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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.13 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2005

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2005000100016 

RESENHAS

 

Nísia Floresta e mulheres de letras no Rio Grande do Norte: pioneiras na luta pela cidadania

 

 

Rachel Soihet

Universidade Federal Fluminense

 

 

Nísia Floresta: vida e obra.

LIMA DUARTE, Constância.

Natal: Ed. da UFRN, 1995. 365 p.

Literatura feminina do Rio Grande do Norte: de Nísia Floresta a Zila Mamede.

LIMA DUARTE, Constância; MACEDO, Diva Maria Cunha P. de.

Natal: Sebo Vermelho/UnP, 2001. 232 p.

A educação feminina no Brasil do século XIX, segundo diversos testemunhos, muito deixava a desejar. Os viajantes Kidder e Fletcher, aqui presentes em 1851, afirmavam que, naquele momento, não teriam as mulheres brasileiras uma base de conhecimentos variados para tornar agradável e instrutiva a sua palestra, embora tagarelassem insignificâncias de modo sempre agradável.1 Por outro lado, eles admitiam excelências de algumas escolas que estavam aparecendo, mas das quais os pais retiravam suas filhas ao completarem 13 ou 14 anos, considerando-as preparadas para a vida, portanto aptas ao casamento, convictos de esta ser a opção de futuro mais adequada às mulheres. Tais depoimentos e atitudes revelam o descaso quanto às capacidades e potencialidades das mulheres e pareciam, a rigor, desconhecer a vasta e variada produção literária feminina do período. Não consideravam o esforço de muitas delas para transpor os obstáculos e vencer os preconceitos e a ridicularização pública por ousarem penetrar em um espaço considerado de exclusividade masculina. Como em outras partes do mundo, as mulheres que perseguiam tal propósito eram alvo de zombaria e severa crítica, o que justificaria que boa parte delas temesse a publicação de seus textos, perdendo-se por isso muitos deles, enquanto que outras, para terem seus textos publicados, adotavam pseudônimos masculinos, a exemplo de George Sand, George Eliot, Currer Bell e Otto Stern.

Recentemente, pesquisadoras feministas – historiadoras, literatas, críticas literárias – têm se dedicado a buscar pistas, indícios que lhes permitam transpor as inúmeras dificuldades para recuperar essa produção inédita, ausente da historiografia literária. Dentre essas pioneiras, encontra-se Constância Lima Duarte, que empreendeu uma excelente investigação sobre a intelectual e literata Nísia Floresta, hoje considerada a primeira feminista brasileira, cuja vida e obra mantiveram-se praticamente desconhecidas durante muitos anos.2 Para o resgate da obra dessa importante figura, Constância percorreu arquivos e bibliotecas do nordeste ao sul do país, assim como no exterior – Portugal, França e Itália –, recolhendo marcas e informações que lhe permitissem reconstruir a trajetória da personagem em foco.

Não é pequeno, portanto, o mérito de Constância que, através de um trabalho de fôlego, traz à cena essa personagem de significativa atuação política, social e literária em sua época. Como esclarece Constância, algo que emergiu com toda força em seu objeto de investigação foi a riqueza da personalidade de Nísia, uma mulher de fibra que nasceu em 1810, em uma pequena localidade – Papari (hoje Nísia Floresta) – do Rio Grande do Norte, estado do Nordeste do Brasil, onde viveu os primeiros anos de sua existência. Casada aos 13 anos, abandonou o marido alguns meses depois, voltando a residir com os pais. Mais tarde, em 1828, enamora-se de um jovem acadêmico, com quem passa a residir, e do qual terá dois filhos. Em decorrência de tais fatos, foi vítima de campanha caluniosa, especialmente por parte de seus conterrâneos. Nísia foi, talvez, uma das primeiras a romper com os preconceitos que cercavam as mulheres no país. Foi uma das primeiras também a colaborar em jornais, a partir de 1830, em Recife, publicando mais tarde contos, poesias, novelas e ensaios em periódicos do Rio de Janeiro. Envolveu-se plenamente com as questões culturais de seu tempo, manifestando-as em sua militância que se abria em diversas vertentes. Tal fato, porém, não se expressaria de forma compartimentada, mas como peças complementares de um mesmo plano de ação no conjunto de sua obra, sempre imbuída do propósito de formar e modificar consciências.

Em Nísia Floresta: vida e obra, diante das idéias inovadoras, e mesmo revolucionárias, assim como dos aspectos de exceção presentes no comportamento de Nísia Floresta, segundo sua opinião, e por razões didáticas, Constância afirma ter sido compelida a dividir a obra da escritora em cinco partes. No primeiro capítulo, apresenta a biobibliografia da personagem, buscando, muito adequadamente, situá-la no seu contexto histórico e cultural. Os textos que tratam das diversas vertentes de sua militância, como o indianismo, o nacionalismo, a questão da escravidão, o feminismo e o positivismo, são estudados no segundo capítulo. Neste, no que tange ao feminismo, a pesquisadora realça a intenção de Nísia de conscientizar as mulheres e os homens contemporâneos sobre os respectivos papéis na sociedade e a necessidade de mudanças nos padrões de comportamento. Aponta, dentre as obras consultadas, a importância de seu primeiro livro – Direitos das mulheres e injustiças dos homens –, publicado em 1832, e inspirado na obra de Mary Woolstonecraft Vindications of the rights of woman, em que Nísia enfatiza os direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, exigindo o reconhecimento à inteligência e o respeito ao papel das mulheres na sociedade. Quanto ao positivismo, o fato é relativizado por Constância, que se propõe a mostrar que, longe de aderir a ele, Nísia se apropriava apenas dos aspectos que enfatizavam a elevação do status feminino, não levando em conta a posição subordinada a que a doutrina condicionava a mulher, quando priorizava a função de mãe e esposa em detrimento das demais. De certo modo, essa ambigüidade denota um paradoxo na obra de Nísia.

Constância reserva o terceiro capítulo para focalizar a educação feminina, pelo vulto assumido no espectro de preocupações de Nísia. Mostra como, na perspectiva de muitos dos intelectuais da época, a educação feminina é ressaltada como base para o progresso da sociedade. Em duas de suas obras Nísia dedica-se à questão: Conselhos à minha filha, de 1842, e Opúsculo humanitário (Ensaio sobre educação), de 1853. Seu interesse por essa problemática levou-a a fundar em 1838, e dirigir durante anos, um colégio para meninas no Rio de Janeiro – o Colégio Augusto –, cujo nível competia em qualidade com os melhores ali existentes, via de regra, dirigidos por estrangeiras. Observa Constância que, nos jornais da época, ao lado dos elogios à seriedade do trabalho desenvolvido no colégio, encontram-se também críticas à diretora por ousar privilegiar o ensino de línguas, em prejuízo dos trabalhos manuais, o que confirma um dos aspectos subversivos da atuação de Nísia Floresta.

As viagens de Nísia são analisadas no capítulo seguinte, cabendo esclarecer que ela embarcou com a filha para a Europa em 1849, onde residiu por 28 anos e, embora transitasse por vários países, como Portugal, Inglaterra e Itália, fixou-se na França. Relacionou-se com intelectuais como Augusto Comte e alguns dos grandes escritores da época. De suas viagens resultaram dois livros: Itineraire d'un voyage en Allemagne, de 1857, e Trois ans en Italie, suivis d'un voyage en Grèce, publicados em francês.3 Neste último, detém-se na questão da unificação italiana, revelando sua admiração por líderes como Garibaldi, com quem se correspondeu durante algum tempo. Ainda em Paris, publicou o ensaio O Brasil, em 1871, buscando divulgar fatos e combater preconceitos que predominavam na Europa acerca do seu país. Nísia Floresta faleceu em Rouen, na França, em 1885.

Constância Lima Duarte, unindo paixão e rigor acadêmico, ao concorrer para a reabilitação e justa consagração de Nísia Floresta, que por sua vida e obra constitui um exemplo de insubmissão aos preconceitos de seu tempo, contribui significativamente para mais um passo no esforço de dar visibilidade a uma história por longo tempo marcada pela opacidade: a luta das mulheres pela aquisição de direitos e plena cidadania.

Além dessa obra, Constância Lima Duarte, enquanto professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, dedicou-se, juntamente com outra pesquisadora, a professora Diva Cunha Pereira de Macedo, a esquadrinhar a produção literária de mulheres naquele estado, desde o século XIX até os primeiros anos do XX. Iniciaram o trabalho em 1992, percorrendo bibliotecas e arquivos do estado e entrando em contato com estudiosos e intelectuais do Rio Grande do Norte e de outros estados, através de cartas e de visitas pessoais. Tinham como objetivo encontrar livros e manuscritos, buscar informações sobre intercâmbios mantidos por aquelas escritoras e procurar vestígios de uma imprensa feminina preocupada em incentivar e divulgar a literatura feita por mulheres. Nesse particular, localizaram na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, oito números da revista Via Láctea (1914–1915), editada por Carolina e Palmira Wanderley, assim como uma coleção quase completa de um jornal caprichosamente manuscrito – Esperança – que sobreviveu de março de 1903 a outubro de 1909, sob responsabilidade de Dolores Cavalcante e Izaura Carrilho.

A pesquisa resultou no significativo número de 99 nomes de mulheres nascidas entre 1810 e 1927, das quais selecionaram 25 nomes para comporem a antologia – Literatura Feminina do Rio Grande do Norte: de Nísia Floresta a Zila Mamede – organizada por elas. O grosso da produção apresentada constitui-se de poemas, gênero à época considerado mais adequado às mulheres, embora não faltassem aquelas que enveredavam pela dramaturgia e pela narrativa, mas que permaneceram no anonimato. Lembram as organizadoras da necessidade de serem consideradas, na análise de poemas ou livros das primeiras literatas, as limitações a que eram submetidas as mulheres em termos de movimentação, iniciativas, controle das leituras, sem deixar de levar em conta o tardio acesso delas aos cursos universitários. Manifestam ainda a surpresa pela constatação de que muitas dessas obras, apesar dos obstáculos sociais, culturais e morais a que estavam sujeitas suas autoras, apresentavam idêntico valor literário ao daquelas assinadas por seus pares masculinos.

Finalmente acentue-se, mais uma vez, a relevância dessas iniciativas para questionar a suposta sujeição das mulheres brasileiras a valores impostos, a restrição de sua atuação ao espaço doméstico e a sua alienação quanto à realidade política, social e cultural do país. O trabalho de Constância, além da importante contribuição à literatura pelo resgate de escritoras, até então desconhecidas, permite uma melhor compreensão da evolução histórica das lutas das mulheres que, muitas vezes, tiveram de recorrer a 'brechas' para avançarem seus ideais. Dessa maneira, entende-se como algumas, talvez mais ousadas ou mais favorecidas pelas contingências, conseguiram impor-se "escrevendo livros, criando escolas e jornais, fazendo conferências", não como um escape ao confinamento em que vivia a maioria, mas sim por dever de uma cidadania e de uma consciência profissional que as impelia a lutar por uma plena participação de homens e mulheres de todas as classes, raças e etnias; enfim, por uma sociedade mais justa.

 

Notas

1 Daniel KIDDER e James FLETCHER, 1941, p. 121.

2 O trabalho constituiu-se, originalmente, em tese de doutorado, apresentada à Universidade de São Paulo em 1991.

3 O primeiro foi traduzido para o português em 1982 e reeditado em 1998, e o segundo, recentemente traduzido e publicado em Natal pelo professor Francisco das Chagas Pereira.

 

Referência bibliográfica

KIDDER, Daniel P.; FLETCHER, James C. O Brasil e os brasileiros. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1941.

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