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Horizontes Antropológicos

versão impressa ISSN 0104-7183versão On-line ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. v.9 n.20 Porto Alegre out. 2003

https://doi.org/10.1590/S0104-71832003000200016 

RESENHAS

 

Nicole Isabel dos Reis

Mestranda, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

 

MATHEWS, Gordon. Cultura global e identidade individual. Bauru: EDUSC, 2002. 414 p.

 

O que é um lar? Quem somos nós neste mundo? Essas são as indagações que basicamente norteiam as quatrocentas páginas da obra do antropólogo americano Gordon Mathews. Esses questionamentos são descontruídos e fragmentados em inúmeros outros a respeito do que significa cultura hoje – tanto para o senso comum como para mundo acadêmico da antropologia – e como as pessoas entendem quem são culturalmente.

A principal ferramenta usada por Mathews para problematizar a questão da identidade cultural é o conceito de "supermercado cultural global": como pensar em culturas nacionais quando uma boa parcela da população mundial, diariamente, escolhe aspectos da sua vida nas prateleiras de um supermercado cultural global? As opções de escolha disponíveis a todos são inúmeras: tratando-se de comida, por exemplo, pode-se comer ovos e bacon no café da manhã, lasanha no almoço e sushi no jantar; como entretenimento, pode-se ouvir jazz, samba, reggae e salsa; no campo da religião, pode-se escolher entre se tornar cristão, budista, sufi ou ateu.

A tensão entre pertencer a uma cultura nacional e ser um consumidor do supermercado global é apresentada com a etnografia de três grupos: artistas japoneses tradicionais e contemporâneos; americanos em busca de religião, cristãos e budistas; e intelectuais de Hong Kong à procura de uma identidade após um evento histórico recente, a devolução de Hong Kong à China.

Essas etnografias se guiam por indagações aparentemente simples, mas que evocam a dificuldade de se colocar identidades nacionais em categorias estanques: o que no mundo é japonês? (Ou americano? Ou chinês?).

No primeiro capítulo, Sobre os Significados de Cultura, Mathews inicia com um panorama geral do conceito de cultura em antropologia e suas inúmeras significações, desde seu aparecimento no século XIX, passando pelos evolucionistas, Franz Boas, Ruth Benedict e Clifford Geertz, até a espécie de mal-estar contemporâneo no uso do conceito por alguns antropólogos. Seu objetivo é fazer um contraponto entre o conceito "clássico" de cultura como "o modo de vida de um povo" e o conceito mais contemporâneo, que trata cultura como "as informações e identidades disponíveis no supermercado cultural global". Para ele, a oposição fundamental entre esses dois conceitos seria de que o primeiro coloca cultura como formada pelo Estado, e o segundo, como formada pelo mercado. A questão volta-se para como os grupos etnografados formulam suas identidades culturais entre os princípios contraditórios de Estado e mercado, que têm inculcados em suas mentes. Assim, ele apresenta uma teoria fenomenológica da formação cultural do eu, focada em como os eus entendem a formação cultural de suas identidades. Essa formação é colocada como acontecendo em três diferentes níveis. Um primeiro nível, extremamente profundo, aceito sem questionamento, e que está abaixo do nível de consciência (algo similar ao conceito de habitus). Um segundo nível, intermediário, que o autor chama de shikata ga nai, uma expressão japonesa que significa "não há nada que eu possa fazer a respeito", e que é o nível no qual fazemos o que devemos fazer enquanto membros da sociedade, gostando ou não: parar no sinal vermelho, ir à escola, trabalhar para viver. São as pressões sociais sobre o eu, e é dentro delas ou contra elas que, conscientemente, se luta para moldar seu próprio caminho. O terceiro nível, bem mais superficial, é o do "supermercado cultural global", e é o nível no qual as pessoas sentem que têm absoluta liberdade de escolha (que não é absolutamente livre, mas feita a partir de um "catálogo" de opções disponíveis para determinada classe social, gênero, etnia, formação). Cultura como "modo de vida de um povo" estaria nos dois primeiros níveis, e cultura como "leque de opções", no terceiro. Mathews encerra o capítulo colocando em questão o conceito de identidade, problematizando o que significa uma "escolha" dentro do supermercado cultural e apresentando brevemente e justificando sua escolha dos grupos estudados.

Os três capítulos que se seguem, dedicados aos japoneses, americanos e chineses, formam a maior parte do livro. A etnografia foi realizada em vários momentos, tanto no Japão como nos Estados Unidos e em Hong Kong, e fundamentalmente baseada em entrevistas longas, com cerca de 120 informantes.

No capítulo sobre o Japão, Mathews questiona as identidades culturais de tocadores de coto (harpa japonesa), calígrafos, pianistas de jazz, roqueiros, artistas plásticos, entre outros artistas. São questionadas suas posturas que se inclinam ora em direção à manutenção do "japanismo" no fazer artístico, ora em direção à abertura para a "ocidentalização". A manutenção das raízes japonesas, assim, pode ser vista como um grilhão para o artista que quer se inserir no cenário artístico mundial, ao mesmo tempo em que pode ser colocada como só mais um item à disposição no supermercado cultural e, assim, como objeto de escolha ou de reinvenção.

Ao falar dos americanos, Mathews concentra-se nas identidades culturais dos cristãos evangélicos, dos budistas tibetanos e das pessoas que simplesmente "buscam o espiritual". A classificação dos Estados Unidos da América como uma nação cristã é colocada em xeque com a contraposição de vários discursos acerca do que seria a "verdade" religiosa primordial para os informantes, e sobre como os budistas e as pessoas em busca de espiritualidade exercem e justificam suas opções religiosas baseando-se no ideal americano de liberdade de escolha – a verdade versus o gosto. Como os princípios culturais americanos incluem o discurso da "busca de felicidade", o autor coloca que, na realidade, o próprio supermercado cultural global é americano: os japoneses podem temer uma ocidentalização quando muito influenciados por ele, mas os americanos nada têm a temer no sentido de uma completa "orientalização": as religiões do Oriente entram como mais um dos produtos do supermercado cultural, à escolha do freguês.

Finalmente, ao falar dos intelectuais de Hong Kong que não sabem qual é sua identidade cultural/nacional (hong-konguenses? Chineses de Hong Kong? Chineses?), Mathews propõe a interpretação de um processo recente e que atinge uma geração específica de pessoas: aqueles nascidos e criados em Hong Kong mas que possuem "raízes chinesas", e que estão confrontados com a questão de criar uma identidade depois da devolução do território à China. São questionados os processos educacionais, políticos, institucionais e midiáticos que influenciam a formação dessas identidades e como os próprios informantes interpretam o seu lugar dentro desse jogo de espelhos.

No capítulo final, À Procura de um Lar no Supermercado Cultural, Mathews aproxima os três grupos e demonstra de que forma os diferentes pontos de vista dos informantes refletem correntes maiores no mundo de hoje. Assim, o jogo entre as circunstâncias especiais de cada sociedade (o nível shikata ga nai) e as escolhas e buscas individuais, (o supermercado) é o fator que condiciona a negociação social dos sentidos de identidade cultural dessas pessoas. Mas até que ponto a liberdade de escolha não é mera ilusão? Até que ponto a necessidade de escolha não é o próprio shikata ga nai do mundo contemporâneo capitalista? O autor discorre sobre as implicações do capitalismo e da predominância econômica do Ocidente na formação do supermercado cultural.

Retomando uma discussão do primeiro capítulo, no encerramento do livro Mathews volta às definições antropológicas de cultura e critica o fazer e as preocupações dos antropólogos contemporâneos, argumentando que, se o conceito de cultura ao qual a tradição antropológica tem se prendido é o do "modo de vida de um povo", fica cada mais difícil identificar esse "modo" de forma clara num mundo contemporâneo fluido e fragmentado. Do mesmo modo, se a antropologia passar a se dedicar ao estudo do "supermercado cultural", seu objeto e conteúdo se tornariam bem obscuros e demasiado sujeitos a "modismos". Seria o caso de se criar uma nova base teórica para antropologia? Talvez sim, afirma Mathews, citando as propostas de uma nova antropologia, de modernidade e capitalismo comparativos.

Para ele, a antropologia deve se voltar para o mundo, se tornar cada vez mais acessível a leigos ("pessoas comuns"), para manter uma importância e um potencial liberador, já que as questões das quais trata não dizem respeito somente a quem está no mundo acadêmico, mas a todos (ele afirma que seria necessária uma outra Ruth Benedict para escrever algo do tipo Patterns of Transnational Culture para o nosso tempo).

E o lar, onde está? Segundo Mathews, no mundo do supermercado cultural não há mais lar particular incontestável: ele pode ser apenas mais uma construção a partir do próprio supermercado (além disso, na era da Internet e da conexão universal, não seria possível deixar o lar: este seria simplesmente o ponto a partir do qual se acessa o mundo). O lar cultural fica sendo apenas um sonho – enquanto isso, querendo ou não, o melhor a fazer é banquetear-se no supermercado cultural global.

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