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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.15 no.31 Porto Alegre Jan./June 2009

https://doi.org/10.1590/S0104-71832009010200001 

Imigrantes Portugueses: Recurso valioso para a economia de uma cidade dos EUA

 

 

Bela Feldman-Bianco

CEMI- UNICAMP, 11-31710670, bfb@uol.com.br

 

 

As profundas transformações econômicas dos últimos 30 anos – nas quais se destacam processos de flexibilização do capital, do trabalho e mudanças regionais e internacionais das estruturas produtivas - também impactam processos culturais e identitários. É o que verifica a antropóloga Bela Feldman-Bianco em uma pesquisa etnográfica e de longo alcance histórico na cidade de New Bedford, em Massachusetts, nos Estados Unidos.

Além de se beneficiar das políticas de cultura e investimentos do Estado português na região, essa localidade norte-americana tem feito uso da histórica migração portuguesa como atrativo turístico e econômico.

Marcada por movimentos migratórios originados principalmente de Portugal, New Bedford passou de vanguarda da indústria baleeira, em meados do século XIX, ao mais importante pólo têxtil do mundo, entre 1880 e 1920. Sua decadência econômica ocorreu quando a competição com as tecelagens do sul dos EUA obrigou as fabricas locais a encerrarem suas atividades ou a se deslocarem para o sul - onde os salários eram mais baixos e a legislação não era cumprida. Desde o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e a intensificação do declínio industrial da região, a cidade vem tentando se reconstruir como pólo turístico e de serviços. "A identificação pública de New Bedford com a imigração portuguesa e com Portugal se tornou um recurso valioso nos esforços dessa cidade para conseguir competir regional e globalmente", diz a pesquisadora.

O ingresso de Portugal na Comunidade Européia deu forças a lideranças locais de origem portuguesa como protagonistas políticos, econômicos e sociais tanto no contexto de New Bedford como em relação ao Estado português. "As conexões dessas lideranças as posicionam como facilitadoras de parcerias educacionais e econômicas", explica a pesquisadora.

O estudo mostra que, em comparação, no início dos anos 1980, a comunidade portuguesa de New Bedford enfrentou um momento difícil, quando um caso de estupro ocorrido em um bar, e tendo como protagonistas imigrantes e luso-descendentes, ganhou notoriedade internacional. O episódio fez com que a cidade recebesse a alcunha de "capital da gangue de estupradores portugueses da América", trazendo à tona antigos preconceitos e estigmas em relação aos portugueses, vistos como "bizarros" e "perigosos".

No mesmo período do episódio, já se iniciava, paradoxalmente, um processo de revitalização econômica da cidade, levado a cabo por novos contingentes de imigrantes portugueses. "Essa revitalização contribuiu, facilitou e tornou visível a reconstituição da identidade portuguesa, mas só foi reconhecida quando das visíveis transformações em Portugal e em New Bedford, provocadas pela reestruturação do capital e da migração", diz a autora. A identidade portuguesa tornou-se, mais tarde, um componente desejável do patrimônio cultural da cidade.

A antropóloga, entretanto, aponta o caráter contraditório das políticas de aparente valorização do multiculturalismo. "Concomitantemente ao avanço do capital cultural e da posição social das lideranças, ocorrem perdas na qualidade de vida daqueles que precisam migrar para trabalhar. O regime neoliberal, juntamente com as restritivas políticas de imigração, que criminalizam imigrantes e os percebem como questão de segurança nacional, tem resultado não só na perda das condições de trabalho seguras e estáveis, como também no aumento da exploração e da vulnerabilidade econômica dos trabalhadores", afirma. No caso, os mais prejudicados são os imigrantes indocumentados da América Latina, em posição mais frágil.

O trabalho de Bela Feldman-Bianco foi publicado recentemente na revista Horizontes Antropológicos, sob o título "Reinventando a localidade: globalização heterogênea, escala da cidade e incorporação desigual de migrantes transnacionais" (link). Ao retroceder no tempo e focalizar o apogeu e declínio de New Bedford, a análise expõe uma história cujo principal protagonista é um capitalismo industrial predatório, que se nutre do controle e da exploração do trabalho imigrante.

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