SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.9 issue20O imprescindível aporte das ciências sociais para o planejamento e a compreensão do turismo author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.9 no.20 Porto Alegre Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832003000200013 

Apresentação

 

 

Carlos Alberto Steil

 

 

O turismo se apresenta na atualidade como uma atividade que envolve bilhões de pessoas em todo o planeta, ao mesmo tempo em que os turistas aparecem como protótipos da cidadania em um mundo que se pretende globalizado. Em que pese o sentido metafórico do turista, convém lembrar que essa metáfora só se torna possível a partir de um contexto social e intelectual que lhe forneça um ponto de contato. A experiência histórica do turismo na sociedade e as suas interpretações, registradas na produção científica e literária, certamente refletem a presença quase universal do turismo na sociedade. De modo que já não se torna possível pensar o mundo contemporâneo, ou mesmo vivenciá-lo, prescindindo da experiência e das categorias do turismo.

Este número de Horizontes Antropológicos pretende trazer uma contribuição, desde o ponto de vista da antropologia, para alargar a compreensão do significado e da relevância do turismo como um fato social e como uma área específica de pesquisa dentro das ciências sociais. Dentre o universo já bastante vasto de produção científica que têm o turismo como tema, reunimos aqui um conjunto de artigos teóricos e etnográficos que discutem tanto as grandes linhas de interpretação desse fenômeno na trajetória das ciências sociais quanto diferentes aspectos da atividade turística e suas interfaces com outros temas, como a cultura, o patrimônio, a etnicidade, a ecologia e a religião.

O primeiro artigo, de autoria de Margarita Barretto, faz uma revisão bibliográfica da história da produção das ciências sociais aplicadas ao estudo do turismo e levanta questões cruciais relacionadas com o planejamento na área que poderiam ser mais bem resolvidas com a contribuição das pesquisas socioantropológicas. A autora percorre uma vasta literatura internacional e nacional, mostrando que já existe um acúmulo significativo de reflexão na área que aponta para uma certa consolidação da temática nas ciências sociais.

Turismo e cultura é o tema de investigação aprofundado no trabalho de Agustín Santana Talavera. O autor apresenta o turismo cultural como uma forma de turismo alternativo que encarna o consumo e a comercialização da cultura. Seu texto procura relativizar a fronteira entre a visão idealizada que busca preservar a cultura de qualquer contaminação mercantil e aquela que desconsidera as transformações e conseqüências do turismo sobre os sistemas culturais locais. Na contramão dessa dicotomia, Santana argumenta que os processos de geração de produtos culturais podem conduzir a novas formas dos grupos locais interpretarem a autenticidade e imprimir novo dinamismo cultural, decorrente do próprio processo de adaptação desses grupos às exigências da demanda turística.

Os quatro artigos que seguem discutem a relação entre turismo e patrimônio cultural. O primeiro, de María Julia Carozzi, apresenta uma abordagem bastante original de patrimônio cultural a partir de uma etnografia do culto a Gardel, no cemitério La Chacarita, em Buenos Aires. A autora analisa as formas pelas quais os portenhos concebem aquilo que é memorável e experimentam sentimentos de pertencimento coletivo por meio de um processo de identificação com Gardel. O artigo assinala, ainda, a centralidade do milagre, da mímesis e do contato direto com o corpo do cantor para a preservação da memória de Gardel, que encarna tanto o tango como o êxito no mundo. O caso estudado se apresenta como um exemplo da produção da identidade argentina em torno de pessoas reais às quais se atribui um valor extraordinário. Ao enfocar a importância dos corpos humanos concretos, a autora questiona os conceitos globalmente aceitos de patrimônio histórico e cultural como bens intangíveis.

O artigo de Elsa Peralta, intitulado O Mar por Tradição, não é menos original do que o anterior. Embora o seu foco se desloque da pessoa para o mar, aqui também se trata de pensar o processo de identificação nacional a partir de um elemento central da cultura portuguesa: o mar. Mas, ao invés de questionar o conceito de patrimônio a partir da etnografia, a autora procura perceber como esse conceito é utilizado para fornecer o suporte cenográfico necessário à criação de uma localidade turística, remetendo à memória nacional portuguesa associada ao mar.

O Patrimônio Cultural como Opção Turística é o título do artigo de María José Pastor Alfonso. A reflexão da autora tem como meta estabelecer, a partir de elementos levantados na pesquisa etnográfica, uma base para o planejamento de ações vinculadas ao turismo que respeitem o patrimônio local das comunidades que o originaram. Sua preocupação central é refletir sobre a relação entre a comunidade local e os turistas, ambas vistas dentro do marco do desenvolvimento social, cultural, ambiental e econômico.

Álvaro Banducci Jr. também discute a questão do patrimônio cultural em sua relação com o turismo, tomando como referência a realidade pantaneira ao longo do rio Paraguai, no Estado do Mato Grosso, Brasil. Acompanhando uma excursão turística pelo curso desse rio, o autor busca reconstituir o movimento de ocupação da região, perscrutando os vestígios arqueológicos e históricos que permanecem não apenas como testemunhas do passado, mas também como um potencial turístico a ser explorado. Estão lá ruínas de saladeiros ou charqueadas, que constituíram o grande empreendimento econômico do Pantanal até meados do século XX; casas-grandes, que foram sedes de importantes fazendas de onde partiram os pioneiros da ocupação pastoril da planície; sítios arqueológicos, que registram diversos períodos da ocupação indígena da região, entre outros sinais da presença humana no Pantanal.

Outro tema de grande importância nos estudos antropológicos sobre turismo é o que relaciona essa prática social com etnicidade. O texto de Rodrigo de Azeredo Grünewald examina essa relação em termos teóricos, proporcionando ao leitor uma melhor compreensão do turismo étnico. Nesse sentido, o autor destaca que um dos aspectos mais significativos que marcam os estudos em antropologia do turismo é o da mudança cultural percebida em sociedades hospedeiras em conseqüência do impacto de um fluxo turístico. Muitas vezes essas mudanças são acompanhadas de uma reorganização da população hospedeira em linhas étnicas, o que lhe permite identificar o aparecimento de "comunidades turísticas" que decorrem do estabelecimento de etnicidades orientadas para o turismo.

No rol dos tipos de turismo, o turismo rural se apresenta como mais uma invenção contemporânea que resulta da ressemantização de uma área tradicional da ação humana e de estudos na antropologia. As autoras Encarnación Aguilar Criado, Dolores Merino Baena e Mercedes Migens Fernández analisam novas diretrizes do turismo rural na Europa, a partir de projetos de desenvolvimento econômico e social, no âmbito da Comunidade Européia, implantados na região da Andaluzia e sua incidência sobre as comunidades locais. Ao mesmo em tempo que visam a superar uma perspectiva tradicional do rural, esses projetos estão construindo um novo rural, que agrega valor cultural e ecológico em seus produtos, os quais passam a ter como finalidade primeira a fruição do lazer e a experiência de emoções diferentes daquelas que a vida urbana oferece.

Os dois artigos seguintes abordam um tipo de turismo específico que vem adquirindo grande visibilidade e importância na sociedade contemporânea: o ecoturismo. O primeiro, escrito por Michael Kent a partir de um trabalho de campo realizado no Sul da Bahia, Brasil, discute os conflitos entre a preservação ambiental e a exploração de recursos naturais em vista do desenvolvimento local. O autor aponta para o paradoxo desse tipo de turismo, na medida em que ao mesmo tempo ele explora os recursos naturais que pretende preservar. Envolvidas nessa contradição, as comunidades locais muitas vezes são impedidas de terem acesso a recursos que são explorados em função dos interesses da indústria do turismo.

O ecoturismo é também o tema do artigo de Rosane Manhães Prado, que aborda as transformações sociais e culturais numa comunidade que passa da condição de sede de um dos mais importantes presídios brasileiro, a Ilha Grande, no Estado do Rio de Janeiro, para um centro de atração turística, trazendo para a ilha pequenos empresários e trabalhadores que vão se integrar nas atividades voltadas para o turismo. O foco da autora está em analisar a questão da polaridade entre "nativos" e "não-nativos" que aflora na ilha em razão da intensificação do turismo, correspondendo a uma barreira na aceitação de uma ideologia ambientalista e de propostas generalizantes para o que seria "um desenvolvimento turístico ideal".

A mesma questão das mudanças que se operam numa comunidade local pela passagem abrupta à condição de comunidade turística vai aparecer no texto de Marcelo Ayres Camurça e Oswaldo Giovannini Jr. Mas, aqui, não se trata do ecoturismo, mas do turismo religioso, associado ao turismo histórico e cultural. O objeto empírico é o evento da Semana Santa, em Tiradentes, Estado de Minas Gerais, Brasil, onde os autores vão perceber a confluência de três visões de mundo: a religião católica tradicional, o patrimônio histórico e cultural e o turismo. Nesse contexto, buscam ver como os agentes do turismo, os responsáveis pela preservação e recuperação do patrimônio histórico-cultural, públicos e privados, assim como os diferentes grupos sociais que compõem a sociedade local, atribuem sentidos distintos aos mesmos fenômenos e objetos: igrejas, imagens sacras, procissões e cerimônias religiosas.

O turismo religioso aparece mais uma vez no último artigo temático, de autoria de Carlos Alberto Steil, que aborda as relações históricas entre peregrinação e turismo, tomando como referência o material de campo coletado no santuário de Bom Jesus da Lapa, Brasil. Turismo e peregrinação são tomados pelo autor como categorias que condensam duas estruturas de significados, ou "tipos ideais", no sentido weberiano, do que seria a verdadeira peregrinação ou o turismo genuíno. Assim, a peregrinação e o turismo são vistos como discursos metassociais que comportam duas formas de sociabilidade que operam a partir de lógicas opostas: a da communitas, para a qual a verdadeira sociedade seria expressa pelo ideal fraterno da comunhão; e a da societas, onde a regra básica de funcionamento da sociedade estaria na distinção.

Espaço Aberto traz um texto de Benoît de L’Estoile, que traça um paralelo entre a trajetória da antropologia na França e na Inglaterra, mostrando que, enquanto na França os esforços dos fundadores da disciplina visavam a organizar e racionalizar o sistema de divisão do trabalho do conhecimento, pela separação entre cientistas e etnógrafos, na Inglaterra o esforço se deu no sentido da inserção do cientista no campo. Assim, enquanto na Grã-Bretanha a "profissionalização" da disciplina foi acompanhada da exclusão dos "amadores", relegados a um estado obsoleto da disciplina, o modelo de divisão do trabalho, dominante na França, exigiu o recrutamento de "multidões de colaboradores" e favoreceu o estabelecimento de um continuum entre os profissionais e os "auxiliares".

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License