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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775On-line version ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.35 no.68 Belo Horizonte May/Aug. 2019  Epub May 16, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0104-87752019000200001 

EDITORIAL

Resenhas - um gênero à margem entre os historiadores

Book Reviews - a Peripheral Genre among Historians

Ana Paula Sampaio CALDEIRA1 
http://orcid.org/0000-0001-8313-1062

Anny Jackeline Torres da SILVEIRA2 
http://orcid.org/0000-0003-2324-8810

1Editora Chefe de Varia Historia Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos 6627, Belo Horizonte, MG, 31.270-901, Brasil anapaula.sampaiocaldeira@gmail.com

2Editora de resenhas de Varia Historia Universidade Federal de Ouro Preto Rua do Seminário, s/número, Mariana, MG, 35.420-000, Brasil anejack@terra.com.br


A revista Varia Historia, como se sabe, foi criada em 1985 pelo então professor do Departamento de História da UFMG, Ciro Flávio Bandeira de Melo. O periódico ainda não se chamava desta forma, apresentando-se como Revista do Departamento de História da UFMG, e permanecendo assim pelos seus onze primeiros números. Ao longo da sua história, não só o nome, como também o formato, a periodicidade e os objetivos da revista mudaram, acompanhando as alterações institucionais e no campo historiográfico. Se, em seu início, a Varia Historia era essencialmente um veículo para a publicação e divulgação dos trabalhos desenvolvidos pelos professores e alunos do Departamento e, mais tarde, do Programa de Pós-graduação de História da UFMG, com o tempo (e por meio de diversas iniciativas) a revista foi se abrindo, ganhando autonomia, e se estabelecendo como um veículo em sintonia com a produção historiográfica em um sentido bastante amplo, para além do próprio departamento ou do PPGH à qual esteve e está ligada.

Interessante, entretanto, é notar as mudanças no formato e seções da revista. Evidentemente, desde seu início, Varia Historia se dedicou a publicar artigos acadêmicos. Além deste tipo de texto, outros já ocuparam espaço em suas páginas, apesar de hoje não figurarem mais nelas. É o caso, por exemplo, das entrevistas. Mas há uma seção que, apesar das irregularidades e das dificuldades, permaneceu ao longo da história do periódico: aquela voltada para as resenhas de livros acadêmicos publicados em nossa área.

Uma rápida mirada nos volumes da revista mostra alguns elementos interessantes em relação à publicação deste tipo de texto. As primeiras resenhas começaram a circular já em seu segundo número, de junho de 1986, quando o periódico ainda era publicado com o antigo nome. Com resenhas assinadas por Lucília Neves Delgado, Daniel Valle Ribeiro e Maria Auxiliadora Faria,1 três professores que à época atuavam no curso de história da UFMG, a revista divulgava o livro Para um novo conceito de Idade Média, publicado pela editora portuguesa Editorial Estampa no início dos anos 1980, e dois trabalhos que apontavam para o então recente campo de estudos sobre a história das mulheres: Condição Feminina - Condição Operária. Um estudo de caso sobre operárias têxteis, de Magda Maria Bello Neves, e Do cabaré ao lar - A utopia da cidade disciplinar, de Margareth Rago. Mas vale ressaltar que, em seus primeiros anos, a seção de resenha era bastante irregular e houve números em que nenhum texto deste tipo chegou a ser publicado. A partir dos anos 1990, as resenhas se tornaram mais frequentes, e circularam nesta seção análises e críticas sobre livros que alcançaram importante espaço e impacto na historiografia brasileira. É o caso, por exemplo, de Homens de grossa aventura, de João Fragoso, resenhado por José Newton Coelho Meneses,2 ou A Heresia dos Índios, de Ronaldo Vainfas, resenhado por Sérgio da Mata,3 ambos, na ocasião, mestrandos do PPGH da UFMG.

Sabrina Magalhães Rocha, em estudo realizado sobre as resenhas das obras de Lucien Febvre e Marc Bloch publicadas em periódicos franceses, alemães, belgas e ingleses das primeiras décadas do século XX, destacou como as seções de resenhas de diversas revistas acadêmicas foram, durante certo período, um “dos elementos mais decisivos para fomentar o debate intelectual e contribuir para a organização do campo disciplinar”, constituindo-se mesmo como “um meio para impulsionar a formação da própria disciplina” (Rocha, 2018, p.44). A pesquisadora dá exemplos de periódicos estrangeiros que conferiram centralidade a este tipo de texto, mencionando, inclusive, alguns dedicados exclusivamente a estas publicações, como é o caso da Revue Critique d’Histoire et de Littérature (Rocha, 2018, p.44). Vale lembrar a existência, ainda hoje, de revistas dedicadas exclusivamente à publicação de resenhas. Um exemplo internacional é a Bryn Mawr Classical Review (BMCR),4 especializada em resenhas de trabalhos no campo dos estudos clássicos. No Brasil, temos o Jornal de Resenhas, iniciativa de um grupo de professores da USP e que acabou recebendo apoio de colegas de outras instituições.5 De certa maneira, estes são dois exemplos de propostas que ainda apostam nesta modalidade de texto como veículo de crítica e debate intelectual.

Entretanto, pensando especificamente em nosso campo de estudos, as resenhas ocupam atualmente um lugar muito discreto na produção dos historiadores brasileiros. Talvez isso se deva a certa tradição intelectual pouco afeita a críticas e ao debate mais aberto, bem como a uma lógica de produção acadêmica que não valoriza, para efeitos de publicação, um texto desse tipo em nossos currículos (Kelsky, 2014). Isso explica a dificuldade que muitas vezes os periódicos enfrentam para captar e publicar boas resenhas, isto é, textos que não se limitam ao elogio, à crítica feroz ou à descrição do livro, mas que efetivamente cumpram a função de estimular o debate intelectual e historiográfico.

Por que então escrever resenhas e como elas podem contribuir nesse amplo universo do mundo acadêmico? Se a resenha tem baixo impacto no prestígio acadêmico de seus autores, desempenha funções importantes para leitores, editores e pesquisadores. Enquanto possibilidade de compartilhamento de experiências de leituras, as resenhas são uma ferramenta de divulgação, uma porta de entrada para novos leitores, cumprindo ainda as clássicas funções de dar visibilidade à obra e orientar a seleção no interior de um mercado editorial cuja produtividade cresce exponencialmente. Mas, além de apresentar o(s) argumento(s) central(ais), os tópicos a partir dos quais o autor o(s) organiza e desenvolve seus argumentos, as ferramentas e opções de análise por ele escolhidas, discutindo os pontos fortes e fracos do texto, o resenhista deve ainda localizá-lo nos debates dentro do campo de discussão privilegiado, propondo um diálogo com outros autores e perspectivas de análise. Dessa forma, boas resenhas podem avançar além da importante e primeira função de divulgação da produção intelectual, contribuindo para demarcar debates e tendências no interior dos campos acadêmicos. Dito de outra forma, alavancando a circulação e o impacto das ideias expostas. Considerando, ainda, um ambiente no qual os critérios bibliométricos se tornam cada vez mais presentes, a publicização e a promoção dos textos viabilizadas pelas resenhas podem mesmo servir de termômetro capaz de informar sistemas de avaliação da produção científica no interior da comunidade de pesquisadores. Por fim, por tudo isso, e levando em conta os valores acadêmicos, estéticos e sociais incorporados pelos livros resenhados e pelas próprias resenhas, não se deve descurar do seu significado como testemunhos da memória, da história científica e do clima intelectual de um determinado espaço/tempo.

É por acreditar na importância e na potencialidade desse tipo de produção acadêmica que a equipe editorial de Varia História está empenhada na manutenção e no revigoramento de sua Seção de Resenhas. Além de convidar a comunidade acadêmica a colaborar com o envio de suas análises sobre a produção recente em seu campo de estudos, estamos propondo a autores e editores que se mobilizem no envio de textos afinados com a proposta editorial da revista. As contribuições devem seguir as orientações disponibilizadas na página da revista, definidas em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelo SciELO, como o que determina que as resenhas deverão ter o “caráter crítico que aportem novos conhecimentos além do simples resumo de uma obra” (SciELO, 2014, p.9). Tanto as resenhas como o material bibliográfico enviado serão avaliados pela equipe editorial segundo critérios de qualidade e de representatividade e impacto acadêmicos. Investir na maior visibilidade e no engajamento da revistas acadêmicas na proposta de revigorar as Seções de Resenhas é uma forma de estimular que este tipo de texto seja percebido como parte da nossa produção intelectual, e quem sabe, surtir algum efeito sobre sua valorização entre os historiadores e os coordenadores nas instituições que pautam a produção acadêmica na área.

1As três resenhas podem ser encontradas em http://www.variahistoria.org/edies?tag=Number+02; acesso em 31 mar. 2019. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 2, n. 2, jun. 1986.

2MENESES, José Newton Coelho. Resenha do livro Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830).Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 12, n. 15, p.193-204, mar. 1996.

3DA MATA, Sérgio. Resenha do livro A heresia dos índios. Catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 12, n. 16, p.171-177, set. 1996.

4A BMCR pode ser acessada em: http://bmcr.brynmawr.edu/editors.html; acesso em 31 mar. 2019.

5Jornal de Resenhas - http://jornalderesenhas.com.br/videos/; acesso em 31 mar. 2019.

Referências bibliográficas

KELSKY, Karen. The Professor is in: is Writing a Book-Review ever Worth it? 2014. Chronicle Vitae. https://chroniclevitae.com/news/641-the-professor-is-in-is-writing-a-book-review-ever-worth-it; acesso em 31 mar. 2019. [ Links ]

ROCHA, Sabrina Magalhães. Os periódicos e a crítica da história: A recepção de Lucien Febvre e Marc Bloch por seus contemporâneos (1911-1942). Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal de Ouro Preto. Mariana, 2018. [ Links ]

SCIELO. Critérios, política e procedimentos para a admissão e a permanência de periódicos científicos na Coleção SciELO Brasil. São Paulo, set. 2014 [ Links ]

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