SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.35 número68Apresentação: Cultura escrita no mundo modernoLiteratura da experiência no século XVII índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Varia Historia

versão impressa ISSN 0104-8775versão On-line ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.35 no.68 Belo Horizonte maio/ago. 2019  Epub 16-Maio-2019

https://doi.org/10.1590/0104-87752019000200003 

DOSSIÊ

Mobilidade dos textos e diversidade das línguas: Traduzir nos séculos XVI e XVII

1École des Hautes Études en Sciences Sociales 54 boulevard Raspail, 75.006, Paris, France roger.chartier@ehess.fr


Resumo

O tema da tradução é hoje compartilhado pela história literária, pela crítica textual, pela sociologia cultural e história global. Este artigo pretende, primeiramente, refletir sobre as razões dessa convergência. A primeira é histórica e considera a tradução como uma primeira forma de “profissionalização” da escrita. A segunda é metodológica e possui os estudos da tradução como um elemento essencial da “geografia literária” proposta por Franco Moretti, e da perspectiva das “histórias conectadas” definida por Sanjay Subrahmanyam. A terceira razão é linguística e estética e coloca ênfase na intraduzibilidade (ou nos textos e autores considerados como intraduzíveis). Em seguida, o artigo propõe três estudos de caso que permitem identificar três séries de pesquisas sobre as traduções e três modalidades da transformação dos textos quando eles migram de uma língua para outra. A mobilidade do significado pode ser produzida pela dificuldade da tradução de certas palavras (por exemplo “affetazione” ou “sprezzatura” no Libro del Cortegiano de Castiglione), ou pelo contexto da recepção da obra tal como sinalizam elementos paratextuais (no caso da Brevíssima relación de la destrucción de las Indias de Las Casas), ou ainda pela mutação do próprio sentido do texto (como o mostra o “Oráculo manual y arte de prudência” de Gracián, transformado em L’Homme de cour por seu tradutor francês, mesmo que a palavra “corte” nunca tenha aparecido no livro de Gracián).

Palavras-chave: a tradução; o intraduzível; geografia literária; mobilidade de significado; histórias conectadas

Abstract

The theme of translation is a concern shared today by literary history, textual criticism, cultural sociology, and global history. Initially the article will reflect on the reasons for this convergence. The first is historic and considers translation as the first form of the ‘professionalization’ of writing. The second is methodological and locates translation studies as an essential element of the ‘literary geography’ proposed by Franco Moretti and the perspective of ‘connected histories’ defined by Sanjay Subrahmanyam. Finally, the third is linguistic-aesthetic and emphasizes the untranslatable (or texts and authors considered as such). Afterwards three case studies are looked at which can identify three scales of research on translation and three modalities of textual transformations when they migrate from one language to another. The mobility of meaning can relate to the difficulty of translating the same words (for example affetazione or sprezzatura in Castiglione’s Libro del Cortegiano), or in the context of the reception of the work how to express the paratexts (as in the case of Las Casas’ Brevísima relación de la destrucción de las Indias), or also mutation in the entire meaning of the text (as shown by l’Oráculo manual y arte de prudencia by Gracián transformed into L’Homme de cour by its French translator when the word court (cour) never appeared in Gracián’s work).

Keywords: translation; untranslatable; literary geography; mobility of meaning; connected histories

Resumé

Le thème de la traduction est une question partagée aujourd’hui par l’histoire littéraire, la critique textuelle, la sociologie culturelle et l’histoire globale. Cet article voudrait, d’abord, réfléchir sur les raisons de cette convergence. La première est historique et considère la traduction comme une première forme de “professionalisation” de l’écriture. La seconde est méthodologique et tient les études de la traduction comme un élément essentiel de la “géographie littéraire” proposée par Franco Moretti et de la perspective des “histoires connectées” définie par Sanjay Subrahmanyam. La troisième raison est linguistique et esthétique et met l’accent sur l’intraduisible (ou les textes et les auteurs considérés comme tels). Ensuite, cet article entend proposer trois études de cas qui permettent d’identifier trois échelles pour les recherches sur les traductions et trois modalités de la transformation des textes quand ils migrent d’une langue dans une autre. La mobilité de la signification peut être produite par la difficulté de la traduction de certains mots (par exemple “affetazione” ou “sprezzatura” dans le Libro del Cortegiano de Castiglione), ou par le contexte de la réception de l’Œuvre comme tel que l’indiquent les paratextes (dans le cas de la Brevísima relación de la destrucción de las Indias de Las Casas), ou encore par la mutation du sens même du texte (comme le montre l’Oráculo manual y arte de prudencia de Gracián transformé en L’Homme de cour par son traducteur français alors même que le mot “cour” n’apparaît jamais dans l’Œuvre de Gracián).

Mots clés: la tradución; l’intraduisible; géographie littéraire; mobilité de signification; histoires connectées

O estudo das traduções é hoje um tema compartilhado pela história literária, pela crítica textual e pela história ou sociologia cultural. Existem, acredito, três razões essenciais para este interesse comum.

A profissionalização da escrita

A primeira razão é histórica. Com efeito, é com as traduções que se evidencia, nos séculos XVI e XVII, uma primeira profissionalização da escrita. Quando, na Segunda Parte da história, no capítulo LXII, Dom Quixote visita uma gráfica de Barcelona, é apresentado, por um dos tipógrafos, a um homem “que traduziu um livro toscano para a nossa língua castelhana”.1 O diálogo que ele inicia com o “autor” que traduziu o livro intitulado Le bagatele [A ninharia] diz respeito a duas realidades aparentemente contraditórias. De um lado, Dom Quixote declara seu menosprezo pela tradução, que ele identifica a uma simples cópia: “ [...] me parece que o traduzir de uma língua em outra, caso não seja das rainhas das línguas, grega e latina, é como olhar as tapeçarias flamengas pelo avesso, que por mais que se vejam as figuras, são cheias de fios que as obscurecem e não se veem com a lisura e lustre da face; e o traduzir de línguas fáceis não argui [mostra] engenho nem elocução, como não o argui [mostra] quem traslada ou copia um papel de outro papel”.2 Dom Quixote utiliza aqui o verbo trasladar, que possui um duplo sentido no Tesoro de la lengua castellana, o española, publicado por Covarrubias em 1611: “Trasladar. Às vezes significa interpretar alguma peça escrita de uma língua para outra; outras vezes significa copiar”.3 A tradução de uma língua vernácula para outra seria, desse ponto de vista, um exercício puramente mecânico e inútil. Raras seriam as exceções que elevam a tradução à dignidade do original. Dom Quixote menciona somente duas: a tradução da tragicomédia de Battista Guarini, Il Pastor Fido, por Cristóbal Suárez de Figueroa, publicada em 1602 e revisada em 1609, e a do poema de Torquato Tasso, La Aminta, por Juan de Jáuregui, poeta e pintor, lançada em 1607.

Desprezada por Dom Quixote, a tradução é, no entanto, uma forma da profissionalização da atividade de escrita capaz de assegurar sólidos rendimentos aos “autores”. Pelo menos é o que espera o tradutor de Le bagatele. Quando Dom Quixote lhe pergunta: “Mas vossa mercê me diga: este livro é impressopor sua conta ou já vendeu o privilégio a algum livreiro?”, ele responde com soberba: “Por minha conta o imprimo [...] e penso ganhar mil ducados, pelo menos, com esta primeira impressão, que há de ser de dois mil exemplares, e num abrir de olhos se hão de despachar a seis reais cada um”.4

O tradutor encontrado em Barcelona está convencido de seu sucesso, uma vez que a tiragem de dois mil exemplares é maior do que todas as tiragens enumeradas por Alonso Víctor de Paredes em seu Institución y Arte de la Imprenta, livro composto por volta de 1680.5 Cervantes sublinha, assim, a enorme presunção do tradutor, mas também o gosto do público pelas traduções, superior àquele demonstrado pela obras originais. O tradutor de Le Bagatele mantém para si o privilégio de impressão do livro e sua intenção está bem clara, ao mandar imprimir por sua conta os dois mil exemplares e ao controlar sua venda, da qual obterá os lucros: “[...] Eu não imprimo meus livros para conseguir fama no mundo, pois nele já sou conhecido pelas minhas obras: é proveito o que quero, pois sem ele a boa fama não vale um quatrim [tostão]”.6

Os contratos celebrados entre os livreiros parisienses e os tradutores dos romances de cavalaria castelhanos em meados do século XVI mostram que, pelo menos na França, as traduções podiam assegurar tais lucros. Em 19 de novembro de 1540, Nicolas de Herberay cede aos livreiros Jean Longis e Vincent Sertenas o privilégio obtido por ele para a tradução do segundo, do terceiro e do quarto livros de Amadis de Gaule, entrega a eles partes do segundo livro que ele já traduziu e lhes promete traduzir “o mais cedo possível” o restante do segundo livro, assim como os dois seguintes. Os livreiros lhe concedem, por sua vez, e de acordo com o costume, doze exemplares não encadernados de cada livro, a fim que ele possa apresenta-los ao rei e oferecê-los em dedicatória, mas também vinte e cinco écus de ouro quando da assinatura do contrato, vinte e cinco na entrega do terceiro livro e trinta quando da entrega do quarto (Parent, 1974, p.300-301). Em uma época em que os autores geralmente recebem somente exemplares de suas obras como pagamento, os tradutores são os primeiros a serem pagos em dinheiro. À remuneração indireta do patronato, reconhecido pelas dedicatórias ou obtido graças a elas, se juntam aquelas que provêm diretamente do mercado do livro. Em 2 de março de 1542, o contrato realizado entre o mesmo Nicolas de Herberay e os dois livreiros aos quais se une Denis Janot, inclui cláusulas similares para a tradução do quinto e do sexto livros de Amadís. O tradutor se compromete a entregar o texto traduzido no prazo de um ano e os livreiros, além de lhe prometerem doze exemplares de cada um dos dois livros, dez “em blanc” (isto é, sem encadernação) e dois “Reliés et dorés” [encadernados e dourados], lhe pagam imediatamente, “manualmente e em moeda” sessenta e dois écus de ouro, além de perdoarem uma dívida de vinte e dois écus por um cavalo que lhe havia vendido Denis Janot (Parent, 1974, p.301-302).

O gosto pelas traduções dos romances de cavalaria espanhóis levou a notáveis inovações nas relações entre os livreiros e os “autores” (neste caso, os tradutores). É o caso dos adiantamentos concedidos por um manuscrito ainda a ser feito. Em 19 de abril de 1543, em um contrato realizado entre Nicolas de Herberay e os três livreiros Longis, Janot e Setenas para a tradução de Palmerin, estes últimos concedem ao tradutor um adiantamento de quarenta libras pela entrega, no dia de São João Batista, dos vinte primeiros cadernos do primeiro livro “para começar a imprimir o dito livro por eles”, e depois, em agosto, da totalidade do primeiro livro (Paret, 1974, p.303-304). Para contentar um público impaciente, os livreiros parisienses decidem então imprimir os romances de cavalaria caderno por caderno, sem esperar pela conclusão da tradução da obra inteira. Assim as traduções, desde o século XVI, transformaram as práticas de seus editores e a condição de seus tradutores.

Geografia literária e histórias textuais conectadas

À razão histórica para a atenção dada às traduções, se acrescentam hoje outras, desta vez historiográficas.

Seguir a cronologia e a cartografia das traduções de uma mesma obra constituiu uma das abordagens iniciais da geografia literária tal como a definiu Franco Moretti. Como mostram três mapas em seu Atlante del romanzo europeo, três ondas de traduções asseguraram a mundialização de Dom Quixote (Moretti, 2000, fig.84).7 O primeiro mapa apresenta a história das traduções de Dom Quixote no “centro” da Europa ocidental com suas traduções em inglês (1612 e 1620, para a Segunda Parte do livro), em francês (1614 e 1620), em italiano (1622), em alemão (1648, mas para uma edição de somente vinte dois primeiros capítulos da Primeira Parte) e em holandês (1657). Uma segunda onda de traduções, entre 1769 e 1802, diz respeito a uma Europa periférica e “ilustrada”, com o surgimento das traduções em russo, dinamarquês, polonês, português et sueco. Enfim, no século XIX, as traduções se multiplicam nas línguas dos impérios austríaco, russo e otomano e naquelas do Oriente: chinês, persa, hindi, japonês. Esta abordagem espacial é absolutamente essencial, mas permanece, sem dúvida, insuficiente.

Com efeito, a geografia das traduções não pode ser a cartografia dinâmica de uma entidade textual estável. É preciso levar em conta várias mutações que transformam a obra. É o caso das novas traduções em uma mesma língua, justificadas seja por um maior cuidado com a fidelidade, por meio de um retorno ao texto original ou à edição mais exata disponível, seja pela evolução da língua da tradução. Para Dom Quixote, a série das novas traduções inglesas, concorrentes daquela de Shelton de 1612 e 1620, começa em 1687 com a tradução de John Phillips, anunciada como “New Made English according the Humour of our Modern Language”. A ela se seguem cinco outras traduções que se apresentam como revisadas e corrigidas: a de Motteux, em 1700, apresentada como “Translated from the Original by Several Hands”; a de Stevens, no mesmo ano, que é apresentada como a tradução de Shelton “now Revised, Corrected, and partly new Translated from the Original”; a de Ozell, em 1719, “Carefully Revised, and Compared with the Best Edition of the Original Printed in Madrid”; e a de Jarvis, em 1742, e de Smollett, em 1755, que se dizem, ambas, “Translated from the Original Spanish of Miguel de Cervantes”. Com essas traduções sucessivas, Dom Quixote se tornou o romance inglês mais popular do século dezoito e uma obra que transformou o horizonte de expectativa dos leitores. Essas traduções múltiplas tornaram possíveis os romances de Fielding, o próprio Smollett, ou Sterne. Não sucedeu o mesmo na França, onde as novas traduções - a do jansenista Filleau de Saint-Martin, em 1677, e a de Florian, publicada postumamente em 1799 - não tiveram o mesmo efeito, sem dúvida devido às grandes liberdades tomadas com o texto original, abreviado ou continuado.

Uma outra modalidade das “traduções” é a das adaptações, quando a obra muda, ao mesmo tempo, de língua e de gênero. Assim ocorre quando Dom Quixote se torna o material de uma peça de teatro. A Primeira Parte do romance forneceu as intrigas à peça desaparecida de Fletcher e Shakespeare, History of Cardenio, representada na corte inglesa no começo de 1613, à tragicomédia de Pichou, Les Folies de Cardenio, encenada em Paris em 1628, ou aos dois Don Quichotte de Guérin de Bouscal em 1639 e 1640. Sua peça Le Gouvernment de Sanche, representada em 1640, dá início à série de obras adaptadas das cenas europeias dos episódios da Segunda Parte do romance, sob a forma de espetáculos de feira (por exemplo, em Paris, as feiras Saint-Germain et Saint-Laurent), de comédias (em Paris por Dufrény, em 1694, e em Dancourt em 1712), óperas (por exemplo, as duas óperas compostas por Antonio Caldara para a corte de Viena, Don Chisciotte in corte et Sancio Panza governatore dell’Isola Barattaria) ou peças para o teatro de marionetes (como a Vida do grande Don Quixote de la Mancha, escrita por Antônio José da Silva para o teatro do Bairro Alto em Lisboa) (Chartier, p.161-181). Novas traduções e adaptações teatrais produzem novos textos da obra, tal como fazem essas outras “traduções” que são as apropriações festivas das personagens ou as ilustrações introduzidas nas edições.

Assim, traduções e geografia literária; mas também traduções e histórias conectadas. O estudo das traduções e das intermediações é uma maneira de abordar isso em suas diferentes dimensões. Primeiramente, a dimensão dos primeiros encontros, dando atenção à presença, nos relatos de viagens, de palavras autóctones, de léxicos bilingues ou, como no caso do Capítulo XX da Histoire d’un Voyage fait em la terre du Brésil de Jean de Léry, de um diálogo “na língua selvagem [a língua tupi] e francesa” [“en langage sauvage [la langue tupi] er François”]. As histórias conectadas são, assim, as dos tradutores, não somente de línguas mais também de culturas, entre mundos em tudo separados. Seguir os destinos daqueles e daquelas que, como Leo Africanus (Davis, 2006), atravessaram os espaços e as línguas, compreender a violência inflexível que os juízes e os administradores exercem sobre as palavras dos conquistados e acusados subtraídos de suas próprias línguas, traçar as viagens dos livros entre os duas margens do Atlântico são várias faces de uma história global, situada nos espaços das relações tensas entre territórios e civilizações ou nos domínios imperiais. O estudo das traduções propõe a menor escala dessas histórias textuais conectadas, indo ao encontro dos significados múltiplos de um mesmo texto. Os exemplos de Castiglione, Las Casas e Gracián tentarão mostrar a pertinência desse estudo.

Traduzir o intraduzível

Uma outra razão para o interesse pelas traduções está ligada aos debates sobre o intraduzível. A questão não é nova. No século dezessete, Gracián tinha a reputação de ser impossível de traduzir. Em 1684, em sua tradução francesa de Oráculo manual y Arte de prudência, Amelot de la Houssaie reconhece: “Não é de espantar se Gracián passa por um Autor abstrato, ininteligível e, por conseguinte, intraduzível, já que é assim que falam dele a maioria daqueles que o leram: eu mesmo sei de um sábio, a quem um de meus amigos dizia que nós o traduzíamos, ter respondido que aquele ali (Gracián) era bem temerário, quem ousasse se meter em traduzir as Obras, que os próprios Espanhóis não compreendiam”.8 Contra essa ideia preconcebida, Amelot, animado por uma ousadia excessiva, deseja demonstrar que Gracián é inteligível em francês, mesmo se “nossa Língua não é tão rica em palavras, nem tão amiga da metáfora e da hipérbole, quanto a Língua espanhola”.9 Para Amelot, “[...] o perpétuo laconismo de Gracián está longe de ser reprovado como um defeito: ao contrário, ele deve ser apreciado por isso, desde que seja feita uma lei de não dizer nada de supérfluo, e de falar somente às pessoas inteligentes, a quem se deve dizer mais do que palavras”.10 E acrescenta: “A Gracián foi feita a imputação de ser obscuro por não se popularizar, ou antes, por agradar aos Grandes, como havia feito Aristóteles, que escreveu de forma obscura para contentar Alexandre, seu discípulo, incapaz de supor que alguém pudesse saber tanto quanto ele. Assim, embora as obras de Gracián sejam impressas, elas não são mais comuns, pois ao compra-las não compramos o meio de entende-las”.11 Assim, o estilo de Gracián é considerado como uma proteção contra as incompreensões de leitores ignorantes, incapazes de perceber o significado de seu texto.

Amelot dá um exemplo desse intraduzível, - e, contudo, traduzido. Em sua “Epístola ao Rei”, dirigida a Louis XIV, ele afirma: “este livro é uma coletânea das melhores, e das mais delicadas máximas da Vida Civil e da Vida de Corte. Existem mesmo algumas, onde ela se verá representada em essência. O Despejo, palavra para a qual a língua Francesa não pode ainda encontrar um nome suficientemente expressivo, tamanho seu enigma, não o será para Vós [...]”.12 Declarada intraduzível (e não traduzido na Epístola), a palavra “despejo” é, contudo, traduzida no título da máxima CXXVII como “O O-Não-Sei-Que” que designa não uma perfeição particular, mas o ornamento de todas as perfeições, o exercício fácil de todas as virtudes e de todas as qualidades: “O Não-Sei-Que. É a vida das grandes qualidades, o sopro das palavras, a alma das ações, o lustre de todas as belezas. As outras perfeições são o ornamento da natureza, O-Não-Sei-Que é o ornamento das perfeições. Ele se faz notar até em sua maneira de raciocinar”.13

A mesma tensão a propósito do intraduzível se encontra nos autores contemporâneos. É o que podemos perceber em uma conversa entre o escritor angolano José Eduardo Agualusa e o tradutor inglês de seu romance Nação Crioula, narrada em um artigo publicado no jornal brasileiro O Globo em 15 de junho de 2015.14 Agualusa relata que o seu tradutor, Daniel Hahn, havia considerado um erro o fato de não haver traduzido a palavra portuguesa “saudade”, remetendo-a a uma nota de pé de página: “Manter uma palavra na língua original, presa a uma nota de rodapé, é para um tradutor uma confissão de derrota. Hoje eu traduziria a palavra saudade, conforme a situação, por nostalgia, longing, homesickness, etc...”.15 Agualusa, por sua vez, argumenta em um sentido oposto ao do seu tradutor: “[...] durante muitos anos acreditei que a suposta intraduzibilidade da palavra saudade não fosse outra coisa senão um mito poético, criado por portugueses, brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, que diria mais sobre a forma como nos vemos, ou como gostaríamos que os outros nos vissem, do que sobre a palavra em si”. O escritor havia mudado de opinião, tendo agora a palavra “saudade” por intraduzível: “‘Tenho saudades suas’ não é o mesmo que ‘I miss you’, ‘sinto sua falta’. É isso, mas é mais do que isso. Na dúvida, convém sempre ir à etimologia. Saudade vem do latim como significado de solidão. Saudade, pois, é esse achar-se sozinho, longe de algo ou de alguém, e, todavia, perto através da lembrança e do coração. Não há palavra em inglês que resuma todas estas camadas de sentimentos”.16

“Per dir forse una nova parola”. Traduzir Castiglione

Com base em três de minhas recentes pesquisas, gostaria de propor a análise de três efeitos da tradução sobre o significado do texto. O primeiro, como no caso de “saudade”, diz respeito às próprias palavras e à dificuldade de traduzi-las, e pode ser ilustrado pelas traduções do Libro del Cortegiano de Baldassare Castiglione, publicado em Veneza, 1528.17 Como sabemos, para designar as formas de agir e dizer que deve produzir a graça naqueles que não nasceram com ela, Castiglione emprega uma palavra nova, “per dir forse una nova parola”: “sprezzatura”:

Mas, tendo eu várias vezes pensado de onde vem essa graça, deixando de lado aqueles que nos astros encontraram uma regra universal, a qual me parece valer, quanto a isso, em todas as coisas humanas que se façam ou digam mais que qualquer outra, a saber evitar ao máximo, e como um áspero e perigoso escolho, a afetação; e, talvez para dizer uma palavra nova, usar em cada coisa uma certa sprezzatura [displicência] que oculte a arte e demonstre que o que se faz e diz é feito sem esforço e quase sem pensar. [tradução do autor]18

A “sprezzatura” deve fazer parecer natural o que é, de fato, o resultado de um trabalho, de uma arte que é necessário dissimular como tal. Se o esforço é visível e a facilidade ausente, o resultado é contrário ao objetivo buscado, produzindo, não a graça, mas a desgraça, e não a admiração dos outros, mas a sua pouca estima.

Para nomear essa qualidade que produz a graça, Castiglione escolheu uma palavra que designa o fato de não se dar valor ou importância ao que é feito ou dito “sem esforço e quase sem pensar”. Em 1612, o Vocabolario degli Accademici de la Crusca não conhece “sprezzatura”, mas indica que “sprezzare” ou “disprezzare” é o contrário de “prezzare”, que significa “apprezzare”, apreciar, dar valor. Um equivalente de “sprezzare” é “vilipendere”, “non far estima, no tener conto”, não possuir estima, não levar em consideração.19

Escondendo a arte para fazer parecer algo natural, la “sprezzatura” é o instrumento fundamental do “fazer crer” cortesão. Mas ela está sempre ameaçada de se transformar no seu contrário: a afetação. É o que nota o conde Lodovico a propósito de outro dançarino, dom Roberto: “Não vos dais conta que isso, que em dom Roberto chamamos de sprezzatura [displicência] não passa de afetação? Porque, se vê claramente, ele faz esforços para mostrar não pensar nisso, e isso já é pensar demais, e, como supera certos limites medianos, tal sprezzatura [displicência] é afetada e cai mal, e é uma coisa que alcança justamente o resultado contrário do pretendido, que era esconder a técnica”.20Affettazione” não está definida no Vocabolario dele Crusca mas aparece nas várias entradas do dicionário como sinônimo de artifício (“Affettamente”), de atenção excessiva (“Compilare”) ou de cuidado afeminado (“Lezia”).

Como os tradutores de Castiglione trataram essa oposição essencial entre “affetazione” e “sprezzatura”? O primeiro foi o poeta Juan Boscán em 1534. Quando ele chega à passagem que opõe “affettazione” e “sprezzatura”, a dificuldade para Boscán não está onde se poderia esperar:

Creio haver uma regra muitíssimo geral, que mais do que qualquer outra é útil, nesse sentido, a todas as coisas humanas que se fazem ou se dizem, que é fugir, o quanto for possível, do vício que os latinos chamam afetação; nós, embora não tenhamos um vocábulo apropriado para isso, poderíamos chamá-la de curiosidade ou diligência excessiva e desejo de parecer melhor do que todos. Este defeito é muitas vezes odioso para todos, e dele devemos nos resguardar com todas as nossas forças, usando em tudo de um certo desprezo ou descuido, de modo que, com isso, se esconda a arte e se mostre que tudo o que se faz e se diz acontece naturalmente, sem esforço e quase sem que tenha sido pensado.21

Assim, Boscán traduz claramente “sprezzatura” por “un cierto desprecio, o descuido” [“um certo desprezo, ou descuido”]. A operação semântica é a mesma que em italiano: a saber, atribuir um valor positivo, o de facilidade, desapego, a uma palavra que possui geralmente um sentido negativo. No Tesoro de la lengua castellana o española de Covarrubias de 1611, despreciar é o contrário de preciar, estimar, e significa dar pouca importância, desprezar, e descuido se opõe a cuidar, dar atenção, e indica a desatenção, a negligência, a falta de cuidado. O Vocabulario de las dos lenguas Toscana y Castellana de Cristobal de las Casas registra, em 1570, a equivalência proposta por Boscán (mas sem aceitar “sprezzatura”): sprezzare é traduzida por despreciar, sprezzamento por desprecio, sprezzato por despreciado. 22

A palavra problemática, para Boscán não é, assim, sprezzatura, mas affettazione. Para ele, afetación é uma palavra latina e o castelhano não possui uma palavra apropriada para designar este defeito. Dessa forma, é preciso encontrar equivalentes para ela: “podremos llamarle curiosidad, a demasiada diligencia y codicia de parecer mejor que todos”. Assim, três palavras ou expressões. Curiosidad, como atesta Covarrubias, é um termo ambivalente, que designa, ao mesmo tempo, a vontade legítima de conhecimento, a atenção particular dada a alguma coisa, e o desejo presunçoso e excessivo, insistente e pesado, de penetrar nos segredos escondidos aos homens. Boscán retém o sentido negativo da palavra, assim como ele faz com a palavra “diligencia”, que significa cuidado e prontidão, mas cujo sentido é invertido por seu excesso, “demasiada diligencia”. A mesma ausência de medida se encontra em “codicia”, que é o equivalente do latim “cupiditas”, entendida como um desejo sem freio, obstinado, mas, como observa o Tesoro, a palavra pode algumas vezes ser interpretada positivamente: “Às vezes se toma codicia positivamente, como sediz da mulher trabalhadora e laboriosa”. Com a tradução de “affettazione”, Boscán faz a operação inversa daquela efetuada com “sprezzatura”: ele dá um sentido negativo às palavras que são ou positivas (“diligencia”), ou ambivalentes (“curiosidade”, “codicia”). Em 1611, Covarrubias fará entrar “afectación” no léxico castelhano, com o sentido “castiglionien” de “cuidado extraordinário e diligência excessivaque se tem nas palavras, nos adornos ou em qualquer outra coisa”. O “afectado” é “aquele que tem este vício, especialmente no falar e no pronunciar o que é dito”. As estratégias lexicais de Castiglione (com “sprezzatura”) e, mais ainda, de Boscán (com os equivalentes de “affetazione”), introduzem empregos surpreendentes, inesperados, que dão às palavras um sentido contrário ao seu uso comum. Aí se encontra, possivelmente, o primeiro dos sinais que exprimem a distinção do cortesão.

Os tradutores franceses de Castiglione não se detêm em “affetazione”, facilmente traduzida por “affectation”. Para Jacques Colin, em 1537, e depois por Gabriel Chapuis em 1580, a dificuldade vem de “sprezzatura”. Colin escolheu “nonchallance”: “& pour dire peust etre une parolle neuve user en toutes choses dugne certaine nonchallance qui cache lartifice”. “Nonchalance” deriva do verbo “nonchaloir”, que significa desprezar [mépriser], negligenciar [négliger], e que era geralmente utilizado na forma do particípio presente adjetivado: “nonchalant” [casual]. A palavra é geralmente associada à preguiça, à ignorância, ao esquecimento. No Thrésor de la langue française de Jean Nicot, publicado em 1606, ela é sinônimo de descuido, de negligência. Em Montaigne, trata-se de um defeito oposto ao cuidado e à solicitude, um vício contrário à curiosidade legítima, mas pode designar também a liberdade dos movimentos e das ações. Jacques Colin assume a ambiguidade do termo ao dar um valor positivo à negligência, transformada em fluência e liberdade.

Em 1580, “nonchalance” parece insuficiente a Gabriel Chapuis para traduzir “sprezzatura”. Ele mantém a palavra mas lhe associa uma outra: “&, pour dire, peut estre, un mot nouveau, user em toutes choses d’un certain mespris et nonchalance, qui cache l’artificiel”.23Mépris” [desprezo] permite chegar mais perto do italiano e do castelhano já que o termo significa não dar valor, não dar nenhuma atenção ou estima ao que se faz. A edição de Chapuis finaliza com uma “Table des principales matières et sentences contenues en ce livre” [Índice das principais matérias e sentenças contidas neste livro], classificadas em ordem alfabética sobre o modelo da edição veneziana de 1547. “Mespris” não aparece no Índice, mas “nonchalance” figura ali, não somente como oposta à “affectation”, mas como a própria afetação, quando ela é excessiva: “Nonchalance: afetação” [“uma afetação grande demais”]. “Affectation” aparece em várias sentenças: “Affectation: doit être fuie pour avoir grâce” [“Afetação: deve ser evitada para se ter graça”] ou “Courtisan: doit estre principalement sans affectation” [“Cortesão: deve ser sobretudo sem afetação”]. O livro de Castiglione é assim transformado em uma coletânea de lugares comuns, admiráveis porque universais.

Thomas Hoby, que traduz o livro para o inglês em 1561, encontra a mesma dificuldade de Boscán. Ele enuncia, assim, a regra geral que produz a graça: “to eschew Affectation or curiosity & (to speak a new word) to use in every thyng a certain Reckelesness”.24 Assim como Boscán, Hoby hesita na tradução de “Affettazione”, propondo duas palavras como equivalentes: “Affectation ou curiositie”. “Affectation” é impressa em caractere romano, como se se tratasse de uma palavra latina, e o sinônimo que lhe é dado, “curiositie” é impressa em “black letter”. Segundo os exemplos do Oxford English Dictionary, o primeiro termo, “affectation”, é recente no sentido de comportamento artificial, estudado, construído. Em um texto de 1548 aparece a equivalência com “curiosité”: “to pronounce the consonantes for affectacion, or curiouselye” [“pronunciar as consonantes com afetação ou curiosamente”]. Nos exemplos de emprego do século dezesseis, “curiosity” é habitada pela ambivalência encontrada em castelhano. De um lado, a palavra designa o cuidado, a atenção, a exatidão, a preocupação legítima em saber; de outro, seu excesso produz uma atenção inapropriada, fastigiosa, insistente, e o desejo de conhecer coisas inúteis ou escondidas por Deus. Retendo somente este segundo sentido, totalmente negativo, Hoby repete o caminho seguido por Boscán.

Para traduzir “sprezzatura”, Hoby escolheu “recklesness”, uma palavra antiga, sempre utilizada com o sentido de negligência, de imprudência, de descuido, despreocupação culposa/irresponsável. O Oxford English Dictionary dá dois exemplos dela: com um extrato dos Registros do Parlamento em 1439, em que “Capitães e marinheiros, por negligência [‘by rekelesnesse’] e descontrole de alguns de seus barcos atingiram e danificaram outros barcos”; com um texto de controvérsia teológica de 1581, sobre o desdém oposto à misericórdia de Deus (“Uma tal negligência [‘such retchlesnes’] não pode, de maneira alguma, estar de acordo com a graciosa misericórdia de Deus”]. Hoby inverte, assim, o significado comum da palavra e transforma um defeito do vulgo em qualidade do cortesão.

A edição revista da tradução de Thomas Hoby, lançada em 1588, dez anos após sua morte, modifica a tradução. “Affectation”, mesmo em caractere romano, desaparece e “curiosity” é substituída por “too much curiousnesse”, como se a adição de “too much” permitisse anular os significados positivos da palavra, assim como o faz o adjetivo “pernicious” na tradução de 1555 das Décadas de Pierre Martyr d’Anghiera (“uma perniciosa curiosidade”) ou o adjetivo “tedious”, em um texto de 1628: “Adornam seus corpos com fastidiosa [“tedious”] curiosidade”. Mais ainda do que “curiosity”, “curiousness” sublinha os perigos da curiosidade, que transforma o cuidado diligente em atenção fastigiosa e conduz o homem ao desejo de penetrar os mistérios proibidos a ele, como mostra Thomas Norton em sua tradução de l’Institution de la religion chrétienne de Calvino em 1561: “A curiosidade dos homens [‘the curiousnesse of men’] não pode ser impedida, por qualquer constrangimento que seja, de se aventurar além dos limites proibidos”.

Recklessness” desaparece igualmente como tradução de “sprezzatura”, substituída por “a certaine disgracing”, “uma certa desgraça”. O paradoxo aqui é extremo já que a graça é produzida por aquilo que a suprime. Todos os exemplos de emprego do verbo “to disgrace” entre 1549 e 1577 dados pelo English Oxford Dictionnary remetem à destruição: os ventos e as tempestades desgraçam os rios, um discurso rude e ignorante desgraça sua matéria, o nariz decepado desgraça o rosto de uma mulher, uma barriga proeminente desgraça o indivíduo. As outras acepções de “to disgrace” são igualmente negativas: desacreditar, desonrar, desgraçar no sentido de destituir. Como se pode explicar esta escolha do editor de 1588? Sem dúvida, por um retorno à operação semântica do italiano e do espanhol. Se “sprezzare” é não dar valor, se “descuido” é não cuidar, “disgracing” é não se preocupar com “a graça”. Nesses três casos, estamos falando de uma desenvoltura indiferente que isoladamente pode produzi-la. A tradução pretende assim mostrar que a verdadeira graça se dá nas aparências de seu contrário: não na sua exibição ou sua ostentação, identificada à afetação, mas o que justamente parece destruí-la. É assim que “a certaine disgracing”, forma suprema e distintiva da graça, evitará àqueles e àquelas que de são capazes, as amarguras da desgraça.

O primeiro desafio que os tradutores do Libro del Cortegiano deviam enfrentar era o do léxico necessário para captar e transmitir os paradoxos da língua de Castiglione (Chartier, 2018). Para certos tradutores, a principal dificuldade não estava ali onde se poderia esperar - “affettazione” colocando mais problemas do que “sprezzatura”, o que os levou a utilizar em um sentido depreciativo termos ou positivos, ou ambivalentes para estigmatizar a afetação. Foi assim com “curiosité” em castelhano ou em inglês, cujo emprego, nesse contexto, devia afastar o sentido de desejo legítimo de conhecer as coisas como elas são para retornar à condenação bíblica e patrística de uma concupiscência fastigiosa, insistente e inapropriada. Para todos os tradutores, “sprezzatura” era um desafio compartilhado já que a palavra convidava a dar um sentido positivo, distintivo, curial, a termos geralmente utilizados de maneira negativa. Daí, o uso paradoxal de “desprecio”, “mépris” ou “disgracing” que, diferentemente de “nonchalance” ou “recklesness”, se esforçavam em traduzir não somente a “nova parola” de Castiglione, mas também a operação lexical que invertia o sentido esperado de uma palavra a fim de que ela possa designar a graça que faz reconhecer o perfeito cortesão.

Folha de rosto e horizonte de expectativa. Traduzir Las Casas

No meu segundo exemplo a mobilidade do sentido deriva menos das escolhas de tradução do que dos contextos de publicação. A Brevissima relación de la destruyción de las Indias, escrita pelo Dominicano Bartolomé de las Casas e impresso juntamente com sete outros “tratados” em Sevilha em 1552, é sem dúvida um dos textos mais traduzidos na Europa da primeira modernidade.25 As folhas de rosto de suas diferentes edições indicam as mutações de seu significado. A primeira, a de 1552, apresenta um forte contraste entre, de um lado, a presença das armas do Imperador Charles Quint 26 e a referência à sua divisa com as duas letras “P V”, Plus Ultra”, utilizado a partir de 1515 como divisa cavalheiresca antes de designar a soberania do Imperador sobre os territórios situados além das Colunas de Hércules, e, de outro lado, a ausência de qualquer menção a uma permissão ou a um privilégio dado ao texto pelo soberano. A obra não apresenta, aliás, nenhuma dessas aprovações de censores, necessárias para todo o livro do Século de Ouro. Porque essas ausências? Uma primeira razão deve-se possivelmente à vontade de Las Casas de evitar os mecanismos regulares da censura sevilhana que, desde 1502, era delegada ao arcebispo da cidade. Daí, na folha de rosto, a lembrança de sua qualidade de bispo antes daquela de Dominicano: “por el Obispo dõ fray Bartolome de las Casas / o Casaus de la orden de Sãcto Domingo” (enquanto que, de fato, Las Casas nomeado Bispo de Chiapas em 1543 havia renunciado ao seu cargo em 1550). Uma outra hipótese é que Las Casas teria recebido uma autorização tácita do Príncipe Felipe, então a cargo das Índias como regente dos reinos da Espanha, uma vez que este o havia recebido favoravelmente quando do seu retorno à Espanha em 1547. É ao Príncipe Felipe que a Brevíssima Relación é dedicada.

No título, Brevissima relacion de la destruycion de las Indias: colegida por el Obispo dõ fray Bartolome de Las Casas, cada palavra conta e deve assegurar a verdade do texto. Uma “relación” é um texto investido de autoridade porque é fundado sobre o testemunho e a observação direta dos fatos relatados. A relação apresentada por Las Casas é “brevíssima”, muito curta, de forma que a “brevitas” da narrativa dê ao Príncipe um assustador resumo da interminável história de crueldades, que são também pecados mortais. Essa relação é também “colegida”, reunindo diversas narrativas ou documentos, o que pode parecer paradoxal para um testemunho cuja credibilidade depende da observação pessoal daquele que relata. Mas como indica a definição do verbo “colegir” no Tesoro de la lengua castellana de Covarrubias, não há diferença de natureza entre as coisas vistas e os textos lidos se estes possuem um lastro de verdade. “Colegir” é, com efeito, “reunir numerosas e diferentes coisas ouvidas, vistas ou lidas”. A credibilidade do texto é atestada tanto pela lembrança da qualidade de Bispo do Dominicano quanto pela menção de seu pertencimento (discutível) à família nobre de Casaus, útil em um tempo em que o testemunho aristocrático, tido como desinteressado, é garantia da autenticidade do que ele atesta. O nome do impressor não aparece na página de título, onde somente figura a data da impressão, 1552, mas o colofão indica que o livro foi impresso em Sevilha, “En casa de Sebastian Trujillo”.

Quando o texto de Las Casas é traduzido para o francês pelo protestante Jacques de Miggrode e publicado em Antuérpia em 1579, seu título torna-se “Tyrannies et Crautez des Espagnols, perpetrees es Indes Occidentales, qu’on dit Le Nouveau Monde; Brievement descrites en langue Castillane par l’Evesque Don Frere Bartelemy de Las Casas ou Casaus, Espagnol, de l’ordre de S. Dominique; fidelement traduictes par Jacques de Miggrode: Pour servir d’exemple & advertissement aux XVII Provinces du pais bas”. Desde a folha de rosto, a intenção da tradução é claramente anunciada tanto pela indicação “Pour servir d’exemple & advertissement aux XVII provinces du Pays-Bas” quanto pelo dístico “Heureux celuy qui devient sage / En voyant d’autruy le dommage”. Recordar os crimes cometidos pelos Espanhóis na América é uma forma de alertar todos aqueles que pudessem se sentir tentados a concordar com eles. A destruição das Índias, que prefigurava para Las Casas a da própria Espanha, desenha, sob a pluma de Jacques de Miggrode, a possível destruição dos Países Baixos.

Essa intenção justifica as palavras do novo título dado a um texto cuja credibilidade é assegurada pelo fato de que é um “Espanhol” que denuncia, “em língua castelhana”, as atrocidades de seus compatriotas. Duas palavras fortes substituem “destruction”. “Cruautés” [crueldades] é oposta à moral cristã, que prega o amor ao próximo, e à lei natural, que exalta a busca do bem comum. “Tyrannies” [tiranias] (um termo muito frequente em Las Casas) pertence ao léxico político do século dezesseis e designa a disposição arbitrária dos bens e dos corpos dos súditos pelos príncipes despóticos (para condená-la). Nas Índias, a conquista de territórios sem respeito pelos direitos de seus senhores naturais, juntamente com as violências cometidas contra os Indígenas, massacrados sem razão ou esgotados pelo trabalho forçado, são os exemplos terríveis das “tyrannies” que violam as leis divina e natural. Melhor do que os panfletos anti-espanhóis, o texto de Las Casas, “fielmente traduzido”, sem as liberdades por vezes tomadas pelos tradutores, é a mais verdadeira e grave acusação contra as vis intenções dos reis e dos povos daquela nação. Esse texto poderá assim servir de “exemplo”, assim como os “exempla” mobilizados pelos predicadores nos seus sermões, e de alerta para todos aqueles que, tomando conhecimento do que ocorreu na história, poderão e deverão agir para que ela não se repita, e que os Países Baixos não se tornem as novas Índias.

Quando a tradução de Miggrode é traduzida em inglês, em 1583, o título insiste sobre a identidade espanhola do autor, garantia da verdade de seus dizeres: “Briefe Chronicle of the Acts and gestes of the Spaniardes in the West Indies, called the newe World, for the space of xl. yeeres: written in Castilian tongue by the reuerend Bishop Bartholomew de las Casas or Casaus, a Friar of the order of S. Dominicke”. Mas as primeiras palavras, que são novas - “The Spanish Colonie”, situam a denúncia das violências cometidas na América no contexto das rivalidades entre as duas monarquias, inglesa e espanhola. É assim reforçada uma escolha de tradução de Jacques de Miggrode. Em seu texto, Las Casas utiliza frequentemente a palavra “cristianos” para designar os Cristãos que não o são, pois, ao massacrarem os Índios sem ter levado até eles o evangelho, tais cristãos os condenam a penas eternas, condenando ao mesmo tempo a si próprios. Em Miggrode, como em seu tradutor inglês, os “cristianos” de Las Casas se tornam os os “Espagnols” ou os “Spaniards”, inimigos impiedosos e ímpios.

Com a segunda tradução inglesa do texto de Las Casas, de John Phillips, um sobrinho de Milton, publicada em 1656 e dedicada a Cromwell - novo Davi vingador e redentor dos perseguidos, o título muda novamente e se torna “The Tears of the Indians Being An Historical and true Account of the cruel Massacres and Slaughters of above Twenty Millions of innocent People”. Possivelmente inspirado por um panfleto lançado em 1642, The Teares of Ireland, que denunciava os massacres cometidos pela “Popish Faction” contra os Protestantes irlandeses, as lágrimas dos Índios são lágrimas bíblicas, as do profeta Jeremias (Livro IX, primeiro versículo).27 O texto é apresentado como uma “narrativa histórica e verdadeira dos cruéis massacres e carnificinas de mais de vinte milhões de inocentes, cometidos pelos Espanhóis”. O fato de que a narrativa tenha sido escrita por um Espanhol que foi testemunha ocular (“Written in Spanish by Casaus, an Eye-witnes of those things”) das crueldades assegura a realidade dos crimes - mesmo se Las Casas tenha perdido aqui suas qualidades de bispo e de Dominicano. A enumeração dos lugares dos massacres (São Domingos, Cuba, Jamaica, México, Peru) inclui no título a cronologia da conquista espanhola que dá ordem ao tratado de Las Casas, e o número de “mais de Vinte Milhões” (“above Twenty Millions”) de vítimas (primeira menção em um título do número de vítimas) é aquele afirmado por Las Casas em sua controvérsia com Sepúlveda.

Eu encerraria aqui o estudo da mobilidade dos títulos dados ao tratado de Las Casas, com uma exceção, que mostra bem como, sem mudar o texto, mas somente sua língua, o horizonte de expectativa de sua tradução modifica o seu sentido. A “relação” de Las Casas só foi traduzida para o português em 1944, por Heraldo Barbuy, que lhe deu um título em tudo semelhante ao espanhol: Brevíssima Relação da Destruição das Índias occidentais. Quando esta tradução foi reeditada, em 1984, um subtítulo foi adicionado por Eduardo Bueno: “O Paraíso destruído. A sangrenta história da conquista da América espanhola”. Se é fato que Las Casas denuncia o Inferno que os conquistadores trouxeram para a América e se ele abre seu tratado com uma descrição da “bondade natural” (la “bondad”) dos Índios, gente simples, pacífica e virtuosa, ele não institui o “Paraíso na América”. Se o editor de 1984 o faz, é sem dúvida porque o tema do Paraíso foi introduzido com força no horizonte intelectual brasileiro por um grande clássico: o livro publicado em 1958 por Sérgio Buarque de Holanda, sob o título Visão do Paraíso.Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil (Holanda, 1958). O subtítulo de 1984 sublinha a identidade propriamente “espanhola” dos massacres que acompanharam a conquista (e traduz sistematicamente “cristianos” por “espanhóis”) e, utilizando a expressão “sangrenta história”, ele estabelece implicitamente uma continuidade nas repressões sangrentas que o prefácio designa como “o genocídio de ontem e hoje”.28

A metamorfose de uma obra. Traduzir Gracián

Um último exemplo permite compreender como a tradução pode transformar não somente as ressonâncias lexicais ou as expectativas e recepções das obras, mas seu próprio significado. Este exemplo nos leva novamente a Gracián. Em seu grande livro consagrado ao processo civilizatório, publicado em 1939, Norbert Elias cita o Oráculo manual y Arte de prudência na tradução francesa de Amelot de La Houssaie, publicada em 1684. Ele caracteriza o livro como sendo, “em certo sentido, o primeiro manual sobre a psicologia de corte, da mesma maneira que o livro de Maquiavel sobre o príncipe foi o primeiro manual clássico sobre a política de corte”. E acrescenta: “encontramos em Gracián e, depois dele, em La Rochefoucauld e La Bruyère, sob a forma de máximas gerais, todos os modos de conduta com que deparamos, por exemplo, em Saint-Simon, na prática da vida de corte”.29 A leitura feita por Elias assegura, assim, que Gracián escreveu um livro sobre as condutas necessárias na sociedade de corte. Entretanto, a palavra “corte” não aparece nem em seu título, nem em seu texto.

As quatro palavras do título do original publicado em Huesca em 1647 (e apresentado como uma antologia de aforismos extraídos das obras do irmão de Gracián, Lorenzo), propõem um significado e uma destinação do texto que nada possuem de curiais. “Oráculo” era uma palavra polissêmica, designando a um só tempo as respostas equívocas dos falsos deuses dos Pagãos e as pessoas tocadas por seu saber e doutrina. Em um livro anterior, El Político, lançado em 1646, Gracián qualificava, por exemplo, Fernando de Aragão de “oráculo mayor de la razón de Estado”. Ambivalente, o termo fazia referência aos segredos reservados àqueles que sabem decifrar suas verdades. De onde o paradoxo, até mesmo o oximoro, introduzido pela palavra “manual”, que tem um duplo sentido, material e textual. Ela designa, primeiramente, tudo o que pode ser facilmente carregado consigo (o que é o caso do livro de Gracian publicado no formato in-24, muito pequeno), mas define também o gênero das antologias e dos “compendia”, livros nos quais se encontra resumida uma ampla matéria (o que é o caso da obra que declara reunir trezentos aforismos supostamente extraídos de obras anteriores do autor).

A palavra “Arte” é mais esperada, designando a um só tempo os preceitos necessários para fazer corretamente as coisas e o livro que contém estes preceitos. Mas “Arte” pode também possuir um sentido mais hermético e secreto quando designa a “Ars magna”, a árvore de todas as ciências e seu conhecimento”. Assim como “oráculo”, a palavra pode ter sido escolhida por Gracián devido a essa ambivalência que a situa entre a ordem do que é prometido a todos e um saber reservado somente àqueles que sabem decifrá-lo. Esses preceitos bem ordenados e concatenados são os da “prudencia”. O título de Gracián faz assim referência à prudência como uma das virtudes cardiais, como o sinal da presença da luz divina no homem, segundo a perspectiva tomista. Resta ao leitor descobrir como, no corpo do livro, Gracián transforma esta virtude em regras das condutas práticas destinadas a evitar as armadilhas em um mundo corrompido e pecador. O texto de Gracián não é, assim, de modo algum, um manual de corte destinado a inculcar ou expor os comportamentos necessários em um mundo social particular. Suas lições são universais, mesmo que se direcionem somente àqueles que serão capazes de entendê-las. É assim que o livro foi compreendido em sua primeira tradução italiana, publicada em Parma em 1670 e reeditada em Veneza em 1678, com um título totalmente fiel ao original, Orácolo manuale e arte de prudenza.

É somente com a tradução francesa de 1684 que o livro adquire o significado que lhe atribui Norbert Elias. Seu tradutor, Amelot de la Houssaie, lhe dá como título L’Homme de Cour, endereçando-o assim a um destinatário jamais mencionado por Gracián. Ele explica isso no Prefácio:

Seu título exprime não somente tudo o que ele trata, mas ainda a qual uso, e a quem ele é apropriado. Ele não é assim apropriado a todo mundo, dirão vocês? Com certeza não; ele é apropriado a quem pertence à boa sociedade, e às pessoas que conhecem o mundo. Um Homme de Cour, que não possui disposição para se familiarizar com o Vulgo, só se agrada com seus iguais. E, como comumente ele só fala por meias palavras, ele não saberia se sujeitar a conversar, nem com o povo pequeno, nem com os espíritos pequenos, que só entendem o que lhes é dito com muitas palavras. 30

Amelot é bem consciente da distância existente entre o título que ele dá à sua tradução e aquele que Gracián havia dado ao seu livro, mas ele o justifica claramente no seu Prefácio: “Vós notareis, a propósito, que o título de Homme de Cour encontra-se muito de acordo com aquele da Arte de Prudência, pois a prudência é mais necessária na Corte do que em qualquer outro lugar” 31. Ele acrescenta uma segunda razão à transformação do título; a saber, tornar mais explícito o significado do livro: “Existem quase tantos preceitos e mistérios quanto de linhas; e é seguramente por isso que o compilador o intitulou Oracle Manuel: título que mudei para Homme de Cour, que além de ser menos suntuoso e menos hiperbólico, explica melhor a qualidade do livro, que é uma espécie de Rudimento (noções elementares), e de Código Político”.32 Trata-se de designar o livro a partir de um duplo significado, curial e absolutista.

É com o texto francês de Amelot que o Oráculo manual irá circular em toda a Europa. Com a exceção da primeira tradução italiana, todas as outras (inglesa, em 1685, alemã em 1686, holandesa em 1696, uma segunda tradução italiana em 1698, latina em 1731) traduzem o texto francês do qual elas aceitam a “curialização”. As traduções alemã e holandesa conservam o título francês, L’Homme de Cour, como primeiras palavras de seu próprio título; a tradução inglesa tenta uma aliança entre o original e o francês com a fórmula The Courtier’s Manual Oracle, or, The Art of Prudence, e a italiana de 1698 traduz diretamente o título e se apresenta como L’Huomo di Corte.

As traduções retomam o conteúdo do livro de Amelot e suas adições ao texto espanhol: a saber, as “Notas (na verdade, extratos de dois outros livros de Gracián, El Héroe, de 1637, e El Discreto, de 1646), a numeração das trezentas máximas, os títulos destacados em itálicos (frequentemente a primeira frase do aforismo ou algumas palavras dele) e um conjunto de instrumentos bibliográficos destinados a facilitar a utilização da obra. Nas oito edições francesas do livro lançadas entre 1684 e 1702 são acrescidas assim um “Índice de máximas”, os “Chapitres du Héros et du Discret de Gracian Mis en extrait et en notes, ou tout entiers, à la fin de quelques-unes de ces Maximes” [“Capítulos de O Heroi e do O Discreto de Gracián resumidos e em notas, ou completos, no final de algumas dessas máximas”], e ao fim do livro, uma “Récapitulation des Préceptes contenus dans les trois cent Maximes de l’Homme de Cour” [“Recapitulação dos Preceitos contidos nas trezentas máximas de Homme de Cour”]. Está assim estabelecido em toda a Europa o novo significado do livro. Seu sentido e sua forma são mantidos somente nas reedições em espanhol (por exemplo em 1653, 1657, ou 1659), que permanecem fiéis à primeira edição, sem numeração dos aforismos, sem dar títulos a estes, sem notas ou índices, e, sobretudo, sem referência à corte. A metamorfose do Oráculo manual em Homme de Cour é sem dúvida um dos casos mais espetaculares de uma tradução que, por seu novo título e suas preliminares, atribuiu a Gracián um “manual da psicologia de corte” que ele nunca escreveu. A mutação é persistente. A mais recente edição francesa, realizada por Sylvia Roubaud e (longamente) prefaciada por Marc Fumaroli, anuncia em sua folha de rosto “Gracian, L’Homme de cour”.

Nesta reflexão, conduzida a partir de estudos de caso dos efeitos, razões, dificuldades da tradução, esta foi pensada como uma prática que deve tornar a alteridade compreensível e fazer do outro um semelhante. Seria necessário saber quando a “tradução” pretende produzir uma operação inversa e transformar uma aparente similitude em uma estranheza. É o caso das “traduções” de certas obras para a sua própria língua, quando sua distância em relação à língua da maior parte dos seus leitores as torna dificilmente inteligíveis. Um exemplo espetacular se deu em 2015, com a tradução em espanhol do Quixote apresentada por Andrés Trapillo sob o título Don Quijote de la Mancha Puesto en castellano actual.33 As traduções dos autores franceses para o francês mostram como essa distância, ou sua percepção, se modifica com o tempo e distanciam certos autores que pareciam próximos. Desde 1974, uma “translation” das Obras de Rabelais acompanhava sua edição na coleção “L’Intégrale” das Edições du Seuil.34 Mais recentemente, são os Essais de Montaigne que foram assim traduzidos, primeiro, por Guy de Pernon em 2008 em uma edição apresentada como uma “Tradução em francês moderno”35 e, no ano seguinte, em 2009, por André Lanly, que reeditava, na coleção “Quarto” de Gallimard, num volume anunciado como uma “Tradução integral em francês moderno”, sua “tradução” lançada em 2005.36 Estão acessíveis dessa forma em edição eletrônica The Complete Works of William Shakespeare in Plain and Simple English.37 Seria interessante analisar, para cada língua, as razões que justificam tais “traduções”, o alargamento do corpus dos autores dos quais se apropriam e os leitores a que elas são destinadas. Traduzir o mesmo é um tema promissor para futuras pesquisas.

Tradução da língua francesa para a língua portuguesa: Vera Chacham. vchacham@gmail.com

1CERVANTES, Miguel de. O Engenhoso cavaleiro D. Quixote de la Mancha. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Editora 34, 2012. Segundo Livro, Capítulo LXII, p.734.

2CERVANTES, Miguel de. O Engenhoso cavaleiro D. Quixote de la Mancha, op. cit., p.736.

3OROZCO, Sebastián de Covarrubias. Tesoro de la lingua castellana, o española. Madrid, 1611.

4CERVANTES, Miguel. O Engenhoso cavaleiro D. Quixote de la Mancha, op. cit., p. 736.

5PAREDES, Alonso Víctor. Institución y origen del arte de la imprenta. Edición y prólogo de Jaime Moll. Madrid; Calambur: Nueva noticia editorial de Víctor Infantes, 2002. É preciso lembrar que, segundo Francisco Rico, a tiragem da segunda edição madrilenha da Primeira Parte de Dom Quixote, em 1605, foi sem dúvida de 1850 exemplares, o que era seguramente uma tiragem mais elevada que a da primeira edição, que teve 1500 ou 1750 exemplares no final de 1604 (Rico, 2005).

6CERVANTES, Miguel. O Engenhoso cavaleiro D. Quixote de la Mancha, op. cit., p. 736.

7Edição brasileira: MORETTI, Franco. Atlas do romance europeu. 1800-1900. Tradução: Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003. p. 183.

8No original: “Il ne faut pas s’étonner, si Gracian passe pour un Auteur abstrait, inintelligible, et, par conséquent,intraduisible, car c’est ainsi qu’en parlent la plupart de ceux, qui l’ont lu: et je sais même, qu’um Savant, à qui quelqu’un de mes amis disait, qu’on le traduisait, répondit, que celui-là était bien téméraire, qui osait se mêler de traduire des OEuvres, que les Espagnols mêmes n’entendaient pas”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, 1647. Traduction d’Amelot de la Houssaie. Edition de Sylvia Roubaud, Paris, Gallimard, 2011, Préface, p.269-270.

9No original: “[...] notre langue n’est pas si riche en mots, ni si amie de la métaphore et de l’hyperbole, que la Langue espagnole”. “Il ne faut pas s’étonner, si Gracian passe pour un Auteur abstrait, inintelligible, et, par conséquent,intraduisible, car c’est ainsi qu’en parlent la plupart de ceux, qui l’ont lu: et je sais même, qu’um Savant, à qui quelqu’un de mes amis disait, qu’on le traduisait, répondit, que celui-là était bien téméraire, qui osait se mêler de traduire des OEuvres, que les Espagnols mêmes n’entendaient pas”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, 1647. Traduction d’Amelot de la Houssaie. Edition de Sylvia Roubaud, Paris, Gallimard, 2011, Préface, p.269-270.

10No original: “[...] tant s’en faut, que son laconisme perpétuel lui puisse être reproché comme un défaut : au contraire, il en doit être plus estimé, attendu qu’il s’est fait une loi de ne rien dire de superflu, et de ne parler qu’aux bons esprits, à qui il faut dire plus de choses, que de paroles”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, 1647. Traduction d’Amelot de la Houssaie, op. cit., p.270.

11No original: “Gracian a affecté d’être obscur pour ne pas se populariser, ou plutôt, pour faire plaisir aux Grands, comme Aristote, qui écrivit obscurément, pour contenter Alexandre son disciple, qui ne pouvait souffrir, que personne en sût autant que lui. Ainsi, quoique les OEuvres de Gracián soient imprimées, elles n’en sont pas plus communes, car en les achetant l’on n’achète pas le moyen de les entendre”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, 1647. Traduction d’Amelot de la Houssaie, op. cit., p.271-272.

12No original: “[...] ce Livre, qui est un recueil des meilleures, et des plus délicates maximes de la Vie Civile et de la Vie de Cour. Il y en a même quelques-unes, où elle se verra représentée au vif. Le Despejo, auquel la langue Française n’a pu encore trouver de nom assez expressif, tout énigme qu’il est, n’en sera point une pour Vous, qui y reconnaîtrez d’abord, que Gracian a fait votre définition, en voulant faire celle d’un homme parfait.” GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, 1647. Traduction d’Amelot de la Houssaie, op. cit., Epître au roi, p.267-268.

13No original: “Le JE-NE-SAIS-QUOI” qui désigne, non pas une perfection particulière, mais l’ornement de toutes les perfections, l’exercice aisé de toutes les vertus et de toutes les qualités: “Le Je-ne-saisquoi. C’est la vie des grandes qualités, le souffle des paroles, l’âme des actions, le lustre de toutes les beautés. Les autres perfections sont l’ornement de la nature, le JE-NE-SAIS-QUOI est celui des perfections. Il se fait marquer jusque dans la manière de raisonner”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, 1647. Traduction d’Amelot de la Houssaie, op. cit., Maxime CXXVII, p.403-406. A seguir, duas traduções para o português da máxima CXXVII: Baltasar Gracián, A Arte da Prudência. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p.87-88: “Despejo* em tudo. E a vida dos dotes, alento do falar, alma do fazer, distinção das distinções. As demais perfeições são ornamentos da natureza, mas o despejo é o ornato das perfeições” et Note 24, p.171: *Despejo: desenvoltura, desembaraço, ousadia, intrepidez”; et Baltasar Gracián, Oráculo de bolso e Arte da Prudência. Tradução de Adriana Junqueiras Arantes, São Paulo, Martin Claret, 2014, p.69: “Desenvoltura. E a vida do talento, alento do dizer, alma do fazer, realce do realce. As demais perfeições são ornamento da natureza, mas a desenvoltura o é das perfeições: até na inteligência se celebra”.

14Cf. José Eduardo Agualusa. “Sobre o intraduzível” https://oglobo.globo.com/cultura/sobre-intraduzivel-16445527

15Ibid.

16Ibid.

17CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão, 1528. Tradução de Carlos Nilson Moulin Louzada, Revisão de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

18CASTIGLIONE, Baldassare. Il Libro del Cortegiano, Introduction d’Amedeo Quondam, Milano, Garzanti, 1981, p.59-60. “Ma avendo io già più volte pensato onde nasca questa grazia, lasciando quelli che dalle stelle l’hanno, trovo uma regola universalissima, laqual mi par valer circa questo in tutte le cosa umana che sifacciano o dicano più che alcuna altra, e ciò é fuggir quanto più si po, e come un asperissimo e pericoloso scoglio, la affettazione, e, per dir forse una nova parola, usar in ogni cosa una certa sprezzatura, che nasconda l’arte e dimostri ciò che si fa e dice venir fatto senza fatica e quasi senza pensarvi.”

19Vocabolario degli Accademici della Crusca, 1612, www.accademiadellacrusca.it/it/scaffali-digitali/vocabolario-1612.

20CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão, p. 43.

21No original: “Hallo una regla geralísima, la cual pienso que más que otra ninguna aprovecha acerca desto en todas las cosas humanas que se hagan o se digan; y es huir cuanto sea posible el vicio que de los latinos es llamado afetación; nosotros, aunque en esto no tenemos vocable proprio, podremos llamarle curiosidad o demasiada diligencia y codicia de parecer mejor que todos. Esta tacha es aquella que suele ser odiosa a todo el mundo, de la cual nos hemos de guardar con todas nuestras fuerzas, usando en toda cosa un cierto desprecio o descuido, con el cual se encubra el arte y se muestre que todo lo que se hace y se dice, se viene hecho de suyo sin fatiga y casi sin habello pensado.” CASTIGLIONE, Baldassare. El Cortesano, 1534. Tradução de Juan Boscán. Madrid: Alianza Editorial, 2008, p.97-98.

22LAS CASAS, Cristobal de. Vocabulario de las dos lenguas toscana y castellana. Sevilla: Francisco de Aguilar, 1570.

23CASTILLONOIS. Comte Balthasar. Le Parfait Courtisan. Traduction de Gabriel Chapuis, Lyon, 1580. Réédition Paris, 1585, p.65. Tradução para o português: “e, para dizer, talvez, uma palavra nova, lançar mão em todas as coisas de um certo desprezo e nonchalance, que esconde o artificial”.

24CASTIGLIONE, Count Baldassar. The Courtyer, London, William Seres, 1561, fol. E3, rº. Tradução para o português: “escapar à afetação e à curiosidade, e (para empregar uma palavra nova) usa rem todas as coisas de uma certa despreocupação, para esconder a arte e fazer com que pareça que tudo o que foi feito e dito o é de modo imediato e (aparentemente) impensado”.

25LAS CASAS, Bartolomé de. Brevísima relación de la destruición de las Indias. Edición de André Saint-Lu, Madrid: Cátedra, 2005. Tradução portuguesa: LAS CASAS, Frei Bartolomé de. Brevíssima Relação da Destruição das Índias. O Paraíso destruído. A sangrenta história da conquista da América espanhola. Tradução de Heraldo Barbuy, Porto Alegre: L&PM, 2001.

26Charles Quint (1500-1558) torna-se rei da Espanha em 1516 e imperador dos Romanos em 1519. Seu filho é Felipe II da Espanha (1527-1598), soberano dos Países Baixos em 1555, rei da Espanha em 1556 e rei da Sicília e Nápoles em 1556.

27“Ah, se a minha cabeça fosse uma fonte de água e os meus olhos um manancial de lágrimas! Eu choraria noite e dia pelos mortos do meu povo”. Cf. http://biblia.com.br/novaversaointernacional/jeremias/jr-capitulo-9/

28BUENO, Eduardo. “Apresentação”. In: LAS CASAS, Frei Bartolomeu de. Brevíssima Relação da Destruição das Índias, op. cit., p.9.

29ELIAS, Norbert. Uber den Prozess der Zivilisation. Soziogenetische und psychogenetische Untersuchungen. Frakfurt: Suhrkamp, 1997. nota 134, p.479. Tradução brasileira: ELIAS, Norbert. O Processo civilizatório, vol. 2: Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p.290-292.

30No original: “Son titre exprime non seulement tout ce qu’il traite, mais encore à quel usage, et à quelles gens il est propre. Il n’est donc pas propre à tout le monde, me direz-vous? Non certes; il ne l’est qu’au grand monde, et aux personnes, qui savent le monde. C’est un Homme de Cour, qui n’est pas d’humeur à se familiariser avec le Vulgaire, il ne se plaît qu’avec ses égaux. Et comme d’ordinaire il ne parle qu’à demi-mot, il ne saurait s’assujettir à converser, ni avec les petites gens, ni avec les petits esprits, qui n’entendent ce qu’on leur dit qu’à force de paroles”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, op. cit., Préface, p.276.

31No original: “Vous remarquerez em passant, que le titre d’Homme de Cour s’accorde très bien avec celui d’Arte de Prudencia, la prudence n’étant nulle part si nécessaire qu’à la Cour”. GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, op. cit., Préface, p.276.

32No original: “Il y a presque autant de préceptes et de mystères, que de lignes ; et c’est assurément pour cela, que le compilateur l’a intitulé Oracle Manuel : Titre, que j’ai changé en celui d’Homme de Cour, qui, outre qu’il est moins fastueux et moins hyperbolique, explique mieux la qualité du livre, qui est un espèce de Rudiment de Cour, et de Code Politique.” GARCIAN, Baltasar. L’Homme de Cour, op. cit., Préface, p.276.

33CERVANTES, Miguel de. Don Quijote de la Mancha, Puesto en castellano actual integra y fielmente por Andrés Trapiello. Madrid: Destino, 2015.

34RABELAIS. OEuvres complètes. Texte intégral et translation en français moderne par Guy Demerson. Paris: Seuil. L’Intégrale, 1974.

35MONTAIGNE. Les Essais. Traduction en français moderne du texte de l’édition de 1595 par Guy de Penon. Paris: Guy de Pernon éditions, 2014.

36MONTAIGNE. Les Essais en français moderne, Traduction en Français moderne par André Lanly. Paris: Honoré Champion, 2005, et Paris: Gallimard, Quarto, 2009.

37SHAKESPEARE, William. The Complete Works in Plain and Simple English, BookCaps Study Guide, 2013, on-line.

Referências bibliográficas

CHARTIER, Roger. O Dom Quixote de Antônio José da Silva, as marionetes do Bairro Alto e as prisões da Inquisição. História & Antropologia, vol. 2, n. 3, p.161-181, 2012. [ Links ]

CHARTIER, Roger. ‘Per dir forse una nova parola’. Traduzir Castiglione no século XVI. In: DAHER, Andrea (org.). Oral por escrito. A oralidade na ordem da escrita, da retórica à literatura. Chapecó; Florianópolis: Argos. Editora UFSC, 2018. p.21-59. [ Links ]

DAVIS, Natalie Zemon. Trickster Travels: A Sixteeth-Century Muslim between Worlds. New York: Hill and Wang, 2006. [ Links ]

HOLANDA, Sergio Buarque de. Visão do Paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Editora José Olympio, 1958. [ Links ]

MORETTI, Franco. Atlas du roman européen (1800-1900). Paris: Seuil, 2000. [ Links ]

PARENT, Annie. Les Métiers du livre à paris au XVIe siècle (1535-1560). Genève: Librairie Droz,1974. [ Links ]

RICO, Francisco. Don Quijote, Madrid, 1604, en prensa. In: El Quijote. Biografia de un libro 1605-2005. Madrid: Biblioteca Nacional, 2005. p.49-75. [ Links ]

Recebido: 28 de Novembro de 2018; Revisado: 07 de Março de 2019; Aceito: 06 de Abril de 2019

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.