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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775On-line version ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.36 no.71 Belo Horizonte May/Aug. 2020  Epub June 03, 2020

https://doi.org/10.1590/0104-87752020000200010 

ARTIGOS

Circuitos da boa vizinhança. Diplomacia cultural e intercâmbios educacionais entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial

Simone Petraglia KROPF1 
http://orcid.org/0000-0002-9005-7160

1Fundação Oswaldo Cruz - Casa de Oswaldo Cruz Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde Av. Brasil, 4365, sala 318, Rio de Janeiro, RJ, 21040-360, Brasil. simonekropf@yahoo.com.br


Resumo

Este artigo analisa o programa de intercâmbio educacional firmado, em 1938, entre o Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU) e a Universidade de Michigan. A proposta partiu do instituto binacional recém fundado no Rio de Janeiro e veio ao encontro dos interesses daquela universidade em atrair ao meio-oeste dos EUA os estudantes latino-americanos que buscavam o país estimulados pela política da boa vizinhança do governo Roosevelt. Focalizando o percurso e a rede de atores, interesses e práticas que conformaram o Brazilian Fellowship Program, argumenta-se que esse é um caso exemplar das dinâmicas concretas e complexas que conformaram os circuitos da boa vizinhança e da diplomacia cultural interamericana durante a Segunda Guerra Mundial. Utiliza-se como fontes, preferencialmente, a documentação sob a guarda da Universidade de Michigan. O período analisado se estende de 1938, quando o programa foi formulado, até 1943, quando as relações interamericanas deixaram de ser o carro-chefe da diplomacia cultural e da política externa estadunidense, tendo em vista as expectativas para o pós-guerra. Ao focalizar essa experiência particular de cooperação educacional, em uma fase decisiva na construção da hegemonia global dos EUA, busca-se contribuir para os debates historiográficos sobre a circulação transnacional de saberes, pessoas e práticas enquanto processo marcado por encontros mas também por tensões e assimetrias.

Palavras-chave relações Brasil-Estados Unidos; diplomacia cultural; política da boa vizinhança

Abstract

The article analyzes the educational exchange agreement signed in 1938 by the University of Michigan and the Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), a newly founded bi-national institute in Rio de Janeiro. The IBEU’s proposed Brazilian Fellowship Program meshed well with the university’s interest in drawing Latin American students to the U.S. Midwest as the Roosevelt administration implemented its Good Neighbor Policy. In exploring the pathways and network of actors, interests, and practices that developed over the course of the program, we argue that this case constitutes a fine example of the concrete, complex dynamics that shaped the circuits of the Good Neighbor Policy and inter-American cultural diplomacy during World War II. Our primary source was formed of records held in the custody of the University of Michigan. The period of analysis runs from 1938, when the program was drafted, through 1943, when U.S. cultural diplomacy and foreign policy shifted their focus away from inter-American relations in light of expectations concerning the post-war period. By examining this specific experience in educational cooperation during a decisive phase in the construction of U.S. global hegemony, we hope to contribute to the historiographic discussion about the transnational circulation of knowledge, people, and practices as a process characterized by moments of encounter but also by tensions and asymmetries.

Keywords Brazil-U.S. relations; cultural diplomacy; Good Neighbor Policy

Introdução

“A amizade brasileiro-americana é quase uma expressão axiomática no esquema das relações inter-americanas”. Em 5 de julho de 1938, as palavras do Secretário de Estado Cordell Hull estamparam a manchete com a qual o matutino Diário de Notícias inaugurou sua série especial de 24 edições dedicadas às relações entre Brasil e Estados Unidos.1 O intercâmbio educacional foi um dos pontos enfatizados dentre as matérias fartamente ilustradas e assinadas por intelectuais e políticos de ambos os países. Vivia-se um momento decisivo da diplomacia cultural estadunidense para a América Latina. Sob a “política da boa vizinhança”, o Departamento de Estado inaugurou, aos 28 de julho de 1938, sua Divisão de Relações Culturais (DRC), para coordenar programas nesta área com as “outras repúblicas americanas”, em associação com entidades filantrópicas e universidades que já atuavam nesse campo.2 O avanço do Terceiro Reich tornava urgente colocar em prática a Convention for the Promotion of Inter-American Cultural Relations, proposta pelos EUA durante a Conferência Interamericana de Consolidação da Paz realizada em 1936 em Buenos Aires e que havia marcado o ingresso do governo estadunidense como ator no campo da diplomacia cultural. No Brasil, face ao “jogo duplo” de Getúlio Vargas entre a Alemanha e os EUA, a ocasião era estratégica para os que buscavam, sob a ditadura do Estado Novo, empurrar o pêndulo dessa balança na direção do vizinho ao norte.3

Este artigo analisa o programa de cooperação firmado em fins de 1938 pelo Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU) com a Universidade de Michigan (UM) para intercâmbio de jovens acadêmicos entre os dois países. A iniciativa partiu do instituto, criado em 1937 no Rio de Janeiro, e veio ao encontro dos interesses daquela universidade em levar ao meio-oeste dos EUA o movimento educacional que avançava sob os ventos do pan-americanismo. A UM se vangloriaria de ser a primeira universidade estadunisense a estabelecer um programa de intercâmbio educacional com um país latino-americano sob o princípio da reciprocidade. Com foco sobre o percurso e a rede de atores, interesses e práticas que viabilizaram o Brazilian Fellowship Program, pretende-se tratá-lo como caso exemplar das negociações, tensões e contingências que conformaram os circuitos transnacionais da “boa vizinhança” e da diplomacia cultural interamericana, em especial durante a Segunda Guerra Mundial. Ao analisar atores menos conhecidos nestes circuitos, como o IBEU e a Universidade de Michigan, buscamos contribuir para a historiografia que vem enfatizando a heterogeneiedade de dinâmicas, instituições e processos que constituíram tais trocas, bem como fortalecer o entendimento de que os latino-americanos não foram receptores passivos de uma diplomacia cultural imposta pelos EUA, mas tiveram papel ativo em sua construção a partir de posições, interesses, redes e iniciativas próprias.4

A circulação de saberes, pessoas e práticas tem sido tema para diversas agendas historiográficas. A crítica à perspectiva europeizante e unidirecional das vertentes difusionistas, enraizadas na dicotomia “centros” e “periferias”, é um denominador comum aos que buscam novas lentes para compreender as interações polifônicas e multidirecionais do “conhecimento em trânsito” (Secord, 2004). A virada global veio conferir novo fôlego e amplitude às análises sobre as conexões e cruzamentos que, sob diversas escalas, e em distintas espacialidades e temporalidades, tratam a mobilidade e as trocas transnacionais como dimensão constitutiva do próprio processo de produção e legitimação do conhecimento.5 A história das relações entre a América Latina e os EUA tem sido um dos campos de investigação sobre como tais encontros interculturais se estabeleceram não a partir de posições fixas ou homogêneas, mas mediante processos multifacetados e de construção mútua, ainda que sob assimetrias. Tal historiografia também vem chamando a atenção para a agência e o protagonismo dos latino-americanos, sob dinâmicas sempre complexas, tensas e contraditórias entre cooperação e hegemonia. Ênfase vem sendo conferida, ainda, à dimensão material e concreta dessas trocas, assim como às cautelas necessárias para não se tomar tais fluxos de modo naturalizado ou simplificador, sem considerar as práticas e circunstâncias que os favorecem ou dificultam e as relações de poder que os condicionam (Joseph; Legrand; Salvatore, 1998; Adelman, 2004; Scarfi; Tillman, 2016).

Seguindo a vertente aberta por Ninkovich (1981), os estudos históricos sobre as relações culturais interamericanas vêm iluminando os caminhos particulares desta “diplomacia das idéias” no continente, em particular no que diz respeito à primeira fase da diplomacia cultural/pública estadunidense (1936-1953), orientada para as “outras repú blicas americanas”.6 Vários autores têm indicado que a diplomacia da boa vizinhança fez da América Latina um laboratório para a construção da hegemonia dos EUA no mundo global, à qual a Guerra Fria viria conferir novo alcance. Isso se deu no âmbito de fluxos culturais e educacionais que, legitimados pelos princípios do multilateralismo, reciprocidade e cooperação mútua, constitutivos do internacionalismo cultural do entre-guerras (Iriye, 1997), assumiram novos sentidos e intensidade a partir da década de 1930.7

Com base no caso aqui examinado, argumento que os circuitos do pan-americanismo e da boa vizinhança, pelos quais circularam os personagens, saberes e práticas dos intercâmbios interamericanos, não se constituíram como trilhos estáveis e lineares, mas foram sendo desenhados à medida que as interações se viabilizavam na prática e em situações específicas. As vicissitudes enfrentadas na concretização das trocas acadêmicas entre o IBEU e a Universidade de Michigan são um exemplo das muitas experiências particulares criadas por esses circuitos e que ao mesmo tempo foram cruciais para moldá-los. Delineando-se a partir de redes de colaboração já existentes e muitas vezes informais, e ganhando novos contornos conforme as contingências do próprio percurso, o tráfego educacional entre a capital do Brasil e a pequena cidade de Ann Arbor durante a Segunda Guerra Mundial foi posto em marcha por atores, lógicas e interesses entrecruzados num movimento tecido em multiplas camadas, tanto por canais prévios quanto mediante contradições e obstáculos a alterar os rumos desses fluxos.8 Buscaremos, portanto, examinar as engrenagens de um programa que, em suas especificidades, lança luz sobre o que Ninkovich chamou de relações culturais “em ação” (at work) (Ninkovich, 1981, p.4).9

Este artigo está estruturado nas seguintes seções. Começaremos por indicar os principais atores individuais e institucionais que, a partir de interesses específicos, conectaram Michigan e o Brasil no contexto particular da boa vizinhança, num momento que antecedeu a implementação dos programas de relações culturais e intercâmbios educacionais por parte do governo estadunidense. Em seguida, analisaremos os desafios para a inauguração do Brazilian Fellowship Program, como a seleção dos candidatos e a viabilização das viagens, na busca por uma “rotina organizacional” (Smith, 2017, p.7) capaz de transformar a intenção de cooperação em experiências concretas. Na terceira seção, focalizaremos as tensões, assimetrias e obstáculos vividos no encontro entre estas distintas (e desiguais) Américas, como a barreira do idioma e os estereótipos e preconceitos de ambos os lados. Por fim, examinaremos a continuidade do programa num contexto em que as iniciativas da UM para a América Latina se ampliaram e passaram a lidar com os novos atores e dinâmicas institucionais da diplomacia cultural interamericana e com os efeitos da guerra. O programa será acompanhado de 1938 até 1943, quando a prioridade conferida às “repúblicas ao sul” pela UM (e pela própria política externa estadunidense) se redirecionou para outras latitudes, antevendo os circuitos do pós-guerra.

Um aspecto interessante deste estudo diz respeito às oportunidades para um encontro que, a despeito das assimetrias entre os países, fez convergir interesses de distintas “periferias”. Ao apresentar às universidades estadunidenses uma proposta fundada na reciprocidade (exchange), moeda de alto valor para a montagem da diplomacia cultural naquele país, os brasileiros (por intermédio do IBEU) assumiram uma posição forte no tabuleiro das trocas interamericanas. A UM, por sua vez, percebeu ali uma oportunidade para compensar sua posição periférica face às outras universidades dos EUA que já tinham posições consolidadas neste campo. Em suma, casos específicos como esse nos ajudam a descortinar as múltiplas estratégias pelas quais atores diversos, desigualmente situados, ao se movimentarem neste tabuleiro, conformavam as dinâmicas do próprio jogo que lhe dava sentido.

Entre o meio-oeste dos EUA e a capital do Brasil: personagens, instituições e cenários

A Universidade de Michigan, fundada em 1817, recebia latino-americanos desde finais do século XIX, mas o interesse mais sistemático pela região se deu por meio de expedições científicas, organizadas a partir de 1910 pelo zoólogo e diretor do Museu da universidade Alexander Grant Ruthven (1882-1971). Tais viagens eram particularmente motivadas pelos estudos botânicos, sobretudo da borracha amazônica, estratégica para o estado de Michigan, berço de Henry Ford e da indústria automotiva.10

Ruthven foi decisivo para a cooperação da UM com o Brasil. Como presidente da universidade (1929-1951), estabeleceu em 1933 o cargo de “conselheiro para estudantes estrangeiros”, que em 1938 teve suas atribuições ampliadas ao associar-se à direção do então criado International Center (IC). À frente destas duas posições, esteve Joseph Raleigh Nelson (1873-1961), que se tornaria o principal articulador dos intercâmbios entre a universidade e a América Latina. Formado pela UM em 1894, Nelson coordenava um programa de ensino de inglês para estudantes estrangeiros da escola de Engenharia da UM, junto aos quais atuava também como conselheiro. Esse era um interesse nascido no seio familiar (sua mãe era missionária do Women’s Board of Foreign Missions) e ia além da atuação profissional. Membro do Cosmopolitan Club da UM, Nelson tinha escrito e produzido, em 1917, a peça Magic Carpet, para arrecadar fundos para estudantes estrangeiros necessitados. Como conselheiro, buscava promover a interação entre os estrangeiros e a comunidade local mediante diversificadas atividades culturais.11

Os anos de 1930 eram promissores para a inserção da UM nos fluxos educacionais transnacionais que se intensificavam desde o pós-I Guerra. Em 1934-1935,12 num universo de 8.372 estudantes estrangeiros nos Estados Unidos, distribuidos em 450 colleges/universidades em 50 estados, a Universidade de Michigan despontou na quinta posição, sendo que na primeira colocação entre as universidades do interior.13 Segundo Nelson, apesar de estar distante de ambas as costas litorâneas, à “beira do wilderness”, a UM tinha uma “tradição cosmopolita” que a “tornava menos provinciana em seu pensamento do que os centros de ensino mais homogêneos do Leste”.14 Entre os fatores para isso, destacava o movimento missionário protestante que recrutava alunos em vários continentes e o intercâmbio diplomático e educacional com países orientais, especialmente a China. Em fins de 1937, percebendo as condições favoráveis para os vínculos com a América Latina, Nelson vislumbrou a oportunidade para inserir Michigan na cooperação interamericana por intermédio de um ex-aluno da universidade. À escola de Engenharia, ele apresentou a sugestão de Bernard Beckwith (engenheiro formado pela UM que atuava em Buenos Aires) para um programa de estudos voltado a sul-americanos. Pouco tempo depois, Nelson ficou sabendo do interesse da Fundação Rockefeller em diversificar os locais de destino dos sul-americanos que recebim bolsas ou auxílios para estudos em engenharia, saúde pública e saneamento nos Estados Unidos e que em geral dirigiam-se a universidades na costa leste.15

Entusiasmado, Nelson foi a Washington, em abril de 1938, para informar-se sobre os Pan American Airways Travel Fellowships (PAATF), que custeariam anualmente o transporte aéreo de alguns estudantes latino-americanos para os EUA. A Pan American Airways, criada em 1927, era um ator importante nas relações comerciais e culturais interamericanas e a iniciativa vinha atender a um dos principais desafios dessas trocas: os custos da viagem. Em reunião com o diretor da Pan American Union, Leo S. Rowe, Nelson ressaltou o “longo interesse” da UM pela América Latina, mencionando, por exemplo, o fato de ter sido a primeira instituição estadunidense a conferir um título honorário a um sul-americano (o argentino Domingo Faustino Sarmiento). Teria ouvido de Rowe a disposição em diminuir a concentração dos estudantes sul-americanos nas universidades da costa leste e a afirmação de que a UM, uma das mais antigas state universities no meio-oeste, “estava em posição estratégica” para receber tais estudantes. Depois de reunião mais protocolar no Departamento de Estado, Nelson rumou para Nova York, para um encontro no Institute of International Education (IIE).16

O IIE havia sido criado em 1919, na cidade de Nova York, para promover o intercâmbio educacional como instrumento para a paz entre as nações. Atuava como um centro de informação e aconselhamento junto às instituições que ofereciam bolsas e auxílios, intermediando os contatos entre tais instituições e os candidatos, colaborando na seleção dos beneficiários e administrando os benefícios concedidos (entre os quais o PAATF). Voltado inicialmente para o intercâmbio entre os EUA e os países europeus, passou a focalizar a América Latina a partir da viagem feita por seu diretor Stephen Duggan, em 1931, a vários países sul-americanos para apresentar os programas do instituto.17 A entrada do governo, a partir da Convenção de 1936, como financiador (ainda que minotário) de programas de relações culturais traria maior envergadura à atuação do instituto como intermediador desses intercâmbios, dos quais as universidades eram um ator decisivo. Nelson ouviu de Duggan que a UM poderia vir a ser contemplada com um PAATF desde que oferecesse uma bolsa que custeasse a estadia do beneficiado, já que a Pan American Airways cobriria apenas o transporte dos sul-americanos. Nelson voltou a Ann Arbor convencido de que era um excelente investimento. No entanto, a rota a direcionar a circulação interamericana para Michigan viria de uma direção inesperada: não de Washington ou Nova York, mas do Rio de Janeiro. O protagonista foi o recém-criado Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU).

A ideia de uma organização para promover as relações culturais entre Brasil e Estados Unidos vinha sendo discutida por intelectuais de ambos os países, incluindo Duggan, ao longo dos anos de 1930. Por ocasião da Conferência Interamericana de 1936, o tema foi abordado na Associação Brasileira de Educação por Samuel Guy Inman, membro da delegação estadunidense que passava pelo Rio rumo a Buenos Aires. Inman era liderança do movimento missionário protestante na América Latina e havia contribuído diretamente na formulação da política da boa vizinhança. Segundo ele, aquela era a ocasião perfeita para se criar uma associação que, à semelhança do Instituto Cultural Argentino-Americano, servisse de contraponto à crescente influência europeia na América Latina. Com apoio da comunidade estadunidense no Rio de Janeiro (sob a liderança do reverendo metodista Hugh Clarence Tucker), do Itamaraty e de outros setores influentes de ambos os países, o IBEU foi inaugurado em 13 de janeiro de 1937. Entre os cerca de 180 sócios fundadores, estavam figuras de renome da elite intelectual e política brasileira - como Oswaldo Aranha (americanista notório), Gilberto Freyre, Austregesilo de Athayde, Francisco Campos, Pedro Calmon e Afranio Peixoto.18

Organização privada, cujos sócios incluíam importantes empresas brasileiras e estadunidenses, o IBEU tinha proximidade com um dos braços da diplomacia cultural do governo Vargas, a Comissão Brasileira de Cooperação Intelectual (associada ao Serviço de Cooperação Intelectual do Itamaraty), da qual participava o diplomata Helio Lobo, primeiro presidente do novo instituto. Em seu discurso inaugural, Lobo enfatizou a relevância dos intercâmbios que promovessem “a vinda ao Brasil de personalidades representativas da cultura norte-americana e, ao mesmo tempo, a ida aos Estados Unidos de professores e estudantes brasileiros”.19 Naquele momento, a educação superior, especialmente com a criação das universidades, assumia proemiência política no projeto de modernização e construção de uma “nova nação” pelo governo Vargas.20

Representante oficial do IIE no Brasil, cabia ao novo instituto selecionar, dentre as candidaturas que se apresentavam à sua secretaria, os brasileiros que receberiam as bolsas oferecidas por instituições estadunidenses para estudo naquele país (Góes, 1943).21 Em agosto de 1938, o IBEU criou uma nova modalidade de apoio, mediante recursos do Ministério das Relações Exteriores, já sob o comando de Aranha. Por intermédio do IIE, disponibilizou três fellowships, cada um no valor de 10 contos de réis (seiscentos dólares aproximadamente), para três jovens formados por universidades ou colleges estadunidenses que desejassem estudar no Brasil por seis meses. A proposta pressupunha uma contrapartida: deveriam ser ofertadas aos brasileiros igualmente três fellowships para estudos “em uma universidade ou college classe A nos Estados Unidos”.22

Os norte-americanos deveriam ser graduados, ter no mínimo 25 anos, e, das três vagas, duas caberiam, a princípio, a indivíduos que atuassem em história da América Latina, sociologia ou antropologia. Caso não houvesse tal disponibiliade, as áreas de geografia, economia, literatura, folclore e educação seriam aceitas. Esperava-se contar com, ao menos, um profissional da área médica, para conhecer o “trabalho muito bom” feito no Instituto Oswaldo Cruz no estudo das doenças tropicais. À exceção dessa menção, os fellowships oferecidos pelo IBEU não estavam condicionados a vínculos institucionais específicos. A preocupação em estimular estudos sobre o Brasil era explícita: os beneficiários deveriam ter atuação docente nas áreas de suas candidaturas, para que quando retornassem os EUA pudessem incorporar o resultado de seus estudos em seus cursos.23 No tabuleiro das trocas interamericanas que se desenhava, o IBEU dava as cartas em busca de um parceiro ao norte.

A iniciativa atendia a uma das principais expectativas da diplomacia cultural estadunidense: a reciprocidade. Vista como expressão do bilateralismo e do gradualismo preconizados pelos defensores do internacionalismo cultural (entre os quais o IIE), era valorizada como proteção contra a propaganda e à imposição unilateral que muitos temiam que viessem caracterizar a intervenção do governo no campo das relações culturais (Arndt, 2005; Kramer, 2009; Graham, 2015). Entretanto, a prática da reciprocidade não era trivial. Apesar da presença cada vez mais expressiva de latino-americanos estudando nos EUA, o mesmo não acontecia na outra direção do exchange. Enquanto a arraigada preferência dos latino-americanos pela formação na Europa já vinha sendo contrabançanda pelas oportunidades criadas nas universidades estadunidenses, os norte-americanos continuavam escolhendo os países europeus como destino preferencial. Duggan reconhecia que o intercâmbio com a América Latina ainda era “fundamentalmente um empreendimento unilateral”.24 Apesar de algumas iniciativas, como bolsas oferecidas pela Universidade do Chile para norte-americanos a partir de 1935/1936,25 a proposta do IBEU era de fato alinhada à ideia da reciprocidade, sendo a “mão-dupla” uma condição para a concessão dos benefícios.

Oferta feita, cabia ao IIE identificar nos Estados Unidos a universidade que iria aceitá-la. Naquele momento, as condições institucionais para o intercâmbio internacional na UM eram bastante favoráveis. A ampliação das instalações da Michigan Union (organização dos estudantes) tornara possível concretizar um antigo sonho de Nelson. Inaugurado em setembro de 1938, o International Center, sob sua direção, nascia como espaço vibrante de convivência e integração entre os estudantes estrangeiros e os diversos grupos locais. Os chás e ceias gratuitos, oferecidos semanalmente, seriam cada vez mais concorridos, seguidos de atividades culturais variadas, organizadas pelos diferentes clubs ou grupos nacionais de estrangeiros. O centro oferecia ainda cursos sobre a cultura norte-americana, torneios esportivos, piqueniques, tours pela cidade e arredores, programas musicais e exposições de arte. Os serviços de tutoria e aulas de inglês também eram um importante atrativo, assim como as atividades de aconselhamento.26

Comunicado pelo IIE sobre a “esplêndida oferta” do IBEU, o diretor do IC declarou-se “ansioso para fazer todo o possível” com vistas a garantir a oportunidade para Michigan.27

A montagem do brazilian fellowship program (bfp)

Nelson tomou conhecimento dos fellowships oferecidos pelo IBEU às vésperas da Oitava Conferência Internacional dos Estados Americanos. O encontro de Lima, entre 9 e 24 de dezembro de 1938, pretendia fazer avançar as intenções estabelecidas pela Convenção de Buenos Aires dois anos antes. A escalada do nazifascismo e a política expansionista na Ásia acirravam as preocupações quanto a uma guerra mundial e o certame era visto como decisivo para as relações interamericanas. O Correio da Manhã noticiou em primeira página que todos haviam recebido “com satisfação” as notícias de que o governo dos EUA iria engajar-se “numa proporção sem precedentes para assegurar a cooperação econômica, científica e cultural entre as repúblicas americanas”.28 Entretanto, os próprios participantes do evento reconheciam os desafios a enfrentar, como o incremento das “doações, bolsas de estudo e outros fundos disponíveis para promover o intercâmbio de estudantes”.29

Foi neste palco estratégico que Nelson fez circular a notícia de que Michigan contribuiria à rede da “solidariedade hemisférica”. Na véspera da Conferência, comunicou a Edgard Fisher, diretor-assistente do IIE, que Ruthven havia autorizado a concessão de três fellowships como contrapartida àqueles oferecidos pelo IBEU. Fisher sugeriu que solicitassem a Laurence Duggan, diretor da Divisão de Repúblicas Americanas do Departamento de Estado, que anunciasse o acordo em Lima.30 O presidente do IBEU, Levi Carneiro, estaria lá, como membro da delegação brasileira. Nelson garantiu ainda um outro “porta-voz” na Conferência. A Charles Hurrey, ex-aluno da UM e Secretário-Geral do Committee on Friendly Relations Among Foreign Students, pediu que divulgasse a notícia para que todos soubessem “[d]o interesse genuíno por parte da Universidade na educação sul-americana”.31

Feito isso, Nelson se dedicaria integralmente, com a ajuda de outros professores da universidade, a detalhar sua proposta para o intercâmbio com o Brasil. A UM oferecereria aos brasileiros três bolsas, de igual valor às do IBEU, direcionadas a estudantes de nível avançado ou jovens docentes vinculados a instituições de ensino superior de “posição reconhecida”, ou ainda a indivíduos reconhecidos em seus campos profissionais, para estadia de um ano acadêmico em Michigan.32

Um primeiro desafio era selecionar os beneficiários de ambos os lados. Os candidatos da UM que iriam ao Brasil seriam identificados mediante canais acadêmicos já existentes na universidade, por Nelson e por professores envolvidos com estudos sobre o Brasil e a América Latina. O geógrafo Preston E. James, renomado latino-americanista da UM e que havia tido contados com o IBEU em 1938, foi especialmene ativo neste recrutamento. Foram encaminhadas ao IIE as seguintes applications por parte da UM: Frederick Holden Hall, para estudar história colonial; William W. Lewis, assistente de James e que pretendia estudar aspectos geográficos da posse da terra no Vale do Paraíba; e Byron O. Hugues, pesquisador associado na Faculdade de Educação e interessado nas relações raciais no Brasil. Hugues, no entanto, preocupado com questões financeiras e temeroso que o afastamento prejudicasse sua inserção profissional na universidade, desistiria da candidatura. Para substituí-lo, Nelson convidou Robert King Hall, doutorando na Faculdade de Educação, que apresentou a proposta de estudo comparativo dos sistemas educacionais da Argentina, Chile e Brasil.33

Enquanto a seleção dos candidatos de Michigan que viajariam ao Brasil resultava de uma busca ativa por parte de Nelson, com a ajuda de outros professores da universidade, a seleção dos brasileiros que iriam para Michigan era feita, por Nelson e por Fisher, dentre os muitos candidatos que buscavam o IBEU interessados em estudar nos EUA de modo geral. Ou seja, numa clara assimetria entre os lados norte e sul do programa, apesar de o IBEU ter que validar as escolhas, elas eram, na prática, feitas pelos norte-americanos para ambas as direções do exchange. Vale notar alguns aspectos a nortear tal seleção. Ao examinar as 16 candidaturas brasileiras encaminhadas na ocasião pelo IBEU, Fisher ponderou que, como havia mais oportunidades para mulheres latino-americanas nos colleges femininos, as três vagas para Michigan deveriam ser preenchidas por homens.34 Mesmo considerando que mulheres viriam a ser contempladas pelo BFP, esse é um indício dos vieses que conformavam tal circulação. Um nome que interessou Nelson foi o de Cecília Meirelles, mas essa acabou desistindo da candidatura aos EUA naquele momento. Um dos fatores teria sido o mal estar envolvendo a saída da secretária do IBEU, Kate De Pierri (que tratava exatamente do BFP), diante de rumores de que ela seria espiã alemã. De Pierri (de quem Meirelles tornara-se próxima ao ministrar aulas de literatura no IBEU) creditou a intriga a Gustavo Lessa, da diretoria do instituto, num exemplo das tensões vividas nos meios culturais brasileiros na época.35

Além dos aspectos acadêmicos, a decisão quanto aos brasileiros que teriam um perfil mais adequado à UM também era subsidiada por informantes locais. Sobre a candidatura de Anísio Teixeira, por exemplo, Fisher comentou que, apesar de ter ouvido do secretário do YMCA no Rio de Janeiro que provavelmente ele seria Ministro da Educação no futuro, considerava que Teixeira estava naquele momento “em situação política desfavorável”.36 Outros educadores foram considerados: Antonio Carneiro Leão, seu irmão Alberto, e Paschoal Lemme. O primeiro, altamente recomendado, foi descartado pela idade (52 anos). Lemme, interessado em estudar o sistema de administração escolar nos EUA, também havia sido bem recomendado e Fisher relatou a Nelson ter sido informado de que “uma bolsa concedida a ele teria uma influência de grande alcance no Brasil”. Além de Lemme, foram escolhidos dois médicos, os irmãos Jorge Joaquim de Castro Barbosa e Paulo Marcello de Castro Barbosa, interessados pelo sistema hospitalar norte-americano.37

Também aqui haveria ajustes a fazer. Num mal-entendido que causaria irritação a Fisher, os jovens médicos desistiram da viagem ao constatarem que o ano acadêmico nos EUA não correspondia ao brasileiro. Foram substituídos pelo advogado Osvaldo Trigueiro e pelo educador Alberto Carneiro Leão. Trigueiro pretendia estudar administração e estrutura jurídica nos EUA.38 Leão era professor de inglês no ensino secundário e estava interessado em fonética e linguística. Todavia, não conseguiria autorização para afastamento funcional, adiando os planos para o ano seguinte. Ao final, além de Lemme e Trigueiro, Heloisa Cabral da Rocha Werneck integraria o primeiro grupo de brasileiros a ir para a UM pelo BFP. Funcionária da Biblioteca Nacional cedida ao IBEU para catalogar a coleção de livros do instituto, ela iria estudar biblioteconomia na UM.

Quando tudo parecia devidamente arranjado e os candidatos de Michigan visualizavam a “aventura” ao sul do equador, um obstáculo inesperado apareceu no caminho. Para custear o deslocamento dos fellows da UM, Nelson contava com os travel grants da Pan American Airways, que estavam sendo estendidos também aos norte-americanos rumo à America Latina. No entanto, foi informado de que o novo programa contemplaria apenas um candidato para cada país. Ou seja: haveria apenas um grant para a ida ao Brasil e nada garantia que ele fosse destinado à UM. O diretor do International Center se lançou então num esforço obstinado para contornar a situação. Numa clara evidência de como os processos acadêmicos se entrecruzavam com dinâmicas políticas, buscou imediatamente o apoio de Washington. A Ben Cherrington, diretor da Divisão de Relações Culturais (DRC) do Departamento de Estado, pediu que intercedesse junto à companhia aérea. Reiterando, como de costume, a ideia de que a UM era a primeira universidade a estabelecer um intercâmbio daquela natureza com um país latino-americano, Nelson tratou o BFP como decisivo não apenas para Michigan, mas para o próprio programa de relações culturais do governo: “Sinto que isso diz respeito não apenas à universidade, mas a todo o futuro de nossas relações culturais com o Brasil”.39 Nelson conseguiu a intervenção do Secretário de Estado Cordell Hull, mas, num momento em que muitos resistiam à entrada do governo numa esfera que até então cabia às instituições privadas, a negociação possível com a a Pan American Airways foi reservar o fellowship destinado ao Brasil para o candidato da UM. O presidente da companhia fez questão de indicar que o encaminhamento já expressava a boa vontade com Michigan face ao apelo do Departamento de Estado.40

Concedido o benefício a W. Lewis, Nelson persistiu na busca por viabilizar a viagem dos outros dois representantes da UM.41 Cherrington aconselhou que eles concorressem aos grants governamentais previstos pela Convenção de Buenos Aires e que estavam finalmente em vias de serem implementados para o ano de 1939-1940.42 A aprovação do primeiro orçamento (ainda restrito) para o programa de relações culturais do governo reforçava a expectativa de que as universidades (e outras instituições privadas) aderissem a essa nova rede, daí o envolvimento do diretor da DRC, que pretendia usar a iniciativa de Michigan como exemplo. O engajamento do Departamento de Estado no caso certamente contribuiu para a decisão de Ruthven de pôr fim ao dilema, mediante recursos da universidade. O episódio foi “capitalizado” para valorizar ainda mais a posição de Michigan. Ao comunicar a Cherrington a solução do “embrolio”, Nelson assinalou: “Tenho certeza de que você apreciará o quão sincero tem sido o nosso interesse, enquanto instituição, em adotar esse acordo de intercâmbio”.43 Uma semana após a invasão da Polônia pelos nazistas, Michigan festejava sua entrada num circuito que assumiria sentidos cada vez mais estratégicos.

O ano de 1939 vinha sendo pródigo para a inserção de Ann Arbor nesse mapa. Entre junho e agosto, durante sua Summer Session, a UM sediou o Institute of Latin American Studies (ILAS), sob os auspícios do American Council of Learned Societies e com apoio da Fundação Rockefeller. A escolha da universidade para inaugurar a iniciativa foi atribuída a sua “proeminente posição no campo dos estudos latino-americanos”.44 Reunindo professores de outras universidades estadunidenses, o ILAS compreendia diversos cursos, conferências e atividades nas áreas de história, geografia, antropologia, ciência política, economia, administração de empresas, educação, arte e arquitetura. Gilberto Freyre, o único latin-americano a constar do programa, ministrou conferência e cursos sobre história do Brasil, com ênfase no tema das relações raciais. Sob sua coordenação, discutiu-se a preparação de um Handbook of Brazilian Studies.45

A primeira edição do BFP (1939-1940) deixou Nelson confiante quanto à continuidade do programa. À secretária do IBEU, ele elogiou Trigueiro, Lemme e Werneck pelo desempenho acadêmico e por terem cumprido “sua responsabiliade como representantes de seu país”.46 O IBEU também expressou satisfação com os fellows de Michigan e o Itamaraty renovou o financiamento para o ano seguinte.

Adaptações, tensões e assimetrias na prática da boa vizinhança

A renovação do BFP demandaria alguns ajustes. Face às dificuldades com os grants da Pan Am, a UM resolveu oferecer, já para 1940-1941, apenas duas bolsas para os brasileiros e reservar os recursos restantes para o deslocamento dos candidatos norte-americanos, caso não houvesse alternativa. Em reciprocidade, o IBEU também passaria a conceder duas bolsas aos norte-americanos. Em virtude de dificuldades de adaptação, sua estadia no Brasil seria estendida de seis para nove meses. Os relatos dos primeiros fellows de Michigan sobre a experiência ao sul do Equador evidenciam algumas barreiras para os encontros interculturais nas Américas.

Uma recorrente queixa dos norte-americanos era quanto às rotinas e à (falta de) organização das instituições acadêmicas brasileiras. William Lewis, por exemplo, reclamou da burocracia e do sistema de indexação das bibliotecas, que o deixara muitas vezes “às cegas”.47 Frederick Hall foi sarcástico ao explicitar os limites à “mútua compreensão”:

O termômetro gira em torno de 90 Fahrenheit quando estou tomando café! Agora estou trabalhando - ou tentando - no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que tem as maravilhosas horas brasileiras de 12 às 4 […]. É pouco tempo e a parte mais quente do dia! [...] A atendente “que fala inglês” (e se ela fala inglês, eu falo hindustani!) é uma coisa doce e antiga que deve ter sido debutante durante o tempo de Pedro II. [...] É preciso toda a minha energia para preencher o longo formulário de requisição para cada documento […]. É quase impossível fazer meu cérebro fervente funcionar.48

Robert K. Hall, por sua vez, buscou minimizar o calor do Rio de Janeiro face aos “dias mais quentes em Ann Arbor”.49 Nesse caso, a diplomacia não funcionou e Fisher acreditou mais em F. Hall. Na busca por adaptações, não houve, por parte da UM, do IIE ou mesmo do IBEU, nenhuma preocupação em como os brasileiros lidariam com o rigoroso inverno de Michigan.

Ainda mais desafiador que o clima era o obstáculo do idioma. Além de prejudicar o desempenho acadêmico, potencializava as tensões vividas coditianamente pelos estrangeiros. O problema também afetava os norte-americanos, mas com sentidos bem diferentes. Nesse caso, o mau desempenho era creditado não aos indivíduos, mas à ausência de oportunidades para o aprendizado do português. O BFP contribuiria para mudar essa situação, o que por sua vez seria um estímulo ao interesse pelo Brasil. Alberto Carneiro Leão, que estudou na UM na segunda edição do programa, começou a ensinar português no International Center. A surpreeendente demanda para suas aulas contribuiriam para a decisão da universidade de oferecer, a partir de 1941, um curso do idioma em seu Departamento de Romance Languages.50

A adaptação dos norte-americanos no Brasil era vista como mais difícil do que a dos brasileiros. Segundo a secretária do IBEU, além do estranhamento com o clima e até com a alimentação, “as condições de vida [no Brasil] são certamente menos organizadas do que nos Estados Unidos; na realidade, elas não são nada organizadas!”.51 Essa percepção das diferenças também foi expressa por outros professores estadunidenses envolvidos na cooperação entre esses espaços acadêmicos e culturais tão diversos. O sociólogo Donald Pierson, ator fundamental da “boa vizinhança” como professor na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (Maio; Lopes, 2017), parabenizou Nelson pelo BFP, mas recomendou que os candidatos brasileiros fossem avalizados por pessoas habituadas aos padrões acadêmicos dos EUA. Colocando-se à disposição, alertou que a “amizade”, sob a “mentalidade brasileira”, podia assumir sentidos negativos se associada às “sutilezas da política”.52

Quanto à adaptação nos EUA, os latino-americanos tinham que enfrentar, além do idioma, uma barreira sobre a qual não se falava explicitamente: a questão racial. Apesar de enaltecer Ann Arbor por sua “relativa liberdade em termos de discriminação racial se comparada ao Sul”,53 Nelson reconhecia, em relatos reservados, que o estudante estrangeiro sofria “preconceitos devido à cor, mesmo que sejam apenas marrons ou amarelos, ao sotaque, ou apenas por serem estrangeiros”.54 As tensões raciais se explicitaram, por exemplo, quando a Interracial Association (organização local de estudantes e professores) aventou a possibilidade de disponibilizar, na sala de leitura do IC, livros relacionados à temática racial. O assistente de Nelson, Robert Klinger, ficou temeroso em receber “alguns dos alunos de cor que não são exatamente desejáveis”, mas ponderou que, num momento em que se lutava pela democracia no exterior, tal atitude seria incongruente e poderia ofender particularmente os latino-americanos, por serem “racialmente miscigenados”.55

A despeito da retórica da “solidariedade hemisférica”, as relações entre as duas Américas eram marcadas por desconfianças de ambas as partes. A resistência dos latino-americanos a seu vizinho do norte nutria-se tanto do temor do imperialismo associado à política do big stick e à “diplomacia do dólar”, quanto dos estereótipos de que os EUA eram um país materialista e rico por sua indústria e técnica, mas pobre em termos espirituais e culturais. Um professor mexicano que visitou Ann Arbor em “missão de boa-vontade” não poupou seus anfitriões ao declarar em entrevista a um jornal local: “Estamos dispostos a aceitar seus ensinamentos em questões industriais e técnicas, mas não queremos ser coca-colizados. Vocês nos ensinam muitas coisas. Talvez possamos ensinar a vocês algumas coisas quanto aos sentidos da vida”.56

Já os latino-americanos, além de lidarem com a habitual qualificação dos trópicos como exóticos, eram por vezes tratados explicitamente como inferiores. Documento apócrifo sobre o projeto do Institute of Latin American Studies, guardado por Ruthven entre seus papéis, ao discorrer sobre os desafios da “mútua compreensão”, mencionava a visão que muitos tinham dos latino-americanos como “o produto preguiçoso e vão de uma confusão racial, dominado por tradições”.57 É certo que, publicamente, os preconceitos face às “outras repúblicas americanas” eram disfarçados sob a superioridade condescendente dos que identificavam no sul um atraso a ser superado graças à ajuda do norte. Ao orientar os estudantes norte-americanos a como atuar como “embaixadores culturais” na América Latina, o IIE aconselhava-os a serem “adaptáveis” e a “terem tato” face às adversidades, que iam da falta de “boa água potável” ao “ritmo de vida sempre mais devagar”. Em suma, era “melhor esperar pouco do que muito”.58

A guerra e a continuidade do intercâmbio com o Brasil

Em 1940, as relações culturais nas Américas ganharam novos atores e dinâmicas, com a implementação de auxílios e programas tanto pela DRC, do Departamento de Estado, quanto pelo então criado Office of the Coordinator of Inter-American Affairs, que, somando-se aos apoios concedidos pelas universidades e organizações privadas, ampliavam as oportunidades para uma circulação que também se beneficiava das crescentes restrições impostas aos fluxos para a Europa.

Para a segunda edição do BFP (1940-1941), Fisher e Nelson escolheram o médico Nelson Cotrim, para estudar cardiologia, e Alberto Carneiro Leão, que, como vimos, não havia conseguido ir na rodada anterior.59 Num momento em que as rotas para a América Latina ganhavam maior visibilidade nos anúncios das iniciativas governamentais, a seleção dos norte-americanos passou a contar com um universo maior de candidatos. O comitê da UM que cuidava do BFP optou por Joseph H. Alli, doutor em saúde pública pela universidade e que tinha experiência no estudo de doenças tropicais na Europa, e George S. Quick, doutorando em economia que pretendia estudar a história do trabalho em São Paulo. Joseph R. Bailey, doutorando no Museu de Zoologia da UM, seria uma alternativa em caso de substituição.60 Desta vez, contudo, o IBEU interviria diretamente no processo seletivo, optando por Bailey no lugar de Alli.61 A justificativa de que se tratava de uma decisão com critérios acadêmicos não convenceu Nelson, que a atribuiu ao fato de Alli, apesar da cidadania estadunidense, ter nascido na Albânia. Mesmo declarando-se “chocado” com a situação, o diretor do IC acatou a posição de seu parceiro no Brasil e minimizou o constrangimento dizendo que as condições da guerra tinham influenciado “o sentimento dos brasileiros em relação aos estrangeiros ou aos que tinham sido estrangeiros”.62

A ocupação da França em junho de 1940 elevou exponencialmente a tensão da guerra. Nelson compartilhou com Fisher suas preocupações quanto ao destino do BFP: “Tenho certeza de que você está tão perturbado e provavelmente tão ansioso como eu com a possibilidade de todo o nosso belo plano ser destruído pelas consequências da guerra”.63 Os próprios candidados percebiam os novos sentidos de sua “missão”. Quick declarou-se ciente do “significado diplomático” do intercâmbio educacional “neste mundo que enlouqueceu” e empenhado em atuar como “embaixador cultural” no Brasil.64 A prória guerra, entretanto, viria condicionar tais fluxos a outras dinâmicas. Convocado ao serviço militar, Quick teve que adiar sua ida ao Brasil para o ano seguinte.

O mesmo obstáculo se apresentou aos selecionados para o ano de 1941-1942, Earl Wesley Thomas, doutorando no Departamento de Romance Languages e interessado em fonética e no português falado no Brasil, e Ulrich Howard Williams, doutorando no Museu de Antropologia e que pretendia estudar as plantas brasileiras. Nelson solicitou ao State Selective Board do estado de Michigan que os dispensasse do alistamento militar, afirmando que seriam excelentes “representantes diplomáticos” dos EUA na América do Sul.65 Nesta terceira edição do BFP, o IBEU encaminhou para a UM José Famadas Sobrinho, professor de inglês do Colégio Pedro II, para estudos em fonética e linguística, e o advogado Luiz Antonio Severo da Costa, para estudos em sociologia.66

Em 1941, a UM sentiu os efeitos dramáticos da guerra em seu cotidiano. Fosse pelo risco ou pelo bloqueio das rotas, muitos estudantes europeus e asiáticos se viram impedidos de retornar a seus países ou de receber recursos de suas famílias. Além de arrecardar fundos extras para ajudá-los, Nelson integrava o comitê criado pela American Friends Service (organização quaker) da cidade para receber e auxiliar estudantes e professores refugiados da Europa. Ao mesmo tempo, tinha que enfrentar as animosidades de cunho racial ou político e a escalada dos nacionalismos entre os estrangeiros que se reuniam no IC.67 Seus esforços para contornar tais tensões lhe renderam a nomeação, pelo Departamento de Estado, em abril de 1941, para o Advisory Committee on the Adjustment of Foreign Students in the USA. As consequências da guerra também se faziam sentir no campo intelectual brasileiro, acirrando as disputas entre os que se alinhavam política e culturalmente aos países do Eixo e aos Aliados.

Ao mesmo tempo, naquele ano, a UM foi palco de eventos e iniciativas importantes relacionados à cooperação interamericana, como a Eight International Conference of the New Education Fellowship, pela primera vez realizada no continente americano, e que discutiu como a cooperação intelectual nas Américas poderia fazer frente à destruição no “velho mundo”, e a Latin American Summer School, realizada com apoio da compania de vapores Grace Line, do Departamento de Estado, da Pan American Union e do IIE, e que recebeu 50 estudantes da Venezuela, Equador e Chile. Os materiais do curso seriam usados pelo Departamento de Estado para a preparação dos cultural attachés enviados aos países latino-americanos.68 A mais importante iniciativa foi a inauguração, no IC, do English Language Institute (ELI), um instituto de pesquisa financiado pela Fundação Rockefeller para desenvolver novos métodos e materiais didáticos para o ensino do inglês especificamente para estudantes de língua espanhola e portuguesa. O ELI seria reconhecido nacionalmente e enaltecido nos fóruns governamentais estadunidenses como modelo para outras universidades.69 Finalmente, em novembro de 1941, a UM foi convidada a ser um “inter-american demonstration center”, projeto do Office of Education e da DRC para implantar, em certas localidades do país, um programa de atividades educacionais diversificadas sobre a América Latina para alunos e professores de escolas primárias e secundárias, em articulação com instituições de ensino superior.70

Face a esse incremento de atividades, Ruthven decidiu criar, em novembro de 1941, o Committe on Latin American Relations (CLAR), sob a coordenação de Nelson, para formular um plano de extensão para os fellowships concedidos aos estudantes latino-americanos. Desse modo, a cooperação que iniciara em 1939 mediante um acordo específico com o Brasil poderia se ampliar e se inserir em uma rede cada vez mais diversificada de intercâmbios, que incluía não apenas agências governamentais e instituições privadas, mas organizações locais, como a Kellogg Foundation, além de programas específicos na própria universidade (como nas escolas de Direito, Saúde Pública e Silvicultura).71 Entretanto, a expansão desse circuito de mobilidade acadêmica interamericana vinha acompanhada de tensões. Insatisfeito com a disparidade entre os altos investimentos por parte das universidades (especialmente as universidades públicas como a UM, financiadas pelos respectivos estados) em comparação aos recursos do governo federal (apesar de eles serem altamente propagandeados), Ruthven foi incisivo junto ao diretor da DRC: “[...] um país que está gastando bilhões em defesa poderia muito bem gastar alguns milhares de dólares para trazer estudantes sul-americanos para este país.”72

O ataque japonês a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941 e a entrada dos EUA na guerra afetariam, na prática, o princípio do qual o BFP havia sido emblemático: a reciprocidade. Em fins de 1942, o Departamento de Estado suspendeu todos os grants para as “outras repúblicas americanas” em virtude da crescente necessidade do alistamento militar. Mesmo sem a contrapartida de Michigan, o governo brasileiro concordou em dar continuidade ao BFP, na expectativa de retomar o intercâmbio quando a situação se normalizasse.73 Os próprios beneficiários do programa divulgavam a UM no Brasil, visando manter os fluxos para Ann Arbor.74 Em fins de 1941, por iniciativa de Paschoal Lemme, membro da Comissão de Cursos e Biblioteca do IBEU, foi criado neste instituto um club de ex-alunos da Universidade de Michigan. Trigueiro, Werneck, Cotrim, F. Hall, Quick, Bailey, William e Thomas também foram membros fundadores da nova agremiação.75

Os fellows do BFP e de outros programas de intercâmbio com a América Latina foram atores acadêmicos e também políticos nos circuitos da boa vizinhança.76 Em 19 de janeiro de 1942, enquanto no Rio de Janeiro se realizava a III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, convocada por Washington para discutir o rompimento dos países americanos com o Eixo, Nelson recebeu um abaixo-assinado de 37 dos 40 estudantes latino-americanos da UM, representando 16 países e encabeçado pelos brasileiros José Famadas e Luiz Antonio Severo da Costa. Como “apoiadores da política da boa vizinhança de Franklin D. Roosevelt”, manifestaram enfaticamente o firme compromisso de cooperar com a universidade “em seu programa de defesa e com os homens e mulheres livres desta nação em sua luta pela preservação mundial da liberdade”.77

O gesto dos estudantes teve repercussão nacional. Enviado ao Secretário de Estado e ao próprio Roosevelt,78 o documento foi usado pelo diretor da Divisão de Relações Culturais para reforçar, em audiência no Congresso, o pedido de maiores recursos para a área.79 Fortalecidos com a mobilização, os estudantes criaram, em abril de 1942, a Sociedad Latino Americana, novo club a se reunir no IC e que se tornaria um importante ator na promoção de atividades culturais relacionadas à America Latina na UM. Segundo Nelson, era o melhor “exemplo da política da boa vizinhança realmente em ação”.80

Considerações finais

Com a entrada dos EUA na guerra, a diplomacia cultural do governo Roosevelt viveria uma progressiva “virada em direção ao pragmatismo, propaganda e ‘instrumentalismo’” (Graham, 2015, p.77), sobretudo a partir de 1943, quando os Aliados, passando da defesa ao ataque, começaram a se preparar para o pós-guerra. Tal perspectiva mais imediatista - com foco em áreas mais técnicas e na dimensão informacional das relações culturais - se diferenciava da abordagem acadêmica e gradualista dominante até então, da qual o “modelo universitário”, estruturado na ideia do intercâmbio recíproco, havia sido um emblema (Ardnt, 2005, p.89). Na UM, o “plano de extensão” dos fellowships para a América Latina, de janeiro de 1943, já indicava a prioridade a áreas com interesse econômico mais explícito, como a medicina tropical e a silvicultura, em virtude de “crescente dependência” dos EUA quanto ao fornecimento de borracha e outros produtos naturais da região.81

Em 1943, outros processos, ao nível local, sinalizavam as novas relações com a América Latina. O Committee of Latin American Relations se transformou em Committee on Intercultural Relations, passando a abranger as relações com países europeus e orientais, seguindo assim as diretrizes do governo e dos que viam na reconstrução do pós-guerra o caminho preferencial para que os EUA firmassem sua hegemonia no cenário global.82 Ainda que todos concordassem que não se deveria esquecer as “outras repúblicas americanas”, as preocupações se voltavam aos novos contingentes de estudantes e acadêmicos que buscariam os EUA, não apenas aqueles vindos dos locais afetados pelo conflito, mas os próprios norte-americanos que, tendo servido na guerra, contariam com o apoio do governo para ingressar no ensino superior (Ninkovich, 1981; Hart, 2013; Graham, 2015).

Ao mesmo tempo, uma circunstância particular tornaria 1943 um divisor de águas para os intercâmbios interamericanos na UM: a aposentadoria de Nelson. Na ocasião, a reunião do Advisory Committee on the Adjustment of Foreign Students aconteceu em Ann Arbor e, no “jantar de despedida” em homenagem do diretor do IC, celebrou-se o espírito de cooperação do qual ele havia sido promotor incansável. Por outro lado, as atas da reunião registravam os “novos tempos”: alguns consideravam excessiva a “ênfase colocada sobre os estudantes latino-americanos”.83 Durante a gestão do novo diretor, Esson Gale, o fluxo de latino-americanos prosseguiria, mas não mais como a vitrine dos programas de intercâmbio da universidade. Se a “boa vizinhança” havia criado os alicerces sobre os quais a diplomacia cultural estadunidense se estabelecera, o pós-guerra e sobretudo a Guerra Fria trariam novos sentidos para as relações culturais e educacionais entre os EUA e o “resto do mundo”.

Ao examinarmos as circunstâncias, interesses e práticas que levaram às trocas educacionais entre uma universidade do meio-oeste dos EUA e um instituto criado na capital brasileira para promover o alinhamento cultural com esse país, foi nossa intenção evidenciar como as relações transnacionais se estabelecem a partir de dinâmicas concretas e complexas, nas intersecções e fricções entre processos e atores locais, regionais e nacionais. Essa rede, marcada por encontros e desencontros, confluências e assimetrias, foi conformada mediante canais prévios, no que diz respeito tanto a conexões acadêmicas e políticas locais, quanto a diretrizes mais amplas das agências governamentais e da política externa. Ao mesmo tempo, à medida que se concretizava enquanto tal, tornava-se um elemento fundamental a circunscrever os circuitos dos quais fazia parte. Ao oferecer três bolsas de estudo para que norte-americanos fossem estudar n(o) Brasil, esperando receber os mesmos benefícios em troca, o IBEU não apenas atendeu às expectativas dos que, em Washington ou Nova York, ensaiavam as engrenagens para seu “império das ideias” no continente. Ele acenou com uma oportunidade concreta para pôr em ação os princípios e mecanismos desse empreen dimento, que também atendia as expectativas brasileiras de integrar tais circuitos. Provavelmente o IBEU não esperava que o caminho que o conectaria ao “vizinho do norte” conduzisse à “beira do wilderness”, como dizia Nelson. Mas os interesses de Michigan estavam prontos a aproveitar a chance de se fazerem presentes nas rotas “hemisféricas”. Nessa convergência de interesses, ainda que sob latitudes tão desiguais, ambos entraram no mapa.

1HULL, Cordell. Uma mensagem de confiança. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 5 de jul. de 1938, p.13.

2A política da boa vizinhança, implementada a partir de 1933 por Franklin D. Roosevelt, preconizava a solidariedade, o multilateralismo e a defesa mútua no continente americano em contraposição às práticas intervencionistas da política externa dos Estados Unidos até então, visando com isso consolidar a hegemonia estadunidense na região. No cenário da guerra, os sentidos estratégicos da “boa vizinhança” se intensificaram, tendo em vista os interesses militares e econômicos dos Aliados e os temores quanto à expansão do nazifascismo na América Latina. A literatura sobre o tema tem enfatizado que tal política, bem como o pan-americanismo a que ela conferiu novos sentidos, não constituíram algo unívoco e monolítico, mas um processo complexo de negociações, marcado por convergências, mas também por disputas, fraturas e contradições. Como sugere Smith (2017), ao analisar as múltiplas situações em que se gestou uma “imaginação compartilhada” sobre o continente, o pan-americanismo deve ser examinado nos espaços de experiência e de interação concretos que lhe deram forma. Ver, dentre outros: PIKE, 1995; SHEININ, 2000; ALVES JUNIOR, 2014; SCARFI; TILLMAN, 2016; SMITH, 2017.

3Sobre a diplomacia cultural brasileira, ver SUPPO; LESSA, 2012. Sobre as trocas culturais entre Brasil e Estados Unidos durante a segunda guerra mundial, ver MOURA, 1984; TOTA, 2000. As relações científicas interamericanas durante este período, em distintas áreas, vêm merecendo crescente atenção por parte dos historiadores latino-americanos. Ver, dentre outros, FREIRA JUNIOR; SILVA, 2014; 2019; GARCÍA, 2015; ORTIZ, 2003; FREIRE JUNIOR, 2017; MAIO; LOPES, 2017, KROPF; HOWELL, 2017; SÁ, Magali Romero; SÁ, Dominichi Miranda de; SILVA, André Felipe Cândido da (orgs.). As ciências na história das relações Brasil-Estados Unidos. Rio de Janeiro: Mauad, (no prelo).

4Esse aspecto é particurmente desenvolvido em FREIRE JUNIOR; SILVA, 2014; 2019. Um campo ainda a ser explorado pelos historiadores diz respeito ao papel dos institutos binacionais, como o IBEU, enquanto atores-chave da promoção de relações culturais entre os Estados Unidos e a América Latina. Esse é um aspecto para o qual este artigo espera contribuir em particular.

5Para um panorama geral da história transnacional, ver SAUNIER, 2013. Sobre a perspectiva global e transnacional na história das ciências, ver ROBERTS, 2009; FAN, 2012; RAJ, 2013; KRIGE, 2019.

6Tais marcos cronológicos dizem respeito à Convention for the Promotion of Inter-American Cultural Relations e à criação da United States Information Agency (USIA) sob os novos horizontes da Guerra Fria. Sobre a diplomacia cultural interamericana, ver: ESPINOSA, 1977; HAYNES, 1977; NINKOVICH, 1981; ARNDT, 2005; HART, 2013; SADLIER, 2012; GRAHAM, 2015; SMITH, 2017.

7Há vasta historiografia sobre o programa de relações culturais do governo Roosevelt na América Latina e no Brasil, especialmente sobre a atuação do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA). Criado em agosto de 1940 com fundos emergenciais vinculados à presidência e dirigido pelo empresário Nelson Rockefeller, o Office teve uma ampla atuação na promoção de relações culturais com as “outras repúblicas americanas”. Sobre suas iniciativas no campo do cinema (como os filmes de Walt Disney e Orson Welles no Brasil e os de Carmen Miranda nos Estados Unidos), das artes em geral e das comunicações, ver TOTA, 2000; GARCIA, 2003; SOUZA, 2004; MAUAD, 2005; SADLIER, 2012; MONTEIRO, 2014; VALIM, 2017. Sobre os investimentos do Office para a saúde pública no Brasil, ver CAMPOS, 2006; para a cooperação científica, ver FREIRE JUNIOR; SILVA, 2014; GARCÍA, 2015; FREIRE JUNIOR; SILVA, 2019. A intensidade da atuação dessa agência faz com que alguns autores atribuam a ela o início do programa de relações culturais do governo Roosevelt, quando na verdade ele foi inaugurado em 1938 com a Divisão de Relações Culturais (DRC) do Departamento de Estado, criada para implementar as diretrizes da Convenção de 1936. Sobre as disputas entre a DRC e o Office, ver ESPINOSA, 1977; ARNDT, 2005. Sobre os programas culturais e educacionais do Departamento de Estado entre 1938 e 1943, ver HANSON, Haldore. The cultural-cooperation program, 1938-1943. Washington D.C.: United States Government Printing Office, 1944.

8Como afirma SILVA (2018), a mobilidade acadêmica transnacional não constitui um processo “natural” e “inexorável” de internacionalização impulsionada por um suposto universalismo epistemológico, mas práticas concretas postas em ação por sujeitos históricos específicos. Um estudo particularmente interessante sobre a heterogeneidade das iniciativas, dinâmicas e atores da política de boa vizinhança, bem como os obstáculos enfrentados em sua implementação, foi desenvolvido por Valim (2017) sobre a distribuição e exibição, no Brasil, dos filmes produzidos pela OCIAA.

9A tradução das citações extraídas de fontes originalmente em inglês foi realizada pela autora.

10A Ford Motor Company foi constituída em 1903 em Detroit, situada a 57 km de Ann Arbor, sede da UM. Sobre a história da UM, ver SHAW, Wilfred B. (ed.). The University of Michigan, an encyclopedic survey. Ann Arbor: University of Michigan Press, 4 volumes, 1942; 1958.

11Os arquivos de Ruthven, Nelson e do International Center estão sob a guarda da Bentley Historical Library (UM) e constituem o principal conjunto documental utilizado neste artigo.

12O ano acadêmico nos EUA se estende, em geral, de setembro a maio.

13Report of the Counselor to Foreign Students to the University Council. May 13, 1935. International Center Records (ICR), Box 1, Folder Academic Records and Files. Bentley Historical Library, Universidade de Michigan, Ann Arbor.

14NELSON, Joseph Raleigh. The Foreign Student on the Michigan Campus. The Michigan Alumnus, vol. XLIII, n. 1, Oct. 3, 1936, p.309.

15J. R. Nelson to H. C. Anderson. nov. 30, 1937; feb. 1, 1938. ICR, Box 1, Folder Latin-American Students. A atuação da Fundação Rockefeller no Brasil foi decisiva em várias áreas, especialmente no ensino médico e na saúde pública. Ver, entre outros, MARINHO, 2001.

16O relato dessa viagem encontra-se em: Nelson to A. G. Ruthven. may 16, 1938. Alexander Grant Ruthven Papers (AGRP), Box 20, Folder 7. Bentley Historical Library. Sobre a história das universidades nos EUA, ver THELIN, 2011.

17Sobre a história do instituto, ver INSTITUTE OF INTERNATIONAL EDUCATION. Institute of International Education, 1919-1969. New York, IIE, 1970.

18Havia no Brasil institutos culturais binacionais com países europeus, como França, Itália, Portugual e Alemanha.

19JORNAL DO COMMERCIO. Instituto Brasil Estados Unidos - Sua fundação, ontem. Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 14 de jan. de 1937, p.4. As atividades do instituto abrangeriam conferências, exposições, concertos, exibição de filmes, recepções sociais, cursos regulares de idioma (inglês para brasileiros e português para americanos), além de uma biblioteca especializada na cultura norte-americana. Sobre o IBEU, ver GÓES, Joaquim Faria. O intercâmbio pelas bolsas de estudos. Revista do Instituto Brasil-Estados Unidos, vol. 1, n. 1, p.136-145, jan.1943; TUCKER, Hugh Clarence. Fundação do Instituto Brasil-Estados Unidos. Revista do Instituto Brasil-Estados Unidos, v. VIII, n. 17, p.3-8, jan.-jun.,1950.

20Além do IBEU do Rio de Janeiro, seriam criados institutos binacionais com os EUA em São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba, Salvador e Fortaleza. Sobre o IBEU de Florianópolis, ver GOETZINGER, 2014.

21Um aspecto interessante do universo de estudantes enviados aos EUA pelo IBEU foi a presença de mulheres, sobretudo nas áreas de educação e biblioteconomia.

22Levi Carneiro to Stephen Duggan. aug. 23, 1938. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

23Levi Carneiro to Stephen Duggan. aug. 23, 1938. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

24INSTITUTE OF INTERNATIONAL EDUCATION. Nineteenth Annual Report of the Director. New York, IIE, Oct. 1938, p.42.

25IIE, 1938, p.42.

26NELSON, Joseph Raleigh. International Center Proves Its Worth. The Michigan Alumnus, vol. XLV, n. 2, Oct. 15, 1938, p.23-24; SHAW, Wilfred B. (ed.). The University of Michigan, an encyclopedic survey. Ann Arbor: University of Michigan Press, 4 volumes, 1942; 1958.

27Edgar J. Fisher to Nelson. oct. 25, 1938; Nelson to Fisher. nov. 4, 1938. ICR, Box 10, Folder Scholarships - Brazilian Exchange (10-2).

28CORREIO DA MANHÃ. A Conferência de Lima será mais um êxito para a causa da paz, declara o senhor Cordell Hull. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 dez. 1938. p.1.

29PAN AMERICAN UNION. Eighth International Conference of American States, Lima, Peru, December 9, 1938. Special handbook for the use of delegates, prepared by the Pan American Union. Pan American Union, Washington, D. C., 1938, p.112.

30Nelson to Fisher. dec. 8, 1938; Fisher to Nelson. dec. 9, 1938. ICR, Box 10, Folder Scholarships - Brazilian Exchange (10-2).

31Nelson to Charles D. Hurrey. dec. 14, 1938. ICR, Box 1, Folder Hurrey, Charles D. O Committee on Friendly Relations Among Foreign Students foi criado em 1911 para impulsionar as ações de missionários com vistas a atrair estudantes estrangeiros para os Estados Unidos.

32Proposed plan for exchange of students between the institutions of higher learning in Brazil and the University of Michigan. Anexo a: Nelson to Ruthven. mar. 9, 1939. AGRP, Box 23, Folder 6.

33A documentação relativa aos processos seletivos do BFP encontra-se em: ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2; 10-3). Robert K. Hall, que se tornaria professor do Teachers College da Universidade de Columbia, estabeleceria relações duradouras com os educadores brasileiros. Ver CUNHA; MAYNARD, 2019. O estudo realizado no Brasil daria origem a sua tese de doutorado pela UM, defendida em 1941. Ver HALL, Robert King. Federal Control of Education in Argentina, Brazil and Chile. The School Review, vol. 50, n. 9, p.651-660, 1942.

34Fisher to Nelson. apr. 1, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

35Ver carta de De Pierri anexada em: Fisher to Nelson. mar. 4, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

36Fisher to Nelson. apr. 1, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

37Fisher to Nelson. apr. 1, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2). É curioso notar que Paschoal Lemme, um dos articuladores do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova e integrante do grupo de Teixeira, havia sido preso em 1936 sob a acusação de ministrar curso de orientação marxista para operários. A intermediação de José Silvado Bueno, do DASP, que tinha contatos na Faculdade de Educação da UM, talvez explique porque, no seu caso, o aspecto político não tenha sido considerado. José Silvado Bueno to George Carrothers. aug. 31, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2). Para um relato de Lemme (que se destacaria como importante intelectual no campo da educação brasileira) sobre sua estadia em Michigan, ver LEMME, Paschoal. Universidade de Michigan, primeiras impressões. Educação, n. 5, p.14-15, jan. 1940.

38Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo era filho de um chefe político local na Paraíba e tinha sido prefeito de Campina Grande. Depois da estadia em Michigan, seria governador da Paraíba, ministro do Tribunal Superior Eleitoral, procurador-geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal. Sua tese, desenvolvida na UM e intitulada O regime dos estados na União americana, foi publicada no Rio de Janeiro em 1942 pela Compania Editora Americana.

39Nelson to Ben Cherington. jun. 3, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

40Juan T. Trippe to Cordell Hull. jul. 26, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

41Dentre os candidatos brasileiros, o benefício da Pan Am foi concedido a Paschoal Lemme. Os outros foram de navio.

42Ben Cherrington to Nelson. aug. 1, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2). Para um detalhamento desse e outros grants concedidos pelo governo estadunidense, ver ESPINOSA, 1976.

43Nelson to Ben Cherrington. sep. 8, 1939. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

44AITON, Arthur S. Latin-American Studies Emphasized. The Michigan Alumnus, vol. 49, n. 14, feb. 6, 1943, p.247.

45UNIVERSITY OF MICHIGHAN. The Institute of Latin American Studies. Summer Session, 1939. University of Michigan Official Publication, vol. 41, n. 3, p. 1-15, jul. 8, 1939.

46Nelson to Mary Nogueira. mar. 25, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

47William Lewis to Nelson. mar. 3, [1940]. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

48Transcrito em: Fisher to Nelson. mar. 5, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

49Citado em: Fisher to Nelson. apr. 24, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

50Nelson to Ruthven. feb. 13, 1941. AGRP, Folder Box 29-9.

51Mary Nogueira to Nelson. feb. 26, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

52Donald Pierson to Nelson. oct. 29, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-2).

53The Committee on Latin-American Relations to Raymond T. Rich. mar. 16, 1943. ICR, Box 10, Folder Miscellaneous.

54Nelson to Louis M. Gram. aug. 28, 1941. ICR, Box 1, Folder National Youth Administration. Nelson era membro da Dunbar Association em Ann Arbor, um centro de atividades sociais para “colored people”.

55R. Klinger to Nelson [1942]. Joseph Raleigh Nelson Papers (JRNP), Box 1, Folder Correspondence 1942 (1).

56Better neighbors. Interchange of two cultures urged by Mexican professor. s/n. [may 1944]. ICR, Box 1, Folder State Department Visitors.

57Institute for Latin-American Studies (s/d). AGRP, Box 22, Folder 28. Sobre as representações da América Latina veiculadas pela revista Seleções, versão brasileira da Reader’s Digest, como instrumento da boa vizinhança, ver JUNQUEIRA, 2000.

58Popper, Florence. “Some observations on study in South America” (IIE, 1942). JRNP, Box 2, Folder Papers 1942, Concerning Latin American Students.

59O intercâmbio entre médicos latino-americanos (entre os quais Cotrim) e o cardiologista e professor da UM Frank N. Wilson (que recebia tais médicos em seu laboratório e visitou o Brasil em “missão de boa-vontade” patrocinada pela DRC do Departamento de Estado em 1942) foi decisivo tanto para a construção da cardiologia como especialidade no Brasil e em outros países da região, quanto para o reconhecimento das ideias inovadoras de Wilson em eletrocardiografia. KROPF; HOWELL, 2017.

60Ver correspondência de maio de 1940, em ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

61Assim como R. K. Hall, Bailey viria estabelecer vínculos duradouros de pesquisa no Brasil, tornando-se colaborador de Heloisa Alberto Torres, no Museu Nacional.

62Nelson to Edna Duge. jul. 11, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

63Nelson to Fisher. jun. 19, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

64Quick to Nelson. jul. 18, 1940. ICR, Box 10, Folder Scholarships-Brazilian Exchange (10-3).

65Nelson to Colonel George Brent. May 21, 1941. ICR, Box 9, Folder Scholarships / U of M Commitee on Foreign Students. Vale notar que isso se deu antes de Pearl Harbor.

66Ao retornar ao Brasil, Severo da Costa foi trabalhar na Coordenação de Mobilização Econômica, órgão do governo federal criado em 1942 para assessorar medidas econômicas face à entrada do Brasil na guerra.

67NELSON, Joseph Raleigh. A counselor’s office in war time. The Michigan Alumnus, vol. XLVII, n. 15, p.133-140, feb. 22, 1941.

68Ver ICR, Box 1, Folder Latin-American Summer Session.

69Ver SHAW, 1958 (vol. IV, parte IX).

70MACKINTOSH, Helen Katherine. What is the Inter-American Demonstration Center Project? The Journal of Educational Sociology, vol. 16, n. 3, p.146-149, 1942.

71Plan for the extension of fellowships for Latin American Students, anexo a: Report of the Committee on Latin-American Relations. University of Michigan. jan. 1, 1943. AGRP, Box 34, Folder 22. Criada em 1930 pela empresa de produção de cereais da cidade de Battle Creek, em Michigan, a Kellogg Foundation financiaria, em especial, as escolas de saúde pública e odontologia da UM, atraindo muitos latino-americanos.

72Ruthven to C. Thomson. apr. 26, 1941. AGRP, Box 28, Folder 24.

73Joaquim Faria Goes Filho para Nelson. jun. 9, 1942. JRNP, Box 1, Folder Correspondence 1942 (1). Foram escolhidos, para 1942-1943, Oscar Ribeiro (do Instituto de Química Agrícola do Ministério da Agricultura) e Nahum Isaac Klein, para estudos de química agricola e genética, respectivamente. Entre 1943 e 1945, foram fellows do BFP: Stelio Morais (da Escola de Belas Artes da Universidade do Brasil), para estudos em arquitetura, José da Cruz Paixão e Evangelina Meira (ambos da Escola Nacional de Agronomia do Rio de Janeiro) e José Maria Joffily (da Escola de Agricultura de Pernambuco), os três para estudos em botânica.

74Por iniciativa de Lemme, a revista Educação, da ABE, publicou um artigo de Nelson sobre o International Center. NELSON, Joseph Raleigh. O Centro Internacional da Universidade de Michigan. Educação, n. 10, p.7-10, abr. 1941.

75Brazilians form U. of M. club. The International Center News, vol. III, n. 3, dec. 1941. ICR, Box 19, Folder International Center - Printed.

76A análise das trajetórias dos beneficiários do BFP foge ao escopo deste trabalho, mas um exemplo de contradições quanto ao alinhamento político posterior destes “embaixadores da boa vizinhaça” foi o caso de Paschoal Lemme, reconhecido por sua visão marxista da educação. Na Conferência Nacional de Educação em 1950, Lemme criticou as ideias de Robert K. Hall (que no pós-guerra havia atuado a serviço do governo estadunidense na reforma educacional no Japão) de ser um “porta-voz [da] política imperialista” dos Estados Unidos (apud CUNHA, 2016, p. 5).

77Cópia do documento anexada a: Nelson a Ruthven. jan. 20, 1942. AGRP, Box 32, Folder 5.

78Nelson to President Roosevelt. jan. 20, 1942. ICR, Box 1, Folder La Sociedad Latino-Americana.

79R. Klinger to Ruthven. may 19, 1942. AGRP, Box 32, Folder 5.

80NELSON, Joseph Raleigh. South Americans organize to cooperate. The Michigan Alumnus, vol. XLVIII, n. 21, may 16, 1942, p.378.

81Plan for the extension of fellowships anexo a: Report of the Committee on Latin-American Relations. University of Michigan. jan. 1, 1943. AGRP, Box 34, Folder 22, p. 1-2.

82Nelson to Ruthven. may 28, 1943. JRNP, Box 1, Folder Correspondence, 1943 (1).

83Atas anexas a: Fisher to Klinger. jun. 15, 1943. ICR, Box 6, Folder Bureaus-NAFSA, 1942.

Agradecimentos

Este artigo é resultado de pesquisa realizada durante estágio pós-doutoral na Universidade de Michigan entre 2017 e 2018. Agradeço aos colegas do Brazil Initiative do Center for Latin American and Caribbean Studies dessa universidade pelo apoio e acolhida durante tal estadia.

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Recebido: 10 de Dezembro de 2019; Revisado: 13 de Março de 2020; Aceito: 13 de Abril de 2020

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