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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 1998

https://doi.org/10.1590/S0104-59701998000100007 

 

 

F O N T E S

 

 

José Francisco Xavier Sigaud:
um personagem esquecido, uma
obra reveladora

José Francisco Xavier Sigaud:
a forgotten figure,
a revealing work

 

     Ainda não foi devidamente avaliada a importância da ação institucional e da obra científica de José Francisco Xavier Sigaud (1796-1856) para a organização da medicina no Brasil na primeira metade dos Oitocentos. A historiografia tem privilegiado os últimos trinta anos do século XIX e o início do XX, relegando ao ostracismo fatos e personagens muito relevantes para a compreensão dos rumos assumidos pela medicina brasileira no primeiro momento de sua institucionalização.
     No entanto, uma simples consulta aos registros biográficos sobre este personagem esquecido provoca grande surpresa. Formado pela Faculdade de Medicina de Estrasburgo, onde obteve, em 1818, o título de doutor em medicina, Sigaud refugiou-se no Brasil em 1825, esquivando-se do ambiente político hostil gerado pelo conservadorismo em vigor em quase toda a Europa. o recém-criado Império do Brasil se apresentava como uma das poucas alternativas para o médico que sofria perseguição política, devido, sobretudo, à crescente influência que a cultura e a medicina francesa vinham obtendo neste território que acabara de se emancipar de Portugal. No Brasil, Sigaud pretendia dedicar-se à clínica e a estudos de história natural, excursionando pelo interior do país. Mas não foi isso que aconteceu. Fixando-se no Rio de Janeiro, tornou-se conhecido por sua intensa atividade editorial, desenvolvida em parceria com um compatriota, o livreiro Pierre Plancher.
     A dupla Sigaud-Plancher tem grande importância para a história do livro e da imprensa no Brasil do Primeiro Reinado e do período regencial. Foi deles, por exemplo, a iniciativa de fundar, em 1827, o famoso Jornal do Commercio. Além disso, foram os pioneiros no gênero do periodismo médico-científico, cujo marco inicial foi O Propagador das Ciências Médicas, que circulou no Rio de Janeiro entre 1827 e 1828.
     A fama de médico-editor fez com que fosse convidado a participar, em 1829, da fundação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro. Sigaud pôde unir aí a atividade de editor científico com a de investigador interessado em explicar a situação sanitária brasileira. Apresentou aos colegas da sociedade um ambicioso projeto de estudo, em 1832, com o título de ‘Discurso sobre a estatística médica do Brasil’. Para ele, a elaboração da estatística médica deveria ser o principal objetivo intelectual da instituição. Sua ambição era explicar o quadro nosológico brasileiro, considerando a complexidade e diversidade geográfica e climática de cada região do Império.
     O livro Du climat et des maladies du Brésil, publicado em Paris, em 1844, pela Fortin, Masson et Cie., Libraires que será reeditado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ainda este ano, é fruto deste projeto. Escrito sob a influência do neo-hipocratismo, exigiu de Sigaud vasto conhecimento da história natural, cultural e social das províncias do Império do Brasil. Seu pressuposto teórico era que existia forte correlação entre os fenômenos patológicos, o ambiente natural e o padrão sócio-cultural vigente. Isso explica a estrutura do livro: quatro partes dedicadas, respectivamente, ao detalhamento da climatologia, da geografia médica, da patologia intertropical e da estatística médica do Brasil.
     A obra enciclopédica revela o talento de Sigaud como higienista e historiador da saúde. Fazendo uso de vasto repertório de fontes, apresenta uma síntese do conhecimento então disponível sobre a saúde no país. Além disso, não é exagerado afirmar que o livro deu início à tradição de investigação científica dedicada ao tema das "doenças nacionais", que sobreviveria ao esgotamento do modelo higienista clássico. A temática continuaria presente, de maneira ainda mais enfática, no discurso e na prática científica dos diferentes grupos médicos que adotaram, pioneiramente, a parasitologia e a microbiologia para enfrentar o problema sanitário nacional. O capítulo que contém o esboço biográfico dos médicos, cirurgiões e naturalistas do Brasil resulta de um inventário realizado por Sigaud com o objetivo de construir a genealogia da medicina nacional. Não se pode afirmar que a lista esteja completa mas já revela a presença rarefeita dos médicos e cirurgiões com formação acadêmica no Brasil até, pelo menos, 1820, abrindo espaço para os praticantes leigos e curandeiros que Sigaud encarava como obstáculos à institucionalização da medicina no país.

 

Luiz Otávio Ferreira
Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz
Av. Brasil, 4365 Prédio do Relógio
21040-360 Rio de Janeiro — RJ Brasil

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