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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.25 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2017

https://doi.org/10.1590/1806-9584.2017v25n1p147 

Artigos

Narrativas sobre conjugalidade de mulheres que se relacionam com crossdressers

Narratives on conjugality of women who relate to cross-dressers

Anna Paula Vencato1 

1Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil


Resumo:

Este texto discute dados coletados em pesquisa com mulheres que se identificam como “esposas” ou “S/O’s” de homens que “praticam crossdressing”. É, também, um desdobramento de minha tese de Doutorado, sobre como homens que se identificam como crossdressers negociam esta prática em suas vidas cotidianas. A pesquisa parte de uma etnografia e é complementada por entrevistas semiestruturadas com estas mulheres. Busca-se compreender como elas lidam com as tensões relativas às convenções sobre gênero e sexualidade e com o manejo de segredo ao conviverem com esta prática. Também se discute como o crossdressing impacta a vida privada e a afetivo-sexual/conjugal de pessoas que se montam, em especial, naqueles casos em que os desejos e práticas relativas ao crossdressing do cônjuge foram revelados após vários anos de casamento.

Palavras-chave: conjugalidade; cuidado; gênero; sexualidade; cross-dressing

Abstract:

This paper discusses data collected on research with women that identifies themselves as “wives” or “SO’s” of men who “practice cross-dressing”. It is also an outgrowth of my doctoral thesis on how men who identify as crossdressers negotiate this practice in their everyday lives. The research part of an ethnography and is complemented by semi-structured interviews with these women. We seek to understand how these women deal with tensions relating to gender and sexuality conventions and the managing of the secret to living with this practice. It also discusses how crossdressing impacts privacy and affective-sexual/conjugal of people who dresses up as the opposite sex, especially in those cases where the wishes and practices relating to crossdressing of the spouse were revealed after several years of marriage.

Key words: conjugality; care; gender; sexuality; cross-dressing

Introdução

Jantava, em meados de 2009, com um casal com que convivi bastante durante a pesquisa de Doutorado em um restaurante no centro de São Paulo. Na época, estavam casados. Ele estava montado1 e sua esposa (Nina, 25 anos), que deixava sempre claro que era a esposa do sapo2 e que não gostava de sair com o marido en femme, inicia uma conversa sobre o lugar em que estacionara o carro antes de se juntar a nós:

– Estou preocupada com o carro... O homem que estava lá quando eu cheguei era muito estranho. (Nina, 25 anos)

– Preocupada com o quê? Tá do lado do Posto Policial...

– Aquele cara era muito estranho. Depois você me leva lá no carro quando eu for embora e você sobe para se desmontar. (Nina, 25 anos)

– Você não vai me esperar desmontar para ir para casa? Não precisa ter medo, nada vai acontecer...

– Você fala isso porque você é travesti e as pessoas têm medo de você. Agora, e de mim? Quem tem medo? (Nina, 25 anos).

Este trabalho discute dados coletados em pesquisa3 com mulheres que se identificam como “esposas” ou “S/O’s” (termo que explicarei a seguir) de homens que “praticam crossdressing4 ou, grosso modo, “vestem-se de mulher”. Insere-se em uma continuidade da pesquisa que empreendi anteriormente, no Doutorado, uma etnografia com homens associados a um clube brasileiro para praticantes de crossdressing (Anna Paula VENCATO, 2013).

A convivência com as S/O’s, até pelo foco da minha pesquisa anterior, havia sido mais restrita do que a com as crossdressers. Outra questão que as torna menos presentes não é apenas de ordem numérica, mas se relaciona com a ocupação do espaço social dentro dos eventos. Elas permaneciam em segundo plano, relativamente apagadas e, por vezes, esquecidas, enquanto as crossdressers interagem entre si. Assim, é comum que elas estejam presentes em diversos encontros em que estive, mas o papel que desempenham nessas ocasiões sempre é mais de uma auxiliar de bastidores do que de alguém que está inserida efetivamente no grupo.

Contudo, apesar desse lugar mais “discreto” que ocupam, são tidas, em geral, como muito importantes para algumas crossdressers que não prescindem desse auxílio na hora de “se montar”. Por outro lado, embora se reconheça a importância das S/O’s, a relação entre elas e as crossdressers também demonstrava ter muitas tensões e conflitos, tanto na vivência com o grupo, quando as cds estavam montadas, quanto nas negociações que precisavam ser empreendidas nos momentos em que se estava no registro da vida cotidiana.

Durante toda a minha pesquisa com estes homens, não houve nenhuma mulher praticante de crossdressing associada ou que participasse, mesmo que esporadicamente, dos encontros em que se reuniam. Contudo, em diversos momentos, foi possível conhecer e conviver com as esposas, companheiras, namoradas ou amigas desses homens que sabiam de sua prática ou que os ajudavam com a montagem que realizavam. Não foi incomum encontrar homens, ao longo da pesquisa, que ocultassem de familiares e outras pessoas próximas o fato de praticarem crossdressing. No clube, essas mulheres eram comumente referidas como S/O’s, termo que era desejado/valorizado por algumas delas e refutado/desvalorizado por outras.

As mulheres pesquisadas moram em diversas cidades do país e foi necessário que eu viajasse, em alguns momentos, para realizar as entrevistas nas cidades onde residem. As localidades em que há mais mulheres que se identificam como S/O’s – ou são identificadas assim pelas crossdressers – encontram-se no Estado de São Paulo (na Capital e no interior), na capital fluminense e na capital paranaense. Há algumas em Porto Alegre também, mas não participaram deste trabalho. Por se tratar de um vasto pertencimento territorial, é difícil contextualizá-las a partir desta categoria.

Com relação à raça/etnia, é possível dizer que a maior parte se identifica como brancas ou pardas e que nenhuma delas se identificou como negra. À época da pesquisa, metade delas havia completado o ensino superior. Algumas estavam cursando algum curso superior em instituição privada de ensino ou haviam deixado o curso. Apenas uma não tinha ensino médio. Apenas duas não estavam trabalhando no momento da entrevista, mas estavam à procura de trabalho.

Faço esta opção por trazer uma descrição genérica dessas mulheres, assumindo o risco de perder consideravelmente a riqueza da contextualização sociológica, por não falar acerca do perfil dos casais ou de trazer mais detalhes sobre as entrevistadas por entender que, por se tratar de um universo bastante restrito, elas se tornariam facilmente identificáveis dentro do grupo pesquisado.

“Dar suporte” versus “Suportar”: o que quer dizer S/O?

De acordo com a descrição de uma comunidade de uma rede social de e para S/O’s, Supportive Opposite ou S/O “é uma pessoa do sexo oposto que apoia a prática Crossdresser. Pode ser uma amiga, namorada, esposa, irmã, prima [...] Importante ressaltar que é alguém que APOIA, não só que aceita”.5 É comum, contudo, dentre as pessoas com que tenho contato, que as S/O’s sejam descritas como esposas ou namoradas. De qualquer modo, nem toda crossdresser tem uma S/O ou deseja ter uma.

As mulheres que nascem mulheres são comumente chamadas de GG (genetic girls) ou mulheres genéticas. É importante, aqui, dizer que o termo mulher biológica não parece ter o mesmo significado que mulher genética. Uma transexual, no contexto pesquisado, pode, depois de certo nível de adequações corporais (geralmente envolvendo a cirurgia de redesignação sexual), ser referida como uma mulher biológica. De qualquer modo, assume-se, nessas falas, que algumas mulheres “nascem mulheres” e, outras, não.

Os termos “nascer mulher”, “gg”, “mulher genética” e “mulher biológica” eram constantemente acionados pelas crossdressers para distinguir sua forma de “ser mulher” de outras possíveis, como a de suas esposas e filhas ou, mesmo, de mulheres transexuais. É um termo êmico, portanto, e que me causou grande impacto desde os primeiros momentos de minha pesquisa de Doutorado. Pautada pelo debate sobre a construção social do gênero (Judith BUTLER, 2003; Donna HARAWAY, 2004; Joan Wallach SCOTT, 1995) e afeita à reflexão de Simone de BEAUVOIR (1980) de que não se nasce mulher, torna-se; estranhei a ideia de que havia uma verdade biológica feminina eminente nesses discursos. Talvez, por isso, tenha sido difícil encontrar mulheres que se montam no clube. Se a verdadeira mulher está na sua biologia (genética ou hormonal), como elas poderiam deixar de ter para si este destino? Parece, também, uma reatualização nas práticas sociais e discursivas da ideia de que as mulheres estão relegadas à sua natureza enquanto aos homens é dado o mundo da cultura (Michelle Z. ROSALDO, 1979) e, no contexto pesquisado, possivelmente seja por isso que possam produzir outras versões – de gênero, neste caso – legítimas de si mesmos.

O termo S/O se mostrou mais popular entre as crossdressers do que entre as “mulheres genéticas” que convivem com elas. Em alguns casos, foi possível perceber que a classificação não faz muito sentido para elas. Foi raro, até o momento, encontrar mulheres que se identificam como S/O. Ao contrário, tendem a usar o termo mais como uma categoria com que são classificadas por serem esposas de alguém que se monta ou por saberem do crossdressing de namorados/maridos do que, propriamente, por ser uma categoria com que se identificam. Isso pode ser percebido na fala a seguir:

Cara, ser uma S/O... Sempre as pessoas têm mania de dar nome aos bois, né? Então, pra mim, às vezes, ficava muito engessado, parece muito engessado. Vamos supor é aquela pessoa, namorada ou mulher, ou enfim, que ajuda a cd, que ajuda a montar e tal. Então, o termo também soa, às vezes, como uma assessora. Você serve pra isso. Você organiza as roupas, você ajuda a escolher, você ajuda a montar, não sei o que e tal. Tudo bem, isso acontece mesmo com o namorado, amigo, enfim. Você escolhe conviver com a pessoa que gosta disso, então se você também gosta, você acaba fazendo, mas tem aquela coisa: você também é mulher e você também gosta de se arrumar e também precisa de um tempo pra você (Carolina, 31 anos).

O peso para essas mulheres recai menos em usar alguma classificação que se relacione a esta experiência do crossdressing do outro do que pensar sobre sua posição dentro daquela relação ou com aquele homem que “suportam” – para usar um termo que algumas delas citaram, de forma irônica analogamente à ideia de que “dão suporte” à prática do crossdressing. Parece que, ao contrário deles, elas não pretendem participar do sistema classificatório inerente à prática do crossdressing. É difícil falar da experiência das S/O’s sem me referir às cds. A existência da categoria S/O enquanto classificação é análoga e relacional com a prática do crossdressing de alguém (enquanto o oposto não necessariamente se aplica).

O impacto do crossdressing na conjugalidade

No jogo de acusações, enquanto as crossdressers tendem a pensarem-se como “incompreendidas” (VENCATO, 2009), as “ggs” demonstram uma grande desconfiança sobre o que as crossdressers contam que fazem. Não acerca do que dizem sobre suas sexualidades, como se poderia rapidamente supor, mas sobre sua “honestidade” com relação ao que dizem que fazem, incluindo até onde pretendem ir, com a prática (hormonização, mudanças corporais, processo transexualizador etc.).

Uma das questões que foi muito mencionada foi que o fato de os maridos ou namorados se montarem não impactava seu machismo. Continuavam machistas e conservadores, de acordo com elas, quando o assunto era divisão do trabalho doméstico, modo de lidar com a feminilidade e masculinidade das filhas e filhos, no tratamento de funcionários homens que usam brincos e cabelos compridos ou nas relações familiares em um sentido mais amplo. Na fala de uma delas:

Já falei várias vezes em separação, eu acho que seria menos sofrido pra mim, como talvez até pra ele. Mas a gente não aceita, não sei... acho que a gente veio grudado um com outro. Acho que se gosta, né? Porque a pessoa [nome do marido], assim, tem termos de personalidade e tudo mais, continua a mesma. Nada mudou, você entende? Mas muito machismo ainda da parte dele, que ele era machista, mas continua sendo machista em vários aspectos, ele é machista. Não admite, mas é. E só quer ser feminista nas partes boas, que é cabeleireira, lojas, cremes, perfumes, essa parte boa (Dulce, 53 anos).

O egoísmo/egocentrismo é citado reiteradamente como uma característica compartilhada desses homens que se montam, assim como o machismo. Para elas, o fato de se vestirem de mulher não os torna menos tradicionais com relação às convenções de gênero e sexualidade do que homens que não se montam. Isso denota que há, na prática do crossdressing, não apenas uma ruptura com as normas de gênero. Há, conforme veremos, um constante diálogo e, por vezes, uma reatualização. Elas reconhecem, contudo, que estes homens estão mais abertos a uma relação de diálogo e companheirismo do que a que teriam com homens “100% hetero”. A fala de Luana é representativa dessa ambiguidade:

Ah, olha, isso é uma coisa muito engraçada, que eu vou falar pra você. Que é assim: olha, minha primeira visão, a minha primeira visão que a visão de toda S/O que eu conheço: ‘Nossa! Você é o homem dos meus sonhos. Um homem que entende o universo feminino, um homem sensível, romântico. Um homem que entende a minha necessidade de passar quatro, cinco horas dentro de um salão. Um homem que gosta de ir comigo no shopping, escolher roupa pra mim!’. Essa é a visão que você tem de começo. Aí você passou algum tempo. Daqui a pouco você descobre que ele não tem paciência de ficar três, quatro horas com você no salão, ele quer ficar no salão e quer que você espere ele. Ele não quer ir no shopping com você comprar roupa pra você, ele quer que você vá no shopping comprar roupa pra ele, porque quando chega sua hora de escolher roupa, ele quer sair correndo porque ele quer chegar em casa experimentar. Sensível? Quem? Romântico? Nunca vi uma cd romântica... Feminista, feminina... Nenhum dos dois. Machista ao extremo, todos. E aí você sabe o que eu descobri? Que eles falam assim: ‘ah, eu amo tanto a mulher, que eu até gostaria de ser uma’. Acho que já te falaram isso mil vezes. E eu vou te falar que a frase não é essa. A frase é assim: ‘Ah, eu queria tanto ser mulher, que raiva que eu tenho dela porque ela é mulher, e eu não’. Então, tipo assim, se você for conversar com dez, com dez S/Os, as dez vão te falar a mesma coisa. Ser S/O é viver na montanha russa. Você tem momentos assim muito legais que em seguida vão te trazer problemas absurdos (Luana, 29 anos).

Na fala da interlocutora, é possível perceber uma expectativa de que a delicadeza da feminilidade montada produza, de um lado, um homem mais galanteador, e, de outro, uma relação mais igualitária. Essa expectativa não se cumpre, talvez, porque aponte para projetos distintos de masculinidade, mas, ao mesmo tempo, sugere a construção de uma masculinidade e de uma feminilidade que depende sempre de uma relação com o outro. Conforme Raewyn CONNEL e James W. MESSERSCHMIDT (2013), “o gênero é sempre relacional, e os padrões de masculinidade são socialmente definidos em oposição a algum modelo (quer real ou imaginário) da feminilidade” (p. 265). Ainda, como nos lembra Miguel do VALE DE ALMEIDA (1996),

masculinidade e feminilidade não são sobreponíveis, respectivamente, a homens e mulheres: são metáforas de poder e de capacidade de acção, como tal acessíveis a homens e mulheres. Se assim não fosse, não se poderia falar nem de várias masculinidades nem de transformações nas relações de gênero (p. 2).

A ideia de uma construção social do gênero e de suas expectativas transparece, também, nas desconfianças que surgem nas falas das interlocutoras de meu trabalho sobre estes homens que praticam crossdressing. Argumentam, com alguma frequência, acerca do incômodo com relação ao meio em que circulam em razão do cding “de suas cds” (esta ideia de pertencimento mútuo é comum nas falas de cds e S/O’s) e mencionam terem medo da rejeição social e de que seus amigos/companheiros/maridos sejam discriminados na vida social. A fala de uma entrevistada, que leio a seguir, é particularmente ilustrativa. Ela relata, em uma matéria para a revista Marie Claire, como se deu a revelação do crossdressing de seu marido e quais foram seus impactos em sua relação:

Por mais que eu leia a respeito, me informe, tem horas que não entendo essa vontade. Penso que aquilo não faz o menor sentido. Não sei muito como classificar o CROSSDRESSING. [...] Posso supor qualquer coisa, mas não encontrei nenhum argumento que me satisfaça. Tento mostrar para ele que encaro a situação com leveza, não quero deixá-lo ainda mais confuso ou culpado. [...] Minha maior angústia é a vontade de protegê-lo. Não quero que as pessoas riam, apontem nem xinguem. Ninguém sabe como ele é culto, inteligente e divertido. Já saímos com ele montado para bares e restaurantes e nada aconteceu, mas fico sempre preocupada. Quando peço para ele não se montar para sair, ele diz que estou sendo tão preconceituosa quanto a sociedade, que ele esperava que eu fosse diferente. Respondo que sou diferente em partes; afinal, também carrego valores da sociedade (em depoimento para Andrea DIP 6).

Mesmo com algumas dificuldades de conviver com a prática do crossdressing, reconhecem que é importante a relação com outras pessoas que têm experiências análogas às suas para a autocompreensão e para dividir suas angústias. Esse compartilhamento também gera uma espécie de “zona de conforto”, em que podem compartilhar informações e receios com menos medo de possíveis sanções sociais.

Além disso, há um aprendizado compartilhado pelas S/O’s com mais tempo e/ou participação no grupo, tanto sobre a “lista das cds que não valem nada” quanto como devem se portar no grupo para serem aceitas e permanecerem ali sem problemas. Nesse sentido, a opinião de que o “meio crossdresser” não é permeável a quem não compartilha desta prática apareceu algumas vezes nas falas das mulheres que pesquisei. Na opinião de uma delas – bastante ilustrativa de outras opiniões coletadas – isto acontece porque o clube é de crossdressers e para crossdressers, excluindo qualquer outra possibilidade de lugar de fala a quem não se encaixa nessa categoria.

Diferente dos homens que se montam, que buscam evitar uma associação entre o crossdressing e a prática sexual (VENCATO, 2013), até o momento, as mulheres se mostraram mais abertas a falar sobre as intersecções e afastamentos relativos à prática do sexo. Parece que, enquanto as crossdressers buscam evitar uma confusão entre o “desejo de se montar” e o fetichismo (nos termos delas, montar-se para excitar-se sexualmente ou para “transar”), as mulheres falam sobre transar com esses homens montados e como isto afeta ou não afeta seus próprios desejos.

Em geral, dentre as que falaram sobre este tema, há algumas que não negam que já “transaram” com seus maridos/namorados montados, mas afirmam que não têm nenhum desejo em especial por esta prática. Em outra ponta, estão aquelas mulheres que afirmam excitar-se sexualmente com a montagem e que é justamente a montagem que lhes desperta um grande interesse por aqueles homens. No primeiro grupo, encontram-se, em geral, as esposas que apenas souberam do crossdressing um longo tempo após o casamento. No segundo, com mais frequência, encontram-se namoradas e/ou S/O’s que já conheceram estes homens dentro do “meio” ou, ao menos, conhecendo o fato de que tinham esta prática. Contudo, foi comum perceber que, de uma forma ou de outra, as mudanças advindas da prática do crossdressing, seja no nível das fantasias ou das mudanças de atitude e corporais, ocupam um papel importante dentro da vida sexual do casal. As entrevistas que realizei trazem um pouco dessa ambiguidade, conforme explicitadas nas falas que seguem:

Depois dessa revelação, nossa vida sexual melhorou. Antes, era uma coisa meio afobada, parecia que ele tinha pressa. Hoje, o sexo é mais tranquilo e carinhoso. Acho que ele não sente mais aquela pressão de ‘ser machão’, de ter a melhor performance do mundo. Mas não posso dizer que convivo superbem com isso. Ele se veste muito melhor quando está de ‘sapo’, como eles chamam quando estão desmontados, e é claro que eu prefiro vê-lo assim (em depoimento para Andrea Dip).

Até mesmo porque o que eu sempre achei a respeito de... de... dos crossdressers que eu conheci, que se aproximam, a gente percebia que ainda vinham com um coisa muito fantasiosa, tipo, alguém me aceita do jeito que eu sou menininha e daí quando você tá numa cama, aí essa pessoa quer ser menininha pra você e quer ser, ou seja, que ter uma relação lésbica... aquela coisa, assim, tipo, meu num dá, você quer um homem vai atrás de um homem, mas eles num querem um homem, querem a mulher, né... Junto com eles, boa parte das pessoas que quer uma S/O, quer uma S/O pra... pra... sabe, pra levar o lado sexual também nesse sentido, são poucas as que querem simplesmente o suporte, querem o suporte e querem o lado sexual. Né... Porque querem, tipo... Eu tô lá de camisola, de calcinha, de peruca, de maquiagem, e, tudo mais... E querem que você vá lá e... hã... é penetre ele com vibrador ou com qualquer outro tipo de coisa, querem que você trate de putinha, de cachorrinha, de... enfim, querem que trate como se fosse o feminino, né... Querem é... fantasiar o lado feminino e querer aquela... Que você trate ali naquele momento, naquela fantasia que você vá suportando aquilo, né (Suzana, 43 anos).

Se sentir desejada que faz parte da minha vida ainda. Eu não sou viúva e muito menos separada. Eu acho que eu tenho esse direito ainda, é um dos motivos que eu mais reclamo com ele. Porque ele praticamente ele é uma pessoa assexuada. Aí ele já fala de outra forma, ele acha que eu tinha que dar mais atenção, que ele hoje ele precisa de estímulo. Eu falei: ‘quem precisa normalmente é mulher, de estímulo’, porque ele precisa... Porque a testosterona dele é inferior a, presta bem atenção... Nos resultados que ele examina, é inferior, é uma menina recém-nascida. Não é nem menino, menina. E se ele tivesse a testosterona de uma mulher na menopausa como eu, seria diferente. Porque o que desperta o desejo sexual é a testosterona e toda mulher tem a testosterona. E a dele é tão baixa, tão baixa que se torna dessa forma. E ele alega que eu que não estimulo. Por isso que eu falo, às vezes tem que dar isso pra conseguir arrancar alguma coisa. É lógico que hoje em dia existem os argumentos e os artifícios, né? E os brinquedos da vida, mas não é a mesma coisa (Dulce, 53 anos).

A inversão de papéis foi referida em diversos momentos de minha pesquisa como uma prática desejada pelas crossdressers, mas refratada pelas S/O’s. São poucas as mulheres genéticas que assumem gostar da prática, embora os boatos sejam de que a prática não é incomum. De acordo com Regina FACCHINI (2008), ao falar da prática da feminização no BDSM,7 a inversão de papéis pode ser definida como

[...] um jogo de Dominação/submissão (D/s) no qual a Domme assume a postura de um macho dominante, o que pode envolver a prática de penetração de um escravo. A feminização é um jogo que pode ou não estar associado à inversão, no qual um escravo ou submisso é feminizado com o uso de roupas, lingerie, maquiagem e sapatos femininos (p. 183).

Embora, no crossdressing, a inversão não esteja, em geral, relacionada com a dominação, pode-se dizer que há algum diálogo entre os modos como a prática acontece nesses dois campos distintos, uma vez que ambos pressupõem a feminização do outro. No crossdressing, ser penetrado/a contribui para a construção de certa feminilidade ao mesmo tempo em que “ser penetrado/a por uma mulher” dá a eles/as a sensação de manterem-se dentro do campo da heterossexualidade (VENCATO, 2013).

De certo modo, a forma como se colocaram essas questões em minha pesquisa até o momento pode ser comparada, também, ao trabalho de Larissa PELÚCIO (2006), em que discute três arranjos conjugais envolvendo travestis (travesti-homem, travesti-mulher, travesti-travesti). Para a autora, “nas relações conjugais envolvendo travestis, ‘homens de verdade’ devem se relacionar com pessoas que nunca serão ‘mulheres de verdade’. As travestis nem sequer almejam isso. Desejam, sim, parecerem mulheres” (p. 532).

As crossdressers desejam o reconhecimento de sua feminilidade, mas não desejam associações com a homossexualidade. Assim, o diálogo com a norma presente nos arranjos conjugais analisados pela autora também se evidencia aqui, embora as práticas sexuais – notadamente a penetração – importem menos do que a relação que se manifesta publicamente. Nos termos de Pelúcio (2006), “ficam em segundo plano, assim, as práticas eróticas, restritas ao universo privado” (p. 532).

Com relação, especificamente, à associação entre crossdressing e homossexualidade, Marjorie GARBER (1992) argumenta que, embora as histórias do transvestismo na cultura ocidental estejam coladas à história da homossexualidade e da “identidade gay”,

assim como ignorar o papel desempenhado pela homossexualidade pode ser um risco para uma compreensão profunda das implicações sociais e culturais do cross-dressing, restringir o cross-dressing ao contexto de uma identidade gay e lésbica emergente é arriscar ignorar, ou deixar de lado, elementos e incidentes que parecem pertencer a muito diferentes léxicos de auto-definição e exposição cultural e política (p. 4-5).

Nesse sentido, não é “disparatado” que a ideia de homossexualidade assombre estes casais de alguma maneira, não necessariamente como algo que faz parte de seus cotidianos, mas que envolve as relações sociais em que se inserem. Há, dentre outros medos, o medo de “perder” a heterossexualidade caso a prática do crossdressing venha a público e, podemos dizer, está associada a uma ideia equivocada, mas bastante difundida, de que a homossexualidade e a prática de travestir-se são contínuas, no sentido de uma informar a outra.

Há, ainda, uma distinção fundamental nas relações, que diz respeito ao momento em que se soube do cding. Saber, antes de estabelecer um vínculo afetivo, torna a aceitação mais facilitada – o que não significa que não existam conflitos dentro do relacionamento. As esposas que já eram casadas quando souberam; mesmo que tendo optado por manter o relacionamento, tendem a enfatizar mais seu descontentamento. É como se, dizem, “tivessem comprado gato por lebre”.

Mulheres mais velhas e de fora das capitais tendem a não deixar relacionamentos que não consideram ideais – mas isto não é algo apenas das mulheres. Em meu trabalho de Doutorado, pude vislumbrar que o oposto também ocorre e de uma forma mais intensa do que se poderia pressupor: parece que homens têm mais reticências com as perdas econômicas de uma separação do que se pode imaginar (Isso ocorre com frequência nos casos em que elas têm heranças de família no espólio e eles não). Quando as perdas familiares e econômicas são maiores, parece haver, também, uma dificuldade maior em separar-se.

O companheirismo é citado com alguma frequência como fator importante nas relações de longo tempo. O companheirismo é tido como algo a ser preservado e difícil de reconstruir em uma nova relação. Casais juntos há muito tempo, parece, estabelecem também uma relação de conhecimento, apoio e cuidado mútuo que podem ser elementos difíceis de deixar para trás. Junto ao companheirismo, há a ideia de uma fidelidade que protege os segredos compartilhados pelo casal, que, se quebrados, podem ser vistos como traição ou falta de ética. Além disso,

se você não suporta, deixa o cara em paz, entendeu? A nossa combinação é... Aliás, fora que a gente se ama, pô a gente tá junto, é uma cumplicidade, tudo. Mas uma coisa que eu até falava, assim, ‘se um dia eu não aguentar mais’, sabe, enchi o saco, eu não vou falar nem mal nem bem nem nada. Acho que isso é traição. Acho que se você não suporta, cai fora, mas não vai estragar a vida do outro. Acho que você já sair da vida do outro por essa situação já chega, né? Não precisa mais, sair contando... (Sofia, 60 anos).

A dificuldade em deixar uma relação problemática pode ser informada pelos bens acumulados, por um lado; mas este fator certamente tem menos peso do que o apego a certas convenções sociais. Assim, a sociedade, a família ou os outros aparecem como um dado que tenciona sobremaneira os conflitos do relacionamento. Elas sabem que têm muito a perder socialmente, inclusive em termos de respeitabilidade. Respeitabilidade esta tida como a capacidade de ser uma boa esposa, ser aquela que consegue domar os “ímpetos lascivos” de seus maridos (característica associada às masculinidades) e não apenas (embora isto também importe) a pessoa que organiza e administra bem o espaço doméstico e a criação da prole.

Em busca de interpretações

A prática do crossdressing tem ganhado grande visibilidade na mídia nos últimos anos, inicialmente, a partir de tentativas tímidas de entrevistas por parte de membros do clube para praticantes de crossdressing que pude acompanhar quando da minha pesquisa anterior. Esta visibilidade ampliou-se, em especial, a partir da revelação pública de um@ conhecid@ cartunista nacional que passou a usar, no cotidiano, roupas e acessórios socialmente atribuídos a “mulheres” e tidos como “femininos”. Ela passou a dar diversas entrevistas e depoimentos para a televisão, jornais e revistas e em eventos dirigidos ou não ao público que “se monta”, mesmo que, com o passar do tempo, tenha refutado identificar-se como crossdresser.

Há, ainda, uma ampliação significativa do espaço na mídia com informações acerca do processo transexualizador, sobretudo falando sobre os programas destinados a quem deseja passar pelo processo de redesignação sexual, muito embora as pessoas que se identifiquem como transexuais talvez não se identifiquem com a ideia de que se montam. Também, mas mais timidamente, e, em geral, com alguma animosidade, despontam, aqui e ali, matérias sobre as travestis. Mas estas matérias sobre transexuais e travestis versam sobre o campo dos direitos, da saúde ou da criminalidade e, em geral, enfatizam pouco a produção do corpo e do gênero dessas pessoas. É a partir da entrada da ideia de cross-dressing neste cenário que a montagem em si ganha algum destaque para um público mais amplificado.

De certo modo, pode-se pensar que as drag queens anteriormente iniciaram este debate, mas nunca conseguiram o mesmo destaque, talvez pela associação com a “noite GLS”,8 ou, também, pela falta de um/a porta-voz com maior espaço prévio na mídia. Nesse contexto, se a prática da montação antes tinha como espaço privilegiado de debate a militância ou o meio acadêmico, agora parece haver um debate público acerca dela, assim como uma publicização de seus contornos e diferenciações internas para um público mais amplo. Minha proposta, aqui, contudo, segue a contramão desta tendência, ao voltar a análise ao âmbito privado desta prática, talvez nos recônditos geralmente menos explorados sobre ela: a que diz respeito às relações afetivas, sexuais, conjugais e, por vezes, familiares.

O que parece permear os estudos sobre o universo da montação (Juliana Gonzaga JAYME, 2001; Avelar Amorim LIMA, 2016; Joseylson Fagner dos SANTOS, 2012; VENCATO, 2002; 2013) com que tive contato é a centralidade das questões de gênero para a produção de seus corpos e de legitimidade em relação ao travestir-se. Embora, durante algum tempo se buscou analisar a ideia de montação como uma prática intimamente relacionada às experiências de travestis e transexuais,9 há de se pensar, atualmente, sobre os limites e possibilidades de se permanecer, como temos feito, olhando analiticamente para as experiências de pessoas que se montam como que análogas a de pessoas que se identificam como travestis e transexuais. Existem pontos de contato entre estes modos de vida, evidentemente. Por outro lado, as reivindicações de travestis e, em especial, transexuais acerca de como constroem seus corpos, interpretam suas experiências ou vivem suas vidas indicam, por vezes, divergir significativamente da ideia de montação tal qual usada por sujeitos que articulam em si mesmos momentos de montagens e desmontagens.

Com relação às pessoas que pesquisei, os sentidos dados ao gênero revelam uma complexa construção de valores que, a partir de uma apropriação dos valores de gênero, muitas vezes naturalizado no colamento entre homem e masculinidade e mulher e feminilidade, legitima ou deslegitima as pessoas envolvidas. Contingentemente, o que os estudos sobre cross-dressing apontam é que são justamente esses modelos que são questionados por seus praticantes. Não apenas porque não se pretendem cópias fiéis dos modelos que lhes servem como inspiração, mas, também, porque questionam os próprios modelos que parodiam.

Em todo caso, o que aparentemente acontece nesses estudos é que os elementos de produção da personagem, da construção do gênero e do corpo aparecem isolados daquilo que seria a vida social de quem pratica crossdressing, incluindo a observação e investigação desse universo a partir do ponto de vista dos outros atores envolvidos. No universo de homens que “se vestem do outro sexo”, há diversas outras pessoas que contribuem sobremaneira para esta prática, mas que permanecem em segundo plano nas análises empreendidas acerca dele.

Busquei olhar, então, para a vida social das chamadas “mulheres genéticas” que contribuem para que alguns homens que praticam crossdressing consigam efetivar o desejo de “se montarem”. Também perscrutei os outros momentos da vida de pessoas que fazem parte do universo de “homens que se vestem de mulher”, as implicações da participação neste universo e a consequente negociação dessa prática de “se montar” (ou “montar o outro”) nos outros espaços de sua vida, entendendo, também, como pensam seu gênero e sexualidade em momentos que transcendem os espaços destinados à prática de crossdressing dos homens que auxiliam a “se montar”, contribuindo, assim, para uma ampliação do debate sobre esta prática, sobretudo no campo dos estudos de gênero e sexualidade.

Se estigma, nos termos de Erving GOFFMAN (1975; 2005) e, mais tarde, de Gilberto VELHO (2003), é um atributo dado a um indivíduo ou grupo em processos de diferenciação estabelecidos dentro das relações sociais, é preciso reconhecer que, ao mesmo tempo em que, ao vestir-se do outro sexo, as crossdressers se contrapõem a certas convenções sociais, o modo como o fazem também dialoga com essas mesmas normas, conforme venho argumentando. Cabe às esposas/mulheres/S/O’s controlarem esses homens, que, potencialmente, podem se colocar em risco por estarem sempre sujeitos a buscarem uma intensificação maior e perigosa de seus desejos.

Um dos pontos em que as S/O’s se apoiam em troca da permanência na relação é a importância central de se manter segredo sobre a prática. Isso implica não divulgá-la amplamente, embora a divulgação “controlada” seja possível. É justamente através da ideia de segredo (Georg SIMMEL, 1906; 1999) que é possível pensar a manutenção de uma vida dupla. Assim, é o segredo que possibilita que se tenha um segundo mundo, que vive próximo a suas vidas cotidianas, mas que não, necessariamente, as toca. Estes dois mundos se influenciam mutuamente e dialogam, o que, conforme as falas apontam, não se dá sem conflitos.

A manutenção da relação entre crossdressers e S/O’s aponta que a ideia de separação entre desvio (Howard BECKER, 2008) e norma pode ser questionada. A vida dupla implicada em experienciar o crossdressing, mesmo para quem não se monta nessa relação, aponta para o fato de que não há um distanciamento das normas: a própria manutenção desta duplicidade indica que há, aí, um diálogo.

Esther NEWTON (1979) propõe uma discussão importante ao formular uma releitura de seu próprio trabalho com female impersonators (drag queens) norte-americanos ao final da década de 1960. A autora questiona, então, os usos que fez da teoria do desvio para pensar sobre o que as pessoas que pesquisou lhes diziam a partir da perspectiva de que estas eram desviantes e viam o mundo por este viés. E se pergunta, algum tempo depois, sobre

quem precisa de uma teoria do desvio? Por quê? Que tal uma teoria da ‘normalidade’? Hoje estas parecem perguntas óbvias, mas ter a coragem de perguntá-las é outra coisa. Se nós realmente examinarmos a ‘normalidade’ ficaremos chocados com o que encontraremos (p. xv).

Assim, Newton confronta-se com seus valores de classe (chegando a afirmar que a “cultura de classe média parece ter construído uma cegueira social, composta pela arrogância” (p. xvii). Questiona, então, as verdades produzidas a partir dele, que, em certa medida, obliteraram que ela considerasse efetivamente a explicação de suas interlocutoras sobre o que faziam, e confessa que “estava preparada para encontrar as visões de mundo dos desviantes interessantes, mas nunca considerou seriamente que eles poderiam estar corretos” (p. xvii). Foi apenas ao reler seu trabalho que passou a concordar com as pessoas que pesquisou. Estas já falavam, à época da pesquisa, sobre o quanto a divisão mais fundamental do mundo social era aquela que se dava entre homens e mulheres e, para avançar no debate da autora, naquilo que se espera de cada um deles a partir das convenções estabelecidas de gênero.

A vida dupla desses “casais” indicaria um jogo entre o apreço às convenções sociais (de gênero, sexualidade, geração e classe social) versus a aceitação do descumprimento de algumas delas. Assim, pode-se afirmar que há transgressões que são aceitas, enquanto outras não são e que há algumas piores que outras, o que, possivelmente, explica uma diferenciação e produção de hierarquias tão grande no interior das sociabilidades estabelecidas entre estes indivíduos. É preciso lembrar, conforme Nestor PERLONGHER (1987), que não há uma oposição frontal entre normal e desviante. O que há é uma deriva.

Há um medo constante de se perder a vida respeitável construída enquanto casal, caso a princesa seja descoberta. Há um diálogo permanente entre a euforia de vestir-se de mulher e o risco de perder a respeitabilidade construída dentro da família ou na vida social. A construção de legitimidade que um indivíduo precisa empreender ao longo de sua vida é complexa, assim como o é a construção de hierarquias no interior da vida social. Estas construções dependem de um jogo entre fatores complexos que, no caso das pessoas pesquisadas, põem em diálogo coisas que, normalmente, seriam tidas como que pertencentes a ordens diversas. Assim, misturam elementos da produção de uma produção de si, de modo a produzir indivíduos que brincam com a norma em alguns momentos para dar vida a um desejo e que, também, (re)conhecem o valor dela para a manutenção de certo status arduamente alcançado (e posto em risco pela cessão ao desejo de se montar) na vida cotidiana.

Referências

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1 A expressão “se montar” foi bastante utilizada pelas crossdressers. Pode-se dizer que, como no caso das drag queens que pesquisei anteriormente (VENCATO, 2002; 2005), elas não se vestem ou maquiam, mas se “montam”. “Montar-se” é o termo “nativo” que define o ato ou processo de travestir-se, (trans)vestir-se ou produzir-se. Para uma discussão sobre a noção de montação dentre drag queens, ver Vencato (2002; 2003). Para o uso do termo dentre as crossdressers, ver Vencato (2009 e 2013).

2 Estar de sapo ou en homme é o mesmo que estar desmontado. Ou seja, refere-se a um homem que está vestido de acordo com o sexo que lhe foi assignado ao nascer. O termo Sapo contrapõe-se ao termo Princesa, sendo uma analogia – quiçá distorcida – do que ocorre nos “Contos de Fada”, quando uma princesa beija um sapo que se encontra sob encantamento de uma bruxa. Ao ser beijado por ela, o sapo, então, se transforma em um belo príncipe – com o qual, geralmente, a princesa se casa. Estar de homem é estar “feio”, “sem graça”, é ser como o sapo das histórias infantis. Usar roupas e acessórios femininos, montar-se, faz com que o sapo possa se tornar uma princesa. O beijo da princesa é, assim, a própria montação. Em contraposição, estar en femme é o mesmo que estar montada.

3 A pesquisa que originou este texto - “Significant others”, “supportive opposites” ou “mulheres genéticas”: a perspectiva de mulheres que auxiliam homens na prática do crossdressing - foi financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Edital nº 20/2010 - Categoria 2. Uma versão preliminar deste texto foi apresentada no GT “Sexualidade e gênero: sociabilidade, erotismo e política”, do 36º Encontro Anual da ANPOCS, em 2012.

4 O termo crossdressing aparecerá grafado de dois modos nestas páginas. Na maior parte do tempo, farei uso da grafia crossdressing, uma vez que é a forma como as pessoas pesquisadas utilizam o termo. Já a grafia cross-dressing, utilizada nos países de língua inglesa, é comumente encontrada nas páginas estrangeiras da internet ou na literatura científica sobre o assunto. Cd aparecerá como diminutivo para crossdressing. Cding como diminutivo para se referir à prática de crossdressing.

5 Definição retirada de uma comunidade para S/O’s do Orkut. O Orkut foi uma rede social virtual vinculada ao Google.com, disponibilizada na internet através do site www.orkut.com. O Orkut foi desativado em 2014. O acesso à comunidade foi realizado em 15/06/2008.

6 Embora existam outras falas desta entrevistada citadas ao longo do texto, optei por não lhe dar o nome que escolhi para dificultar sua identificação dentre as pessoas que a conhecem. Na matéria da revista é fácil de reconhecer, apesar da troca do nome, qual a esposa/casal de que a reportagem fala.

7 De acordo com Bruno ZILLI (2007), “O BDSM é um acrônimo utilizado pelo grupo identitário para nomear suas atividades e sintetiza uma variedade de práticas: B é para bondage, ou imobilização, geralmente com cordas ou algemas. O par B e D para bondage e disciplina, o uso de fantasias eróticas de castigos e punições que se ligam ao par D e S que representam dominação e submissão. São fantasias de entrega ao parceiro sexual e jogos de representação de humilhação e violação. O par S e M representa sadismo e masoquismo, ou sadomasoquismo – o uso de dor como estímulo erótico. O BDSM envolve, ainda, práticas ligadas ao fetichismo. Esse acrônimo foi desenvolvido em uma tentativa de englobar uma diversidade de atividades sexuais, unidas por duas características definidoras: são tradicionalmente classificadas como distúrbios sexuais e entre seus adeptos são regidas e definidas pelo respeito ao consentimento dos parceiros em fazer parte dessas relações” (p. 8-9).

8 Sigla para Gays, Lésbicas e Simpatizantes, bastante utilizada no final dos anos 1990 e até meados dos anos 2000. O termo ainda é bastante utilizado pelas crossdressers, o que dialoga com seu pertencimento geracional.

9 Ver, por exemplo, discussão sobre a emergência e o uso da categoria “transgênero” no discurso científico recente (JAYME, 2001; VENCATO, 2002; 2003).

Recebido: 16 de Março de 2013; Revisado: 23 de Maio de 2015; Aceito: 23 de Junho de 2016

apvencato@gmail.com

Anna Paula Vencato (apvencato@gmail.com). Pesquisadora Associada do Grupo de Pesquisa Corpo, Identidade e Subjetivações – CIS/DS/UFSCar (http://www.ufscar.br/cis/). Professora Titular da UNIP. Doutora em Antropologia pelo PPGSA/IFCS/UFRJ, mestre em Antropologia Social pelo PPGAS/UFSC, licenciada em Pedagogia pela FAED/UDESC.

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