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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.11 no.24 Porto Alegre July/Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832005000200017 

RESENHAS

 

Santos, Silvio Coelho dos; Nacke, Aneliese; Reis, Maria José (Org.). São Francisco do Sul: muito além da viagem de Gonneville. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004. 247 p.

 

 

Caleb Faria Alves

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

 

A localidade onde hoje se situa a cidade de São Francisco do Sul (SC) é o centro de muitas histórias singulares, algumas delas beirando o fantástico. Essa encruzilhada peculiar de vidas nos é revelada por uma recente edição intitulada São Francisco do Sul: Muito Além da Viagem de Gonneville, organizada por Silvio Coelho dos Santos, Aneliese Nacke e Maria José Reis. A própria leitura da obra é uma aventura intelectual que nos conduz desde os primeiros habitantes indígenas, cujos vestígios arqueológicos indicam a presença humana na região há pelo menos 4,5 mil anos, passando pela investida aventureira, nos primórdios da colonização, de um grupo de comerciantes de Honfleur, França, cujo relato poderia ter saído da imaginação de um sonhador romanesco, até a intensa produção diária de 300 toneladas de óleo bruto de soja, entre outros aspectos surpreendentes da economia local. Esses fragmentos que destaquei, no entanto, não estão soltos, mas todos muito firmemente ancorados nas águas que cercam a ilha homônima à cidade, na baía da Babitonga, e também na memória dos habitantes e nas suas reflexões sobre o futuro da cidade.

Aliás, a razão fundamental do livro são as indagações sobre o legado de São Francisco do Sul, sobre a identidade dos seus moradores, suas dívidas com populações excluídas ou com a natureza maltratada, e sobre suas possibilidades de desenvolvimento humano e econômico. Essa publicação é um dos frutos de um acordo sobre esses elementos todos, que provavelmente ainda está em andamento e terá novos capítulos. Nesse sentido, é peça de uma engrenagem maior, mas uma peça decisiva, não apenas pelo que relata sobre isso tudo, sobre as negociações relativas ao tombamento do centro histórico da cidade, sobre o sentido e o investimento nos sítios arqueológicos, mas sobretudo enquanto peça também de um pacto (o que não implica concordância) entre um grupo de autores e entidades diversas às quais pertencem, representam ou que estão de alguma forma envolvidas com os caminhos de São Francisco. Assim, o livro deve ser visto à maneira de quem admira um casario preservado em relação ao que representa de esforço conjunto voltado para a constituição de uma relação com a cidade, realizado e expresso, é claro, na sua particularidade: a partir de saberes e perspectivas orientados para a construção de um discurso.

A riqueza dessa obra, portanto, deve ser entendida em dois planos: no próprio conteúdo que encerra, isto é, nos dados históricos e atuais que contém, no que ensina sobre a ocupação e destino de tantas empreitadas apaixonadas, quiméricas ou desumanas na região, e, num segundo plano, pelo que evidencia de negociação entre interesses diversos. O livro é resultado do concurso de autores e colaboradores de várias instituições de ensino públicas e privadas, locais e federais, do empenho de membros da administração pública federal e municipal e da parceria com empresas privadas, cada um portando, certamente, um interesse e um ponto de vista diverso cujo confronto vingou em colaboração profícua.

O principal sujeito dessa palestra, entretanto, está oculto à primeira vista: é o próprio morador de São Francisco. O recorte populacional definido como objeto e objetivo de reflexão é extremamente revelador da perspectiva adotada, da sua dimensão ética e do seu compromisso democrático. A tentação do extraordinário, presente sobretudo na personagem de Binot Palmier de Gonneville e sua pequena epopéia, é relativizada dentro dela mesma e a partir da sua inserção em movimentos históricos mais amplos, sobre os quais se assumem e evidenciam repercusões, por vezes, nada nobres ou mesmo vergonhosas. A relação, como os próprios autores destacam, real ou imaginária, dessa cidade com a França, começa com o navegante, mas não se circunscreve apenas à trajetória deste e de outros franceses que circularam por lá, como Auguste de Saint-Hilaire ou Benoît Jules de Mure que, inspirado pelas idéias de Charles Fourier, vislumbrou implantar naquelas plagas uma comunidade socialista. No próprio curso da narrativa sobre essa primeira viagem encontramos outro sujeito que viveu saga semelhante, senão ainda mais fantástica, e inversa à do comerciante: a do índio batizado na França de Essomericq.

Na verdade, temos informações que permitiriam, sem desmerecer ou diminuir em nada a façanha francesa, reconstruir a mesma história do ponto de vista desse índio que seguiu a bordo do L'Espoir para nunca mais retornar à sua terra natal. É exatamente essa possibilidade de um protagonista, pelo menos no nosso pensamento, múltiplo, que faz nossa imaginação transitar do cesto da gávea de onde primeiro se avistou o Brasil para as mãos que moldaram os artefatos líticos encontrados nas escavações arqueológicas, principalmente nos vários sambaquis do litoral, muito antes da chegada de qualquer europeu.

Ao remeter-nos dos heróis a seus ancestrais e conterrâneos sem registro preciso na história oficial, o relato nos conduz também para seus descendentes na mesma condição, ao citadino que discute com o técnico do Iphan ou algum pesquisador sobre a sua vida pregressa, as histórias que conhece dos amores rompidos na partida do porto ou dos esconderijos de tesouros, sobre suas ambições no bojo das negociações para o tombamento patrimonial do centro urbanístico ou para pesquisas historiográficas. Nos conduz também ao parente distante de Essomericq que nos dias de hoje vende seu artesanato nas ruas da cidade e que luta pelo reconhecimento de seus direitos básicos, pela demarcação de suas terras e por uma vida mais digna. O mesmo se poderia dizer do pequeno mas significativo trecho sobre o escravo negro Antônio Naro, que figura numa notícia do Jornal da Colônia (ou Kolonie Zeitung) de 15 de março de 1879 em agradecimento aos serviços que prestou no combate à febre amarela, registro curto, um microepisódio, mas que agrega atos, sentimentos, valores humanos à grande marcha de um povo através dos séculos.

Capítulo à parte é a seleção de imagens e a maneira com foram expostas. Além da recuperação de registros históricos importantes, como os cartões postais, temos um cuidadoso oscilar entre recortes claros e definidos, filigranas quase invisíveis, imagens novas e antigas, fotografias de pessoas e de construções, destaques de pequenos detalhes e ampliações completas de grandes vistas. Essas variações estão em diálogo íntimo umas com as outras e com o texto de modo a, no seu conjunto, compor um discurso único. Ou seja, não ilustram, informam tanto quanto as palavras e, da mesma forma que elas, nos convidam ao deleite do que transmitem. A imagem da pesca artesanal, por exemplo, ganha continuidade, através do enquadramento, das cores, dos planos, do tamanho, na fotografia das instalações da Transpetro no bairro de Ubatuba. O livro é prenhe dessas sugestões visuais que, é preciso especificar, falam por si mesmas, mas não são independentes, seguem a mesma batuta que regeu o conjunto, compondo uma mesma paisagem.

Cabe destacar uma última ambição de promoção de contatos presente no livro: trata-se de uma edição bilíngüe, franco-portuguesa. Dessa vez, não através do porto, mas como conseqüência do que ele ensejou, promover novos encontros através dos relatos sobre os rumos das vidas que passaram por ali e cujos passos, ou pelo menos suas marcas, se entrecruzaram nas madeiras dos trapiches, nas areias das praias, nas calçadas da urbe e agora na leitura dessas páginas.

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