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Horizontes Antropológicos

versão impressa ISSN 0104-7183versão On-line ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. v.9 n.20 Porto Alegre out. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832003000200015 

RESENHAS

 

Antônio Mendes da Costa Braga

Doutorando, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

 

ABUMANSSUR, Edin Sued (Org.). Turismo religioso: ensaios antropológicos sobre religião e turismo. Campinas: Papirus, 2003. 176 p.

 

O livro Turismo Religioso, Ensaios Antropológicos sobre Religião e Turismo, organizado por Edin Sued Abumanssur, é uma coletânea de seis artigos de autores diferentes, cujo objetivo é analisar a convergência dos fenômenos turismo e religião na sociedade contemporânea.

Se considerarmos apenas esta sua intenção intrínseca – o esforço na direção de uma maior aproximação dos fenômenos turismo e religião e na superação das incertezas e imprecisões que ainda envolvem os pontos de convergência destas áreas de conhecimentos distintos – a publicação em si já se torna pertinente. Todavia, nenhuma obra se sustenta apenas em suas intenções. Sua relevância depende das contribuições para com o tema que aborda. No caso desse livro, se considerarmos cada artigo em particular, o resultado final é que ele cumpre esse requisito, ainda que o primeiro e o último artigos apresentem desvios em relação ao intento estabelecido.

No caso do primeiro texto, Peregrinar, Caminhada para a Vida, de autoria de Maria Ângela Vilhena, a diferença fundamental é que – como nos adianta Abumanssur na sua apresentação – ele não se constitui num texto antropológico (p. 7), o que deve ser atribuído ao fato da autora optar por uma abordagem e pelo uso de um tipo de linguagem imbuída de metáforas, que terminam por distanciar seu texto de discussões que possam inseri-lo nos debates acadêmicos da antropologia social.

O último artigo, do antropólogo Paulo Roberto Albieri Nery, é, por sua vez, significativamente antropológico: trata-se de uma pequena mas densa apresentação de um trabalho etnográfico realizado pelo próprio autor cujo título é A Cultura do Passeio: Lazer e Valores Holistas. Todavia, o que o diferencia significativamente dos demais é justamente o fato de que ele não trata nem aborda o fenômeno do turismo religioso, mas volta-se exclusivamente para a questão do lazer entre as classes populares.

Apesar desta ausência de uma sintonia fina com o tema do livro, o interesse antropológico pelo texto se justifica pela sua qualidade etnográfica. Primeiro porque o autor consegue transmitir muito bem a sua capacidade de descrição e interpretação do objeto pesquisado – as classes populares que freqüentam a "prainha", uma área de lazer à beira do lago artificial de Nova Ponte, no Triângulo Mineiro (MG). Em segundo, pelo fato de demonstrar como os modelos de intrepretação antropológica podem ser versáteis na medida em que são usados de maneira adequada e criativa. Exemplo disso é o uso que o autor faz do modelo de peregrinações que Victor Turner desenvolveu a partir dos estudos de Van Gennep sobre processos rituais (separação, liminaridade e reincorporação), e que Nery usa para interpretar os "passeios à prainha", analisando-os como um ritual de "deslocamento físico-moral" dos domínios da "casa" e do "trabalho" para um domínio liminar que é vivido como um "centro de ‘prazer’" e um "centro temporário da vida social" (p. 141).

Feitas tais observações sobre esses dois artigos, efetivamente podemos dizer que os demais se tornam interessantes contribuições ao objetivo principal do livro. E, nesse caso, a primeira contribuição é o texto Peregrinação, Romaria e Turismo Religioso, Raízes Etimológicas e Interpretações Antropológicas, de Carlos Alberto Steil.

Esse artigo configura-se sobretudo como uma bem elaborada cartografia acerca dos estudos, linhas e paradigmas antropológicos referentes à temática das peregrinações. Mas, ao invés de simplesmente discorrer sobre o que já foi dito ou desdito sobre o tema e sobre esses termos, Steil nos convida a uma travessia crítica e reflexiva sobre esse mapa, a fim de que no final possamos alcançá-lo na sua sugestiva proposta de interpretação metodológica, que é passível de ser utilizada na interpretação e compreensão dos momentos de convergência entre os fenômenos religiosos e turísticos.

Na primeira parte do ensaio o autor investe numa investigação etimológica dos termos "peregrinação", "romaria" e "turismo religioso". Partindo da origem semântica e dos debates epistemológicos referentes a esses termos, sua intenção é mostrar como os usos e significados que são atribuídos a eles estão vinculados ao tempo, ao contexto e – o que na sua perspectiva é de significativa importância – aos agentes que os operam e às suas respectivas posições nas relações sociais estabelecidas. Em suma, os significados e usos não estão presos a uma essência, mas deslocam-se no tempo e no espaço, nos contextos sociais com seus agentes e no próprio jogo social que estes estabelecem uns com os outros.

Percorrida essa busca dos significados semânticos dos termos, ele nos leva a perscrutar os estudos acadêmicos sobre o assunto, num recorte através do qual se possa localizar a proximidade da antropologia com o tema e mostrar como este foi tratado por diferentes correntes. Identifica, dessa forma, três grandes correntes antropológicas voltadas para o tema da peregrinação: a funcionalista, a performática (ligada a Victor Turner) e uma terceira, que surge a partir da publicação da coletânea Contesting the Sacred, organizada por Eade e Sallnow, e cuja idéia norteadora é a de que as peregrinações devem ser analisadas como um campo de disputas de discursos e sentidos.

É a partir dessa proposta apontada por Eade e Sallnow que Steil "amarra as pontas" de seu mapa e oferece uma instigante chave de leitura para os estudos do turismo religioso: sendo os locais de peregrinação espaços de disputa de discursos e sentidos entre os agentes envolvidos, e, sendo o turismo religioso um dos discursos e usos desses espaços, por que não pensar a partir daí, de uma realidade empírica, concreta, essa convergência? Não seria o reconhecimento, identificação e interpretação desse discurso turístico religioso uma forma de compreendermos a imbricação desses dois grandes fenômenos?

Existe uma certa sintonia entre o texto de Steil e o de Edin Abumanssur, cujo título é Religião e Turismo, Notas sobre as Deambulações Religiosas. Entretanto, se o de Steil é fortemente marcado por questões de ordem epistemológicas operativas, Abumanssur problematiza muito mais sobre o "como olhar para o objeto". Isso porque, segundo ele, grande parte dos interessados no turismo religioso tendem a dar mais ênfase à dimensão turística do que à religiosa. Daí sua valorização do "olhar" antropológico como alternativa ao viés "mercadológico", tendo em vista que ele se inclina para uma valorização da dimensão religiosa do fenômeno do turismo religioso, principalmente dentro da tradição dos estudos sobre peregrinações.

Em sua análise, ele identifica que o processo de democratização das viagens e a estandardização dos produtos e serviços turísticos, oferecidos num ritmo cada vez mais comercial a um número cada vez maior de pessoas, geraram não só o turismo de massa, como também o próprio turismo religioso, vindo daí, em parte, a tendência à ênfase num "olhar" mais comercial.

Sua preocupação passa a ser, portanto, demonstrar que o abandono de um "olhar" mais antropológico representa o risco de se negligenciar o fato de que o turista não abandona o sentido de "sagrado" que envolve seu deslocamento, mesmo quando imbuído de "motivações turísticas". Ao contrário, investir nesse "olhar" é abrir a possibilidade de se perceber que "há algo de religioso no turismo", "há algo de turístico nas peregrinações" e que, portanto, temos diante de nós a possibilidade de uma melhor compreensão das "vivências religiosas" e da "religiosidade de um Brasil experimentado pelas classes populares" (p. 66).

O quarto artigo do livro, de Emerson José Sena Silveira, e cujo título é Turismo e Consumo, a Religião como Lazer em Aparecida, percorre uma ampla bibliografia atual sobre consumo, turismo e religião.

No diálogo de Silveira com essa bibliografia (David Harvey, Néstor García Canclini, Mike Featherstone, apenas para citar alguns) o primeiro ponto a considerar é a preocupação em estabelecer a convergência dos fenômenos turismo, consumo e religião com o que poderíamos definir como um contexto "pós-moderno". Dessa forma – em parte devido ao fato do autor adotar o discurso da "pós-modernidade" – é possível perceber que, dentre os pólos de inclinações possíveis da análise do fenômeno do turismo religioso, Emerson Silveira tende a dar uma ênfase maior na dimensão do turismo e do consumo. O que se torna algo interessante, na medida em que dá um equilíbrio ao livro, se para tanto considerarmos que os textos de Steil e de Abumanssur se inclinam para o pólo da dimensão religiosa do fenômeno.

Outro aspecto a ser considerado é que o texto de Emerson Silveira não fica sozinho nessa sua inclinação. Nisso ele é acompanhado por Christian Dennys Monteiro de Oliveira, cujo artigo intitula-se Turismo, Monumentaliade e Gestão: Escalas e Dimensões da Visitação Religiosa Contemporânea.

Todavia o texto de Christian Dennys – provavelmente refletindo a sua formação em geografia – direciona-se muito mais para uma reflexão das questões relacionadas às implicações práticas do turismo religioso.

Denso e arrojado, dentre suas contribuições para o tema central dessa coletânea, merece nota o fato do artigo de Oliveira empreender um esforço para conciliar o turismo enquanto realidade macrossocial (que ele denomina turismonumentalidade) com sua dimensão individual (a qual ele nomeia fétur).

Em síntese, o livro organizado por Edin Sued Abumanssur, analisado nas suas partes, torna-se um contributo oportuno e elucidativo para e sobre o debate que vem surgindo em torno deste fenômeno social emergente que é o turismo religioso. E, o que também constitui um mérito da obra, fica a sensação de que este é um espaço de pesquisa no qual a antropologia social não só tem muito a explorar, como também a contribuir.

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