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Saúde e Sociedade

versão impressa ISSN 0104-1290

Saude soc. vol.23 no.4 São Paulo out./dez. 2014

https://doi.org/10.1590/S0104-12902014000400200 

Editorial Especial

Geografia da saúde no cruzamento de saberes

Helena Ribeiro, Editora Científica

1Professora Titular do Departamento de Saúde Ambiental. Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. E-mail: lena@usp.br


O dossiê de artigos em Geografia da Saúde é um dos resultados do I Congresso de Geografia da Saúde dos Países de Língua Portuguesa (Geosaúde 2014), realizado na Universidade de Coimbra, em Portugal, no primeiro semestre de 2014. O tema do Congresso foi a Geografia da Saúde no Cruzamento dos Saberes, numa lógica de abrangência de múltiplas dimensões. O congresso reuniu investigadores de diferentes áreas do saber que têm contribuído para a reorientacão da agenda da saúde, conforme informa o preâmbulo dos anais.

A Geografia da Saúde é, ao mesmo tempo, uma forma de se estudar a saúde muito antiga e muito atual. As relações entre a Geografia e as condições de saúde e doenca são múltiplas, envolvendo dimensões sociais, ambientais, políticas, humanas, comportamentais, culturais, históricas e biológicas. O espaço geográfico congrega todas essas dimensões em diferentes escalas temporais e espaciais. Mas, ao longo da história, a relacão do espaço com a saúde humana tem sido percebida e tratada com maior ou menor ênfase.

Nas últimas décadas, diante da crise ambiental, social e econômica, que vem impactando a saúde e, consequentemente, os sistemas de saúde, a Geografia da Saúde se renova e se expande com inovadores métodos de pesquisa e tratamento de dados, trazendo novas reflexões e muitas contribuições para o entendimento das condicões de saúde e doença numa perspectiva coletiva. Mas a contribuição vai além do panorama passado, atual e futuro da saúde de coletividades; ela tem adquirido um papel crucial para o planejamento e organizacão de serviços de saúde e de ações de promoção da saúde no território, de forma mais eficiente, baseando-se em dados e demandas reais.

Se antes a Geografia Médica (como era mais comumente denominada) era fortemente marcada pela elaboração de mapas de doenças, hoje ela é muito mais do que mapas e doenças. Atualmente, por abranger além do que distribuição espacial de doenças, tem sido denominada Geografia da Saúde. Os mapas continuam a ser a sua linguagem mais expressiva, mas eles apenas são uma das etapas da pesquisa, importante para a formulacão de hipóteses etiológicas e para o estabelecimento de relações espaciais. A citação de Rita Barradas Barata, importante epidemiologista brasileira, ressalta a importância do método geográfico.

A vantagem de utilizar espaços geográficos como indicadores de condições de vida está em tomar a complexidade da organização social em seu todo, em vez de fragmentá-lo em diferentes variáveis (Barata, 2012, p. 35).

Assim, popularizou-se o uso de geoprocessamento e de Sistemas de Informação Geográfica – SIG, para se entender a distribuição espacial dos riscos à saúde e se fazer hipóteses etiológicas, mas, também para enfrentá-los de forma mais eficiente no território, pois permitem identificar as desigualdades e as iniquidades espaciais em saúde.

Os 4 trabalhos do dossiê foram selecionados pela Comissão Científica do Geosaúde 2014 e pela Comissão Editorial de Saúde e Sociedade, dentre os 954 trabalhos científicos submetidos ao Congresso. Eles retratam alguns dos diferentes enfoques da Geografia da Saúde atual e são produtos de pesquisadores de Portugal e Brasil.

O artigo Ambiente e Saúde da mulher trabalhadora: transformações numa comunidade da Amazônia Brasileira, de José Aldemir Oliveira e Socorro de Fátima Moraes Nina, relata pesquisa realizada no município de Itacoatiara, no estado de Amazonas, e traz a nossos leitores o percurso de transformação do trabalho da mulher amazonense que, além de dona de casa, passou a trabalhar na agricultura e na agroindústria, num ambiente ligado à água, à terra e à floresta, com implicações em agravos à sua saúde. Seu percurso nos auxilia a compreender o espaço amazônico em transformação, em que o rural e o urbano se entrelaçam. Baseia-se numa análise qualitativa realizada nos espaços produtivos das mulheres.

Já o artigo Efeitos da Distância na acessibilidade aos Serviços de Urgência em Portugal, de Pedro Ramos e Sonia Vaz, retrata espaço e conjuntura totalmente diversos. Os autores realizam mensuração da distância percorrida pelas vítimas de mais de 200 mil episódios de indivíduos que recorreram a serviços da Rede de Urgência e Emergência Portuguesa e as diferentes categorias de gravidade no momento da admissão. Para o tratamento e análise dos dados utilizaram o software ArcGIS, tendo a distância como variável chave. Este tipo de contribuição da Geografia para avaliar o acesso a seviços tem sido crescente, sobretudo em momento atual, em que os serviços nacionais de saúde se veem pressionados em ganhar eficiência, em decorrência de contingências econômicas e financeiras que as pessoas e os diversos países têm atravessado, a exemplo de Portugal.

Os dois outros artigos do dossiê, um de Portugal e outro de autores dos dois países, que fazem uma análise comparativa entre a Região Metropolitana de São Paulo e a Área Metropolitana de Lisboa, utilizam métodos geográficos para verificar desigualdades e iniquidades em saúde e suas relações com aspectos socioeconômicos.

O artigo de Maria Gregório, Pedro Graça, Andréia Costa e Paulo Nogueira, Iniquidades regionais na insegurança alimentar em Portugal, identifica assimetrias regionais quanto à situação de insegurança alimentar em Portugal Continental, tendo em vista a conjuntura econômica desfavorável, no período 2011-2013. Foram aplicados questionários nos usuários atendidos por enfermeiros sentinela em Centros de Saúde ou em domicílios, por amostra aleatória. Para tratamento dos dados foi utilizada regressão logística multifatorial e a comparação foi feita por regiões de saúde.

No artigo de Marina Miranda, Claudia Costa, Paula Santana e Ligia Barroso, verificou-se a Associação espacial entre variáveis socioeconômicas e nascimentos pré-termo na RMSP e AML. No estudo, foram verificadas condições socioeconômicas (taxa de desemprego, taxa de analfabetismo e porcentagem de assentamentos precários), ligadas ao contexto geográfico, associadas aos nascimentos prematuros, a partir de análise exploratória retrospectiva do período 2000-2010.

O presente dossiê apresenta, assim, ainda que numa amostra reduzida, a variedade de contribuições que a Geografia da Saúde pode dar para o entendimento de questões de saúde em variadas escalas e contextos, usando diferentes técnicas de pesquisa para a análise espacial, e para o enfrentamento de forma mais adequada dessas questões, levando à otimização de usos de recursos e a melhores condições de vida e saúde para as pessoas.

Referência

BARATA, R. B. Como e porque as desigualdades sociais fazem mal à saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. [ Links ]

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