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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 1998

https://doi.org/10.1590/S0104-59701998000100013 

 

 

L I V R O S  &  R E D E S

 

 

 

 

 

 


Peter Galison
Image and Logic,
Chicago University
Press, 1997

A cultura material do laboratório

Material culture in the laboratory

 

Bernardo J. Oliveira
Professor de filosofia da
Universidade Federal de Minas Gerais
18, Dante Ave. Belmonte 02178 USA

 

     De acordo com o mais recente livro de Peter Galison, Image and logic, imagem e lógica são as palavras-chave para se entender a recente e importante história da microfísica. Pois, como ele ali descreve e analisa detalhadamente, estas idéias caracterizam as duas principais correntes que, desde o início do nosso século, disputam e se alternam na liderança das pesquisas da física atômica e de partículas, até a década de 1970, quando então começam a se fundir. O livro trata dessa fusão e de sua origem, mas de uma perspectiva peculiar, expressa no subtítulo, a cultura material do laboratório, ou seja, das técnicas, instrumentos e arranjos institucionais que se entrelaçam no desenvolvimento dos dois modelos de pesquisa concorrentes.
     Mas não se trata apenas de outro bom livro de história da física. O trabalho de Galison se filia à boa linhagem de uma historiografia repleta de reflexões metodológicas, de insights sociológicos e implicações filosóficas. Seu livro inaugural, How the experiments end, publicado em 1988, valeu-lhe um lugar de destaque em Harvard e na arena norte-americana da história das ciências. Se as narrativas históricas das ciências são costumeiramente tecidas a partir dos resultados encontrados, a originalidade da história reconstruída por Galison está na tentativa de entender seus processos de constituição, os rearranjos que antecedem às conclusões teóricas. Como numa história de vida (ciência) privada, suas peças documentais, neste livro de 1988, são muitas vezes bilhetes e anotações trocados pelas equipes que se revezam nos grandes laboratórios, evidenciando impasses e negociações anteriores à sua publicidade. Em 1996, Galison editara com David Stump um debate sobre a unidade, contextos e limites da ciência, The disunity of science, reunindo boa parte da nata anglo-saxã dos historiadores e filósofos da ciência: Schaffer, Lenoir, Davidson, Hacking, Fine.
     Image and logic descreve como dois artifícios básicos permitiram detectar e ligar o mundo microscópico ao mundo de nossos sentidos: um pela produção de imagens que sirvam de evidência para uma nova entidade ou efeito, outro pela determinação de efeitos a partir das deduções e regularidades do comportamento das partículas. Com o primeiro, almeja-se a representação do processo natural em sua inteireza e complexidade, procurando retratar (preservar) a forma da coisa como ocorre no mundo. Por exemplo, partículas deixando vestígios em bolhas de hidrogênio superaquecido ou emulsões em chapas fotográficas. Esta tendência é chamada de homomórfica, por supor um ideal de preservação mimética da forma. O segundo artifício caracteriza-se por uma busca da estrutura lógica da natureza. Este é denominado homológico, por tentar preservar as relações lógicas entre os eventos. Aqui, ao invés da revelação de um evento através de uma única mas expressiva imagem, os mecanismos básicos são estatísticos, e, portanto, se interessam por eventos gerais e não ocorrências individuais. Contadores eletrônicos acoplados a circuitos lógicos registram a incidência de determinado fenômeno, por exemplo, furos coincidentes de entrada e saída num detector de partículas.
     Estas duas tradições se fundem na década de 1970 com as imagens produzidas eletronicamente. Poderosos computadores passaram então a conjugar detecção e criação de imagens. Simulações computadorizadas conciliam o processamento de dados com o detalhamento singular que marcava a tradição da imagem. São os experimentos virtuais que, de maneira crescente, fazem dos computadores e programas uma nova espécie de laboratório.
     Julgando as reconstruções históricas demasiado presas às prescrições epistemológicas, Galison, como uma série de historiadores e sociólogos da ciência contemporâneos, considera a instrumentalidade uma categoria central para se entender a prática científica. E aqui se extrapola a dimensão estritamente técnica, pois interessam também os usos, e como estes se relacionam com hierarquias e divisões de trabalho no processo de investigação científica. Assim, sua obra procura focalizar os obstáculos materiais que dão forma e delimitam a pesquisa científica. A idéia básica é de que a genealogia dos instrumentos ajuda a explicar como eles são finalmente utilizados. E as perguntas com as quais Galison se guia são: por que e para que foram criados estes instrumentos? Como eles foram inicialmente utilizados? Isso lhe permite ver que estes instrumentos têm uma vida diferente, mais complexa e duradoura, do que as teorias e modelos com os quais tinham sido criados. Um dos exemplos mais ilustrativos é o da ‘câmara de nuvens’ de C. Wilson. O interesse inicial deste que viria a ser um dos fundadores da física de partículas era meteorológico. Contudo, o mesmo instrumental que ele desenvolve para fotografar precipitações, fogs e outros fenômenos climáticos acaba se tornando fundamental na pesquisa de ‘novas entidades’ no desenvolvimento de uma área distinta preexistente campos da física.
     Galison retira bons efeitos dessa estratégia de perscrutar o desenvolvimento das ciências pelo viés da instrumentação, pois, como ele descreve minuciosamente, as fronteiras dos blocos de periodização das várias subculturas da física têm sido intercaladas e não coincidentes. Ou seja, uma mudança de paradigma teórico não implica, como supunha o modelo kuhniano, a falta de continuidade da prática instrumental. As transformações e seus marcos ocorrem em diferentes momentos, quando são vistos da perspectiva das técnicas instrumentais, o que evidencia a deturpação das reconstruções historiográficas, em que as periodizações se atêm apenas às teorias, ou que julgam que os instrumentos estão necessariamente vinculados aos programas experimentais e estes ordenados em função das teorias. Seu mapeamento revela também como as fronteiras físicas, temporais e epistêmicas dos instrumentos permanecem muitas vezes flutuantes. Cada subcultura tem seus próprios padrões de demonstração e ritmos de mudança, cada uma se articulando diferentemente com a cultura mais geral das instituições, práticas e idéias.
     Galison incrementa a discussão da autonomia relativa dos diferentes componentes da prática científica ao se valer, além do conceito de subcultura oriundo da antropologia e da lingüística, dos estudos etnográficos, em que se analisa o processo de negociação entre línguas e dialetos. Assim, para descrever o processo de interação e integração das duas principais correntes da física de partículas, estabelece um paralelo com as línguas pilgnis e créole. Pidiginização é o processo de construção de uma linguagem de contato entre povos que não falam a mesma língua. Trata-se da criação de uma língua simplificada, mas que todos entendem. Ela conjuga elementos das línguas nativas dos grupos envolvidos e é utilizada apenas naquelas atividades e situações de intercâmbio. Geralmente, nasce do comércio estabelecido entre dois ou mais grupos, ou ‘exigências de guerra’, como parece ter sido o caso de rearranjos no âmbito da física da década de 1940. Créole é quando a língua de intercâmbio se expande e se estabiliza, a ponto de se tornar a língua nativa de uma comunidade ou de uma nova geração.
     A fusão das tradições concorrentes da microfísica contemporânea na zona de intercâmbio da linguagem computacional não implica, como pode parecer, uma retomada da postulação de uma ciência unificada. A nova língua não é moeda neutra, tampouco sua estabilidade pressupõe uma gramática universal ou uma medida externa que servisse de referência. A antropologia mostra situações em que em cada um dos lados da transação o entendimento da troca e de seu significado e valor pode ser diferente. E como Galison bem observa, duas culturas podem, ao mesmo tempo, discordar sobre as implicações das equivalências estabelecidas, da natureza da informação trocada ou de seu status epistemológico.
     A metáfora corda, tomada emprestada de Davidson, é imagem de que ele se vale para simbolizar a história da microfísica contemporânea. Aquela corda de sisal, cuja firmeza advém não da grossura nem do tamanho dos fios, mas da forma como estes se interpõem e se entrelaçam. Se, com a metáfora da corrente, tem-se a idéia de uma união em que, simetricamente, cada elo se conecta apenas com o anterior e o seguinte, no emaranhado da corda a força está na superposição tão variada que, comparada à corrente, parece anárquica, mas cuja estabilidade é surpreendente.
     O volume de mais de oitocentas páginas com que esta história é retalhada parece pouco convidativo aos que não estão diretamente interessados na física contemporânea. Mas, por sua originalidade na forma de costurar esta história, pelos instrumentos conceitos de que se vale e pela maneira como se articula e se diferencia da maré ainda crescente do social studies, este livro já vem sendo celebrado como um clássico, referência obrigatória não apenas entre os historiadores da física, mas também para os interessados nas discussões metodológicas da história da ciência e suas implicações filosóficas.

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