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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707On-line version ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.14 no.4 Florianópolis Oct./Dec. 2005

https://doi.org/10.1590/S0104-07072005000400011 

ARTIGO ORIGINAL
PESQUISA

 

Base de sustentação militar de Vargas durante a 2ª guerra e a soberania bélica alemã: percepções de enfermeiras e militares1

 

Basis of Vargas' military support during world war II and the german military power sovereignity: perceptions of nurses and militaries

 

Base de sustentación militar de Vargas durante la segunda guerra mundial y la soberanía bélica alemana: percepciones de las enfermeras y de los militares

 

 

Margarida Maria Rocha BernardesI; Gertrudes Teixeira LopesII; Tânia Cristina Franco SantosIII

IEnfermeira. Bióloga. Especialista em Administração em Serviços de Saúde e Mestre em Enfermagem. Supervisora do Hospital de Emergência Henrique Sérgio Grégori - Resende. Docente da Universidade Estácio de Sá
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Livre Docente. Professora Titular do Departamento de Fundamentos de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FENF/UERJ). Coordenadora do Programa de pós-Graduação Mestrado da FENF/UERJ. Membro do Núcleo de Pesquisa em História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras). Pesquisadora do CNPq. Procientista da UERJ. Orientadora da Dissertação
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Membro da Diretoria Colegiada (Nuphebras). Pesquisadora do CNPq. Co-orientadora da Dissertação.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Estudo histórico-sociológico aborda parte da Dissertação de Mestrado intitulada "O Grupamento Feminino de Enfermagem do Exército na Força Expedicionária Brasileira durante a 2ª Guerra Mundial: uma abordagem sob o olhar fotográfico (1942-1945)". Objetivou analisar o contexto político, a base de sustentação militar no Brasil e a utilização da imagem feminina das enfermeiras do Exército naquele período. As fontes primárias foram: uma fotografia e depoimentos orais de agentes que participaram do conflito e viveram os acontecimentos do recorte temporal. Como fontes secundárias utilizamos bibliografia referente ao assunto. Utilizamos conceitos de Pierre Bourdieu para apoiar a discussão. Os resultados revelaram contradições nas relações estabelecidas entre Vargas e os militares e evidenciaram que as enfermeiras serviram como propaganda para o governo Vargas e para o Exército que se utilizaram das agentes para veicular suas imagens provando nossa participação no conflito mundial realizada pela pressão popular e desejada pelo povo brasileiro.

Palavras-chave: Enfermagem. História. Guerra.


ABSTRACT

This historic-sociological study concentrates on part of a Master's Degree Thesis entitled "The Nursing Brazilian Army Feminine Grouping in the Expeditionary Force during World War II: a focus under a photographic perspective (1942-1945)" ("O Grupamento Feminino de Enfermagem do Exército na Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a 2ª Guerra Mundial: uma abordagem sob o olhar fotográfico - 1942-1945"). The objective of this study was to analyze the political context, the basis of the military support in Brazil and the use of the feminine image of the Brazilian nurses during the period previously mentioned. The primary sources were comprised of photographic and oral testimonies of those who participated in the conflict and lived the events of that meaningful time. As secondary sources we used bibliographic literature. We have also used Pierre Bourdieu's, a French Sociologist, to support the discussion. The results reflected contradictions in the relations between Vargas and the militaries and made clear that the nurses posed as an advertisement to the Vargas government and to the Army who used the agents to make public their images, proving the Brazilian participation in the international conflict. This participation was a result of a popular pressure, as well as an aspiration of the Brazilian people.

Keyword: Nursing. History. War.


RESUMEN

Estudio histórico y sociológico sobre parte de la disertación de máster sobre un grupo de enfermeras del ejército en la Fuerza Expedicionaria Brasileña mientras ocurría la Segunda Guerra Mundial: un abordaje bajo la mira fotográfica (1942-1945). Objetivo: analizar el contexto político y la base de sostentación militar en el Brasil y la utilización de la imagen femenina de las enfermeras en el ejército en este período. Las fuentes primárias fueron una fotografia y los testemonios orales de los agentes que participaron del conflicto y que vivieron los acontecimientos en el recorte temporal. Las fuentes secundarias utilizadas fueron el acervo bibliográfico sobre el tema. Utilizamos conceptos del sociologo Pierre Bourdieu para apoyar nuestra discusión. Los resultados mostraran las contradiciones en las relaciones que se estabeleció entre el Gobierno Vargas y los militares y evidenciaron que las enfermeras fueron utilizadas como propaganda para el Gobierno Vargas y para el ejército que utilizarónse de las agentes para vehicular suyas imagénes y suyas participaciones em el conflicto mundial, participación realizada por la presión popular y deseada por todo el pueblo brasilenõ.

Palabras clave: Enfermería. Historia. Guerra.


 

 

APRESENTAÇÃO

A 2ª Guerra Mundial aconteceu quando o Brasil vivia politicamente a Era Vargas (1930-1945). Por decisão brasileira e norte-americana que se tornaram aliados, criou-se a Força Expedicionária Brasileira (FEB) com o intuito de participar do conflito, partindo para o campo de batalha, comandada pelo General João Batista Mascarenhas de Moraes.1 Nesta Força estava inserido o Batalhão de Saúde composto por cento e oitenta e seis profissionais de saúde, dentre eles sessenta e sete enfermeiras pioneiras do Exército, sendo sessenta e uma enfermeiras hospitalares e seis especializadas em transporte aéreo.2

Foi portanto necessário que os militares criassem um Quadro de Enfermeiras para atuarem no cenário da guerra, juntamente com o efetivo da FEB, em função de uma solicitação dos norte-americanos ao Presidente Vargas, sustentado politicamente pelos militares no recorte temporal, para que esses resolvessem a questão pois: [...] as [enfermeiras] americanas já estavam sobrecarregadas de serviço, além do mais não falavam a língua dos futuros pacientes [brasileiros] [...].2

Portanto, o governo brasileiro implementou em caráter de urgência a busca de voluntárias, de modo a atender a solicitação de um grupo hegemônico militar estrangeiro, [...] mandatários do Estado, detentores do monopólio de violência simbólica legítima[...].3

Para fazer parte do Exército Brasileiro, inserindo-se na FEB que partiu para a 2º Guerra Mundial, as moças que aderiram ao voluntariado proposto por essa Força Armada precisavam possuir como capital cultural um diploma de Escola de Enfermagem. Naquela década, desafiando os valores vigentes, enfermeiras detentoras destas características e disposição interna incorporada para escolher caminhar por esta trajetória, foram úteis e raras.

A seleção das candidatas tinha como objetivo construir um grupo homogêneo com práticas compatíveis, capaz de assimilar os deveres inerentes à posição que ocupariam em um campo social, onde seriam agrupadas mediante rígida hierarquia que compunha seu habitus militar. Foram submetidas a um preparo específico que possibilitasse a incorporação não apenas do discurso, mas do comportamento e do espírito militar.

Este estudo, de cunho histórico-sociológico teve como objetivo analisar o contexto político, a base de sustentação militar no Brasil e a utilização da imagem das enfermeiras do Exército neste período.

 

REFERENCIAL TEÓRICO E O MÉTODO DE PESQUISA DESENVOLVIDO

Os dados foram analisados e fundamentados à luz dos conceitos de habitus, poder, violência e capital simbólicos do filósofo e sociológo Pierre Bourdieu.

As fontes primárias foram uma fotografia e depoimentos orais de agentes que participaram do conflito e viveram os acontecimentos do recorte temporal. A fonte iconográfica faz parte do acervo fotográfico do Exército Brasileiro que possui aproximadamente cinco mil fotos e mil e setecentos slides da 2º Guerra Mundial. Tal acervo encontra-se no Comando Militar do Leste (C.M.L.), localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro. Os militares responsáveis por este acervo deram autorização escrita permitindo a publicação das fontes iconográficas que compõe o mesmo. Os depoentes do estudo, foram devidamente esclarecidos sobre os objetivos da entrevista e cederam por escrito a doação de seus depoimentos gravados e filmados, bem como permitiram a identificação de seus nomes nas entrevistas. Essas autorizações e todo o material filmado se encontram arquivados e disponíveis no Centro de Memória Dra Nalva Pereira Caldas da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FENF/UERJ).

Utilizamos os depoimentos orais dos agentes sobre a foto que consideramos emblemática, objetivando buscar esclarecimentos sobre a fotografia e o momento vivido, e os resultados destes depoimentos equiparam-se em importância à fotografia apresentada. Dessa forma, os depoimentos orais e a fotografia passaram a ser nossas fontes preferenciais do estudo.

Articular os depoimentos orais com a fotografia nos possibilitou a obtenção de dados inéditos não registrados em fontes oficiais. Esses procedimentos empregados na busca e análise de informações vislumbram uma nova maneira de revitalização da memória durante a entrevista e oferece, uma inusitada possibilidade de pesquisa histórica. Esperamos que a divulgação do método criado venha a indicar a outros pesquisadores a possibilidade de utilização do mesmo para que os agentes retratados possam se colocar perante as imagens congeladas, decodificando e socializando o momento passado vivido por elas, para que os leitores não presentes no evento possam, tomar conhecimento das fotos com os fatos na visão dos retratados depoentes.

Entendemos que esta forma de articular o texto fotográfico com os depoimentos e os documentos, na pesquisa histórica, se apresenta como um método de investigação que possibilita ao pesquisador lançar mão de técnicas diferentes para aprofundar o conhecimento sobre um determinado fenômeno em estudo. Denominamos o método desenvolvido de Método Analítico Fotográfico Oral.

Ao desenvolvermos esta pesquisa tínhamos em mente nos aproximar ao máximo das experiências vivenciadas pelos depoentes do Exército no Teatro de Operações durante a 2º Guerra Mundial. Ao percorrermos este caminho metodológico, fomos gradativamente desenvolvendo uma nova maneira de pesquisar em história. Dessa forma, desejamos que este novo método possa contribuir com outros pesquisadores na busca de evidenciar fenômenos vinculados a essa área de conhecimento.

Os dados oriundos das fontes secundárias tratam do contexto histórico-social brasileiro da década de quarenta e cinqüenta, com destaque para o período da 2ª Guerra Mundial. Essas fontes secundárias foram coletadas em bibliografia alusiva à história do Brasil.

Sabemos que existem vazios de informações importantes da história da Enfermagem. Sendo assim, ao realizarmos o presente estudo nesta área, esperamos estar dando nossa contribuição para o preenchimento de lacunas em pesquisas dessa natureza que venha a ampliar conhecimentos sobre as experiências vivenciadas pelas enfermeiras do Exército durante a 2ª Guerra Mundial, assim como proporcionar subsídios para posteriores aprofundamentos na área da história da Enfermagem. Gerando este estudo acreditamos que o mesmo seja relevante na medida em que vai contribuir como fonte primária de dados, para pesquisas históricas na Enfermagem, podendo ser estendida para outras áreas do conhecimento.

O estudo promove ainda, a divulgação de uma fotografia das enfermeiras no recorte temporal estudado existentes no C.M.L. do Exército Brasileiro, no Município do Rio de Janeiro, que se encontra disponível para que outros pesquisadores façam novas descobertas iconográficas em relação à Enfermagem na 2º Guerra Mundial e as demais categorias profissionais que foram atores neste evento de proporções mundiais.

Existe em funcionamento atualmente em nosso país fóruns de discussão, núcleos de pesquisa e centros de memória sobre a história da Enfermagem brasileira, que se alimentam de pesquisas com a natureza da que neste momento estamos divulgando. Sendo assim, acreditamos que estamos dando nossa contribuição para a área de conhecimento da profissão de Enfermagem em nosso país. Entendemos também que nosso estudo vem somar aos conhecimentos produzidos um corpo de saberes, propiciando visibilidade da Enfermagem brasileira no recorte temporal estudado.

 

A BASE MILITAR DE SUSTENTAÇÃO NA ERA VARGAS DURANTE A INSERÇÃO DAS ENFERMEIRAS NO EXÉRCITO

O enfoque neste momento é a relação política do Presidente Getúlio Vargas com os militares. Nas Forças Armadas predominam e são defendidos os valores hierárquicos, como também a relação entre os homens das diferentes camadas sociais que a constituem.

Durante o marco temporal dessa pesquisa, os militares e Vargas tinham uma relação muito próxima e cordial, portanto, é oportuno fazer uma retrospectiva. Em 1938 inicia-se publicamente o apoio explícito do Exército a Vargas, quando o Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra comparece ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro acompanhado por todos os Generais que serviam na então capital da República e, em nome do Exército esse Ministro na ocasião assim se expressou:4:285

Exmº Sr. Presidente

O Exército Nacional, aqui representado pelos seus mais elevados chefes, ora nesta Capital, tem a honra de apresentar a V. Exª os mais expressivos votos de felicidades pelas irrefutáveis provas de carinho e de sadio patriotismo, que se traduzem pelos esforços enviados por V. Exª para mantê-lo à altura de sua elevada missão, o Exército agradece-lhe, expressando a sua duradoura gratidão.

Em todos os seus setores de atividades, o nome da Pátria têm sua principal preocupação.

Na edificação da obra grandiosa em que V.Exª está empenhado, pondo em execução os preceitos da Carta de 10 de novembro de 1937, os esforços do Exército estão orientados num mesmo sentido. Não haverá interferência estranha que o desagrade ou que o faça sair do rumo do dever, tomado como um dogma.

O Exército crê na ação destemerosa e decisiva de V. Exª e está convicto de que só com um ambiente de ordem e de tranqüilidade poderão os brasileiros entrar na posse de múltiplas e variadas riquezas que jazem inexploradas, trabalhando com alegria e fé no mais seguro êxito.

Deste ponto de vista o Exército não se afastará, conservando-se vigilante na defesa do regime, assegurando a ordem e apto a reprimir todas as ações dissolventes e desorganizadoras, quaisquer que sejam seus rótulos e origens, contribuindo com todas as suas forças na grande obra de salvação nacional encetada desde novembro por V.Exª.

Reafirmando todo o apoio, lealdade e integral solidariedade, o Exército formula a V. Exª., por meu intermédio, os desejos de um próspero governo em 1938, a fim de que se realizem as aspirações por que o Brasil anseia. Dele V. Ex.ª tem a promessa solene de bem servir à Pátria e de tudo fazer pelo seu engrandecimento.

No início da Era Vargas, o apoio ostensivo ao Presidente por uma Força Armada, em muito o tranqüilizou. Foi de suma importância para o governo esse apoio, inicialmente subserviente e explícito, uma vez que dentro do panorama político existia forte oposição pessoal à figura do Presidente, muito mais do que ao regime. A essa oposição somavam-se as mais variadas correntes extremistas de esquerda, de direita e liberais.

A popularidade de Vargas crescera nas mais diversas camadas da sociedade, que encaravam com desilusão a atuação dos políticos brasileiros e não aceitavam o integralismo de Plínio Salgado, nem o comunismo de Luiz Carlos Prestes.4:286

À respeito, o depoimento abaixo afirma:

[...] nessa época, os Presidentes das Repúblicas Argentina, Paraguai, Bolívia, Venezuela e México eram generais [...] assim era o ambiente sul americano, mas nós tínhamos um Presidente civil que era Getúlio [...] os militares, como em todo o continente tinham uma grande importância e uma das razões da época era a única instituição organizada, cujos quadros interessavam-se pelo destino da nação [...] pensavam em Brasil pátria, em resolver os problemas sociais [...] como o Exército espalha-se pelo país todo, tinha e tem um grande sentimento de patriotismo, de nação unida e íntegra, [...] que naturalmente se refletia nos seus quadros dava-lhes uma grande importância. Eles queriam resolver os problemas brasileiros que os políticos se locupletavam e não tentavam realmente resolver [...] com esta posição os militares naturalmente assumiam uma característica muito importante como Instituição [...]. Com a Constituição de 10 de novembro de 1937, explicada ao povo com uma linguagem corriqueira, traduzida em miúdos nas partes mais importantes [...] os militares sentiram-se na obrigação de apoiar o Presidente da República que adotou uma idéia muito comum, não só no Brasil como em vários países do mundo, de um Estado forte. Aí, no caso brasileiro nós dissemos Exército forte entra no Estado forte [...] para poder sustentá-lo. Porque o Estado não poderia ser forte se sua principal força de sustentação fosse fraca ou contra o governo [...], Mas a partir daí, posteriormente, começou um estado policial violento com prisões, tortura, órgãos como a antiga polícia especial, [...] que era o terror de todo mundo; a violência se instituiu, o que não tinha mais nada a ver com as Forças Armadas, Exército e Marinha [...] (General Jonas de Moraes Corrêa Neto).

Sobre esse aspecto, o relato abaixo confirma:

[...] à época o Exército Brasileiro na sua maioria sustentava o governo Vargas [...] principalmente o General Dutra e Góes Monteiro [...] sobretudo o Góes Monteiro [...] (Marechal Waldemar Levy Cardoso).

Em julho de 1937, o General Góes Monteiro, persistente defensor de um regime mais centralizado e autoritário, foi nomeado Chefe do Estado Maior do Exército, fortalecendo ainda mais o braço de Vargas.5

Este General curiosamente "[...] o grande preparador dos planos de um golpe em 1934 [...] contra Vargas, agora [1937] seria feito para ele [...] a conspiração militar era um fato palpável [...]".6:74

Especificamente no período de colaboração entre Exército e governo, Getúlio Vargas assinou um acordo para fornecimento de armas norte-americanas ao Brasil, em setembro de 1941, e, "em primeiro de outubro do mesmo ano discursou em defesa do pan-americanismo pedindo o fortalecimento militar do Brasil".7:196

Esse acontecimento, entre outros clarifica a mútua admiração. Sem dúvida à época, o Presidente Vargas agradou mais ainda aos militares após esse pedido público de fortalecimento das Forças Armadas. A reforma da organização militar foi sendo sistematicamente realizada, sob a benção e o aval de Vargas, a quem interessava um aliado como o Exército Brasileiro.

A relação de Vargas com os militares durante os 15 anos de duração de seu governo passou por três fases distintas: na primeira houve o namoro, que foi de 1930 a 1937; na segunda fase, a lua de mel, de 1937 até 1945, e finalmente, na terceira e última fase aconteceu o divórcio litigioso.8

Em 1930 Vargas foi levado ao poder por uma revolução que pretendia acabar com os arranjos políticos oligárquicos da República velha. Em novembro de 1930 vem a assumir o Poder Executivo e também o Legislativo, dissolvendo o Congresso Nacional, os legislativos estaduais e municipais, demitindo todos os governadores, com exceção do governador de Minas Gerais, nomeando em seus lugares interventores federais, subordinando-os ao poder central. Getúlio Vargas juntamente com os tenentes colocando em risco a hierarquia no interior do Exército e os liberais desta época, não conseguiu implantar a república idealizada mas, de alguma forma, fez o país obter avanço social e político, porém com traumas e rupturas. Os liberais de São Paulo aliando-se aos conservadores, exigem uma constituição e eleições, sendo entretanto derrotados, mas, vota-se uma constituição em 1934 onde Getúlio Vargas teve seu nome confirmado como Presidente da República pelo Congresso. Em 1935, os comunistas tentaram tomar o poder com um golpe, não obtendo sucesso e sendo contidos. Em 1937, o presidente Vargas fez-se ditador, proclamando o Estado Novo.9

De 1937 a 1945, no curso da ditadura do Estado Novo, houve no campo da educação brasileira uma mistura de valores hierárquicos, com influência direta da Igreja Católica. Em paralelo houve a proibição dos partidos políticos, censura à imprensa, promulgação de leis trabalhistas significativas e importantes para a época e, esvaziamento da tentativa de golpe integralista. O Brasil rompeu com os países do Eixo (Alemanhã, Itália e Japão), iniciando entendimentos com os Estados Unidos da América para instalar uma grande indústria siderúrgica no país, equipando as Forças Armadas, negociando a participação do Brasil na 2º Guerra Mundial, estabelecendo as bases da nacionalização do petróleo introduzindo um sistema de câmbio e cotas para regularizar a exportação do café .9

Um dos aspectos mais coerentes deste recorte temporal do governo de Vargas foi a política trabalhista que se apresentou inovadora. Ao final da guerra, caindo a ditadura, Getúlio foi eleito senador, voltando à Presidência da República com o apoio dos dois partidos políticos que ajudou a criar, o PSD e o PTB.9

Assim, com o auxílio da conjuntura existente após a 2ª Guerra, os militares liderados pelo então Chefe do Estado Maior do Exército Brasileiro General Góes Monteiro e seus aliados políticos se sentiram fortalecidos suficientemente para romper as antigas alianças e enfrentar o presidente, tornando o Exército independente de Vargas.10

Na terceira fase do seu governo, criou o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, com o objetivo de financiar o programa de industrialização. Elevou o salário mínimo em aproximadamente 300%, criou a Petrobrás em 1953, reequipou ferrovias, aumentando em 67% a produção de energia e limitando a remessa de lucro das empresas estrangeiras. Teve uma atuação populista e, quando homens de sua guarda pessoal se envolvem na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda, emerge uma crise decisiva que levou ao ultimato de renúncia pelas Forças Armadas. O suicídio do Presidente na madrugada de 24 de agosto de 1954 foi a culminância fatídica do relacionamento desgastado e tumultuado dos vários poderes nessa fase final.9

Concluindo, os militares consolidaram-se como atores políticos, garantindo pelo lado político a base social e pelo econômico a promoção dos interesses da burguesia industrial emergente, sendo um capítulo de modernização conservadora.8

Portanto, uma das características do período Vargas, no recorte temporal do estudo foi de estabilidade nas áreas política e social, principalmente devido ao controle cerrado do Estado sobre as instituições e os cidadãos; na área Militar, essa estabilidade foi obtida explorando a disciplina hierárquica, característica da carreira.

Entre as décadas de trinta e quarenta, houve uma crescente participação da Alemanha na economia brasileira, verificada pela importação de produtos desse país, inclusive militar de artilharia, o que agradava em muito aos militares, pois armava o Exército Brasileiro "com o que havia de melhor no mundo". O depoimento a seguir corrobora o que foi dito:

[...] o material bélico produzido pelo militar alemão era feito com larga experiência na fabricação de canhões e refinado acabamento técnico, [...] era aprimorado para vencer uma guerra para a qual se prepararam. O material norte-americano era para ser feito em produção massificada, com a intenção de sair depressa, permitindo que o seu treinamento fosse bem feito no tempo de paz. Logo que começou a guerra, foi feita uma produção americana fantástica, [...] na base de concepção bem prática e objetiva deles, [...] servia para todo o material americano [...] inclusive a gasolina; [...] não se consertava, nem se aproveitava, jogava-se fora e substituía-se, assim foi [...]. A precisão e o acabamento do material alemão era uma coisa extraordinária, fizeram manobras na Escola Militar, em Resende, na Academia Militar das Agulhas Negras, onde por acidente um canhão alemão [...] caiu no rio Paraíba do Sul, numa hora em que o rio ficou agitado, [...] usando um transporte de Engenharia, o canhão escorregou e caiu dentro d'água, alguns anos depois esse canhão foi retirado e recuperado no nosso Arsenal de Guerra, sendo entregue novamente para ser reutilizado pelo Exército. Depois de alguns anos, a não ser que víssemos o número, não saberíamos pela precisão dos tiros, qual a peça que teria ficado alguns anos dentro do rio, [...] se tivesse sido material americano, estaria perdido [...] (General Jonas de Moraes Corrêa Neto).

A qualidade do material alemão também impressionou nossas enfermeiras no Teatro de Operações. Ao conhecerem as ambulâncias alemãs, avaliaram como profissionais de saúde, o conforto que tal transporte trazia para a assistência aos feridos de guerra, imortalizando o momento na imagem fotográfica, favorecendo a utilização política de suas imagens no cenário da guerra. Na foto, encontram-se três enfermeiras com diferentes uniformes.

 

 

As enfermeiras estão vestindo três tipos diferentes de uniformes militares brasileiros. Encontram-se em um degrau na parte posterior da ambulância, aparecendo na parte central superior da imagem. Essa ambulância está estacionada em terreno gramado, possuindo uma cruz na lateral do veículo, símbolo da Cruz Vermelha Internacional, ladeada por mais dois veículos, duas outras ambulâncias aparentemente idênticas.

A respeito, identifiquei no relato de uma das depoentes:

[...] [ambulância alemã] [...] era muito boa, sem dúvida alguma [...] eles [alemães] avançaram para à época, eles tinham tudo, [...] esse transporte era superior ao dos aliados americanos [...] (Enfermeira Bertha Moraes).

Este depoimento é ratificado pelas palavras a seguir:

[...] era uma ambulância alemã capturada em Corvella [...] eram muito bem equipadas, bem maiores do que as americanas [...] possuíam dois leitos, pequena cozinha, um chuveiro e uma pia [... ]no piso um círculo no chão aberto para o escoamento dos detritos [...] [as enfermeiras] são elas, da esquerda para a direita [...] Helena Ramos, filha de um Almirante da Marinha, com uniforme de passeio, de gabardine [...] Altamira Pereira Valadares, enfermeira profissional Anna Nery, com uniforme verde oliva de lã e turbante e [...] eu, Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero com uniforme de serviço de lã verde oliva e bat boot [...] (Enfermeira Virgínia Portocarrero).

Prevalece nessa fotografia o sentido de exibição da captura pelo Exército vencedor, de um importante transporte para o Serviço de Saúde. É possível que a ambulância esteja exposta nessa foto para ser vista por pessoas que se encontravam ausentes naquele momento, prova da verdade futura, fato da maior importância numa guerra e que poderia servir como relatório de uma das missões dos agentes informais dessa pesquisa, os militares combatentes. A intenção dessas enfermeiras em posar ao lado de uma ambulância alemã, parece indicar a assimilação, por parte destas, do espírito militar, pela absorção dos instrumentos simbólicos de poder resgatado pelo Exército Brasileiro mediante a apropriação de seus emblemas, insígnias e rituais, o que permitiu dar visibilidade à nova profissão.11

Assim, a imagem aparece como demonstração de poder, força e organização. Com referência ao símbolo da Cruz Vermelha que aparece na lateral da ambulância, ela tem o significado internacional de proteção à saúde.

O depoimento que segue confirma:

[...] na guerra a única proteção do serviço de saúde é a cruz vermelha, nós não podemos usar armas de espécie e qualidade nenhuma [...] o pessoal de saúde se for pego com uma arma na mão [...] perde a proteção, perde totalmente a proteção [...] (Enfermeira Elza Cansanção).

Ratificando as palavras do General Jonas sobre a supremacia dos equipamentos bélicos do Exército oponente, se infere que capturar e utilizar equipamentos como esse, propiciava prestar assistência de saúde mais imediata aos pacientes, antecipando as ações curativas. Coube a fotografia o papel de afirmar e conservar a imagem. Sobre a importância do registro fotográfico, a prática fotográfica se constitui em ritual de sonelização e de consagração do grupo e do mundo.10

O estudo da prática e do significado da imagem fotográfica é uma ocasião privilegiada para elaborar um método original para captar, numa compreensão total, as regularidades objetivas das condutas e a experiência delas advindas.12

Com certeza as enfermeiras ao posarem para a fotografia inserida no estudo não o fizeram de forma inocente ou displicente. Quiseram comunicar de alguma forma que, viam como profissionais a superioridade concreta daquela ambulância para um socorro imediato de melhor qualidade. Com certeza esta ambulância alemã era mais útil para prestar uma assistência aos feridos de guerra de forma mais completa e rápida.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As enfermeiras incorporadas à FEB, por determinação/imposição do governo norte-americano aliado ao governo Vargas que era sustentado pelos militares, adquiriram o capital militar num processo de inculcação, cujas estratégias tiveram a função de fortalecer o sentimento de unidade interna do grupamento feminino mediante a homogeneização de atitudes e gestos no front europeu, além de permitir a inserção da mulher enfermeira no campo militar, contribuindo para a valorização da mulher na sociedade brasileira.

No estudo em tela, a relação de Vargas com os militares durante os 15 anos de duração de seu governo foi aqui discutida, sendo sintetizada em três fases distintas: namoro, lua de mel e divórcio. No recorte temporal estudado, havia uma relação cordial e a sustentação militar era importante e firme, conforme podemos rever ao relermos o depoimento do General Jonas de Moraes Corrêa Neto, que bem sintetiza a relação desenvolvida. Para ele os militares apoiavam o Presidente da República que adotando a idéia de um Estado forte, recebe a base de sustentação que lhe fortalece.

Foi feita uma abordagem sobre a supremacia do material bélico produzido pelo militar alemão, feito com larga experiência na fabricação de canhões e refinado acabamento técnico, diferente do material norte-americano de produção massificada, onde já havia a concepção de uma produção descartável e prática.

Em relação à figura emblemática de três enfermeiras posando numa ambulância alemã que escolhemos para fazer parte do nosso texto, podemos supor que ao deixarem-se fotografar em diversas situações durante todo o recorte temporal estudado, as enfermeiras além de proporcionarem visibilidade nacional ao grupo que ingressou num campo inédito na história da Enfermagem brasileira, tornaram-se também agentes de propaganda política explícita para, permitir de forma consciente ou não, através da linguagem fotográfica vinculada seguidamente no influenciável campo jornalístico, a real disposição do governo e dos militares de participação neste conflito de importância mundial que foi a 2ª Guerra Mundial.

 

REFERÊNCIAS

1 Silveira JX. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Expressão e cultura; 2000.         [ Links ]

2 Medeiros EC. Eu estava lá! Rio de Janeiro: Ágora da Ilha; 2001.         [ Links ]

3 Bourdieu P. O poder simbólico. Rio de Janeiro (RJ): Bertrand Brasil; 1998.         [ Links ]

4 Leite MR, Novelli Júnior RN. Marechal Eurico Gaspar Dutra: o dever da verdade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1983.         [ Links ]

5 Skidmore TE. Brasil: Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). 7a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1996.         [ Links ]

6 Gomes AMC.O Brasil republicano: sociedade e política (1930-1964). Tomo III. Rio de janeiro: Bertrand Brasil; 1997.         [ Links ]

7 D'araújo MC. As instituições brasileiras na Era Vargas. Rio de Janeiro: FGV; 1999.         [ Links ]

8 Carvalho JM. Vargas e os Militares: aprendiz de Feiticeiro. In: D'araújo MC, organizador. As instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: FGV; 1999. p.55-81.         [ Links ]

9 Fausto B. História do Brasil. 6a ed. São Paulo: EDUSP; 1999.         [ Links ]

10 Bourdieu P. Livre troca: diálogos entre ciência e arte. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 1995.         [ Links ]

11 Barreira IA. A prática da enfermeira no Brasil: a enfermeira de saúde pública nos anos 20. Texto Contexto Enferm. 1998 Jan-Abr; 7 (1):42-57.         [ Links ]

12 Bourdieu P. Un arte moyen: essai sur les usages sociaux de la photographie. Paris(France): Les Editions de Minuit; 1965.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Margarida Maria Rocha Bernardes
R. Barão de Itapagipe, 445, Ap. 901
20271-000 Tijuca, Rio de Janeiro, RJ
Email: margarbe@globo.com

Recebido em: 15 de maio de 2005
Aprovação final: 04 de novembro de 2005

 

 

1 Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FENF/UERJ)

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