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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775On-line version ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.34 no.64 Belo Horizonte Jan./Apr. 2018

https://doi.org/10.1590/0104-87752018000100001 

EDITORIAL

Sobre modelos e exemplos

On models and examples

Ana Paula Sampaio Caldeira1 

1Editora Chefe de Varia Historia, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio Carlos 6627, Belo Horizonte, MG, 31.270-901, Brasil, anapaula.sampaiocaldeira@gmail.com


Nas atividades de comemorações de seus 90 anos, a Universidade Federal de Minas Gerais promoveu, ao longo de 2017, uma série de conferências com renomados profissionais ligados às mais diversas áreas do saber. No dia 9 de outubro, a comunidade universitária teve o prazer de ouvir o professor Eduardo Viveiros de Castro em uma instigante palestra intitulada O modelo e o exemplo: dois modos de mudar o mundo.

A fala de Viveiros de Castro foi forte e realista - como têm sido muitas de suas intervenções públicas -, em especial por interrogar a plateia sobre o que poderíamos esperar do futuro. E a resposta dada pelo etnólogo não poderia ser mais direta: segundo ele, o mundo vai piorar. E mais: vai piorar para todos. O futuro não é o que vemos hoje em regiões representantes da modernidade tecnológica, como o Vale do Silício, mas sim aquilo que já chegou para as áreas mais pobres e miseráveis do planeta. Então, o que fazer diante de tudo isso? Ou melhor: há algo que ainda possa ser feito? Parece-nos que Eduardo Viveiros de Castro procurou se posicionar diante dessas interrogações valendo-se de conceitos que podem nos ajudar a pensar, se não alternativas a essa situação criada pelo próprio homem, ao menos possibilidades para aprendermos a lidar com mudanças tão drásticas. Para isso, mobilizou noções que apontam para dois modos possíveis de agir no mundo: o exemplo e o modelo. Sintetizando, e assumindo o risco de simplificar a sua argumentação, podemos dizer que Viveiros de Castro considera que as sociedades ditas "primitivas" ou "menos humanizadas" do que a sociedade ocidental poderiam se tornar não um modelo para a sociedade moderna, mas, antes, um exemplo. A diferença é fartamente trabalhada por ele em sua fala e o leitor que tiver interesse poderá assistir à palestra completa no youtube. Aqui, nos interessa lidar com essa distinção mobilizada por ele entre o modelo e o exemplo. O modelo é tomado por Viveiros de Castro em seu sentido normativo, isto é, como um pensamento que se impõe. É, por vezes, um simulacro e uma simplificação da realidade (que deve, forçosamente, se adequar ao modelo). Tem um caráter dogmático e realista, podendo ser comparado à obra de um engenheiro ou, mais propriamente, à de um tecnocrata. O exemplo, por sua vez, assenta-se na experiência, na sensibilidade, na capacidade de inventar e de "fazer algo diferentemente igual" ou "igualmente diferente", nas palavras do etnólogo. Ele é horizontal, oferece pistas ao invés de dar ordens, é empirista e criador.

Embora a conferência proferida não tenha uma relação direta com a Varia Historia, como todo bom trabalho intelectual ela estimula o pensamento, pois nos leva a temas e questões que ultrapassam o assunto originalmente tratado por seu autor. A maneira como Eduardo Viveiros de Castro trabalhou com as categorias de exemplo e modelo nos parece boa para pensar a história deste periódico concebido há mais de trinta anos por aquele que foi seu primeiro editor-chefe: Ciro Flávio Bandeira de Mello. Criado em 1985, recebeu o nome de "Revista do Departamento de História" numa época em que ainda não havia um programa de pós-graduação vinculado ao curso de História da UFMG. O projeto do novo periódico era divulgar o conhecimento histórico produzido pelos docentes e alunos do curso. Se ainda hoje a velha dicotomia entre ensino e pesquisa é ponto de debate nos cursos de graduação em história, podemos imaginar o que representava, nos anos 1980, indicar, por meio de uma revista, que alunos e professores podiam e deviam pesquisar e produzir conhecimento nessa área.

Divulgar conhecimento histórico talvez possa ser considerado o objetivo fundamental que une as três décadas da Varia Historia. Tomando essa ideia como linha mestra da revista, podemos dizer que o trabalho de seus editores sempre envolveu certa dose de criatividade e capacidade de adaptação. Afinal, o trabalho na editoria de uma revista acadêmica teve, ao longo desse tempo, de lidar com mudanças em vários níveis: fossem elas próprias do ambiente acadêmico, de maneira ampla, fossem relativas ao campo da história e, por que não, do próprio Departamento de História da UFMG, especificamente.

Nas últimas décadas, a pesquisa se consolidou como uma das tarefas por excelência dos professores universitários de História. Não por acaso, no Brasil, muitos dos programas de pós-graduação dessa área foram formados nos anos 1980 e 1990. Este foi o caso do PPGH/UFMG, cujo curso de mestrado foi criado cinco anos após a formação da revista. As novas demandas em torno da produção e da divulgação da pesquisa científica, em geral, e da histórica, em particular, tiveram impactos também nos periódicos acadêmicos, exigindo deles maior profissionalização, rigor na avaliação dos artigos, adequação a critérios de qualidade e, numa demanda um pouco mais recente, acesso aberto e gratuito, presença nas redes sociais e internacionalização. Também tiveram de se adequar à maior especialização e a enfrentar problemas que podem ser entendidos em alguma medida como decorrentes do tão discutido produtivismo acadêmico, como é o caso dos plágios e autoplágios.

Os professores/ editores que estiveram à frente da revista Varia Historia mobilizaram muito de sua experiência e sensibilidade para compreender e atuar em relação às demandas impostas pelas mudanças na área. Indícios disso certamente foram a entrada da Varia na SciELO, a adesão ao sistema ScholarOne, o uso das redes sociais e a preocupação com as boas práticas acadêmicas. Essa última questão levou a Varia Historia a promover duas iniciativas pioneiras: a proposição de um código ético e de um código de coautoria. Os desafios ainda são muitos, em especial em relação à divulgação da pesquisa histórica (e isso nos remete a um problema importante para nós historiadores, que é o de discutir para quem produzimos) e à consolidação da internacionalização que crie um efetivo diálogo entre o que se produz dentro e fora do país.

Gostaria de terminar este editorial agradecendo a Regina Horta Duarte, com quem tive o prazer de trabalhar nos últimos meses, e quem, de maneira paciente e generosa, me mostrou as dores e as delícias que envolvem o cotidiano da editoração de uma revista acadêmica. O carinho e a seriedade com que Regina conduziu a revista desde 2015, somados a todo o trabalho desenvolvido pelos editores anteriores, explicam o reconhecimento e a visibilidade que a Varia Historia ganhou nos últimos anos dentro e também fora do país. A partir de agora os créditos da revista indicam meu nome como editora-chefe, mas eu diria que as mãos de Regina foram imprescindíveis para o resultado final deste primeiro número de 2018.

Agradeço também o trabalho competente de Carolina Othero, com quem terei o prazer de trabalhar daqui por diante, e o profissionalismo de Natascha Ostos. Por fim, sou grata aos meus colegas do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG pela confiança que depositaram em mim, indicando-me como editora da revista. Que os trabalhos dos editores que me antecederam sirvam não de modelo, mas sim de exemplo, de maneira que as experiências anteriores se tornem fontes de inspiração.

Referência

Ciclo UFMG, 90: Desafios Contemporâneos - Eduardo Viveiros de Castro. O modelo e o exemplo: dois modos de mudar o mundo. Conferência Ministrada na Universidade Federal de Minas Gerais em 9 de outubro de 2017. https://www.youtube.com/watch?v=_PfE54pj1wU; acessado em 19 de novembro de 2017. [ Links ]

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