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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.6 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 1999

https://doi.org/10.1590/S0104-59701999000200008 

 

 

I M A G E N S

O riso em tempos trágicos nas charges sobre a ‘epidemia de Caruaru’*

Marks of tragic times: cartoons on the 1996 epidemic in Caruaru

     Em meados de fevereiro de 1996, uma epidemia de origem obscura assolou uma clínica de hemodiálise conveniada com o Sistema Único de Saúde (SUS), o Instituto de Doenças Renais (IDR), de Caruaru, Pernambuco. No dia 6 de março de 1996, a Secretaria de Saúde daquele estado foi informada do aparecimento de sintomas como cefaléia, tontura, distúrbios visuais e astenia em cerca de trinta pacientes do serviço. No dia 7, iniciou-se a investigação epidemiológica. Verificou-se que antes mesmo do dia 6 já tinham ocorrido dez óbitos não notificados. Inicialmente, os efeitos adversos foram atribuídos a uma possível hipercloração da água usada pela clínica, abastecida através de caminhões-pipas.
     Além dos sintomas informados, os pacientes apresentavam desorientação mental, convulsão, náuseas e vômitos. Com o passar do tempo, começaram a exibir um quadro clínico compatível com hepatite tóxica: icterícia, ascite, hepatomegalia dolorosa, flapping e alterações significativas nas transaminases, bilirrubinas, tempo de protrombina e triglicerídeos.
     Além da intoxicação pelo cloro, outras hipóteses foram levantadas: intoxicação por metais pesados ou agrotóxicos, infecção por bactérias e vírus etc. Nenhuma resistiu ao processo de falseamento popperiano. No dia 28 de março, a dra. Sandra Azevedo, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), levantou a hipótese de que a sintomatologia dos pacientes era conseqüência de sua exposição, durante o procedimento de hemodiálise, a toxinas de cianobactérias contidas na água. Havia semelhança do quadro clínico e da histopatologia hepática dos pacientes com o que se observava em animais de laboratório após exposição a essas toxinas. No início de abril, a dra. Sandra Azevedo divulgou os resultados positivos da detecção de microcistina nos filtros de hemodiálise do IDR. No mesmo período, técnicos do Center for Disease Control (CDC), de Atlanta, Estados Unidos, iniciavam in loco a investigação epidemiológica. Em meados de abril, o professor Wayne Carmichael (Wright State University, Ohio) informou que a pesquisa de microcistina no sangue e no tecido hepático dos pacientes fora positiva, estando ausente no sangue do grupo de controle.
     No período de fevereiro de 1996 a setembro de 1997, a taxa de mortalidade foi de 40,5% (51 óbitos por hepatite pós-exposição a toxinas de cianobactérias numa população de 126 inscritos no programa de hemodiálise). Os grupos de maior risco de morte foram os homens na faixa etária acima de sessenta anos.
     Até aquela data não houvera no mundo registro de evento semelhante. A tragédia repercutiu em vários ambientes: epidemiológico, clínico, policial, jurídico, social, político e, principalmente, nos meios de comunicação. Contrastando com todos os outros âmbitos, somente no último, nas páginas destinada às charges, o riso sobreveio antes dos sentimentos que caracterizam a tragédia aristotélica: horror e piedade.
     Enfocamos esse último ambiente. Selecionamos um conjunto de charges publicadas no período de fevereiro de 1996 a fevereiro de 1997, no Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, ambos editados na cidade do Recife, com o intuito de confrontar os olhares dos chargistas com o dos epidemiologistas sobre a ‘tragédia de Caruaru’.
     As charges foram sistematizadas em três grupos. Do primeiro fazem parte aquelas que tratam da magnitude e transcendência do evento. Nelas foram enfocados o número de óbitos, tal como o "rosário" de Morte e vida severina, e seu significado para o estado de Pernambuco. O segundo grupo é formado pelas charges que enfocam a causalidade da epidemia. Aqui adota-se a terminologia aristotélica para analisar a explicação contida no subtexto da charge: causa formal/estrutural quando se prioriza a estrutura que ‘permitiu’ a emergência do evento, e causa final quando os atores humanos (decisão, ação, intencionalidade) assumem o primeiro plano. O terceiro é composto pelas charges que apreendem o evento a partir das efemérides: dia 1o de abril (dia da mentira), semana santa e 21 de abril (Tiradentes).

 

Djalma A. Melo Filho
Escola de Saúde Pública de Pernambuco

Christianne E. M. Holmes
Maria Bernadete C. Antunes
Secretaria de Saúde de Pernambuco

Luiz Oscar C. Ferreira
Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPe)

Geane Bezerra
Mestranda do curso de geografia da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPe)

(Os quatro primeiros autores são epidemiologistas e coordenaram a investigação sobre as mortes no IDR de Caruaru.)


As figuras 1, 2 e 3 tratam da magnitude e transcendência do evento

Fig.1 — O chargista supera o número empírico dos óbitos e generaliza o evento para o estado inteiro: Pernambuco está agonizando numa máquina de hemodiálise. A metonímia aparece quando se emprega o continente (mapa de Pernambuco) pelo conteúdo (pernambucanos).

Laílson, Diário de Pernambuco (12 .4.1996).



Fig. 2 — Aqui temos uma sinédoque, empregando-se o símbolo (bandeira de Pernambuco) pela coisa simbolizada (pernambucanos). No arco-íris lemos a palavra hemodiálise, a cruz se multiplica e no sol aparece o rosto do então governador de Pernambuco (Miguel Arraes).

Humberto, Jornal do Commercio (12 .4.1996).



Fig. 3 — A charge tem como cenário o inferno, onde se encontram Nero e Hitler; os demônios aguardam a chegada dos responsáveis pelas mortes do IDR. Aqui a figura que mais se avulta é a hipérbole.

Laílson, Diário de Pernambuco (26.3.1996).

As figuras 4 a 8 abordam a causalidade da epidemia.


Fig. 4 — A metáfora arquitetônica evoca a causa formal/estrutural da epidemia.
Um caixão de tijolos representando o Ministério da Saúde repousa no Planalto Central do país.

Miguel, Jornal do Commercio (29.3.1996).



Fig. 5 — A clássica figura dos três macaquinhos é substituída pelos representantes do Ministério da Saúde, Secretaria de Saúde de Pernambuco e Secretaria de Saúde de Caruaru. O chargista expressa a dificuldade de se identificar a causa final da epidemia.

Laílson, Diário de Pernambuco (10.4.1996).



Fig. 6 — O médico, segundo o chargista, ao ser substituído pela figura ontológica da morte, também constitui a causa final da epidemia.

Laílson, Diário de Pernambuco (21.3.1996).



Fig. 7 — O chargista distancia o médico do ideal hipocrático e o concebe como ‘indutor’ da morte do doente. A representação é feita através de bonecos de barro, imortalizados por mestre Vitalino, vendidos na feira de Caruaru.

Humberto, Jornal do Commercio (31.3.1996).



Fig. 8 — Após um ano do início da epidemia de Caruaru, o chargista desenha uma festa de aniversário, cujo bolo evoca uma máquina de hemodiálise, com o intuito de recordar a responsabilidade dos médicos do IDR no acontecido e sua impunidade.

Laílson, Jornal do Commercio (21.2.1996).

As figuras 9 a 11 fazem uma releitura das efemérides a partir da epidemia de Caruaru.


Fig.9 — Representa uma das brincadeiras do dia 1o de abril (dia da mentira).

Laílson, Diário de Pernambuco, (1o .4.1996).



Fig. 10 — Em uma das placas rodoviárias que indica a localidade onde é encenado o drama da Paixão de Cristo (Fazenda Nova, Nova Jerusalém) somente uma cruz aparece. A indicação de Caruaru, cidade próxima a ela, onde está o IDR, local de um outro calvário, aparece, na outra placa, com muitas cruzes.

Humberto, Jornal do Commercio (6.4.1996).



Fig.11 — O sofrimento dos doentes da hemodiálise, segundo o chargista, é análogo ao de Cristo; a cruz de madeira é substituída pelo mandacaru, planta xerófita também característica da paisagem agrestina onde se situa Caruaru. A inscrição tradicional INRI é trocada por IDR, local da epidemia.

Miguel, Jornal do Commercio (11.4.1996).

 

 

*Comunicação apresentada no IV Congresso Brasileiro de Epidemiologia, promovido pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), no Rio de Janeiro, em agosto de 1998.

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