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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707On-line version ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.26 no.3 Florianópolis  2017  Epub Sep 21, 2017

https://doi.org/10.1590/0104-07072017002720016 

Artigo Original

MEMÓRIAS REVELADAS: DISCURSOS DE ENFERMEIRAS VETERANAS SOBRE A SUA LUTA POR REINCLUSÃO NO CAMPO MILITAR1

MEMORIAS REVELADAS: DISCURSOS DE ENFERMERAS VETERANAS SOBRE SU LUCHA POR REINCLUSIÓN EN EL CAMPO MILITAR

Alexandre Barbosa de Oliveira2 

Margarida Maria Rocha Bernardes3 

Thais da Silva Kneodler4 

Mariane Bonfante Cesário Lourenço5 

2Doutor em Enfermagem. Professor do Departamento de Enfermagem Fundamental da EEAN/UFRJ. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: alexbaroli@gmail.com

3Doutora em Enfermagem. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Augusto Motta. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: margarbe@globo.com

4Mestre em Enfermagem. Enfermeira da Estratégia de Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: kneodlerthais@gmail.com

5Mestre em Enfermagem. Enfermeira da Estratégia de Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde de Embu das Artes. Embu das Artes, São Paulo, Brasil. E-mail: marianecesariotr@hotmail.com


RESUMO

Objetivo:

analisar os efeitos simbólicos da luta empreendida pelas integrantes do primeiro grupamento feminino de enfermagem das Forças Armadas brasileiras para serem reincluídas no Serviço Militar Ativo do Exército, após o término de suas atividades durante a Segunda Guerra Mundial.

Método:

pesquisa histórico-social cujas fontes constituíram-se de documentos escritos, orais e fotográficos. Os achados foram classificados, contextualizados e analisados em conformidade com o método histórico e à luz da Teoria do Mundo Social de Pierre Bourdieu e dos estudos de Michelle Perrot sobre a História das Mulheres.

Resultados:

a pesquisa demonstrou que os discursos destas enfermeiras, que atuaram no Teatro de Operações Italiano durante a guerra (1943-1945) e que foram reincorporadas ao Exército Brasileiro em 1957, apesar de reiterarem vocações e estereótipos sobre a prática de Enfermagem, trouxeram a lume os resquícios de uma luta propriamente simbólica pela conquista inédita de espaço, poder e prestígio para a profissão nesse campo culturalmente masculinizado.

Conclusão:

a reinclusão dessas enfermeiras no Serviço Militar Ativo do Exército serviu de fundamentação para a criação de novos corpos militarizados femininos no âmbito das Forças Armadas, a partir da década de 1980.

DESCRITORES: Enfermagem; História; História da enfermagem; Enfermagem militar; II Guerra mundial

RESUMEN

Objetivo:

analizar los efectos simbólicos de la lucha emprendida por las integrantes del primer grupo femenino de Enfermería de las Fuerzas Armadas brasileñas para ser re-incluidas en el Servicio Militar Activo del Ejército, después del término de sus actividades durante la Segunda Guerra Mundial.

Método:

investigación histórico-social cuyas fuentes se constituyeron de documentos escritos, orales y fotográficos. Los hallazgos fueron clasificados, contextualizados y analizados de acuerdo con el método histórico ya la luz de la Teoría del Mundo Social de Pierre Bourdieu y de los estudios de Michelle Perrot sobre la historia de las mujeres.

Resultados:

la investigación demostró que los discursos de estas enfermeras, que actuaron en el Teatro de Operaciones Italiano durante la guerra (1943-1945) y que fueron reincorporadas al Ejército Brasileño en 1957, a pesar de reiterar vocaciones y estereotipos sobre la práctica de Enfermería, Los restos de una lucha propiamente simbólica por la conquista inédita de espacio, poder y prestigio para la profesión en ese campo culturalmente masculinizado.

Conclusión:

la re-inclusión de esas enfermeras en el Servicio Militar Activo del Ejército sirvió de fundamentación para la creación de nuevos cuerpos militarizados femeninos en el ámbito de las Fuerzas Armadas, a partir de la década de 1980.

DESCRIPTORES: Enfermería; Historia; Historia de la enfermería; Enfermería militar; II Guerra mundial

ABSTRACT

Objective:

to analyze the symbolic effects of the struggle of the members of the first female nursing group of the Brazilian Armed Forces who were reinstated in the Active Army Military Service after the end of their activities during World War II.

Method:

historical-social research whose sources consisted of written, oral and photographic documents. The findings were classified, contextualized and analyzed according to the historical method according to Pierre Bourdieu’s Social World Theory and Michelle Perrot’s studies on the History of Women.

Results:

showed that the discourses of these nurses, who worked at the Italian Theater of Operations during the war (1943-1945) and who were reincorporated into the Brazilian Army in 1957, despite reiterating vocations and stereotypes about Nursing practice, highlighted the remnants of a symbolic struggle for the unprecedented conquest of space, power, and prestige for the profession in this culturally masculinized field.

Conclusion:

the reinstatement of these nurses in the Active Army Military Service served as a basis for the creation of new female military groupings within the Armed Forces starting in the 1980s.

DESCRIPTORS: Nursing; History; History of nursing; Military nursing; II World War

INTRODUÇÃO

No Brasil, durante as primeiras décadas do século XX, os discursos sobre a incorporação de mulheres nas Forças Armadas começaram a ganhar vulto, o que foi especialmente impulsionado pelo movimento feminista e pelas demandas sociais, políticas e sanitárias da época. Tal situação conseguiu maior concretude no bojo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com a criação do Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército em 1943, que incorporou voluntárias de várias partes do país. Essas enfermeiras atuaram junto ao Corpo de Saúde da Força Expedicionária Brasileira (FEB), tropa que contou com a participação de 25.334 cidadãos no esforço de guerra contra as potências nazifascistas.1,2

O trabalho de tais enfermeiras se deu no Teatro de Operações Italiano, nos hospitais de campanha dos Estados Unidos da América, a quem o Brasil se aliou durante o conflito, em um contexto onde o projeto norte-americano diplomático da Boa Vizinhança e do Pan-Americanismo estava ardilosamente articulado e propagado na América Latina.3

A partir de sua mobilização para a guerra em 1943, e de sua exclusão do estado efetivo do Exército logo após o término do conflito em 1945, essas enfermeiras passaram a desenvolver algumas estratégias particulares para a reinclusão neste campo. Assim é que alguns discursos públicos foram (re)produzidos por elas, no sentido de expressarem seus posicionamentos e ideias acerca da possibilidade de se ter mulheres enfermeiras incorporadas oficialmente ao Exército, a ponto de estarem em prontidão para o Serviço Militar Ativo.

No Brasil, o aproveitamento de mulheres em tempo de paz, para o exercício de funções técnicas (principalmente, de enfermagem) no campo militar, passou a ser alvo de alguns debates após a guerra, mas de modo restrito e discreto. Apesar dos contragostos e de um ou outro apoio verificados, o fato é que a figura-tipo de enfermeira militar, que se constituiu em um regime ditatorial, o Estado Novo (1937-1945), fundou as bases para o discurso de defesa da necessidade em se ter uma reserva com quadros femininos de Enfermagem em prontidão nas Forças Armadas; em contrapartida, apesar de constituída em uma ditadura, essa figura-tipo se faria instituída e legitimada somente em regime democrático.

Com base no exposto, traçamos o seguinte objetivo para o desenvolvimento deste estudo: analisar os efeitos simbólicos da luta empreendida pelas integrantes do primeiro grupamento feminino de enfermagem das Forças Armadas brasileiras para serem reincluídas no Serviço Militar Ativo do Exército, após o término de suas atividades durante a Segunda Guerra Mundial.

Este artigo vem contribuir com o aprofundamento da discussão sobre a trajetória singular dessas enfermeiras brasileiras veteranas, que se empenharam no uso de estratégias para garantir seu reaproveitamento em espaços militarizados, onde, de certa forma, sua presença foi requerida e algo viável nos tempos de guerra, mas indesejada e considerada até como vulgar nos tempos de paz e de redemocratização do país.

Outrossim, a resistência identificada nos ditos e escritos dessas primeiras enfermeiras militares é uma marca que as distingue na história da enfermagem do país, mas também que se coaduna com certas lutas as quais diversas mulheres enfermeiras tiveram de enfrentar e, guardadas as devidas proporções, ainda enfrentam. Tais lutas tendem a se adensar nos espaços em que a dominação masculina é prática cotidiana e inculcada como natural. Neste comenos, destacamos aqui os espaços militarizados, zonas onde a narrativa masculina ocupa lugar central comumente.

MÉTODO

Trata-se de estudo de cunho histórico-social que, por seu turno, compreende a análise de grupos humanos em um determinado espaço geográfico e temporal, e de sua dinâmica social e institucional, como também de suas tradições, valores, rituais e relações com os diferentes grupos e espaços sociais.4

As fontes históricas foram coletadas no período de janeiro de 2009 a outubro de 2010, sendo constituídas de documentos escritos localizados na Biblioteca Nacional, Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery, Casa de Oswaldo Cruz - Fundação Oswaldo Cruz (Fundo Virgínia Portocarrero), Arquivo Histórico do Exército Brasileiro, Academia Brasileira de Medicina Militar e Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, instituições localizadas na Cidade do Rio de Janeiro. Também foram utilizados livros de memórias, fotografias e entrevistas com enfermeiras veteranas que participaram da FEB e, ainda, referências bibliográficas com conteúdos afins à temática. Os achados foram classificados, contextualizados, avaliados criticamente e tratados em conformidade com o método histórico.

Para tal, a análise dos dados pautou-se no uso das técnicas de análise documental, de análise fotográfica, bem como de história oral temática. Em especial, também utilizou-se a técnica de análise de discurso, a partir da qual se buscaram investigar, nos discursos das enfermeiras veteranas contidos nas fontes selecionadas, elementos simbólicos definidores das circunstâncias em que tais discursos foram produzidos. Com efeito, é também nos enunciados que se evidenciam os instrumentos de simbolização e de eternização da memória dos grupos, a qual traz para o tempo presente reflexos de experiências pretéritas, marcadas por ideologias, lutas e relações de poder, conservando em sua materialidade os efeitos simbólicos que atingem os sujeitos.5

As reflexões e a triangulação dos dados foram balizadas por conceitos da Teoria do Mundo Social, do sociólogo Pierre Bourdieu, e pelos estudos sobre a História das Mulheres da historiadora Michelle Perrot, os quais serviram de sustentação teórica para satisfazer o processamento da discussão e síntese apresentada.

O projeto de doutorado de que derivou este estudo foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery e Hospital Escola São Francisco de Assis (Protocolo n. 68; CAAE n. 212481). Os aspectos ético-legais foram cuidadosamente considerados, inclusive os relacionados à Resolução 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde, e à Lei Federal 7.524/1986, que dispõe sobre a manifestação, por militar inativo, de pensamento e opinião políticos ou filosóficos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Rupturas e reafirmações dos limites das mulheres enfermeiras no campo militar em meados do século XX

Em seu processo histórico, a enfermagem foi recorrentemente requerida nas situações de guerra. A prática do cuidado em meio ao caos dos conflitos bélicos bem sustentou o argumento de sua necessidade, o que promoveu a imagem pública da enfermeira empenhada em causas patrióticas. De fato, é praticamente lugar-comum da literatura e do discurso político a noção de que as guerras (destacadamente a Segunda Mundial) alteraram radicalmente as relações entre os sexos e conferiram novas práticas, representações e poderes às mulheres.6-7

Assim é que, no Brasil, durante o regime ditatorial do Estado Novo (1937-1945), as circunstâncias sociopolíticas favoreceram a mobilização de mulheres para, como enfermeiras, auxiliarem nas necessidades de cuidado às vítimas da guerra, o que contribuiu para a divulgação de um modelo de profissional respaldado em aspectos religiosos e militares.

Nesse sentido, os atributos intrínsecos à natureza feminina e moralmente necessários ao cuidado do ser humano, ao mesmo tempo em que reafirmavam as oposições fundantes da ordem simbólica através da dicotomia entre o masculino e o feminino, contribuíam para a construção de uma representação exemplar da mulher no espaço público mediante a expressão de qualidades dignificantes da imagem feminina, fato o qual pode ser configurado como signos de uma cultura estruturada pela dominação masculina.8

Nesse ínterim, surgiu a primeira iniciativa oficial de criação de um grupamento feminino de enfermeiras para ser incorporado ao Exército, com o intuito de se prestar auxílio de saúde aos cidadãos que resolvessem atender à mobilização do país para combaterem incorporados à FEB contra o nazifascismo. Além disso, tal grupamento buscava atender à demanda das enfermeiras norte-americanas as quais se diziam exaustas o bastante para receberem mais soldados de tropas de exércitos aliados nos hospitais de campanha dos Estados Unidos da América, o que provavelmente foi influenciado pelo preconceito racial e pelas segregações étnicas no próprio recrutamento militar desse país naquele contexto, inclusive no tocante às demandas de cuidado dirigido a soldados de origem latina.9-10

Por conseguinte, em 13 de dezembro de 1943 foi assinado o Decreto-Lei 6.097, que criou o Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército. Em seguida, voluntárias de todas as partes do Brasil solteiras, viúvas, separadas e com os cursos mais diversos na área de enfermagem, foram convocadas às pressas para realizarem o Curso de Emergência de Enfermeiras do Exército, que as habilitariam para atuação nos hospitais de campanha.11

Dentre as voluntárias inscritas nesse curso, foram selecionadas para rumarem à guerra apenas 67, das quais seis eram profissionais: do Rio de Janeiro, três pela Escola de Enfermagem Anna Nery, uma pela Escola de Enfermeiras da Cruz Vermelha Brasileira, uma pela Escola Profissional de Enfermeiras Alfredo Pinto, e mais uma pela Escola de Enfermagem de São Paulo. Com o Curso de Samaritanas da Cruz Vermelha Brasileira, uma espécie de supletivo de enfermagem com duração de um ano, 16 foram incorporadas. A grande maioria, 42, eram voluntárias socorristas, formadas através de cursos intensivos de apenas três meses, organizados pela Cruz Vermelha Brasileira em outros Estados da federação. Não foi identificada a formação de três delas.9,11

À época, o número de enfermeiras profissionais no país era bastante precário. Para agravar a situação, a Escola Anna Nery, procurada pelo Chefe de Saúde do Exército para organizar o Quadro de Enfermeiras, não aceitou as condições precárias impostas pelo Exército Brasileiro, as quais diziam respeito ao pagamento insuficiente e ao não acesso a postos na hierarquia militar. Por isso, o Exército teve de aceitar diplomas tão diferenciados.

Não obstante, apesar de sua heterogeneidade quanto ao tipo e qualidade de formação, a aparição desse grupamento serviu para reforçar os moldes da metáfora da “Pátria-Mãe”, a qual promoveu a transposição dos valores imagéticos da vocação feminilizante da mulher do seio familiar para o recrutamento de enfermeiras-soldado. Tal ideação foi alvo de publicações na imprensa, que enalteciam a figura feminina para os esforços de guerra na tentativa de modular a produção da opinião e do julgamento dos brasileiros, o que, de certa forma, acabou por valorizar simbolicamente as enfermeiras que se apresentavam como voluntárias. Por certo, o discurso patriótico conjugado com a propaganda e a imprensa a serviço do regime do Estado Novo predispôs razoável parcela de jovens a aceitar, ou mesmo a desejar, participar das fileiras das Forças Armadas naquele contexto.

Em geral, as enfermeiras que comporiam esse grupamento de enfermeiras do Exército empenharam-se na construção de uma identidade coletiva favorável e, com isso, conseguiram acumular capital simbólico ao mostrarem-se aparentemente uníssonas em seus discursos altruístas e esforçadas em honrarem a tradição e a memória da profissão de enfermagem, mas também atentas à construção de suas próprias reminiscências.

O texto a seguir, escrito por Olímpia de Araújo Camerino em 1944, uma das líderes do grupamento, reforça tal ilação: “[...] neste instante vibrante da nossa História, em que o Corpo Expedicionário hasteia as bandeiras gloriosas da desafronta rumo ao inimigo, lá em Berlim onde ele se encastela, no delírio do crime e no desvario do ódio, da destruição e do obscurantismo, ergue a mulher brasileira, na afirmação solene de marchar ao lado dos soldados de Caxias, tal como Anna Nery nas batalhas do passado [...]. Aqui estamos envergando a farda de enfermeiras expedicionárias para ir além, afrontando os perigos da guerra, partilhar a glória de também lutar pelo Brasil. Não é a aventura que nos seduz [...].

Não é a vaidade que nos entusiasma: mais profunda é a voz da nossa consciência, e mais serena e perfeita é a convicção do nosso dever. Em defesa do lar, [...] aqui estamos, aqui está a mulher brasileira, de vigília.”12:29-31

Desse trecho, há o registro zeloso de reverência à Anna Justina Ferreira Nery. Essa figura legendária da profissão, por ter representado altruisticamente a imagem da Mãe-Pátria durante a Guerra do Paraguai, foi exemplo ao qual as enfermeiras da FEB precisavam se enquadrar durante o processo de encarnação de um habitus de enfermeira de guerra. Coincidência ou não, até o dia e o mês da data de promulgação do decreto-lei que criou o Quadro de Enfermeiras do Exército foram os mesmos da data de nascimento de Anna Nery, o que talvez já demonstrasse alguma intenção simbólica do próprio Exército em fazer com que as enfermeiras se apropriassem de uma marca positiva, que melhor pudesse distingui-las e legitimá-las no campo social.

Ademais, os discursos idealizados, construídos para produzir representações e imagens proveitosas de um dado grupo, têm um papel importante para a existência e subsistência do próprio grupo ao manifestarem valorações essenciais para a confirmação de que a existência deste serve para alguma coisa. Com essa espécie de trabalho simbólico, as enfermeiras que se viam como detentoras do poder de falar em nome do grupo esforçavam-se para consagrá-lo, reunindo palavras, de certo modo, eficazes para se fazerem bem reconhecidas nesse projeto de mobilização para a guerra e de defesa da Pátria.

A despeito de todo o investimento feito, onde aqui se destaca o discursal, a opção aparentemente excêntrica dessas mulheres em se alinharem a um conflito bélico de grandes proporções junto aos homens do Exército não chegou a ser bem aceita à época, tanto pelas suas famílias e sociedade quanto pelo próprio campo militar. Culturalmente, este sempre havia se feito reconhecer como um espaço masculinizado, onde se buscava a incorporação de comportamentos sustentados pela imposição de certas restrições, visíveis e invisíveis, através de normas rígidas, fortalecidas pelas ideias pilares de tradição, disciplina e hierarquia.

Não obstante, após embarcarem com frações do efetivo da FEB, elas tiveram como destino final a Itália fascista. Lá, atuaram em diversos hospitais do V Exército norte-americano, ocasião na qual, em contrapartida, obtiveram algumas vantagens ao adquirirem certas competências profissionais, uma vez que elas passaram a ter contato direto e contínuo com o moderno serviço de saúde militar dos Estados Unidos da América. Tal situação viabilizou a atualização de seu habitus e promoveu lucros para seu capital social, profissional e militar.

Apesar da surpreendente e vitoriosa atuação durante o conflito, a FEB foi desmobilizada pelo governo federal logo ao fim da guerra, inclusive as enfermeiras. Essa ação trouxe embutida a consolidação da exclusão dessas mulheres do Exército, pois, a princípio, enfermeiras de guerra mobilizadas não seriam mais necessárias em um mundo recém-pacificado. Assim, elas passaram a estar privadas dos títulos e representações de outrora: de oficiais do Exército, de enfermeiras de guerra, de mulheres militares. Decerto, tal ato viria a reafirmar a ordem previamente estabelecida no campo militar sobre a divisão sexual do trabalho. Seu “novo” destino seria o lar, para retomarem as funções advindas do universo feminino.

Sobre tal espectro, tem-se o simbolismo envolvendo a atuação da própria Anna Nery na Guerra do Paraguai (1864-1870), que, após o término do conflito, foi cognominada “mãe dos brasileiros” pelo Instituto Histórico e Geográfico. Dessa forma é que as guerras reiteram as representações mais tradicionais e simbólicas das diferenças entre os sexos. De qualquer forma, a atuação dessas enfermeiras brasileiras ampliou a visibilidade e possibilidades femininas nos espaços públicos/militarizados.

Nesse sentido, cabe ressaltar que os campos não são espaços de horizontalidade, mas de verticalidade, ou seja, de hierarquias que determinam como e em que circunstâncias os agentes podem atuar no sentido de proporcionar mudanças ou favorecer a manutenção do status quo. Assim, cada agente é dotado de determinado capital, que é crucial na determinação do seu peso diante dos outros agentes.13 Portanto, em meados do século XX, alguns limites foram reafirmados, outros rompidos, ou ao menos alterados, especialmente os existentes entre homens e mulheres no campo militar, no Brasil.

“O que falar quer dizer”: a guerra das palavras das enfermeiras de guerra

Se a relação de enfermeiras com os exércitos foi possível e até requerida durante as guerras, o mesmo não ocorreu com tanta semelhança quando a questão era a incorporação de segmentos femininos de enfermagem nas corporações militares, em tempos de paz. Mesmo porque, de modo corriqueiro, as brechas abertas pelas guerras são rapidamente fechadas quando volta a paz, sobretudo no que se refere ao trabalho e aos papéis privados.7

Diante disso, as enfermeiras da FEB, ora compreendidas em um contexto político-social no país diferente do da guerra, de redemocratização e pacificação, passaram a adotar uma série de medidas estratégicas em diversas oportunidades, em um novo front que objetivaria sua reinclusão no Serviço Militar Ativo do Exército, no pós-guerra.

Assim, o capital social representado pelas alianças com militares de alta patente, eclesiásticos, oficiais médicos, políticos influentes, associações de ex-combatentes, a presença persistente delas em solenidades e congressos militares e, inclusive, a publicação de entrevistas e textos seus, tudo isso serviu de fortaleza para se tentar esmaecer o ceticismo que, a princípio, moldaria a ideia do reaproveitamento dessas enfermeiras veteranas pelo Exército.

No pós-guerra imediato, as primeiras conquistas de direitos e benefícios obtidos pelas enfermeiras da FEB se deram por intermédio de alianças com os expedicionários desmobilizados, que primavam em manter uma política conservadora de não enfrentamento do Estado.14 Um exemplo foi a publicação do Aviso Ministerial 1.052 em 15 de agosto de 1946, que chegou a ser noticiado no mês seguinte por meio de uma nota da revista Anais de Enfermagem (atual Revista Brasileira de Enfermagem), nos seguintes termos: “tendo em vista os serviços prestados pelas enfermeiras que serviram na FEB, o ministro Góis Monteiro encareceu a todas as autoridades administrativas do Serviço de Saúde do Exército a conveniência de se dar preferência a essas enfermeiras, no caso de nomeações para as vagas que se derem nos hospitais militares e repartições congêneres”.

Este encarecimento, por meio do qual as enfermeiras da FEB poderiam ser contratadas como “civis” pelo Exército, foi qualificado como um ato de justiça pelo jornal Correio da Noite, em 29 de agosto de 1946, que publicou algumas palavras em deferência a elas, mas também justapôs os papéis de cada sexo nos espaços militarizados: “[...] as brasileiras que abandonaram o lar, a vida tranquila para acompanhar a trajetória heroica da FEB, revelaram o mesmo heroísmo e a mesma bravura dos pracinhas [...]. E foram nos hospitais de sangue, nas horas de sofrimento e desespero, uma presença de ternura, de bondade e de carinho [...]. Deve-lhes a Pátria uma compensação. A mais justa e a mais lógica é essa que vem de ser determinada pelo ilustre ministro da Guerra. E a mais doce, também ao coração das enfermeiras brasileiras; porque, nesse gesto, elas encontram um reflexo de sua feminina doçura, impregnando de galanteria e de máscula gratidão e altivez da alma do soldado”.12:99

Entretanto, a contratação em questão não foi objeto de aspiração para a maior parte das enfermeiras da FEB, muito provavelmente pelo salário pouco atrativo e pela posição hierárquica algo desvantajosa que assumiriam no Serviço de Saúde do Exército. Isso porque, na condição de civis contratadas, estariam sob as ordens dos sargentos-enfermeiros, os quais, inclusive, foram seus subordinados hierárquicos nos hospitais de campanha durante a guerra e que realizaram os serviços considerados mais simples, pesados e arriscados.

O próximo trecho, extraído de entrevista com uma das enfermeiras veteranas da FEB, bem rememora essa situação:

[...] aquelas que se sujeitaram, por não terem emprego, foram trabalhar como civis nos hospitais do Exército. Eu não! Como contratada eu não iria nunca! Eu não passaria de cisne a pato! Como é que eu, que tinha sido chefe de Enfermagem [na guerra], iria trabalhar sob as ordens de sargentos que tinham sido meus subordinados?! Não era possível uma coisa dessas! [...] (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros).

A metáfora contida nessa fala performática aciona simbolicamente a distinção social das partes dominantes e dominadas que está em jogo em um campo, ao tempo que vincula diferenças biológicas (pato/cisne) com diferenças sociais (sargento/oficial), na tentativa de regular quem é quem nos jogos sociais. Tal julgamento explícito pode ser entendido como um meio de reafirmar uma vinculação social, determinada pelo acúmulo de bens simbólicos nas estruturas do pensamento e da expressão da entrevistada. Parte dessa necessidade de afirmação advém da constituição de seu habitus, através do qual os indivíduos elaboram suas trajetórias e asseguram a reprodução social, que não pode se realizar sem a ação dos agentes e das instituições, de modo a preservar as funções sociais pela violência simbólica exercida sobre os indivíduos e com a adesão deles.

Desse modo, seu discurso faz ver e valer seu julgamento, que condiciona e violenta simbolicamente aquele nomeado como “pato”. Aqui, o pato, animal com pouca amplitude de voo, andar lento e desajeitado, popularmente identificado como mau jogador, é desvantajosamente contrastado com o cisne, reconhecido como ótimo voador, que percorre grandes distâncias em suas migrações, esteticamente belo, gracioso, garboso, e figurativamente identificado como poeta, orador, músico célebre. Assim é que, na luta por distinção e apropriação de uma identidade legítima, e no âmbito das hierarquias de poder estabelecidas entre os agentes no interior de um determinado campo, há uma tendência permanente de se classificar, de se desclassificar e de se reclassificar as posições que eles ocupam no tempo e no espaço, consoante com o capital que conseguem acumular.

Entretanto, há que se considerar que a contratação de algumas enfermeiras da FEB para o Serviço de Saúde do Exército, na condição de civis, serviu para intensificar um pouco a força simbólica do grupo quando tornou mais constante a interação funcional delas com os militares da ativa. O trecho a seguir ajuda a adensar essa ideia:

[...] com a chegada das civis contratadas é que começou o movimento. [...] todo mundo queria voltar à ativa, mas a campanha contra a gente era grande [...] (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros).

O embuste de terem sido enfermeiras de guerra seria bem aplicado também à palavra pública. Sobre isso, merece especial destaque o texto escrito por Bertha Moraes intitulado “Testemunho de uma enfermeira”, o qual foi incluso no polêmico livro “Depoimento dos oficiais da reserva sôbre a FEB”, publicado em 1949. Essa obra enfrentou sérias dificuldades para ser distribuída por conter duras críticas ao governo federal e ao Exército da época e, sobretudo, à atuação dos comandantes da FEB na guerra. Praticamente todos os depoimentos contidos no livro se empenham em apontar problemas dos mais variados tipos e proporções, assumindo-se uma postura crítica raramente encontrada nas memórias dos ex-combatentes brasileiros, contradizendo, em vários aspectos, o discurso oficial a respeito da FEB.

Especificamente sobre o seu discurso, Bertha Moraes manifesta parte do descontentamento das enfermeiras que participaram da FEB quando denuncia abertamente os conflitos, contradições e dissabores da experiência que tiveram na guerra, além de tentar reduzir um pouco o silêncio e abrandar seu esquecimento no pós-guerra imediato.

Única mulher no corpo de autores desse livro, Bertha surpreende, em seu texto, indícios de que o tempo passado no Exército teria sido praticamente perdido, sem estímulos, de muitos sacrifícios, “sem nenhuma paga, a não ser a consciência do dever cumprido”.15:418 Em suas reflexões, ela afronta as autoridades militares da época, as quais culpabilizou pela falta de iniciativa em favorecer o aproveitamento de mulheres enfermeiras nos quadros das Forças Armadas. São indagações suas: “[...] por que as autoridades militares não tratam de organizar imediatamente um quadro de enfermeiras profissionais e de comprovada competência? Por que não existe uma Escola de enfermeiras militares, como existe uma Escola de Saúde para os médicos e sargentos enfermeiros? Por que não cercar desde logo de todos os estímulos morais e materiais, dando-lhes o lugar que compete na hierarquia militar, às enfermeiras?”15:419

Como se fez notável em seus discursos, as veteranas defendiam a participação permanente de mulheres no campo militar. Contudo, estes mesmos discursos não chegaram a referendar com clareza seus esforços e propostas para a paz. Mais que isso, elas cobravam uma posição adiantada dos chefes de um Exército despreparado de um país ainda atrasado militarmente, quando pleiteavam sua proteção com salários e garantias em tempo de paz.

Ao fim, a enfermeira encerra seu testemunho com uma recomendação: “[...] e nunca mais se diga que a zona de combate não é lugar para mulher! Venham ver o que uma enfermeira pode fazer de bom e milagroso a um homem ferido! Muitas e muitas vezes, uma mão carinhosa sobre uma testa escaldante, um lençol bem esticado, um sorriso, uma face de mulher fazem mais pelo ferido.”15:419

A análise das entrelinhas dessa recomendação exibe a visão idealizada sobre a valoração feminina nos tempos de guerra à época. Tal clamor evocou, pois, o que há de simbólico no trabalho de Enfermagem nos conflitos, a ideia do compromisso humanitário e dos sentimentos de abnegação, carinho, amabilidade, espírito missionário, prontidão, como elementos morais imprescindíveis para a sua boa prática. Mas, no âmago desse tipo de discurso, tais atributos femininos tendem a estereotipar o próprio exercício da profissão. Aliás, o texto de Bertha Moraes apropria e aproveita um discurso masculino em uma causa feminina, o que, de certo modo, concorre com a promoção da manutenção simbólica da ordem estabelecida.

Destarte, as mulheres enfermeiras abordadas aqui (re)produziam discursos os quais ratificavam as diferenças entre os sexos, o que significa dizer que seus discursos não consideravam necessariamente o êxito do feminismo como evidente, mas a fala delas corrobora uma submissão ao desejo, regras ou funções impostas por outros, pois retratam constantemente os estigmas sobre as mulheres. Os poucos textos que produziram no pós-guerra reduzem as condutas femininas a simples exemplos, conscientes ou não, voluntariamente ou não, dos efeitos da dominação de uma cultura dominada pelos homens. Ao pleitear um lugar para a mulher na “zona de combate”, por exemplo, Bertha Moraes manifesta também uma inquietação diante da evocação de um “feminismo” não efetivamente integrado ao mundo político.

Outrossim, no plano legal, a própria constituição brasileira de 1946, reconhecida por ser democrática e progressista para aquela época, demarcara bem os limites das mulheres quando o tema era o Serviço Militar, apesar de registrar a igualdade de todos os cidadãos, o que pode ser atestado no seu artigo 181: “todos os brasileiros são obrigados ao Serviço Militar ou a outros encargos necessários à defesa da Pátria, nos termos e sob as penas da lei. As mulheres ficam isentadas do Serviço Militar, mas sujeitas aos encargos que a lei estabelecer.”

Nessa forma, a distinção entre os sexos no militarismo nacional à época tinha amparo nas prescrições legais, mas também em bases socioculturais. Aliás, o campo militar se fez reconhecer por meio de seus mitos masculinizados, de suas atividades de alto risco de vida e de sujeição aos preceitos rígidos de hierarquia, dedicação, prontidão e vigor físico. Ao menos em nossa civilização ocidental, o esforço físico sustentado, a prática de uma devoção ascética e de uma disciplina rigorosa, a coragem obstinada e até certo gosto pela violência quase sempre foram qualidades propriamente mais masculinas do que femininas.16

Essa demarcação do que seja função “de macho” foi o que, em diferentes épocas, constituiu-se em justificativa, quase que irrecusável, para não se aceitar mulheres nas corporações militares do país. Na intolerância quanto à natureza biológica feminina se expressa uma visão da mulher como “sexo frágil”, contribuindo para a reprodução dos valores masculinos na socialização das mulheres as quais ousassem a pensar em transpor os muros dos quartéis. Com isso, reforçou-se o discurso da incompatibilidade feminina com os valores atribuídos ao conceito de “ser militar”. Dessa forma, permitiu-se que houvesse uma socialização do biológico e uma biologização do social, o que mascarou, mas também consagrou, a divisão dos gêneros nas organizações militares.7,16

Assim é que os princípios da utilização da mulher nos exércitos ocidentais priorizaram as funções à retaguarda, sem formação prévia ou quase sem ela, para liberar a mão de obra masculina necessária ao front.17-18 Logo, envidou-se o esforço de recrutamento para os domínios onde as mulheres poderiam prestar melhores serviços, o mais cedo possível. De certo modo, a enfermagem representou a primeira atividade que deu prova de sua capacidade de adaptação e atendimento às necessidades patrióticas, políticas e dos exércitos, fato o qual fundamentou os pleitos das enfermeiras da FEB para a conquista de seus proclamados direitos.

Nesse processo, os jogos sociais incorporaram-se aos jogos políticos, estratégia que lhes renderia certos ganhos. Desse modo, a partir do ano de 1947, algumas proposições para a concessão de benefícios às veteranas passaram a ser apresentadas à Câmara dos Deputados, dentre elas o Projeto de Lei 3.832/1953 pelo deputado Fernando Ferrari, cuja ementa foi: “[...] regula o aproveitamento, no Serviço Ativo do Exército, das enfermeiras que integraram a FEB, no Teatro de Operações da Itália”. No texto da justificação que apresentou o parlamentar fez-se constar o seguinte: “como é notório, nossas patrícias prestaram excelentes serviços profissionais durante as operações de guerra, excedendo-se em carinho e elevado espírito de solidariedade, o que foi atestado pelos chefes do Serviço de Saúde da FEB, assim como pelos comandantes norte-americanos. Eis porque, decorrido algum tempo, após o término da II Guerra, impõe-se a necessidade de ser examinada a atual situação dessas patrícias, muitas exercendo funções da especialidade, em repartições públicas e outras como burocratas.”19

Mais uma vez o sentimento patriótico arrebatado dos tempos de guerra era trazido em interesse das enfermeiras da FEB. Na guerra das palavras, o próprio deputado tomou como referência o capital simbólico acumulado por elas, prefaciando o prestígio do grupo. Assim, as estratégias simbólicas, por intermédio das quais os agentes procuram impor a sua visão das divisões do mundo social e da sua posição nesse mundo, refletem o poder simbólico característico da nomeação oficial: “ato de imposição simbólica que tem a seu favor toda a força do coletivo, do consenso, do senso comum, porque ela é operada por um mandatário do Estado, detentor do monopólio da violência simbólica legítima.”13:146

Com efeito, as alianças das enfermeiras com agentes que ocupavam posições prestigiosas garantiram a sobrevivência de seus pleitos não apenas em cenários políticos, mas também em espaços acadêmicos. Como exemplo disso, durante o 1º Congresso Brasileiro de Medicina Militar, que se realizou na Cidade de São Paulo, em julho de 1954, sob os auspícios da Academia Brasileira de Medicina Militar, foi apresentado um trabalho com o sugestivo título “Cooperação das enfermeiras na última guerra: necessidade de criação de um quadro permanente de enfermeiras militares nas Forças Armadas”, de autoria das enfermeiras veteranas Olímpia de Araújo Camerino e Jacyra de Souza Góes.

O texto resumiu a história da criação do Quadro de Enfermeiras do Exército no Brasil, congregando aspectos do voluntariado e treinamento, da nomeação como oficiais, do cotidiano dificultoso nos hospitais de campanha, do trabalho técnico desenvolvido, da desmobilização do grupo após a guerra e da necessidade de criação de um quadro permanente de enfermeiras militares nas Forças Armadas. Como recomendações, elas fizeram alguns ajuizamentos sobre o papel da Enfermagem nas guerras: “[...] a excelência de um corpo de enfermeiras, a organização admirável dessa máquina de eficiência hospitalar, é um dos mais importantes problemas na assistência ao ferido de guerra. Para desempenho da Enfermagem, em um hospital de sangue, não é bastante ser técnica. A enfermeira deve possuir habilidade, iniciativa e principalmente, senso de responsabilidade [...]. É ainda mister da enfermeira cuidar da parte psicológica do doente: confortá-lo, animá-lo e levantar sua moral. Se a vida da enfermeira é, em todos os tempos, uma vida de sacrifício, em tempos de guerra, é ela ainda mais cheia de desprendimento, altruísmo e amor ao próximo. Como soldado da caridade é a sentinela invariável a velar pelo doente. Seu lema é ser boa e caridosa, seu tirocínio é acompanhar o sofrimento. Só ela pode dar ou retirar a esperança. Em um hospital de sangue, mais sublime é a sua coragem, mais real o seu valor.”20:574-5

Do trecho em destaque, além de reproduzirem atributos do trabalho das enfermeiras de guerra, as autoras se dizem os “soldados da caridade”, na tentativa de atribuir um lugar e uma condição particular às enfermeiras mulheres nos cenários militares.21 Essas são representações do imaginário privado reproduzidas na palavra pública, que alimentam mesmo a dominação masculina. Em contrapartida, o discurso estereotipado não deixou de ser uma estratégia delas, onde estava embutida a necessidade da dissimulação: de ser carinhosa, amorosa, boa e caridosa. Nessa perspectiva, o discurso performativo, que enaltece o papel funcional da mulher, destaca uma forma legítima de garantir-lhe reconhecimento. Ademais, a razoável visibilidade da qual gozou este trabalho, ao estar publicado na íntegra nos anais desse evento internacional, também serviu de estratégia para propagar ideias que objetivavam a reinclusão das veteranas no Serviço Militar Ativo do Exército Brasileiro.

Foi consenso nas falas das enfermeiras veteranas entrevistadas que Olímpia Camerino era porta-voz autorizada no processo de reinclusão delas no Serviço Ativo do Exército e que gozava de prestígio entre os chefes militares, como pode ser atestado na fotografia:

Fonte: Tese “Enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira no front do pós-guerra: o processo de reinclusão no Serviço Militar Ativo do Exército (1945-1957)”, EEAN-UFRJ, 2010.

Figura 1 Ritual durante o 1º Congresso Brasileiro de Medicina Militar. São Paulo, 1954. 

A fotografia registra um momento solene no âmbito daquele congresso. A relevância desse registro encontra justificativa por ter congelado a imagem da enfermeira Olímpia Camerino (em destaque) entre várias autoridades civis e do alto escalão das Forças Armadas, em uma posição socialmente distinta para uma mulher naquele cenário e ocasião, o que atesta sua boa rede de relações (capital social) e de prestígio (capital simbólico) no Exército.

No texto fotográfico, a presença feminina solitária chama a atenção, pois o sistema mítico-ritualístico do Exército tende a ratificar e a ampliar os princípios da inferioridade e da exclusão da mulher dos espaços e ocasiões mais nobres. Além disso, o discurso representativo que emana desta foto demonstra a persistência das enfermeiras veteranas para fazerem circular publicamente suas ideias e intentos sobre a almejada reinclusão no campo militar.

Enfim, as articulações delas com generais e parlamentares influentes renderiam os lucros pretendidos. Assim é que o projeto de lei apresentado em 1953, de autoria do deputado Fernando Ferrari,19 conseguiria dar origem à Lei 3.160, de 1º de junho de 1957, a qual as incluiu em definitivo no Serviço Militar Ativo do Exército Brasileiro. Desse modo, elas tiveram sua permanência assegurada na Força após um período de 12 anos de afastamento do Serviço após a guerra e passaram a gozar dos direitos, vantagens e regalias inerentes aos oficiais da ativa, ocasião em que foram distribuídas por diversas organizações militares de saúde do Exército espalhadas pelo país. Das 67 veteranas, 44 requisitaram retorno para a Força.22

Embora a base legal para a admissão de enfermeiras no campo do Exército Brasileiro (em tempo de guerra) tenha sido estabelecida oportunamente em um período autoritário e ditatorial, durante o Estado Novo comandado pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas, a reinclusão efetiva deste grupamento feminino (em tempo de paz) ocorreria somente após a redemocratização do país, em um contexto desenvolvimentista e de evolução da atividade intelectual, na gestão do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Como foram destacadas, as mostras discursais do senso de pertença das enfermeiras da FEB ao campo militar reforçam a noção de que elas estavam dispostas a reocupar suas posições nesse cenário. No pós-guerra, a persistência estratégica de suas presenças em diversas ocasiões e circunstâncias evoca os resquícios de uma luta pretérita, a qual tentou colocar em evidência a ideia da viabilidade e necessidade de se ter mulheres enfermeiras para o cuidado nos hospitais militares, mesmo em tempo de paz.

Aliás, como pontua a historiadora das mulheres, Michelle Perrot, “a guerra é, em suma, geradora de frustrações, na medida em que ela fecha as saídas que se entreabriram ou que ela mesma abrira. Assim, ela contribui para aumentar a tensão entre os sexos, a consciência que cada um deles tem de si mesmo. A longo prazo, ela estimula o feminismo futuro”.7:446

CONCLUSÃO

A mobilização para a Segunda Guerra Mundial favoreceu a incorporação de mulheres enfermeiras através de um apelo patriótico que trazia em seu bojo não somente as valorações da prática de enfermagem, como também as ideias sobre a divisão hierarquizante do mundo social em masculino e feminino. Tal mobilização ainda oportunizou que essas mesmas enfermeiras, no pós-guerra, viessem a transgredir os estatutos, prescrições e culturas do campo militar, quando passariam a pleitear espaço e poder nesse cenário masculinizado. Para isso, elas (re)produziram discursos que buscaram atestar e tornar reconhecida a existência de seu grupo, mediados pela articulação dos capitais social, profissional, militar e simbólico que conseguiram acumular.

Assim, através do efeito de demonstração de percepções e apreciações atualizadas sobre elas mesmas, as veteranas da FEB conquistaram sua reinclusão no Serviço Militar Ativo do Exército na qualidade de oficiais enfermeiras em meados da década de 1950, por meio de uma lei federal, fato inédito e emblemático na história das mulheres brasileiras até então.

Neste estudo foram revelados certos sentidos dos discursos singulares de enfermeiras de guerra, que auxiliaram na materialização simbólica de suas memórias históricas e sociais induzidas ao esquecimento. Ao mesmo tempo, registrou-se uma luta pretérita dessas mulheres veteranas enquanto sujeitos históricos, agentes de seu tempo, que acabaram por forjar e promover a imagem pública da enfermeira militar no Brasil e que encetaram a discussão política de consciência de gênero para a incorporação futura de novas mulheres às Forças Armadas, fato o qual somente foi levado a termo a partir da década de 1980 com o novo movimento de redemocratização do país.

1Artigo resultante da tese - Enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira no front do pós-guerra: o processo de reinclusão no Serviço Militar Ativo do Exército (1945-1957), apresentada ao Programa de Pós-graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2010.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras) da Escola de Enfermagem Anna Nery e das enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira Elza Cansanção Medeiros (in memoriam), Virgínia Leite (in memoriam), Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero, Carlota Mello e Roselys Belém Teixeira, para o desenvolvimento desta pesquisa.

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Recebido: 21 de Julho de 2016; Aceito: 06 de Abril de 2017

Correspondência: Alexandre Barbosa de Oliveira, Rua Afonso Cavalcanti, 275, 20211-130 - Cidade Nova, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: alexbaroli@gmail.com

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