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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.1 Rio de Janeiro abr. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-93132000000100007 

RESENHAS

ARCHETTI, Eduardo P. 1999. Masculinities. Football, Polo and the Tango in Argentina. Oxford/New York: Berg. 212 pp.

 

Simoni Lahud Guedes
Profa de Antropologia, Departamento de Antropologia, PPGACP-UFF

 

 

Em busca das imagens de homens e masculinidades atuantes na Argentina atual, investigadas a partir da reconstrução de um poderoso sistema de representações coletivas, Eduardo Archetti toma como pano de fundo o contexto histórico da modernização de Buenos Aires nas primeiras décadas do século XX. Na efervescência da cidade desenhada em tintas vivas, no interior de um multifacetado processo de produção cultural, os argentinos começam também a exportar corpos, desempenhos, música, dançarinos, jogadores de pólo, cavalos híbridos e, sobretudo, jogadores de futebol.

A avassaladora entrada de imigrantes europeus, a maioria italianos e espanhóis e a forte presença dos britânicos, não é o aspecto menos relevante desse processo. É esta cidade, percebida como locus da nação, vista pelos argentinos como "uma típica cidade européia" (:4), habitada por brancos, uma reprodução da Paris da belle époque, que percorremos em todo o livro. Instala-se ali o palco da construção complexa de uma essência criolla, capaz de fertilizar a essência européia, transformando-a e produzindo novos seres masculinos através da dinâmica da contrastação, símbolos de uma nação que se define pelos homens que produz, construtos específicos e peculiares, mas não unívocos. Dessa perspectiva, a cidade é recuperada em suas contradições e ambigüidades, nas suas míticas áreas sombrias e marginais, desde suas academias de bailes, seus cafés de camareras, seus cabarets, passando pelos campos de futebol improvisados nos bairros pobres, chamados potreros, até as planícies dos pampas, reconstruídas no meio urbano pelas ideologias eruditas e populares como fonte da especificidade nacional. Desenhando os espaços simbólicos nos quais transitam e são selecionados os complexos valores morais que atuam como "modelos e espelhos" para os homens argentinos (:XVIII, passim) e delineando seus míticos personagens — o gaucho, o compadrito, a milonguita, o pibe —, o autor conjuga reflexões teóricas acerca da construção da masculinidade, da moralidade e das identidades nacionais nas "culturas híbridas".

Escolher trabalhar essas questões mediante a análise do futebol, do pólo e do tango embute algumas opções metodológicas. O autor opta por uma comparação intracultural que lhe permite a complexificação das imagens de masculinidades em atuação, a análise da forma como transitam de uma arena a outra e, ainda, uma mais nítida identificação dos "outros" relevantes que são chamados a atuar em tais sistemas simbólicos: os europeus, em geral, com significados e posições relativas substantivamente diferentes para os ingleses, de um lado, e os latinos, de outro, isto é, italianos e espanhóis. Uma comparação com outros países da América Latina é ensaiada no epílogo, tomando o trabalho de Roberto DaMatta sobre carnaval e futebol no Brasil como referência. Embora sugestiva de uma continuidade potencialmente reveladora, em nenhum momento, já que não é esta a opção metodológica de Archetti, tal comparação é levada adiante. Do mesmo modo, é inspirando-se explicitamente no trabalho do antropólogo brasileiro e na teoria do ritual de Victor Turner, que o autor opta por estas específicas criações culturais, por considerá-las como "zonas livres", contextos definidos como dotados "das propriedades antiestruturais da liminaridade e sacra híbridos no trabalho de Turner, [os quais] permitem a articulação de linguagens e práticas que podem desafiar um domínio público oficial e puritano. 'Zonas livres' são também espaços para misturas, para o aparecimento de híbridos, para a sexualidade e exaltação de performances corporais. Nas sociedades modernas, esportes, jogos e dança são loci privilegiados para a análise da 'liberdade' e criatividade cultural." (:18)

E como apreender essas "zonas livres"? De que modo registrar atuações e performances corporais, danças e jogos que misturam homens com homens, homens com mulheres e homens e cavalos? Como inscrever paixões? O livro combina "trabalho de campo tradicional e oralidade — estórias e histórias contadas pelos informantes — com análise textual — ensaios históricos, escritos ideológicos dos autores nacionalistas, jornais, revistas e letras de tango." (:XII), em um trabalho que se estendeu irregularmente ao longo de dez anos. Se essa multiplicidade é um dos vários motivos da sua fecundidade é, também, fonte de uma certa descontinuidade que, se não compromete a unidade do livro, traz algumas dúvidas em relação à comparabilidade das construções elaboradas. Por exemplo, ao mesmo tempo que se dispõe de uma minuciosa elaboração das narrativas que constroem o desempenho no futebol, comparáveis às que, embora um pouco menos trabalhadas, são fornecidas acerca do pólo, o desempenho no tango não recebe o mesmo tratamento. Na verdade, é o próprio trabalho de Archetti que sugere que as narrativas prototípicas sobre o desempenho cumprem papel fundamental como marcadores simbólicos nesse sistema.

Apesar de o material reunido ser muito diversificado, de haver uma nítida predominância das reflexões sugeridas pelo futebol, e da peculiaridade que cerca cada um dos campos empíricos pelos quais o autor optou para reconstruir as concepções de masculinidade na cultura argentina, a unidade do livro é evidente, estabelecendo uma forma de argumentação reiterativa em que cada novo material acrescentado reforça os achados anteriores. Essa unidade pode ser buscada, igualmente, no cenário que é amplamente fornecido pela Buenos Aires do início do século, mas jaz, sobretudo, na confluência das problemáticas que intitulam as duas partes em que se organiza o livro, respectivamente, "hibridação" e "moralidades masculinas". São estes os dois grandes eixos de debate teórico em cujo entrecruzamento se coloca o autor, ambos recuperados a cada momento, sob ângulos diversos, permitindo a construção dos modelos de masculinidade atualizados na cultura argentina.

A primeira dessas problemáticas remete a um antigo, extenso e complexo campo de debates nas ciências sociais, particularmente quando referido à América Latina. Archetti posiciona-se nesse campo, na discussão sobre a "hibridação", em três capítulos na primeira parte. Assume a proposta de Canclini, embora vá debater e trabalhar com vários outros autores, incorporando a heterogeneidade como característica da América Latina atual, produzida por uma história em que a modernidade dificilmente se instala substituindo o tradicional e o antigo. Busca, entretanto, problematizá-la, pressupondo a existência de diversos modelos de "hibridação", inquirindo sobre os atores concretos que produz e os espaços e tempos em que ocorre (:24). E é isto que se propõe a fazer, percorrendo as concepções que permeiam o futebol, o pólo e o tango na Argentina. É sob esse prisma teórico que a figura do gaucho — forte, corajoso, honesto e livre — emerge dos míticos pampas e assoma com todo o vigor, encarnando as melhores e mais heróicas qualidades da nação (:39), meticulosamente examinada no capítulo 1, mediante análise da literatura e das construções nacionalistas de intelectuais urbanos premidos pela ameaça que a imigração maciça representa (:30, 35). Alguns desses autores, em suas formulações mais radicais, colocam em questão até mesmo o suposto caráter civilizatório da imigração e o próprio valor da mestiçagem. Mas é através da construção de "machos híbridos" no futebol (capítulo 2) e no pólo (capítulo 3) que a operação simbólica assume seu formato, continuamente reiterado e recriado em espaços e momentos posteriores. É fundamental, para a compreensão da concepção produzida — "o estilo crioulo no futebol e no pólo", cuja cristalização ocorre, em ambos os casos, na década de 10 —, o fato de que são esportes concebidos como de origem britânica, partes do grande processo civilizatório que é visto, positivamente, como modernizador da Argentina. É em confronto com esse modelo construído do inglês, do gentleman (:51), cuja característica mais marcante é a ética do fair play (:49), que se constrói o "estilo crioulo", baseado no toque, no virtuosismo e no drible (:60, passim), incorporando às qualidades físico-morais dos gauchos as dos descendentes de italianos e espanhóis (:52). Opõe-se, desse modo, à disciplina e força de vontade dos ingleses, o desempenho argentino, representado como individualista, sensível, artístico e baseado na improvisação (:72). O material sobre o pólo, no capítulo 3, é extremamente interessante pois, além da reiteração desse "estilo crioulo" incorporado nos homens, nos jogadores, neste caso mais facilmente dando vida aos instintos atávicos dos gaúchos, seus valores e suas qualidades morais (:92, passim), enfatizando-se seu extraordinário senso de sacrifício e sua força física (:106), o processo configura-se igualmente na criação dos cavalos com a mistura de puros-sangues e animais crioulos, estes dotados de liberdade, heroísmo e força, qualidades que se supõe manter-se no novo híbrido (:98).

Na segunda parte do livro, a discussão teórica sobre as formas da masculinidade em relação às moralidades é estendida, explanando-se recentes abordagens sobre a masculinidade. Ali é enfatizada a diversidade das formas assumidas pelas concepções de homem, acentuando-se, inclusive, em consonância com as tendências recentes das teorias sociais, a recusa dos constructos fechados e a necessidade de enfrentar as contradições e as fragmentações (:113). É curioso que seja, possivelmente, nas letras dos tangos analisadas (capítulo 5), que as distintas possibilidades de construção da masculinidade se apresentem mais claramente, evidenciando as diferenças internas, as porosidades e aberturas do constructo do macho que se alimenta da figura do gaucho. A análise de narrativas sugeridas pela paixão, a tematização das perdas e do sofrimento, expõem as "tensões, dúvidas, paradoxos e ambigüidades" (:159) que cercam esses seres masculinos, apresentados em sua força e em sua fragilidade na relação com as mulheres. Mas os dilemas masculinos ali, perspectivados como "escolhas morais", presos nos terrenos da cognição mas também da emoção e do desejo, são da mesma ordem simbólica que os que são retomados no texto sobre as virtudes masculinas nacionais e a moralidade no futebol (capítulo 6)? Essas narrativas não estariam recuperando, como sombra das femmes fatales e das milonguitas, um outro mundo e não este em que "não há lugar para a família, o trabalho e a paternidade" (:189)?

No caso do futebol, as narrativas paradigmáticas centram-se claramente nos desempenhos, por meio dos quais se debatem arte e disciplina, elegância e força, improvisação e tática, o predomínio do desejo da vitória ou da alegria de fazer e ver o jogo bonito, categorias em oposição que, metaforicamente, expõem a ambigüidade da atuação dos atores híbridos. Nesse caso, não se pode deixar de registrar, mesmo en passant, que estes são dilemas por demais conhecidos dos antropólogos que estudam o futebol brasileiro, reforçando a necessidade de comparações sistemáticas. Mas deve-se também observar que, por maiores que sejam as similaridades, não é possível, após a decisiva demonstração de Archetti, ignorar que esse "estilo crioulo" de futebol, la nuestra, como dizem, se constitua como parte do conjunto de transformações do modelo do gaucho fecundado, como os garanhões puro-sangue fizeram com as éguas crioulas, pelas qualidades físico-morais dos imigrantes europeus de origem latina. No Brasil, recuperamos nossa hibridação também de modo bastante peculiar, pelo mito das três raças, e, por meio do futebol, atribuímos particularmente aos negros — simbolicamente ausentes do modelo argentino — nossas potencialidades e limites.

São também muito similares as concepções sobre os nossos campos de pelada e os potreros argentinos, espaço onde os pibes, os garotos pobres, são livres, onde se aprende e se exercita uma criatividade específica, sem mestre, na rua, na vida. É dali que surge Maradona, el pibe de oro (:182, passim), analisado em um sensível capítulo 7 como uma personagem arquetípica (:186) que materializa de modo perfeito esse "estilo crioulo", cuja "criatividade é uma vitória contra a disciplina e o treinamento" (:187).

Mas, como afirmei acima, apenas a comparação sistemática que Archetti sugere ao final do livro será capaz de nos levar mais longe na compreensão dessas diversas formas de criatividade cultural que se expressam nas "zonas livres" da vida social. Essa comparação é tanto mais interessante porque eles, como nós, brasileiros, supõem ser os "melhores do mundo" no futebol (:169).

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