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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.11 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2004

https://doi.org/10.1590/S0104-59702004000200001 

CARTA DO EDITOR

 

Caros leitores,

Habitualmente, nesta página, o editor comenta os artigos e outras matérias que compõem as partes principais da revista. Desta vez, colocaremos em evidência a seção 'Cartas', raramente usada.

Na última edição de 2001, História, Ciências, Saúde — Manguinhos (vol. VIII, no 3) circulou com um dossiê sobre darwinismo. Entre os artigos, constava 'De Darwin, de caixas-pretas e do surpreendente retorno do criacionismo', de Maurício Vieira Martins, que faz aí bela análise do discurso criacionista e de sua mais elaborada expressão, o livro A caixa-preta de Darwin, de Michael Behe, lançado nos Estados Unidos, em 1996, e no Brasil, no ano seguinte (encontra-se versão integral do artigo em http://www.scielo.br/hcsm). Vieira Martins mostra que as teses deste professor da Universidade Lehigh, na Pensilvânia, contrárias à teoria da evolução, representaram importante catalisador na ascensão do criacionismo, tendência que não se restringe aos Estados Unidos, adquirindo feição cada vez mais global. Vieira Martins destaca, sobretudo, a significação que teve a decisão tomada em 1999 no Kansas, segundo a qual seriam "equiparados" nos currículos das escolas públicas daquele estado norte-americano a teoria da evolução de Darwin e o texto bíblico do Gênesis. Em 2004, este movimento atingiu em cheio o Estado do Rio de Janeiro, por obra do casal evangélico que o governa, a sra. Rosângela Rosinha Matheus e seu marido (e eminência parda), Anthony Garotinho Matheus: com respaldo da poderosa bancada evangélica, contrariando princípio basilar das constituições republicanas — a separação da Igreja e do Estado — promoveram concurso público para a contratação de professores para o ensino religioso confessional, fortalecendo, assim, a corrente de pensamento que milita contra a teoria formulada pelo naturalista inglês em 1859. Enquanto transcorre a disputa política e jurídica a esse respeito, aos estudantes da rede pública, o criacionismo vem sendo ensinado como explicação sobre a origem do homem e das espécies, desqualificando-se a concepção de Darwin de modo a impor a soberania do texto bíblico nas escolas fluminenses.

Em março deste ano, recebemos carta do senhor Enézio E. de Almeida Filho em que questionava a seriedade dos avaliadores dos originais submetidos por Maurício Vieira Martins à publicação em História, Ciências, Saúde — Manguinhos, com base no argumento de que seu trabalho, "documentalmente infundado", distorceria a realidade. Tanto o autor do artigo como seus dois avaliadores dispuseram-se a comentar a carta de Almeida Filho, e os editores deste periódico concordaram com a ruptura do anonimato que normalmente protege os peer-reviewers. Manguinhos abre, assim, suas páginas ao tema que mobiliza as sociedades humanas desde quando Darwin publicou a Origem das espécies. A revolução então deflagrada nas ciências e nas idéias filosóficas e religiosas continua a suscitar candentes controvérsias. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), por exemplo, acaba de dedicar a edição de julho do corrente ano da sua revista eletrônica ComCiência (no 56) à polêmica evolucionismo versus criacionismo (http://www.comciencia.br/).

O editor que subscreve estas linhas acolhe, com isenção, os pontos de vista em litígio, não obstante tenha partido na disputa: não comunga com a velha e reacionária ideologia, adversária da acumulação de conhecimentos e de interessantíssimos enigmas científicos sobre as forças biológicas que põem em movimento e em relação os seres vivos, desde sua origem comum, engendrando e extinguindo espécies incessantemente. Isto ocorre por processos de natureza diferente daqueles que põem em movimento e em relação as sociedades humanas e suas criações, até mesmo os vários 'criadores' que dão corpo ao panteão atual de religiões.

Peço, então, aos leitores que não deixem de ler, com atenção, as cartas publicadas no final deste volume, pois aí encontrarão, inclusive, boas referências bibliográficas concernentes aos campos em litígio.

 

Jaime Larry Benchimol
Editor

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