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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.7 n.2 Rio de Janeiro out. 2001

https://doi.org/10.1590/S0104-93132001000200009 

RESENHAS

 

AIGLE, Denise, BRAC DE LA PERRIÈRE, Benédicte e CHAUMEIL, Jean-Pierre (orgs.). 2000. La Politique des Esprits. Nanterre: Société d'Éthnologie. 443 pp.

Oscar Calavia
Professor, UFSC

Como indica R. Hamayon no seu prefácio, o xamanismo desempenha hoje o papel que outrora correspondeu ao totemismo ou ao animismo: representar a alteridade no seu conjunto, abranger toda manifestação simbólica do pré-moderno, do pré-lógico e do pré-literário. Porém, à diferença do totemismo e do animismo, o xamanismo destaca-se pela agência, pela capacidade dialógica e transcodificadora. O xamã é um primitivo à altura dos tempos.

Longe de rasgar as vestes perante essa estratégia dos espíritos, longe de exigir conceitos rigorosos, os organizadores do livro – fruto de um colóquio celebrado em Chantilly, em 1997 – embarcam numa acepção extremamente ampla de xamanismo, que se dá ao luxo de ignorar todos os limites que classicamente serviam para defini-lo. Não se detém na fidelidade à prática ou à ideologia da caça: alguns capítulos, como o dedicado aos Puyuma de Taiwan, descrevem uma transição institucional e simbólica em direção a um xamanismo agricultor e feminino. Também não se limitam à velha fronteira entre o transe xamânico e a possessão: cultos "negros", norte-africanos e brasileiros estão presentes no livro. Tampouco admitem barreiras entre o feiticeiro e o profeta – os capítulos sobre os Meo e os Tikuna expõem a extensa afinidade escondida sob essa oposição, o que exige um exercício cuidadoso para destrinchá-los – nem, é claro, entre magia e religião: o xamã, tão hábil para tomar as formas de uma onça ou de um cervo, o será do mesmo modo para tomar a de um sacerdote, e as práticas extáticas podem ser flagradas no coração mesmo do cristianismo, do budismo ou do islamismo.

Especialistas de três grandes áreas – o Sudeste Asiático budista, a América tropical católica e a Ásia Central muçulmana, com duas excursões ao sufismo negro-africano, em Marrocos e nos subúrbios de Paris – mostram-nos a vitalidade de uma prática que não há muito imaginávamos refugiada nos confins da Amazônia. Nada impediria que outras regiões do planeta, ou que os neoxamãs europeus e americanos – aos quais se fazem alusões esparsas –, viessem se juntar ao festim. A principal limitação de La Politique des Esprits é exatamente essa falta de limites: saindo de toda parte é difícil chegar a alguma. À obra não falta um certo ar de miscelânea: há disquisições sobre a eficácia simbólica ou sobre as organizações dualistas que buscam revisar o argumento lévi-straussiano num ambiente transcultural, ou identificar variantes no xamanismo dos povos Jê; há análises de mitos, rituais e escrituras sagradas; há histórias de vida de xamãs buriatos ou uzbekos e surveys da atividade xamânica nas imensas extensões da Àsia Central. O livro poderia muito bem ser considerado uma apologia do sincretismo, esse termo desterrado com uma certa má-fé do vocabulário antropológico atual. Vários capítulos fazem uso dele, ou o trazem à discussão, e quase todos se debruçam com cupidez sobre o encontro de panteões, de cosmologias e de retóricas, e sobre a homologia que permite esse comércio. Ou então se deliciam nessas pitorescas justaposições que conformam o neo-exótico, como o hotel parisiense usado pelos marabutos imigrados como sucedâneo do deserto ou as explicações científicas de um eclipse integradas no mito cosmogônico Tsachila.

Entretanto, as preocupações culturalistas estão sem dúvida em segundo plano. No primeiro, está a tenaz disputa por poder e legitimidade em meio a campos religiosos recém-criados. O núcleo da coletânea mais propício a uma leitura literal do seu título mantém-nos imersos no espetáculo da história recente, abordando as relações do xamanismo com o comunismo ou o islamismo, ou com ambos, bem como com suas reações à queda de um e à ascensão do outro. Em geral, o velho xamanismo se sai muito bem. Mostra-se, por exemplo, mais hábil que o budismo para dar uma resposta simbólica aos horrores do regime khmer ou às exigências do novo regime de mercado. Põe também em circulação versões alternativas, de sabor inevitavelmente "reacionário", da história recente de países como Camboja ou Laos – e a conquista do poder pelo Pathet Lao pode ser vista, assim, como uma invasão da cidade pelos toscos espíritos das montanhas.

Ao lado desse panorama pós-perestroika, o caso sul-americano parece oferecer um repertório mais clássico, inscrevendo-se numa tradição já longa de estudos sobre missões e sobre religiões indígenas que combina a etnografia e o exame das fontes documentais e que experimenta um certo auge em países como o Brasil, onde a história indígena é uma disciplina relativamente jovem. Paradoxalmente, as frias sociedades ameríndias, protagonistas de uma longa queda-de-braço com uma religião universalista, têm permitido uma reflexão detalhada e profunda sobre esse tipo de embate, ao qual se reintegram agora sociedades, como as da antiga URSS ou as da península da Indochina, que estão de volta de ciclos candentes de mudança revolucionária. Há de um lado ao outro do globo ecos dignos de atenção. É o caso da Coréia, onde uma antiga convivência entre o budismo e o xamanismo se vai deteriorando porque o budismo quer se livrar de contágios "arcaicos" para enfrentar a irresistível ascensão de um cristianismo modernizador. Situação que contrasta com a da América do Sul, onde o catolicismo procura a aliança ou a cooptação simbólica dos mundos afro ou indígena perante a ameaça comum dos pentecostais de origem norte-americana.

Há, aliás, dados suficientes de que a expansão protestante pode não ser nem uma variante especialmente etnocida do cristianismo – como quem se encontra no raio de ação do catolicismo costuma denunciar –, nem o passo irreversível rumo à modernidade que auguram outras análises (o capítulo dedicado à Guatemala tem algo a dizer nesse sentido). A boa saúde do xamanismo em lugares tão distantes tende a mostrar, caso seja ainda necessário, que o desencantamento do mundo foi um exorcismo ineficaz, e que os ditames sobre a "trivialização" ou a "mercantilização" do xamanismo atual podem ser, por sua vez, expedientes forçados para resgatar a honra da modernidade. La Politique des Esprits não cai nas armadilhas da autenticidade, e evita, a todo momento, distinções dúbias entre xamanismos tradicionais e reinventados. Este é mais um dos seus méritos.

A variedade do livro, sem dúvida um dos seus atrativos, é em certo sentido ilusória. Variados são os cenários e os nomes dos protagonistas; variados são, até certo ponto, os estilos de antropologia que nos guiam através de cada uma das regiões – quanto ao cerne da questão, todavia, a diversidade é muito pouca. Parece que, por mais heterogêneos que sejam os xamanismos e as religiões mundiais, as modalidades do seu encontro se distribuem pelo mundo sem atender a latitudes e longitudes. As três regiões percorridas são exemplos e não variantes de uma mesma situação. Talvez essa indiscriminação seja resultado de opções mais ou menos conscientes dos autores: a ênfase está nos momentos de "negociação", aqueles em que, por assim dizer, os espíritos podem tomar a iniciativa e fazer sua política. Poucos capítulos, no entanto, dizem alguma coisa sobre o campo religioso em que essa política acontece, ou sobre as eventuais especificidades de cada religião universalista no seu trato com os fantasmas atávicos. A guerra e a repressão ficam demasiadamente à margem. A caça ao bruxo é parte essencial da história das religiões, agora não menos que no passado, mas aparece escassamente na coletânea, mais interessada em demonstrar a sua ineficácia a longo prazo. A persistência de velhas práticas e de velhos pleitos é, quem iria imaginar, a notícia.

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