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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.22 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2014000300022 

RESENHAS

 

De mãos dadas com hooks

 

 

Érika Oliveira

Universidade Federal de São Paulo

 

Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade WMF Martins Fontes, 2013. 283 p. HOOKS, bell

 

 

Bell hooks é professora de inglês, estudos afro-americanos e estudos da mulher no City College de Nova York, escritora e feminista negra. Nascida na zona rural do sul dos Estados Unidos, na época da segregação racial, ela conta que, nesse período, as meninas negras das classes trabalhadoras tinham três opções de carreira: casar, trabalhar como empregada ou tornar-se professora em uma escola. Para as negras1, lecionar era um ato fundamentalmente político, pois tinha raízes na luta antirracista. Aluna de escolas negras segregadas, suas professoras eram quase todas mulheres. Elas lhe ensinaram, desde cedo, que estudar era um ato contra-hegemônico, um modo de resistir às estratégias brancas de colonização racista. Para realizar um trabalho dessa envergadura, procuravam conhecer tudo o que dissesse respeito à vida de suas alunas (condições socioeconômicas, igreja que frequentavam, como era a casa onde mora-vam, como as famílias as tratavam).  No entanto, com a integração racial, tudo mudou: o conhe-cimento passou a se resumir à pura informação, não tendo nenhuma relação com o modo como se vivia. Ele não tinha ligações também com a luta antirracista. Ali, a ânsia de aprender era vista como uma espécie de ameaça à autoridade branca. Ao assistir aulas de professoras brancas, hooks notou que elas reforçavam os estereótipos racistas, fazendo-a perder o gosto pela escola. Ela lembra-se como sentiu-se desprivilegiada com a dessegregação da escola em sua adolescência e de como o apartheid continuava existindo na maioria dos espaços sociais desse lugar. A partir disso, passou a dife-renciar dois tipos de educação: a educação engajada, que tinha como pressuposto a prática da liberdade, e a educação que se preocupava, unicamente, em reforçar a dominação. Ao iniciar a graduação na Universidade Stanford, foi refor-çada a ideia de que era necessário aprender a obedecer às autoridades.

Aceitando a profissão de professora como destino, hooks se atormentava com a realidade das salas de aula, espaços geralmente usados para a execução de rituais de controle cuja essência era o exercício injusto do poder. As alunas provenientes de grupos marginalizados eram levadas a sentir que não estavam lá para aprender, mas para provar que eram iguais às brancas. Por isso mesmo, a obra de hooks reflete sua preocupação permanente com o processo de descolonização na medida em que afeta as afro-americanas que vivem dentro da cultura da supremacia branca nos Estados Unidos. Suas práticas pedagógicas nascem da interação entre as pedagogias anticolonialista, crítica e feminista, o que lhe permite questionar as parcialidades que reforçam os sistemas de dominação.

Toda essa discussão pode ser verificada pela leitura dos 14 ensaios de seu livro. Eles se propõem a atuar como uma intervenção contrapondo-se à desvalorização da atividade das professoras. São ensaios de celebração por transmitirem a alegria que hooks sente ao dar aulas. Eles se preocupam em repensar as práticas de ensino, refletindo sua experiência em discussões críticas com alunas e professoras que participaram de suas aulas, nas quais são abordados temas como racismo, sexismo, imperialismo, classe social, experiência, feminismos, eros e erotismo no processo pedagógico. A educação como práti-ca da liberdade é um jeito de ensinar que qual-quer uma pode aprender. Inspirada no educador brasileiro Paulo Freire e no monge budista viet-namita Thich Nhat Hanh, ela entende que professoras e alunas devem ser vistas em sua integralidade. Profundamente tocada pela obra de Freire, ela conta que tê-lo lido inspirou-a a desafiar a educação bancária, a informação como consumo e a ênfase na memorização. Além disso, hooks sentiu-se fortemente identificada com as camponesas marginalizadas e com as negras de Guiné-Bissau trazidas por ele. Vinda de uma área rural, sentiu-se intimamente ligada à vida delas e sua relação com a alfabetização, já que a impiedosa política segregacionista do sul impedia as negras de lerem e escreverem,  fazendo-as depender de pessoas racistas para ensiná-las.  Freire matou a sede de hooks, sua grande carência enquanto sujeita colonizada, marginalizada e que não tinha certeza de como se libertar, além de fazê-la compreender as limitações do tipo de educação que havia recebido como aluna.  Criticando a teoria femi-nista, que, em seu início, incluía apenas as mulhe-res brancas de classe mais privilegiada, hooks afirma que a obra do educador a incluiu muito mais do que a produção feminista, que, em sua maioria, não acolhia as experiências das mu-lheres negras e o fato de que o gênero é profun-damente conectado com questões de classe social e raça. A intersecção do pensamento dele com a pedagogia trazida pelas professoras negras de sua infância causou um profundo impacto em sua formação.

Quando começou a lecionar na gradua-ção, o primeiro paradigma que moldou sua pedagogia foi o de que aprender deve ser um processo prazeroso. Para criar um processo de aprendizagem empolgante, é necessário que a presença de todas seja reconhecida. A profes-sora, nesse caso, não é a responsável exclusiva pela dinâmica da sala, que deve ser vista como um espaço comunitário de aprendizado. Do ponto de vista da pedagogia engajada, as profes-soras têm compromisso de lutar contra cisões entre mente e corpo e sua consequente compar-timentalização, bem como com rupturas entre os distintos campos produtores de conhecimento. Professoras e alunas devem compartilhar suas narrativas conjuntamente, sendo que as primeiras precisam correr o risco de ligar suas narrativas confessionais às produções teóricas, mostrando de que modo a experiência pode iluminar a compreensão do material acadêmico.

A experiência é um elemento que auxilia na recuperação das vozes daqueles grupos de alunas que as têm silenciadas em sala de aula. Sua estratégia pedagógica é afirmar a existência dessas alunas, seu direito de falar de múltiplas maneiras. Ela considera que todas levam para a sala de aula um conhecimento que vem da experiência, e esta deva ser apresentada como um modo de conhecer que coexiste com outras formas de conhecimento, sem hierarquias. A articulação entre teoria e prática e dessas com a experiência permite o engajamento na luta feminista. A experiência é criada a partir da dor, da luta e da exposição de algumas feridas e serve para guiar as jornadas teóricas. Com isso, hooks busca desconstruir o conceito de voz privilegiada da autoridade. Seu convite é para que sejam questionadas as práticas pedagó-gicas usadas em sala de aula, as parcialidades impostas por pontos de vistas essencialistas, que não levam em consideração as construções históricas ao lado de perspectivas que insistem que a experiência não tem vez nesses espaços.

A própria universidade, em seu papel tradicional de busca pela verdade, a partir de suas parcialidades, sustenta a supremacia branca, o imperialismo, o sexismo e o racismo, distorcen-do a educação a tal ponto que esta deixou de ser uma prática emancipatória. Quanto às discussões sobre multiculturalismo introduzidas nesse ambiente, se, por um lado, acenam com a esperança de uma vivência democrática no espaço educacional, por outro, mostram profes-soras temerosas de perderem o controle em sala de aula. Em sua universidade, hooks observou a terrível dificuldade que elas tiveram para com-preender que o reconhecimento das diferenças, muitas vezes, pode exigir mudanças na própria estrutura das aulas. O tratamento das diferenças obrigava-as a lidarem com antagonismos para os quais não se encontravam preparadas. Dessa forma, muitas das que haviam abraçado essa causa acabaram recuando. Isso porque, ainda que o multiculturalismo esteja em foco, são poucas as discussões sobre como ele deve ser levado no contexto da aula. Mas, para honrar a realidade social e a experiência de grupos não brancos e marginalizados, as professoras de todos os níveis de ensino devem reconhecer que a universalidade de suas teorias e posiciona-mentos precisa ser colocada à prova. Os temas podem ser abordados de inúmeras maneiras, não existindo uma única fórmula absoluta para todos.

O medo das professoras deve ser levado em consideração nos momentos de formação, assim como a criação de estratégias para abordar a sala de aula e o currículo multiculturais. Para tanto, é necessário ter disposição para abordar o ensino a partir de um ponto de vista que inclua uma consciência de raça, sexo e classe social, fazendo da sala um espaço de reflexão desses temas, associando-os com a disciplina oferecida. A adoção do multiculturalis-mo obriga as professoras a centrarem sua atenção na voz, respondendo a questões como: quem fala? quem ouve? por quê? Num contexto multicultural, elas são convidadas a aceitar a aprendizagem de novos paradigmas e epistemo-logias e sustentar o desconforto que isso pode gerar naquelas que estão envolvidas no processo de aprendizagem. A perspectiva multicultural obriga-as a reconhecer as estreitas fronteiras que moldam o modo como o conhecimento é par-tilhado. Leva-as a reconhecer sua cumplicidade na aceitação de todos os tipos de preconceitos e as incita a usar o conflito provocado pelas diferenças como catalisador de novos modos de pensar.

Preocupada em fazer chegar suas teoriza-ções para um público amplo, hooks defende que uma escrita acessível é uma escolha política que possibilita que todas possam se responsabilizar por projetos que levem em conta a quebra de paradigmas. O fato de não usar uma escrita estri-tamente acadêmica, muitas vezes lhe rendeu críticas. Mas hooks está acostumada a ocupar as margens e não se intimida. Esse é o seu primeiro livro traduzido em nossa língua. É hora, portanto, de formar nossa própria opinião sobre ela!

 

Notas

1  Optei por adotar o feminino como referência em todo o texto para referir-me a mulheres e homens.

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