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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.1 Rio de Janeiro abr. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132000000100008 

BARREIRA, Irlys e PALMEIRA, Moacir (orgs.). 1998. Candidatos e Candidaturas: Enredos de Campanha Eleitoral no Brasil. São Paulo: Annablume. 292 pp.

 

Ana Rosato
Doutora em Antropologia,
Universidade de Buenos Aires

 

 

Candidatos e Candidaturas tem o objetivo explícito de mostrar a multiplicidade de leituras que as ciências sociais são capazes de produzir sobre as campanhas eleitorais no Brasil. Cada um dos artigos expressa a busca dos estudiosos por novos modos de explicar — novas teorias? — essa realidade. Um esforço que se vê recompensado, tornando interessante a sua leitura, tanto para o meio acadêmico, quanto para aqueles preocupados com o tema da "política".

O livro está organizado em três seções, que consideram os diversos olhares sobre as campanhas eleitorais: "Diferentes modos de fazer campanha", "Valores sociais e atributos de gênero: as divisões como marcas" e "Profissões, carreiras e vocações: operadores de entrada na política".

A seção inicial compreende três artigos. O primeiro deles, de M. Goldman e A. Cruz da Silva, "Por Que se Perde uma Eleição?", está centrado na análise das eleições para vereador em um município do Estado do Rio de Janeiro. O trabalho procura demonstrar que as concepções sobre a política se modificam em função de contextos sociais e culturais específicos e que, para compreendê-las, é necessário "estabelecer a conexão, sempre particular, entre as várias dimensões que compõem 'a política'" (:28). Ao mesmo tempo, mostra a importância da "crença" daquele que deve explicar uma derrota ou uma vitória, "crença" que é analisada em função dos resultados dos "trabalhos realizados" e das relações estabelecidas pelos atores.

O segundo artigo, "A Campanha Eleitoral na TV em Eleições Locais: Estratégias e Resultados", de K. Kuschnir, L. Piquet Carneiro e R. Schmitt, trata também das eleições para vereador em 1996, no Rio de Janeiro. A ênfase, aqui, é posta na articulação entre política local e nacional, através do vínculo que se estabelece entre candidatos e partidos. Examinando as diferentes estratégias de campanha, em função dos resultados eleitorais, e utilizando a distinção entre reputação pessoal e partidária, os autores concluem que "os partidos têm tido uma importância decisiva para a dinâmica dos resultados eleitorais no Brasil" (:76). A conclusão, que refuta a idéia generalizada de que ocorre o contrário, ilustra a importância que os partidos (e suas frações) adquiriram no processo de legitimação da representação política.

O artigo de O. Luiz Coradini, "Origens Sociais, Mediação e Processo Eleitoral em um Município de Imigração Italiana", examina as eleições para prefeito e vereador em um município do Estado do Rio Grande do Sul, em 1996. Sua análise mostra as transformações das "bases eleitorais" dos diferentes candidatos, chegando à conclusão de que, na atualidade, "os princípios de classificação que as definem e circunscrevem remetem às mais diferentes lógicas e campos sociais, sendo que o próprio processo eleitoral pode ser visto como a sua interseção e reconversão naquilo que é definido como 'política'" (:100, ênfases minhas).

Nos três artigos, encontramos temas e perguntas recorrentes, relativos à atividade política: o trabalho de reconversão, o uso de relações sociais e de trabalho, a importância tanto do contato personalizado durante as campanhas locais, quanto de quem é o candidato e que partido representa, enfim, a relação entre candidato e eleitor. O eixo que articula essas questões é o da representatividade, cabendo perguntar-se se basta ter sido o "mais votado" para ter direito a denominar-se representante de outros, a falar e agir em nome de outrem.

A segunda seção está composta por três artigos que discutem as candidaturas de mulheres nas campanhas eleitorais. O primeiro, de C. Jardim Pinto, intitulado "Afinal, o que Querem as Mulheres na Política?", baseia-se em trabalho realizado em Porto Alegre durante as eleições para vereador em 1996. Formula a seguinte questão: existe uma forma específica de as mulheres fazerem política? A resposta, que se faz evidente também nos outros dois artigos, é que "existe, na maioria das vezes, muito mais por força das características da luta política do que por um posicionamento dessas mulheres" (:129). Para dar conta dessa resposta, a autora retoma os pontos centrais levantados na primeira seção: os partidos políticos e a representatividade. Em relação aos partidos, demonstra, por um lado, que estes constituem a via de acesso à atividade política, tanto da mulher quanto do homem, e que a diferença de gênero se expressa na posição que cada um ocupa nas estruturas partidárias. Por outro lado, é no seio do partido que são, prioritariamente, criadas as novas identidades políticas. O tema da representação é tratado também em sua relação com os partidos, já que o "fato de ser mulher" tem uma forte presença na busca por um espaço institucional, ao mesmo tempo que a inserção da mulher se legitima pelo fato de existirem temas que dizem respeito exclusivamente a ela.

O trabalho de I. Firmo Barreira, "Entre Mulheres: Jogo de Identificações e Diferenças em Campanhas Eleitorais", que também aborda essa forma de legitimação, analisa as candidaturas a prefeito nas cidades de Fortaleza, Natal e Maceió. Observa que a condição de gênero aparece como um elemento destacado nas atividades das candidatas mulheres durante as campanhas, expressando-se em suas "interpelações discursivas" e em suas afirmações de valores considerados femininos. Apelar a essa condição, por um lado, não seria nada mais do que cumprir o "enigma" da legitimação: o de "transformar interesses partidários em identificações amplas geralmente justificadas a partir de valores que são colocados como representativos de 'interesses gerais'" (:133); por outro, pode condicionar a "construção de um espaço de reconhecimento que demanda provas de competência" (:164), através do qual se perfilam estratégias de valorização que transformam o "negativo" em "positivo" (por exemplo, a mulher é menos eficaz que o homem em questões de governo).

Esse processo de "conversão", que como assegura Firmo Barreira não é apenas uma prática das candidatas femininas, está amplamente documentado no terceiro artigo dessa seção, "A 'Modernidade' como Emblema Político". Nele, A. Lemenhe examina as campanhas eleitorais de dois candidatos a prefeito da cidade de Fortaleza que centraram suas estratégias na oposição tradicional/moderno da atividade política, oposição que subsume a condição de gênero.

A última parte do livro é onde se aborda, de modo mais explícito, os novos modos de fazer política. Está composta por três artigos: "Os Sindicatos no Poder. Que Poder?", de M. Palmeira, que analisa a candidatura de "sindicalistas" nas eleições municipais de 1996, em Pernambuco; "Lugar de Policial é na Política? Estratégias Simbólicas de Afirmação e Negação", de C. Barreira, sobre candidatos "policiais" a prefeito e vereador no Estado do Ceará; e, finalmente, "O Jeito Cristão de Fazer Política: Representações, Rituais e Discursos nas Candidaturas Pentecostais e Carismáticas", de J. Miranda, que trata das candidaturas de pessoas provenientes das igrejas pentecostal e carismática.

Mediante a análise de campanhas de candidatos oriundos de esferas cotidianas que não faziam parte da atividade político-eleitoral — sindicalistas, policiais, carismáticos ou pentecostalistas —, os três artigos mostram claramente a passagem ou a transformação de um modo "anterior" para um modo "novo" de fazer política. O estudo desses "novos" candidatos, bem como de suas estratégias de campanha, aponta para mudanças tanto nos contextos social, econômico e político, quanto na relação entre essas esferas. Assim, o exame do trabalho de reconversão de um tipo de capital em outro, denota uma nova relação entre política e sociedade. O ofício/profissão do político se faz possível porque os novos candidatos recorrem a uma "habilidade" e a um capital adquiridos em outro espaço.

Ainda na terceira parte do livro, o tema da representatividade é retomado. Nesse sentido, a conclusão é expressa por M. Palmeira, quando sustenta que, para além da intenção político-sindical de definir as relações adequadas entre os dois âmbitos, os casos analisados "ajudam a pensar a questão da conversão de uma espécie de autoridade em outra." (:214).

Em síntese, os artigos aqui reunidos têm como ponto de partida as eleições municipais de 1996 e analisam tanto o processo eleitoral, quanto as candidaturas, os partidos e as bases eleitorais. Definitivamente, o tema central do livro é o da representatividade. Todos os trabalhos, de alguma forma, dão conta da importância dos diferentes tipos de capital na configuração do que se entende por "capital político". Assim, nas eleições municipais de 1996, a distância entre esferas diferentes, claramente delimitadas, parece ter se apagado, dando lugar — através da conversão de um "capital não político" em outro "político" e ao uso desse capital agora político em outros campos — a uma nova relação entre campos e, portanto, a novas formas de fazer política.

A leitura do livro contribui ainda para uma reflexão sobre as transformações que se produziram, nos últimos anos do século XX, no Brasil na esfera política. Da mesma forma, permite perguntar-se sobre os motivos dessas transformações e, em que medida, estas — produzidas nos planos municipal, das bases políticas/sociais e das trajetórias dos candidatos — estariam relacionadas a mudanças estruturais.

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