazendo com que a espécie esteja sob contínua dinâmica evolutiva.

Martins (1994) coloca que nas terras baixas da América do Sul destaca-se a domesticação de dois grupos de plantas: as frutíferas e as alimentícias. Entre as alimentícias, a grande maioria é perene, têm propagação vegetativa e as raízes e os tubérculos são as partes utilizadas para o consumo. Estas espécies têm características genéticas e ecológicas em comum que permitem vantagens adaptativas em condições tropicais. O autor destaca que: mandioca, batata-doce, cará, inhame, araruta e amendoim são as espécies mais importantes e que a mandioca é o principal cultivo deste conjunto, permitindo que os processos evolutivos incidentes sobre ela possam ser extrapolados para se entender concretamente como funciona um modelo de agricultura tropical.

A mandioca cultivada (Manihot esculenta Crantz) é uma espécie de grande importância econômica no Brasil e no mundo. Segundo dados do IBGE (1997), a produção brasileira de mandioca no ano de 1997 foi de aproximadamente 24 milhões e 500 mil toneladas ocupando uma área de 1 milhão e 900 mil hectares. Este montante de produção faz com que o Brasil seja um dos principais produtores mundiais da cultura.

Todos estes fatores em conjunto fazem do sistema de agricultura itinerante e, em particular, da mandioca, modelos ideais para a condução de estudos que possibilitem identificar interações de ordem genética, ecológica, econômica e social, que convergem para compreender a importância da conservação in situ de recursos genéticos.

Métodos multivariados têm sido utilizados para estudos de divergência genética tanto intra como interespecífica para diversas espécies cultivadas. Estes métodos consistem em observações de diferentes organismos, ou as chamadas OTU's (Operational Taxonomic Units), a partir de diferentes variáveis utilizadas em conjunto (Chatfield & Collins, 1980). Isso permite uma visão mais abrangente do que a análise de cada variável isoladamente. Dentre estes métodos, destacam-se as estimativas de distância ou dissimilaridade e os métodos de ordenação.

Medidas de dissimilaridade têm sido usadas nas últimas décadas para vários tipos de análises multivariadas, onde a posição de amostras ou grupos de amostras é relativa à outras amostras ou outros grupos de amostras (Tyteca & Dufrêne, 1993). Estas dissimilaridades, como a distância Euclidiana e a distância de Mahalanobis, são base para vários tipos de análises multivariadas, incluindo Análise de Agrupamento (cluster), que classificam os objetos em categorias hierárquicas com base na matriz de distância (James & McCulloch, 1990).

Na caracterização de espécies cultivadas, através de análise multivariada de caracteres morfológicos, procura-se precisão na estimativas de distância. Para isso são associadas metodologias experimentais que permitem que cada caracter ou descritor possa ser avaliado com o uso de repetições. As vantagens do uso de metodologia experimental são muitas, destacando-se a possibilidade do uso de coeficientes de distância, como o coeficiente de Mahalanobis que leva em conta a matriz de variância residual, tornando as estimativas de distâncias entre unidades operacionais (OTU's) mais precisa (Cruz, 1990).

Entretanto, há situações que não permitem a obtenção de um número adequado de repetições, ou a repetição de cada indivíduo avaliado, exigindo que as avaliações sejam tomadas individualmente, ou no local onde a espécie esta presente. Segundo Cruz (1990), o uso de técnicas multivariadas em estudos de divergência genética obtidas a partir de dados originais sem uso de experimentação, tem sido mais frequentemente empregado em avaliações de acessos de bancos de germoplasma e caracterização de indivíduos ou espécies distribuídos em condições naturais. Segundo o autor, nestes casos não se dispõe de recursos experimentais para a quantificação das influências não genéticas que atuam simultaneamente sobre vários caracteres. Porém esta limitação não impede que as técnicas sejam utilizadas com sucesso.

Métodos de ordenação que permitem reduzir o número original de variáveis em um novo conjunto simplificado e que descrevem as unidades operacionais avaliadas (OTU's) (Manly, 1995; Sneath & Sokal, 1973), são utilizados para o estudo de diferentes espécies cultivadas. Segundo James & McCulloch (1990), a Análise de Componentes Principais (PCA) tem por objetivos descrever os dados, reduzindo em poucas dimensões a matriz de distâncias entre os objetos. O objetivo da análise é considerar um conjunto de p variáveis e encontrar combinações entre elas que produzam índices não correlacionados Z1, Z2, Z3,…., ZP. Segundo Manly (1995) a perda de correlações é bastante útil pois significa que os índices estão medindo "dimensões" diferentes dos dados. Estes Z's são os novos índices, chamados de componentes principais e refletem, cada um, uma "dimensão" diferente. A eficiência da nova descrição dos dados através dos componentes vai depender da porcentagem de variação total que cada componente contém, quando arranjados em ordem decrescente de variância.

Sendo assim, estes métodos são bastante úteis para estabelecer relações entre objetos. No presente estudo estes objetos são amostras de diferentes etnovariedades de mandioca cultivadas em roças de agricultores tradicionais autóctones.

Os objetivos deste trabalho são: 1) estudar a diversidade inter e intra específica presente num sistema itinerante de uma propriedade rural de agricultores tradicionais autóctones da região de Cananéia, litoral sul do Estado de São Paulo; 2) estudar etnovariedades de mandioca presentes neste sistema, através de metodologia multivariada, utilizando para isso de dados tomados diretamente de plantas de mandioca cultivadas nas roças, isto é, de caracteres avaliados in situ, sem que haja qualquer tratamento experimental.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O local escolhido para o trabalho foi a comunidade de Ariri, localizada na divisa dos Estados de São Paulo e Paraná, a 60 Km ao sul da cidade de Cananéia (Figura 1). Esta comunidade é composta por aproximadamente 100 famílias que sobrevivem preponderantemente do turismo e da pesca. Poucas são as famílias que ainda detém sítios nas imediações da comunidade e que praticam agricultura para subsistência ou para fins comerciais. Depois de um estudo prévio das práticas agrícolas entre as famílias que ainda cultivam no local, foi escolhida uma das famílias mais antigas da comunidade que ainda utiliza da técnica itinerante como sistema de agricultura. Esta família está no local há mais de 100 anos e representa a agricultura itinerante praticada na comunidade.

 

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Figura 1 - Localização da comunidade de Ariri, sul do Estado de São Paulo

 

A unidade básica para as avaliações é a roça, delimitada espacial e populacionalmente, onde as etnovariedades de mandioca, assim como de outras espécies, são plantadas em consorciação (Cury, 1993). No presente estudo foi escolhida como modelo uma roça de 0,6ha, das 3 outras (Peroni, 1998) que estavam sendo cultivadas no ano de 1997. Foi escolhido um membro da família como informante para identificar cada indivíduo dos quais foram obtidos os dados da morfologia dentro da roça. O critério para escolha deste informante baseou-se na sua experiência com as etnovariedades cultivadas localmente e no seu conhecimento sobre o manejo agrícola. Assim, a escolha recaiu sobre a pessoa mais velha da família para fornecer as informações a respeito do processo agrícola como um todo. Entretanto, também foram obtidas informações complementares com outros membros da família.

Em fevereiro de 1997 foram obtidos os dados sobre a diversidade de espécies e etnovariedades cultivadas. Foi também executada a caracterização de indivíduos de mandioca dentro da unidade de estudo (roça) através da metodologia descrita a seguir.

Foi utilizada amostragem aleatória, com identificação pelo agricultor de cada indivíduo de mandioca amostrado. Foram avaliadas 20 amostras na roça escolhida, sendo o número estabelecido em função do número de variedades que o agricultor reconhecia na roça e das proporções relativas informadas. O critério utilizado baseou-se no número de etnovariedades citadas na entrevista e em amostragens anteriores executadas no local. Se o agricultor citava 3 etnovariedades eram coletadas 30 amostras, se citava 2 eram coletadas 20 amostras. Este critério, em ultima análise foi arbitrário.

No caso desta amostragem, os indivíduos eram escolhidos ao acaso, marcados na roça, nomeados pelo agricultor e caracterizados morfologicamente através da avaliação de 21 caracteres de baixa influência ambiental. Estes caracteres foram escolhidos baseados em Gulick et al. (1983) e Cury (1993), com pequenas modificações. Os descritores e seus estados são:

FOLHAS:

1. Cor do broto foliar (CBF)

1 - verde; 2 - verde arroxeado; 3 - roxo

2. Cor da folha adulta (CFA)

1 - verde claro; 2 - verde; 3 - verde escuro

3. Cor do pecíolo das folhas adultas (CPE)

1 - verde; 2 - verde avermelhado; 3 - vinho; 4 - roxo

4. Cor da base da nervura da folha (CBN)

1 - verde; 2 - verde arroxeado; 3 - vinho; 4 - roxo

5. Morfologia do lóbulo foliar (MLF)

1 - lanceolada; 2 - linear; 3 - oblonga; 4 - obovada

6. Sinuosidade do lóbulo foliar (SLF)

1 - lisa; 2 - intermediário 3 - forte

7. Número de lóbulos da folha (NLF)

8. Comprimento do pecíolo (COP)

9. Comprimento folha (COF)

10. Comprimento do lóbulo médio (CLM)

11. Largura do lóbulo médio (LLM)

12. Comprimento do primeiro lóbulo à direita do lóbulo central (CPL)

13. Largura do primeiro lóbulo à direita do lóbulo central (LPL)

 

CAULE:

14. Cor do caule jovem (CCJ)

1 - verde; 2 - verde claro com manchas roxas; 3 - verde com manchas roxas; 4 - verde escuro; 5 - roxo esverdeado

15. Cor do caule adulto sem a película externa (CCA)

1 - verde amarelado; 2 - verde; 3 - verde avermelhado; 4 - verde escuro

16. Proeminência das cicatrizes foliares (PCF)

1 - pouca; 2 - média; 3 - muita

 

RAIZ:

17. Pedículo - Cordão lenhoso que liga a raiz à maniva mãe (PED)

0 - ausente; 1 - presente

18. Cintas - Indica a presença de contrições ou estrangulamentos ao longo das raízes (CIN)

0 - ausente; 1 - presente

19. Cor da película externa da raiz (CPR)

1 - creme; 2 - marrom claro; 3 - marrom escuro; 4 - roxa

20. Cor da casca da raiz sem a película externa (CCR)

1 - branca; 2 - creme; 3 - amarela; 4 - rosa; 5 - roxa

21. Cor da polpa da raiz (CPO)

1 - branca; 2 - creme; 3 - amarela; 4 - rosa; 5 - roxa

 

Como as variáveis são de natureza diferenciada, foi feita estandardização dos dados para equacionar as dimensões de cada uma delas. O coeficiente de distância utilizado para os cálculos e construção dos dendrogramas foi a distância euclidiana média. Este coeficiente faz a correção da distância euclidiana pelo número de variáveis avaliadas, e sua escolha foi feita em função da natureza da coleta e dos caracteres escolhidos, permitindo comparações entre estimativas baseadas em números diferentes de variáveis. Os dendrogramas foram construídos pelo método ligação de Ward, que procura minimizar a variância entre OTU's, isto é, o critério utilizado para a ligação de grupos é a soma dos quadrados das distâncias entre membros de um grupo e o centróide do grupo. A próxima ligação é feita utilizando o par de grupos que produz o menor aumento nesta soma (Sneath & Sokal, 1973). O uso deste método é apropriado, pois as avaliações dos caracteres são de ordem populacional, e não de um clone de cada etnovariedade diferente. Como a reprodução das etnovariedades é preponderantemente vegetativa, poderiam ser avaliados muitos clones de uma mesma etnovariedade dentro da roça. Sendo assim, as diferenças observadas entre amostras poderiam ser devidas à variação ambiental, produzindo pequenas mudanças entre amostras.

Complementarmente aos agrupamentos obtidos foi feita análise de componentes principais (PCA). Para isso utilizou-se da matriz de covariância amostral, com os dados estandardizados. A partir dos novos componentes extraídos das análises e dos respectivos escores foi possível a representação bi e tridimensional das amostras.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nas roças manejadas pela família de agricultores escolhida foram observadas 15 espécies cultivadas: abóbora (Cucurbita maxima Duch.), arroz (Oryza sativa L.), banana (Musa sp), batata-doce (Ipomoea batatas Lam.), cana de açúcar (Saccharum officinarum L.), cará (Dioscorea sp), feijão (Phaseolus vulgaris L.), inhame (Dioscorea sp), mandioca (Manihot esculenta Crantz), melancia (Citrullus lanatus (Thumb.) Matsum & Nakai), melão (Cucumis melo L.), moranga (Cucurbita sp), milho (Zea mays L.), pepino (Cucumis sativus L.) e taiá (taioba) (Xanthosoma sagittifolium (L.) Schott).

Entre as espécies cultivadas no local destacam-se aquelas que apresentam grande número de etnovariedades, como no caso da feijão (11)1, mandioca (8), arroz (8), banana (8), cana de açúcar (6), cará (6) e batata-doce (3), perfazendo um total de 62 etnovariedades se considerarmos as 15 espécies. Observa-se o maior número de variedades totais do que espécies, fato já amplamente discutido na literatura (Boster, 1983), sendo observada uma conjugação de espécies nativas de propagação vegetativa, com espécies introduzidas, como destacado por Martins (1994). Este aspecto mostra, em primeiro lugar, a presença de espécies muito semelhantes entre si no que diz respeito à forma de propagação, no caso vegetativa, e da parte utilizada para consumo, isto é, raízes e tubérculos, como é o caso da mandioca, cará, inhame e batata-doce. Foi observado detalhamento maior na diferenciação de etnovariedades nestas espécies de propagação vegetativa como observado também por Peroni & Martins (1996). Segundo estes autores, no caso do cará, o agricultor pode chegar a um nível subvarietal, caracterizando a variedade com um nome e também um "sobrenome"2, podendo haver mais de uma variedade com um mesmo nome mas com um "sobrenome" diferente. Este detalhamento, com nomeação utilizando um binômio, se assemelha as binômio gênero-espécie empregado na sistemática biológica (Berlin, 1992).

Apesar do agricultor relacionar oito etnovariedades de mandioca, este número está refletindo todas as etnovariedades que ele tem na sua propriedade, e que podem estar sendo cultivadas em diferentes roças. Além disso, ele mantém a maioria das etnovariedades em frequências baixas, para não "perder a muda". À sua maneira, o agricultor mantém um número elevado de etnovariedades no local como um verdadeiro banco de germoplasma particular. Quando ele aumenta intencionalmente a frequência de uma etnovariedade, isso indica uma especificidade daquela etnovariedade a alguma exigência local, isto é, a algum fator seletivo. Por exemplo, pode ocorrer aumento da frequência de uma etnovariedade numa roça pelo fato de esta ser mais produtiva em condições de pouca fertilidade (Sambatti, 1998), ou porque ela produz uma farinha de melhor qualidade. Entretanto, o agricultor mantém outras etnovariedades, consciente ou inconscientemente, pois elas representam a variação de outras características que podem ser úteis no futuro.

Para as amostras de mandioca estudadas foram calculadas as distâncias euclidianas duas a duas "dentro" do nível roça. Estas distâncias foram utilizadas para construção do dendrograma (Figura 2). Nesta figura está representado o agrupamento das amostras da roça estudada sendo possível observar claramente a formação de grupos coerentes com a nomenclatura local utilizada. As variedades "cascudinha", "cascuda-grande", "mandipóia" e "aipim guaçu" estão formando grupos distintos mostrando também a formação de subgrupos, como no caso da etnovariedade "cascudinha". Mesmo assim, os agrupamentos são coerentes entre etnovariedades. Nota-se entretanto, que o indivíduo CG10 (cascuda-grande, número 10) está numa posição mais externa ao grupo das "cascudas-grandes" propriamente dito.

 

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Figura 2 - Agrupamento das 20 amostras avalia das em uma roça de agricultura itinerante na Comunidade de Ariri, litoral sul do Estado de São Paulo. Os números após as abreviaturas indicam a sequência de amostragem.

 

É importante lembrar que estes dados foram obtidos in situ, que o número de etnovariedades não é grande e que, já que a propagação é clonal, muitas das amostras de uma única etnovariedade estão exibindo a variação ambiental às quais estão sujeitas. Porém, apesar destas ressalvas, foi possível estabelecer grupos bem estruturados morfologicamente e o método de Ward mostrou ser bastante eficiente para recuperar a estrutura dos dados. O coeficiente de correlação cofenético obtido para este agrupamento foi alto (r=0,8243), indicando que a representação do dendrograma tem alta congruência com os dados originais e que existe classificação e estrutura.

A análise de componentes principais é bastante útil para estudar as relações das amostras na formação de grupos, como mostrado nas Figuras 3 e 4.

 

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Figura 3 - Representação dos dois primeiros componentes principais, representando 65,69% da variância total, extraídos da análise de 21 caracteres morfológicos de 20 amostras de mandioca em uma roça de agricultura itinerante da Comunidade de Ariri, sul do Estado de São Paulo.

 

 

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Figura 4 - Representação dos três primeiros componentes principais, representando 78,62% da variância total, extraídos da análise de 21 caracteres morfológicos de 20 amostras de mandioca em uma roça de agricultura itinerante da Comunidade de Ariri, sul do Estado de São Paulo. Componentes principais 1, 2 e 3 para as amostras estudadas

 

Na Figura 3, pode-se observar a separação do grupo das "cascudinhas" do conjunto formado pelas outras variedades, principalmente quando se observa o componente 1 isoladamente. Pela Figura 2 observa-se que apenas os indivíduos CG10 e CG18 (cascuda-grande) separam-se dos outros indivíduos pertencentes ao mesmo grupo, ficando os indivíduos de "mandipóia" (MD) em posição indefinida. Entretanto quando analisados os três componentes, na representação tridimensional, fica clara a separação do grupo das "mandipóias" das demais (Figura 4).

Desta forma pode-se concluir com segurança, mesmo tendo poucos indivíduos para duas das etnovariedades (MD e AG), que o método mostra claramente a estrutura da morfologia entre etnovariedades de mandioca na roça, porém pelo fato da coleta de dados ter sido feita in situ existem amostras que mostram a formação de subgrupos, como as da "cascuda grande" (CG15 e CG19, e CG10 e CG18). Estas discrepâncias ocorrem para poucos indivíduos dentro dos grupos, sendo que o restante das amostras mostram coerência com a nomenclatura local utilizada. Logo, não pode ser desconsiderada a variação ambiental a que os caracteres avaliados estão sujeitos, porém é possível estabelecer grupos bastante coerentes com esta metodologia, indicando que, apesar de existir esta variação, o agricultor consegue distinguir claramente as variedades umas das outras e nomeá-las em grupos concretos.

Estes agricultores, mesmo estando próximos a grandes centros urbanos como São Paulo (SP) e Curitiba (PR), ainda utilizam técnicas de cultivo mantidas por gerações, e secularmente preservadas via transmissão oral. Apesar do aparente atraso que isto poderia significar, as características de cultivo tanto de espécies diferentes como da mandioca indicam a importância destas técnicas locais para a conservação de recursos genéticos in situ. O que poderia ser considerado rústico, ultrapassado ou primitivo, na verdade indica a habilidade que estes agricultores têm em manter combinações populacionais diferenciadas dentro da roça, mantendo técnicas que mostram a eficiência e a adaptabilidade deste sistema de cultivo a condições tropicais. Deve-se criar mecanismos que garantam o bem estar e a continuidade das populações humanas locais, de modo a possibilitar a sobrevivência de seus costumes e tradições. Do ponto de vista da conservação e da geração de variabilidade, estes sistemas são essenciais, sendo prementes as medidas para garantir sua continuidade e sua compatibilidade com sistemas mais "modernos" e com estratégias de conservação in situ, associadas à conservação ex situ. Além disso, a incorporação de técnicas tradicionais integradas às técnicas modernas, pode ser uma opção interessante para delinear sistemas agrícolas mais compatíveis com a necessidade de manutenção de diversidade genética em ambientes tropicais.

 

CONCLUSÕES

A diversidade tanto inter como intraespecífica é elevada, mostrando que nas roças são cultivadas espécies conjugadas, isto é, existem espécies de propagação vegetativa onde as partes utilizadas para consumo são as raízes e tubérculos, assim como espécies de propagação por semente das quais se utilizam os grãos e frutos para o consumo. O grande número de espécies mostra também a habilidade do agricultor em integrar variedades de espécies diferentes dentro de um mesmo ambiente de cultivo, refletindo a herança local do manejo agrícola polivarietal e a complexidade de seus cultivos. Categorizar tal sistema agrícola como atrasado ou primitivo relegando-o a uma condição inferior é um ponto de vista que contribui para a grande perda de diversidade e de variabilidade genética associada à diversidade cultural destas populações humanas.

O método de análise multivariado dos dados de amostras de mandioca obtidos in situ, mostrou-se eficiente para diferenciar as etnovariedades no caso estudado. As etnovariedades são morfologicamente distintas e o agricultor é coerente na separação das amostras e de suas etnovariedades.

O sistema agrícola existente nesta região, é um remanescente do conhecimento transmitido oralmente em séculos de história. Estratégias de conservação in situ devem considerar a riqueza deste conhecimento para que tanto as populações humanas como as espécies e etnovariedades cultivadas não desapareçam.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecimento especial gostaríamos de fazer ao Prof. Dr. Paulo Sodero Martins que foi responsável por esta linha de trabalho no Laboratório de Genética Ecológica do Depto. de Genética da ESALQ/USP, mas que infelizmente deixou nosso convívio prematuramente. Além disso agradecemos a colaboração e amizade dos agricultores que colaboraram com o estudo. Este trabalho não seria possível sem o apoio prestado pelas instituições financiadoras: CNPq, FINEP, e FAPESP.

 

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Recebido para publicação em 27.04.99
Aceito para publicação em 08.02.99

 

 

1Número de etnovariedades da espécie no local.
2Na linguagem do agricultor.

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