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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.1 Rio de Janeiro abr. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-93132000000100002 

Once a knight is quite enouch: como nasce um cavaleiro britânico*

 

Edmund R. Leach

 

 

Eu já proferi esta conferência em diversas ocasiões e lugares. O que me qualifica a fazê-lo é algo pessoal e excepcional. Apesar de existirem certos locais no centro de Londres em que Cavaleiros do Reino Britânico são arroz-de-festa, há poucos antropólogos acadêmicos dessa espécie. Entre os antropólogos socioculturais (em contraste com os especialistas em antropologia física), lembro-me de apenas outros quatro além de mim: Sir Edward Tylor, fundador da antropologia sociocultural britânica no século XIX; Sir James Frazer, autor de The Golden Bough; o falecido Sir Edward Evans-Pritchard; e seu contemporâneo ainda vivo, Sir Raymond Firth. Ao que tudo indica, fui o único a fazer uma tentativa de aplicar minha prática como observador participante de rituais exóticos para analisar os procedimentos da iniciação como Cavaleiro. Esta conferência pode lhes parecer pouco séria, mas lhes asseguro que se trata de antropologia feita com absoluta seriedade. Deixo por conta de vocês concluir o que isso sugere sobre a natureza geral da antropologia!

Para evitar mal-entendidos, permitam-me enfatizar que a minha conferência não tem a intenção de fustigar a monarquia britânica. Os chefes de Estado simbólicos têm um papel importante nas modernas relações nacionais e internacionais, e a nossa versão britânica desse cargo tão frustrante aparece de maneira favorável quando comparada a outras versões. A distinção absoluta entre símbolo e realidade que os britânicos alcançaram mediante a separação entre o monarca hereditário e o primeiro-ministro eleito parece ter muitas virtudes, se comparada por exemplo ao sistema norte-americano de presidentes eleitos. Eu não faço parte do reduzido grupo de republicanos britânicos.

Meu primeiro professor de antropologia foi Bronislaw Malinowski. O cerne da antropologia de Malinowski era sua tese de que o antropólogo que faz pesquisa de campo deve usar seus olhos e suas experiências pessoais, em vez de apenas perguntar aos "informantes" sobre "costumes" que, na opinião dele, talvez fossem apenas produto da imaginação. Os dados da antropologia provêm da vida real e não de anedotas de viajantes. Apresento este exercício nesse mesmo espírito. Em certo nível de abstração os ritos de iniciação no mundo todo mostram uma marcante similaridade de estrutura. Para demonstrar este fato proponho uma comparação entre um ritual relacionado à caça de cabeças, que observei em Bornéu em 1947 pouco depois de ter obtido meu Ph.D., e a minha investidura como Cavaleiro, ocorrida em Londres em 1975. No primeiro caso, o momento crucial foi o sacrifício de um grande porco; no segundo, o porco a ser sacrificado é aquele que está sendo iniciado como Cavaleiro.

Na Grã-Bretanha, os aficionados podem colecionar títulos assim como se colecionam selos, e mesmo não sendo um filatelista dessa espécie você pode acabar acumulando mais e mais títulos a partir do momento em que passa a participar da rede certa. Alguns títulos têm mais significado que outros. Quando um cientista pode escrever as letras FRS (Fellow of the Royal Society) após o seu nome, você pode estar certo que ele é um cientista de grande distinção ¾ mesmo que os deveres da maior parte dos Fellows of the Royal Society envolvam pouco além de decidir quais outros cientistas poderão receber a mesma honraria. Em contraste, a colocação das letras FBA (Fellow of the British Academy), que eu mesmo posso acrescentar ao meu nome1, tem uma pretensão semelhante, mas na verdade não é um indicador tão confiável de distinção genuína.

A Royal Society e a British Academy são instituições privadas; a Lista de Honra do Monarca é uma outra história. A cada seis meses, no Ano-Novo e no aniversário da Rainha (nem preciso dizer que esta data não coincide com o seu verdadeiro aniversário), e em algumas outras ocasiões se houver mudanças no governo, é divulgada em nome da Rainha uma Lista de Honra. Normalmente, essas listas contêm algumas centenas de nomes, com diferentes graus de distinção, desde os mais altos como Peerages e Orders of Merit, até as Police Medals for Bravery na posição mais baixa da escala. Os Peers são conduzidos ao seu posto por meio de uma cerimônia especial na Câmara dos Lordes, e os Knights of the Garter e Knights of the Thistle têm a sua própria complicada cerimônia em Windsor e em Edinburgh; por outro lado, um número considerável de pessoas cujos nomes estão na parte mais baixa da lista recebe as suas fitas de honra localmente, por delegaçãoI. A Rainha lida pessoalmente com todos os títulos mais importantes e também com boa parte dos títulos menores. Durante o ano de 1975, quando recebi o meu título de Cavaleiro, creio que ela tenha investido pessoalmente pelo menos quinhentos fiéis servidores com as devidas fitas de honra. Ela evidentemente leva muito a sério o seu trabalho e sempre faz sua lição de casa. Na ocasião que irei descrever, ela nomeou cerca de 130 indivíduos, e sempre tinha algo pessoal e relevante a dizer a cada uma dessas pessoas.

Como exatamente são selecionadas as vítimas é algo que permanece coberto de mistério. Um setor do gabinete do primeiro-ministro, conhecido como Office of the Patronage Secretary, faz uma triagem das listas de indicação que são produzidas tanto por organismos oficiais como pelo público em geral. Os funcionários públicos mais graduados e os oficiais das Forças Armadas colecionam fitas de distinção quase automaticamente conforme sobem na carreira, ainda que haja uma complexa peck order relacionada às diferentes seqüências de letrasII. Assim, aos olhos de quem recebe a distinção, há toda a diferença do mundo entre um KCB e um KCMG, ainda que para o público em geral um Cavaleiro seja sempre um Cavaleiro (e esquisito por isso mesmo).

A aquisição de títulos por indivíduos sem cargos oficiais é mais casual. Eu não tenho a menor idéia de por que fui nomeado Cavaleiro, nem quem foi o responsável pela indicação. Mas a rede é tal que todo diretor (Provost) do King's College, em Cambridge, mais cedo ou mais tarde, provavelmente acaba recebendo algum título. É sempre possível recusar um título que tenha sido oferecido, mas duvido que haja muitas pessoas que façam isso ¾ seria levar as coisas demasiadamente a sério. Não há porém nenhum privilégio, a não ser acidentalmente. O único que aconteceu comigo foi quando um funcionário do check in do aeroporto de Heathrow, ao perceber que eu era "Sir", levou-me imediatamente para a sala de espera da primeira classe, onde ganhei bebidas de graça, ainda que eu estivesse viajando na classe turística. Infelizmente isso nunca mais se repetiu!

Eu não diria contudo que os títulos não têm nenhuma conseqüência no plano pessoal. Quando meu nome apareceu na lista, meus colegas mais próximos acharam divertido; minha filha considerou o fato como um insulto aos seus princípios políticos; a minha secretária, que me chamava pelo primeiro nome, viu aí algo que aumentava o seu prestígio pessoal e, desde então, me chama de "Sir Edmund" sempre que pode.

Mas deixarei de lado as sutilezas dos significados contemporâneos dessa instituição britânica que são os Cavaleiros. A minha preocupação no momento é apenas com a etnografia do rito de iniciação. Permitam-me começar abordando (ainda que brevemente) a Festa das Cabeças realizada na casa de Penghulu Koh no rio Rejang em Sarawak em setembro de 1947.

Como Koh havia dado apoio de retaguarda a uma expedição que, segundo se afirmava, havia obtido duas cabeças de japoneses em 1944, ele estava agora oferecendo aquilo que a literatura antropológica descreve como Festa de Mérito. Ele celebrava, da forma mais ostensiva possível, o fato de estar assumindo um novo título de honra, o mais alto reivindicado por um Iban até onde a memória do grupo alcançava. Os procedimentos duraram vários dias e culminaram com o sacrifício de um grande porco que era identificado com o próprio Koh, pois era ele quem estava oferecendo o sacrifício. Essa identidade ficou manifesta quando Koh, que mantivera até então uma atitude passiva, colocou o pé sobre as costas do porco imediatamente antes de ele ser morto. O porco ficara durante toda a noite e a maior parte do dia anterior embaixo de uma cobertura na varanda da casa (longhouse) diante do quarto de Koh (bilek) onde fora tratado com atenção e carinho pelas mulheres do grupo doméstico de Koh. Atrás dessa cobertura havia uma construção temporária de bambu e grama decorativa descrita como o "Trono de Lang", sendo Lang o ancestral-herói-divindade-caçador-de-cabeças para quem o porco estava sendo oferecido em sacrifício, e cuja benção, por sua vez, iria trazer graças para Koh e sua família. O meu primeiro diagrama (Figura 1) mostra essa distribuição espacial. Notem que o doador, o animal a ser sacrificado e os sacerdotes estão em uma área que fica a meio caminho entre a congregação secular formada por aqueles que eram observadores e testemunhas do fato e o trono de Lang, que aos olhos das pessoas comuns parecia estar vazio.

 

 

Depois que o porco foi morto, o doador do sacrifício retirou-se e várias coisas foram realizadas com o sangue e com o fígado do porco para fazer predições. Ao final do dia apenas uns poucos pedaços da carcaça do porco foram colocados no altar de Lang. O resto foi removido e, por fim, distribuído aos espectadores. Mas no momento não precisamos nos preocupar com essas questões. Lembro, porém, que havia uma orquestra, o equivalente local da orquestra gamelan javanesa, que tocou continuamente durante todo o procedimento sacrificial.

Eu já presenciei vários tipos de sacrifícios de animais em diversos contextos culturais. O esquema do cenário da ação é mais ou menos o mesmo, abrangendo os seguintes elementos: (1) um altar que, seja em termos de aparência, seja em termos do nome que lhe é dado, é concebido como um trono onde a divindade se instala temporariamente; (2) um local onde é feito o sacrifício, cujo acesso é reservado aos participantes de cunho sacerdotal, incluindo o doador e a vítima; (3) uma congregação leiga de testemunhas ou observadores.

Em todos os eventos desse tipo que presenciei, o local onde é realizado o sacrifício está sempre situado a meio caminho entre o altar propriamente dito e a congregação. Há ainda outras características comuns: a área toda onde ocorrem os procedimentos sacrificiais é isolada do mundo ordinário por intermédio de algum tipo de marcador de fronteiras; e há sempre a presença de algum tipo de instrumento produtor de som, que também funciona como marcador de descontinuidade com a normalidade. A fonte de som varia: orquestras, tambores, fogos, tiros, cantores. A escala dos arranjos também varia muito, mas o layout de uma igreja paroquial inglesa segue esse padrão geral e serve para dar uma idéia do que estou querendo dizer (Figura 2).

 

 

O espaço da igreja como um todo, incluindo o adro, é separado da "terra ordinária". É comum que o adro funcione como cemitério e por isso costuma ser considerado assombrado. É uma área que fica a meio caminho entre ("betwixt and between") a Casa de Deus e o Mundo de Mammon.

Mas quando entramos na igreja, verificamos que o seu interior também está dividido em áreas de diferentes graus de sacralidade. O altar-mor geralmente fica na extremidade leste. Quando há celebrações, somente os sacerdotes oficiantes podem entrar nesta parte da igreja (o santuário). Ela é separada do resto por um gradil e muitas vezes também por um degrau. A nave, que forma a extremidade oeste da igreja, é ocupada pela congregação. Mas a maior parte da ação ritual ocorre no espaço intermediário, o coro, que está situado entre a nave e o santuário. Também essa parte é demarcada claramente por um degrau, e antigamente era separada da nave por uma grade.

O aparato de produção de som existente na igreja consiste de um conjunto de canto coral, ou um órgão, ou ambos, e geralmente está situado na área do coro, marcando assim a separação entre sagrado e profano. Mas às vezes o órgão (ou o coral, ou ambos) está posicionado imediatamente sobre a entrada da igreja na extremidade oeste.

Em diversos trabalhos meus, sustentei que o princípio aí presente é extremamente geral: o poder manifesta-se na interface de categorias separáveis. Este princípio se aplica tanto quando a potência é de ordem física ¾ como no caso da eletricidade ou outras fontes de energia ¾ como quando é de ordem sexual, política ou metafísica. Costumo ilustrar meu argumento com um diagrama de Euler (Figura 3). O mundo real é contínuo. Mediante o uso de categorias, separamos os espaços físico e social em áreas com diferentes potenciais de poder, criando a ilusão da descontinuidade. Nas interfaces, encontramos uma região que não pertence a nenhuma das categorias, e ao mesmo tempo pertence a ambas. É uma área perigosa, tabu, de poder manifesto. Poderão verificar o que estou dizendo agarrando um fio elétrico com as mãos enquanto seus pés estão em contato direto com o chão, sem botas de borracha. Mas aqui estamos discutindo a potência da divindade e da realeza, e não das coisas mundanas.

 

 

Nesse modelo, qualquer altar tratado como trono de uma divindade invisível é fonte de poder em potencial. Durante um certo tempo, faz parte do outro mundo dos deuses imortais, e não deste mundo dos humanos mortais. A penumbra da área do altar, essa região intermediária (betwixt and between) onde ocorre a maior parte da ação ritual, está tanto nesse mundo como no outro. Toda essa área é perigosa e carregada de tabu, mas a intensidade do tabu aumenta conforme nos aproximamos do cerne, do trono da divindade, que é a fonte última do poder.

Esse modelo se mostra muito coerente tanto com os meus diagramas relativos à festa das cabeças em Bornéu como com o esquema da igreja paroquial inglesa. Mas, e no caso do Palácio de Buckingham?2 De um ponto de vista estrutural, aquilo que ocorre no Palácio nessas ocasiões se conforma muito bem ao padrão geral de performances religiosas que acabo de delinear. Vou tentar agora mostrar como isso funciona.

Em termos arquitetônicos, considero o Palácio de Buckingham chocante. O prédio inicialmente chamava-se Buckingham House e foi construído pelo Duque de Buckingham no século XVIII. A construção original estava voltada para o lado oposto, com a frente para oeste. George III comprou-o para dar à sua esposa. Passou a ser conhecido então como The Queen's House. A atual face oeste do edifício, que se abre para um grande jardim, data de 1825, e o projeto arquitetônico é de John Nash. A frente pública, que está voltada para o leste, é de 1911, quando foi redesenhada para servir de pano de fundo para o repugnante Memorial da Rainha Victoria, que fica no fim da alameda.

Desde aproximadamente 1850, o Palácio é a residência principal do monarca reinante. Espero sinceramente que os aposentos privados sejam mais confortáveis do que o esplendor ornamentado que caracteriza as áreas abertas ao público.

A decoração dos salões abertos ao público chega a ser cômica de tão horrorosa; uma mistura do barroco decadente e dourado ao gosto de George IV com o estilo vitoriano da década de 1860. A sala do trono, que é um retângulo imenso de cerca de vinte metros, data de 1856 e mantém toda a mobília original, inclusive medalhões embutidos nos painéis retratando o príncipe Albert e a jovem Victoria. No labirinto de passagens que o visitante deve atravessar para chegar ao coração do Palácio, as indefectíveis estátuas são em sua maioria obras-primas da década de 1850... um período realmente espantoso no qual os escultores, tanto britânicos como norte-americanos, conseguiam realizar a proeza de esculpir em mármore mulheres totalmente nuas inteiramente desprovidas de qualquer traço de sexualidade.

Em termos da teoria que estou propondo, isso é muito apropriado, já que esses aposentos e passagens estão situados em uma área de ambigüidade social. Por ocasião da cerimônia de Investidura, essas imagens ambíguas foram intensificadas pelo fato de que as escadas e outros pontos ao longo do caminho do visitante estavam guardados por sentinelas. Estes sentinelas são membros da Her Majesty's Household Cavalry (Cavalaria da Casa Real), a pé porém completamente paramentados, incluindo uma armadura peitoral perfeitamente adequada para cargas de cavalaria no século XVII. A função desses sentinelas na ocasião em foco era ficar completamente imóveis durante horas a fio. Conforme subíamos as escadas eu ouvi uma criança sussurrar para a sua mãe, "mamãe, isso está vivo?"

Conforme já observei, cerca de 130 pessoas estavam recebendo honrarias nessa Investidura. Encabeçando a lista, havia uma pessoa que recebia a Order of Merit (essa é uma distinção realmente importante: nunca são concedidas mais do que 24 em uma única ocasião, para pessoas das mais diversas áreas); depois, havia cerca de doze nomeações de Cavaleiro (Knight), de variados graus; depois, diversos tipos de ordens menores. O que tenho a dizer se aplica basicamente aos Cavaleiros, em especial à ordem dos Knights Bachelor, à qual eu, assim como a maioria dos outros Cavaleiros civis, pertenço.

A instituição britânica da Cavalaria (Knighthood) é muito antiga. Sua história está ligada ao surgimento do feudalismo europeu a partir dos remanescentes do imperialismo romano. Nas batalhas das Cruzadas do século XI, cavaleiros com armaduras, montados em cavalos igualmente guarnecidos, eram o equivalente do tanque moderno. Mas os cavaleiros deixaram de ter qualquer significado militar pelo menos desde o início do século XV. Noventa e nove por cento do rebuscado ritual atual, que é governado por aquele corpo augusto que é o College of HeraldsIII, foi inventado no início do século XIX, um período em que a destruição causada pela revolução industrial produziu (por reação dialética) um entusiasmo por todos os tipos de revivalismo de antiquário.

Não tenho a menor idéia dos detalhes de como a Rainha Elizabeth I iniciava seus cavaleiros no final do século XVI. Mas estou bastante certo de que, descontadas as mudanças de vestuário, o que a Rainha Elizabeth II fazia em 1975 era bem semelhante ao que sua trisavó Victoria fazia um século antes. Quem exatamente inventou esses procedimentos e o que tinham em mente quando o fizeram é uma questão interessante mas que dificilmente pode ser respondida. A minha preocupação é antes com a estrutura desses procedimentos e até certo ponto com a sua mitologia, e não imediatamente com a sua verdadeira história. Conforme explicarei adiante, há partes do ritual que parecem muito antigas3.

A iniciação dos Cavaleiros é hoje uma questão inteiramente secular mas, nas suas origens históricas, tratava-se de um rito explicitamente religioso, bastante próximo da iniciação dos sacerdotes e da entronização dos bispos. Na Idade Média tardia uma das questões centrais na luta entre o papa e o imperador era saber se as autoridades seculares tinham ou não direito de realizar Investiduras e assim conceder feudos para os Cavaleiros. O papa defendia que a Investidura era uma prerrogativa exclusiva da Igreja, mas os líderes seculares conseguiram usurpar esse direito, juntamente com a patronagem que o acompanhava.

Mas basta dessas questões: passemos à etnografia. Como alguém se torna um Cavaleiro?

A primeira coisa que acontece é que você recebe uma carta do Patronage Secretary do primeiro-ministro, dizendo que este tem a intenção de recomendar à Rainha que você seja nomeado Cavaleiro ¾ "Por favor assine abaixo para confirmar que, caso indicado, aceitará a oferta"!

Cerca de um mês mais tarde a lista efetiva aparece no The London Times4. Mais ou menos na mesma época você recebe uma carta de algum funcionário do College of Heralds, pedindo que você se inscreva e instruindo a comparecer ao College para assinar a lista. Feito isso, você já está autorizado a usar o título. Isto, contudo, é uma inovação recente: no passado, você não era "realmente" um Cavaleiro enquanto não tivesse sido investido pelo monarca.

No devido tempo, você será instruído por um outro funcionário sobre a data e os procedimentos para a Investidura no Palácio. Essas instruções especificam os horários e o traje, e pedem a indicação dos nomes das testemunhas convidadas, que podem ser quaisquer duas pessoas, ou três caso duas delas sejam seus filhos. As recomendações de traje também valem para os convidados.

No passado, quando as Investiduras eram menores e restritas apenas a Cavaleiros, eram também mais grandiosas e elitistas, e os homens todos deviam comparecer usando a elaborada vestimenta conhecida como Traje da Corte (Court Dress). Há apenas uma geração, havia o costume de alugar esse traje para a ocasião. Hoje em dia, não se exige tanto rigor. Os membros das Forças Armadas e da Polícia usam seus uniformes, mas os civis são apenas aconselhados: "morning dress ou dark lounge suit"IV.

Nestes tempos plebeus, "morning dress" implica, para a maioria das pessoas, a visita a uma loja especializada em aluguel de roupas. Às senhoras convidadas, recomenda-se que usem chapéus, mas não são especificados outros detalhes da vestimenta. Na ocasião em que fui nomeado, elas vestiram-se de modo a equiparar-se a seus maridos, ou seja, usaram vestidos que sentiam ser apropriados para um casamento chique. Quanto aos homens, boa parte dos convidados, ou seja, os homens que faziam parte do público, aproveitou-se da permissão e usou "dark lounge suits". No entanto, com uma única exceção, todos os que estavam recebendo honrarias, até a posição mais baixa da lista, trajaram seja o uniforme, seja o "morning dress". Como era de se esperar, a única exceção mencionada foi aquele que estava recebendo a honraria mais elevada, a Order of Merit. Como ele já havia passado por performances semelhantes em diversas ocasiões anteriores, ele estava agora tão imbuído da potência da honra que podia permitir-se ignorar as regras. Compareceu vestindo um terno de cor clara, apropriado para o calor de verão daquele dia.

E assim, no dia marcado, às dez da manhã, uma fila de celebridades locais e nacionais, com trajes excessivos, ladeadas por suas esposas e filhos, ou ainda por acompanhantes menos legítimos, se reuniu do lado de fora do Palácio de Buckingham, no lado leste. No devido momento, eles entraram no Palácio atravessando sucessivos recintos apropriadamente decorados com guardas da cavalaria do século XVII, em pé (ver Figura 4).

 

 

Uma vez dentro do Palácio os iniciantes e os convidados foram separados. Os convidados dirigiram-se diretamente para a Sala do Trono onde se sentaram na área que corresponderia aos bancos da congregação leiga em uma igreja paroquial (ver Figura 5). Uma banda militar tocava música secular ligeira, composta por volta de 1900. A orquestra estava localizada no lado oposto ao dos tronos vazios. Enquanto isso, os iniciantes foram conduzidos para uma outra parte do edifício, onde receberam orientação para ensaiar individualmente o que deveriam fazer.

 

 

Neste ponto, precisamos observar melhor o layout da sala do Trono, mantendo em mente a analogia com o formato geral do altar de sacrifícios e com a igreja, conforme já enfatizei.

A banda foi colocada em uma espécie de galeria para menestréis, situada naquilo que seria a extremidade oeste de uma igreja. Na outra extremidade, localizada onde estaria o altar da igreja, havia dois tronos ornamentados porém vazios. Suponho que haja ocasiões em que a Rainha efetivamente sente em seu trono, mas não sei quais são essas ocasiões. Certamente, nesses casos, ela deve trajar a vestimenta real completa, com capa, coroa e tudo. Mas na ocasião em foco, a Rainha estava vestida como um mortal qualquer. Na verdade, apesar de estar muito elegante, ela evidentemente se esforçara por se vestir de modo a não se destacar excessivamente das mulheres que faziam parte do público. Em termos da minha teoria geral, ela estava oficiando como sacerdotisa de uma divindade metafísica chamada "Soberania", cuja presença invisível era simbolizada pelos tronos vazios; mas fazia questão de mostrar que não estava assumindo o papel de "Soberania" em sua própria pessoa.

Quando a Rainha apareceu ela estava acompanhada por um pequeno cortejo de funcionários de alto escalão e funcionários do Palácio, além dos seus seguranças pessoais e do portador da espada. Este último carregava a Espada do Estado (Sword of State), de caráter cerimonial, que a Rainha usa no ato da InvestiduraV (dubbing), e parou a meio caminho entre a Rainha e os tronos vazios. A Espada, como a Coroa, é um símbolo específico da soberania da Rainha (Figura 5).

O corpo de seguranças era composto, em primeiro lugar, por cinco membros de uma tropa de elite formada por oficiais da reserva detentores de muitas medalhas, que constituem os Yeomen of the Guard, vestidos em trajes do século XVI, esplendidamente pitorescos porém inautênticos, lembrando aqueles usados pelos Yeomen Warders da Torre de Londres que são divulgados no exterior através dos posters da Agência de Turismo Britânica. Além disso, havia dois oficiais GurkhaVI. Eu não sei ao certo se isso faz parte da rotina ou se havia alguma razão especial para sua presença.

Mas o detalhe realmente interessante, do meu ponto de vista, foi que quando os membros da guarda assumiram os seus postos na área elevada, estavam evidentemente guardando os tronos vazios, e não a pessoa física da Rainha, que se colocou mais adiante (Figura 5).

Ao mesmo tempo, os dois oficiais Gurkha, um almirante uniformizado e o Chief Gentleman UsherVII da Corte assumiram posição nos quatro cantos de um retângulo, demarcando assim os limites do espaço onde iria acontecer o processo ritual.

Observem cuidadosamente os arranjos dentro desse retângulo. Visto do local onde estava a Rainha, os Tronos estão atrás, o Público na frente. Os iniciantes aproximam-se, um de cada vez, a partir de uma porta à direita. Eles passam entre o Público-Congregação e à frente do espaço definido para o ritual.

Ao alcançar o centro do recinto, o iniciante volta-se então para a Rainha e os Tronos e caminha para dentro do espaço ritual. Ele então se ajoelha, apoiando-se em uma banqueta diante da Rainha, que está de pé sobre a plataforma, em um plano um pouco mais elevado. A Rainha toca o Cavaleiro ajoelhado em cada ombro com o lado chato da Espada do Estado, nomeando-o; ele se levanta; ela passa a fita da ordem do Cavaleiro em torno de seu pescoço (isto também é outra inovação recente); eles apertam as mãos; a Rainha diz alguma coisa apropriada a cada um dos iniciantes; o iniciante inclina-se, recua andando para trás até sair do espaço ritual, e depois sai para a esquerda. Uma vez fora da Sala do Trono, outro funcionário remove a fita de honra que a Rainha acabou de colocar, coloca-a em um estojo, e a devolve. O iniciante então caminha até a parte de trás para se reunir ao público.

Na plataforma sobre a qual a Rainha está em pé (que fica um degrau abaixo do patamar onde estão os tronos) ficam também os seus vários assistentes. Eram os seguintes: (1) o Lord Chamberlain, que ocupa um posto que data de pelos menos 700 anos atrás, e cuja função nessa ocasião é ler em voz alta os nomes dos iniciantes conforme aparecem na lista; (2) um conferente que, aparentemente, lia a mesma lista para assegurar que não haveria nenhum erro; (3) um almirante uniformizado que passava para a Rainha as fitas de honra adequadas, uma de cada vez, colocadas sobre uma almofada de veludo; e (4) um assistente desse almirante para assegurar que nada sairia errado. As fitas estavam antecipadamente ordenadas sobre uma mesa.

Tudo se passa, portanto, de acordo com o que poderíamos esperar. A Rainha em seu papel de sacerdotisa é uma pessoa sagrada que não pode ser tocada nem mesmo pelo almirante, daí a almofada de veludo. O seu papel na cerimônia de Investidura é transmitir um elemento do poder da soberania através da espada para a pessoa do Cavaleiro iniciante. Mas um detalhe para o qual eu não havia atentado até a performance é o de que a Rainha coloca o lado chato da espada primeiro sobre um ombro, depois sobre o outro. Simbolicamente, trata-se de uma ação de sacrifício. A sacerdotisa decapita a vítima.

Eu suponho que a maioria das pessoas vai achar que isso é uma bobagem. Mas de um ponto de vista antropológico, faz bastante sentido. Estamos falando de um rite de passage e nesse contexto, como se sabe, o uso do simbolismo da morte e do renascimento é extremamente comum. O iniciante "morre" em seu status antigo e "renasce" em seu novo status. Além disso é comum que os ritos de sacrifício ¾ o "fazer sagrado" do iniciante ¾ façam parte dos procedimentos de iniciação. Onde os sacrifícios são reais, o iniciante morre indiretamente, identificado com a vítima do sacrifício. No presente exemplo, nenhuma vítima animal ou humana é de fato morta, então é apropriado que a morte simbólica seja a do próprio iniciado, em vez de usar um substituto.

Mas se a Investidura implica a morte simbólica daquele que se torna um Cavaleiro, em que momento ocorre o renascimento simbólico? Voltarei a este ponto em breve, mas, por enquanto, permitam-me chamar a atenção para os diferentes momentos da performance da Rainha: (1) ela toca (dubs) o Cavaleiro com a espada quando ele está ajoelhado; (2) ela coloca a fita em torno do pescoço do Cavaleiro quando ele está em pé; (3) ela aperta a mão do Cavaleiro, ou seja, realiza um contato físico entre a sua pessoa e a dele; (4) ela diz alguma coisa, exibindo o poder mágico das palavras ¾ nos termos de Malinowski, ela recita um encantamento.

Outro ponto-chave, que detalharei em breve, é que a Investidura de um Cavaleiro é, às vezes, chamada de dubbing ceremony e, outras tantas de receiving the accolade. Ao contrário do que equivocadamente se pensa, não se trata de dois nomes para uma mesma coisa: referem-se a partes diferentes de uma única seqüência. A primeira é uma matança simbólica; a segunda uma ressurreição simbólica.

No momento, isso é tudo o que me proponho a dizer sobre a etnografia do Palácio de Buckingham, mas me parece que os paralelos estruturais entre os dois casos que apresentei ¾ o sacrifício de um porco em Bornéu e a Investidura de um Cavaleiro em Londres ¾ são muito próximos. Mas para entender por que isso é assim, devemos perceber que o símbolo-chave em ambos os casos é o Trono vazio, o lugar da divindade: o herói ancestral Lang no primeiro caso, o conceito metafísico de "soberania" no segundo. Ambos são vistos como fontes de poder. O propósito da performance ritual é transmitir uma parte desse poder para o iniciante, que se torna então qualificado para assumir o seu novo título e seu novo status social. Este argumento pressupõe, evidentemente, a validade da fórmula durkheimiana, segundo a qual, em última análise, "Deus é a própria Sociedade". No exemplo londrino, a soberania, que é exibida em símbolos como o trono vazio e a espada, e se torna manifesta através da execução da função real da Rainha, é um exemplo muito claro desse princípio.

Mas qual a importância desta análise? Será que tudo isso não é apenas uma antiguidade medieval, uma simples pantomima? Eu não penso assim, pois é da validade desse simbolismo que deriva a legitimidade de toda a máquina do Estado. Esse é o argumento de Max Weber, que ele elaborou especialmente com referência à posição do imperador da China. A fonte última da legitimidade burocrática dos literati chineses, mais do que o imperador como indivíduo, era o carisma do trono. O mesmo ocorre conosco, a não ser pelo fato de que, como o monarca reinante não exerce qualquer poder político efetivo, tornou-se sociologicamente essencial que a capacidade do monarca de legitimar o status seja reiterada constantemente através de demonstrações públicas.

Um detalhe constitucional observado com muito rigor é o de que cada novo ministro do governo deve comparecer pessoalmente ao Palácio para o "beija-mão". Eu não tenho idéia sobre o que efetivamente acontece nessas ocasiões. Mas há duas questões que se sobressaem: primeiro, há uma clara implicação de que a legitimidade da autoridade do ministro como servidor da "Coroa" requer uma iniciação através de um contato físico com o monarca; em segundo lugar, essas cerimônias são privadas. As Investiduras, relativamente públicas, são a contraparte desses acontecimentos privados. A aprovação pública a tais ocasiões aparentemente sem sentido, como a distribuição de honrarias no Aniversário da Rainha e no Ano-Novo, demonstra indiretamente o respeito à Constituição como um todo.

Mas já basta de Durkheim e Weber, é hora de voltar à antropologia contemporânea. A minha etnografia busca apoio na associação proposta por Victor Turner dos rites de passage não apenas com a liminaridade (algo que já demonstrei), mas também com aquilo que ele chama de communitas, a ruptura das distinções hierárquicas que na vida cotidiana separam os que desempenham funções públicas.

Observem, por exemplo, que a Rainha estava em trajes ordinários, e não em trajes cerimoniais. Ela encontrava-se separada daqueles que estavam sentados à sua frente por apenas alguns poucos metros, e acima deles apenas pela altura de uma plataforma de cerca de 20 centímetros. Ela era a representante do "Trono", mas na verdade encontrava-se separada dos tronos por uma linha de guardas e um cortejo de funcionários. Assim, ela estava em meio, ou quase em meio às pessoas comuns, ou pelo menos entre algumas pessoas mais ou menos comuns. No entanto, ela permaneceu sendo uma pessoa sagrada: as fitas de honra por intermédio das quais ela transmite o carisma do Trono aos iniciantes têm que ser entregues a ela em uma almofada de veludo, por um almirante. Mas para enfatizar novamente o ângulo communitas, observe-se que os vários graus de iniciantes foram todos tratados aproximadamente da mesma maneira. A diferença é que no caso dos Cavaleiros, eles deviam se ajoelhar para serem tocados pela Espada e subseqüentemente receber a fita em torno do pescoço. Nos outros casos, a Rainha simplesmente prendia a fita no lado esquerdo do peito. Mas o aperto de mãos e as palavras pessoais de recomendação eram comuns a todos. Nesse sentido, é relevante observar que são apenas os Cavaleiros que trocam de nome e, portanto, de identidade social como resultado da cerimônia. Os demais adquirem uma honraria mas não um novo título.

Isso nos traz de volta à questão da diferença entre dubbing e accolade e a minha tese improvável de que o dubbing simboliza a decapitação do Cavaleiro.

Conforme observei anteriormente, não há motivos para pensar que a cerimônia tal como ela é hoje realizada seja antiga, ainda que ela aparentemente contenha elementos antigos. Pelo menos desde o século XVII a expressão dubbing refere-se ao ato do monarca que toca os ombros de um Cavaleiro com a espada. A accolade, por sua vez, que evidentemente se refere ao pescoço (do francês col), era anteriormente descrita como um "abraço" (embrace) ou "beijo" (kiss), mas não é esta a sua forma atual.

Na Inglaterra de hoje, apertar as mãos é o equivalente do abraço em torno do pescoço no continente. Presumo, portanto, que tanto o elemento do aperto de mãos no ritual que estou descrevendo como o "beija-mão" que se requer dos ministros de Estado iniciantes são versões derivadas da antiga accolade.

A primeira referência documentada ao dubbing dos Cavaleiros data de 1085. Infelizmente, não fica claro o que estava envolvido. Os monges iniciantes naquele período levavam de seu superior eclesiástico um tapa em cada bochecha; encostar a espada no Cavaleiro iniciante era o equivalente secular disso. A prática atual de colocar uma fita em torno do pescoço do Cavaleiro é muito recente. Tem como efeito reduzir ao mínimo a diferença entre a Investidura de um Cavaleiro e a Investidura das ordens menores.

Parece plausível que seja quem for que inventou o novo procedimento tenha suposto que, dado que a Investidura do Cavaleiro precisava necessariamente envolver uma accolade, e como accolade tem relação com o pescoço, então colocar uma fita em torno do pescoço serviria como accolade! Se foi isso, então houve um equívoco na interpretação das regras. A questão fundamental na accolade (caso se aceite minha tese) é que, na linguagem de Van Gennep, trata-se de um "rito de agregação". O iniciante, tendo sido "morto" no seu antigo papel, precisa ser "trazido de volta à vida" em seu novo papel. Para que isso possa ser realizado, o poder da Soberania precisa fluir através da Rainha para o iniciado. E isso se consegue através do contato físico com o corpo da Rainha. A accolade moderna é, na verdade, o aperto de mãos!

Tendo exposto minha opinião de maneira tão categórica, preciso tratar de uma questão que deve estar preocupando os não-antropólogos. Qual é o status desse tipo de interpretação? Nenhum dos participantes da Investidura (a não ser este único antropólogo então presente) acreditava estar participando de um rito religioso, e a maioria dos participantes ficaria bastante indignada caso se sugerisse que estavam. De acordo com os seus próprios critérios, eles estavam absolutamente certos. A banda não tocava hinos religiosos, apenas música de salão do tempo de "A Bicycle Made for Two"! Além disso, todos teriam dado boas gargalhadas e rejeitado prontamente a minha sugestão de que o dubbing do Cavaleiro é análogo a um sacrifício animal entre pagãos. Então, qual a minha justificativa para embaralhar as cartas desse modo?

Está bastante claro que as minhas asserções não são afirmações científicas; não podem ser validadas, nem podem ser refutadas. Assemelham-se antes às associações livres feitas por um paciente em um divã de psicanalista. Ainda assim, creio que elas me ajudaram a aprimorar minha percepção daquilo que ocorreu. Não acredito que as pessoas preservem "os velhos costumes" só porque eles são velhos ou porque são costumeiros. Elas fazem isso porque esse comportamento tende a satisfazer algum tipo de necessidade sociopsicológica. Como sempre dizia Malinowski, qualquer comportamento costumeiro é funcional no presente e não apenas uma sobrevivência esdrúxula do passado. Evidentemente, o problema é saber qual é a sua função.

Neste ponto, as opiniões serão divergentes mesmo entre antropólogos de orientação geral semelhante, mas do meu ponto de vista esse tipo de análise, ainda que aparentemente banal, me ajuda a entender por que instituições arcaicas como os Cavaleiros e a sua Investidura têm tanta vitalidade e por que mesmo os cínicos como eu podem se sentir verdadeiramente satisfeitos e genuinamente honrados pela iniciação em uma posição que não implica nenhuma recompensa e não traz nenhum tipo de responsabilidade.

E por retroalimentação sinto que esse tipo de associação mental e estrutural me diz algo sobre a natureza essencial do sacrifício que eu, enquanto antropólogo praticante, desconhecia.

Evidentemente, o argumento geral é muito mais simples: não é preciso ir até as Ilhas Trobriand ou para Tikopia ou para Sarawak, a fim de observar o exótico ou praticar antropologia.

 

Recebido em 12 de janeiro de 2000
Tradução: John Comerford

 

 

Nascido em 1910 em Sidmouth, Inglaterra, Edmund Ronald Leach, engenheiro de formação, mais tarde aluno de Malinowski na London School of Economics, foi professor de antropologia em Cambridge entre 1953 e 1978, tendo também ali ocupado, de 1966 a 1979, a posição de Provost do King's College. Falecido em 1989, notabilizou-se por suas pesquisas etnográficas na Birmânia e no Sri Lanka, assim como por suas vigorosas intervenções nos debates teóricos da disciplina. Entre suas obras mais importantes destacam-se Political Systems of Highland Burma (1954), Pul Eliya: A Village in Ceylon (1961) e Rethinking Anthropology (1961).

 

 

Notas

* Este texto, que permaneceu inédito até aqui, foi originalmente apresentado por Edmund Leach como uma conferência ao Departamento de Antropologia Social, na London School of Economics. A versão que publicamos corresponde ao texto lido em abril de 1981 na University of Illinois at Urbana-Champaign. Os trechos da conferência original que foram suprimidos pelo autor à caneta no manuscrito, encontram-se em notas. Os esquemas desenhados por Leach foram refeitos, mas o fac-símile deles encontra-se ao final do texto. Gostaríamos de agradecer a Louise Brown por ter gentil e prontamente concordado com a publicação deste inédito de seu pai, e a Stephen Hugh-Jones e Lygia Sigaud por ter nos auxiliado nessa empreitada.

1 Trecho original: "[...] que eu mesmo e meu diretor (chairman) e alguns dos membros desta audiência podemos acrescentar aos nossos nomes".  

2 Trecho excluído: "Aqui, devo fazer uma breve justificativa a meu diretor [R. Firth]. No passado, uma das questões antropológicas a respeito das quais nós discordamos é a de que ele prefere distinguir as performances seculares, chamando-as de "cerimônias", das performances religiosas, que denomina "rituais". Entendo que em sua linguagem, uma investidura real no Palácio de Buckingham é uma "cerimônia", à qual não se aplicam teorias sobre "rituais". A minha rejeição a essa distinção é antiga e se aplica bem ao caso em foco".  

3 Trecho excluído: "No entanto, já que mencionei minha discordância com Firth a respeito da diferença entre "cerimônia" e "ritual", parece relevante notar que é um fato histórico bem estabelecido que naquela época a [...]".

4 Trecho excluído: "se os NCA não estiverem em greve, claro".

I N. T. ­ Ao longo do texto, badge será traduzido por "fita", conforme o sentido dado no dicionário Aurélio de "insígnia honorífica ou nobiliária".

II N. T. ­ Peck order ou pecking order é um termo usado nos estudos sobre comportamento animal para descrever a hierarquia de dominância em um grupo de aves (galinhas, por exemplo): no ápice está uma ave que pode bicar todas as outras e não é bicada por nenhuma, e no outro extremo, aquela que é bicada por todas as outras sem poder bicar nenhuma, com todas as gradações intermediárias entre essas situações.

III N. T. ­ Corporação real instituída na Inglaterra no século XV para tratar de assuntos de heráldica.

IV N. T. ­ Trajes adequados para ocasiões formais, sendo que o morning dress é mais formal do que o dark lounge suit.

V N. T. ­ Dubbing é a forma nominal do verbo to dub e designa, nesse contexto, o ato de nomear tocando os ombros do Cavaleiro com a espada.

VI N. T. ­ Oficiais da etnia Rajput, provenientes do Nepal, servindo no exército britânico.

VII N. T. ­ Algo como escudeiro-mor.

 

 

 

 

 

 

 

Resumo

Neste artigo, Sir Edmund Leach utiliza as ferramentas da antropologia para interpretar o rito de iniciação ao qual se submeteu em 1975, quando foi nomeado Cavaleiro pela Rainha Elizabeth II. Comparando-o a um ritual de caça-de-cabeças em Bornéu, que presenciou em 1947, o autor sugere que ambos revelam a mesma estrutura de um rito de passagem, com um marcado conteúdo sacrificial. O artigo é ao mesmo tempo uma fina etnografia da cerimônia de Investidura no Palácio de Buckingham, e uma reflexão sobre o fazer antropológico.

 

Abstract

In this article Sir Edmund Leach makes use of anthropological concepts in order to interpret a rite of passage to which he was himself subjected to, upon being knighted by Queen Elizabeth II in 1975. He compares it to a headhunting ritual from Borneo, which he witnessed in 1947, and suggests that both reveal the same structure as a rite of passage, including a significant sacrificial theme. The article is at the same time a fine ethnography of the knighting ceremony at Buckingham Palace, as well as a reflection upon what it means to do anthropology.

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