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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.7 n.2 Rio de Janeiro out. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132001000200013 

RESENHAS

 

VARGAS, Eduardo Viana. 2000. Antes Tarde do que Nunca: Gabriel Tarde e a Emergência das Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. 280 pp.

Cecília Campello do Amaral Mello
Mestranda, PPGAS-MN-UFRJ

Como um autor conhecido e atuante em seu tempo, dono de um sistema de pensamento próprio e singular, pode ser esquecido? O que está em jogo quando se excluem determinados autores de um campo de investigação? O que faz com que determinadas idéias sejam recalcadas no processo de institucionalização de uma disciplina? Fruto de uma dissertação de mestrado defendida no PPGAS-MN-UFRJ em 1992, Antes Tarde do que Nunca aborda essas questões, tendo como vetor analítico a trajetória e as id┌ias de Gabriel Tarde (1843-1904), "um intelectual que estabeleceu os princípios [...] de toda uma sociologia das nuanças, dos detalhes e dos relacionamentos infinitesimais, de uma microssociologia heterogênea" (:24); um "crítico à reificação dos sujeitos coletivos e à naturalização dos fenômenos macrossociais" (:33). O grande mérito desse livro é trazer à tona a força e a beleza do sistema de pensamento de Gabriel Tarde, ativamente esquecido e relegado a um plano secundário na história da disciplina; mas também se pode afirmar, por outro lado, que as contribuições do livro superam as por si só instigantes idéias e os princípios do próprio Tarde. Temos aí um relato consistente do processo de emergência das ciências sociais na França, assim como uma análise heterodoxa do pensamento de Durkheim, contemporâneo e principal opositor de Tarde.

Se termos como "sociedade", "anomia" ou "representação coletiva" podem hoje ser considerados metáforas "cansadas", Vargas mostra que as tensões inerentes a essas formulações já se revelavam em seu processo de emergência. O universo conceitual formulado por Tarde poderia fornecer novas perspectivas para uma sociologia ou antropologia contemporâneas interessadas em explorar essas tensões e neutralizar o poder explicativo das dicotomias clássicas (como indivíduo x sociedade) ou de categorias substancializadas (como a própria noção de indivíduo).

A primeira parte do livro trata dos embates e agenciamentos políticos e intelectuais que permearam o processo de emergência das ciências sociais na França em fins do século XIX; a segunda aborda o "encantamento de idéias" de Tarde em sua singularidade e diversidade. Essa organização do livro, privilegiando a separação entre as idéias do autor e o campo de disputas político-institucionais de sua produção, escapa ao duplo risco de apoio excessivo no contexto – o que pode desfocar as idéias – ou de assunção das idéias como realidades em si mesmas, referidas a um contexto indeterminado. É possível escolher entre "mergulhar" diretamente nas idéias de Tarde ou se aproximar tendo um quadro referencial prévio.

Nos capítulos "No Começo, a Intriga" e "Uma Multiplicidade de Agenciamentos", Eduardo Vargas remete a Michel Foucault, focalizando as relações entre os acontecimentos e não os acontecimentos em si mesmos; as descontinuidades e não a coerência dos eventos políticos e intelectuais da época. O autor apropria-se assim, ainda que com certa reserva, da "sociologia da produção intelectual" de Pierre Bourdieu, privilegiando os processos e as disputas e não a "emergência" pura e simples das ciências sociais. Vargas anuncia uma análise micropolítica, atenta a uma "multiplicidade de agenciamentos", em busca da detecção dos efeitos de poder centralizadores do discurso sociológico clássico constituintes da ortodoxia durkheimiana. Para tanto, destaca a relativa dispersão dos autores e discursos sociológicos na segunda metade do século XIX na França, demarcando as tentativas de articulação e os diversos projetos concorrentes à démarche durkheimiana, organizados em torno de diferentes associações ou escolas responsáveis pela construção e problematização desse novo domínio de saberes sobre o "social".

Nos capítulos "Mudanças Ambivalentes", "Quando Saber também É Poder" e "A Panacéia Pedagógica", o autor procura articular as inquietações morais e políticas da época com a estruturação de um critério propriamente científico de validade dos discursos sociológicos. Há um investimento político na produção de novos saberes-poderes relativos ao "social" ao qual a sociologia e a pedagogia de Durkheim se adequam perfeitamente dada sua declarada preocupação em sanar os supostamente graves problemas sociais e morais da sociedade francesa. Assim, essa sociologia vai definindo os critérios de cientificidade que, mais tarde, se tornarão hegemônicos – racionalismo, rigor metodológico, objetividade, especialização –, demarcando suas fronteiras disciplinares, distanciando-se da psicologia, da filosofia e da literatura e construindo, desse modo, uma "zona ontológica específica do social" (:81).

Nos dois capítulos seguintes, Vargas apresenta as continuidades presentes na formalização dos saberes sobre o social que se organizam em torno de um "paradigma organicista". O autor assinala que a metáfora do organismo, produto de um empréstimo às ciências naturais, traz efeitos de poder importantes para o processo de instituição da sociologia como disciplina: a crença em uma ordem social como totalidade supra-individual, a tendência à especialização e a luta pela sua conservação através da ordenação e equilíbrio de suas funções. O autor aponta também para outros signos que denotariam a intensificação do investimento político nos saberes sobre o social, tais como as disputas intra-universitárias e interdisciplinares, visíveis através dos pertencimentos e colaborações nas inúmeras revistas especializadas e sociedades tomadas pela "febre" de tematização do social, cuja dinâmica vai, aos poucos, definindo o distanciamento entre os discursos "prático-profissionais" e os discursos "científicos".

Em "Durkheim e o Domínio da Sociologia", Vargas discute as diferenças entre as trajetórias de Durkheim e Tarde, confrontando a conquista tardia de titulações de prestígio do primeiro e a carreira "meteórica" e bem-sucedida do último – que, em 1899, já é professor-titular do CollÌge de France. Apesar do percurso acadêmico relativamente conturbado do "pai da disciplina", Vargas demonstra, a partir de Karady, como se produz um movimento de organização profissional e consolidação universitária lado a lado à representação da sociologia de inspiração durkheimiana como um grupo "coeso", apesar das tensões internas ao grupo. Seguindo implicitamente a crítica de Tarde, Vargas faz uma análise refinada dos princípios subjacentes ao vocabulário durkheimiano classico, a começar pela noção do social como realidade sui generis, ou, visto de outro modo, da sociedade como artefato conceitual.

Em "Biografia e Espectrografia de Tarde", após uma apresentação da trajetória e das condições de produção da obra de Tarde, o autor sugere que o antidogmatismo de Tarde sempre pairou como um "fantasma" sobre Durkheim, uma vez que apontava para as tensões inerentes às noções mais caras a este último. Em "Uma Sociologia das Nuanças", Vargas revela os três grandes golpes que a crítica de Tarde desfere contra todas as formas de mecanicismo e organicismo do arcabouço teórico durkheimiano. Em primeiro lugar, Tarde rompe com a dicotomia livre-arbítrio/determinismo, propondo que cada ordem de determinismo intervém fortuitamente sobre outra, produzindo encontros-acidentes e, assim, propagando as diferenças. Em segundo lugar, Tarde questiona o estatuto propriamente ontológico do indivíduo, assumindo uma noção extremamente plástica do sujeito humano – "a grande questão, [...] não é saber se o indivíduo é livre ou não, mas se o indivíduo é real ou não" (:195). Ademais, recusa o olhar unitário que busca representações totalizantes, como a noção de sociedade ou de representação coletiva que, para Tarde, não são categorias explicativas. Pelo contrário, é a própria noção de sociedade ou a "similitude de milhões de homens" que precisa ser explicada. Dessa forma, Tarde desnaturaliza as semelhanças sociais, buscando o mundo dos fenômenos elementares, infinitesimais, definidos pela diversidade. Para ele, as formas sociais não mudariam do mais simples para o mais complexo (o que seria um "erro evolucionista"); a complexidade é inerente ao social e a mudança seria a passagem de uma ordem de diferenças para outra.

Em "O Estatuto do Social", entende-se o que, para Tarde, seria o princípio subjacente constituinte da vida social: uma distribuição mutante de certa soma de crenças e de desejos – "a unidade das relações sociais não é dada a priori [...], ela é sempre contingente e se estrutura situacional e temporalmente, isto é, na simultaneidade das convicções e das paixões" (:212). As crenças e os desejos seriam fluxos que cruzam em todas as direções os domínios molares e moleculares, articulando o infra-individual dos "detalhes infinitesimais" ao domínio supra-individual das representações, concepção que dissolve a linha tão bem traçada por Durkheim demarcando o social e o individual.

No capítulo intitulado "Princípios Cosmológicos", verifica-se como Tarde afirma simultaneamente o acaso e a necessidade: o real é apenas um caso do possível, um fragmento do realizável; está por definição em excesso. Note-se que as potencialidades não atualizadas continuam a existir virtualmente e a afetar o que realmente existe: "no real, há séries causais múltiplas e independentes. Se, dentro de cada uma delas, tudo é rigorosamente determinado, no real essas séries se encontram contínua e inexoravelmente, e seus encontros nada têm de determinado: eles são fortuitos, situacionais e atuais" (:215). O segundo princípio cosmológico é a afirmação da diferença como definidora da existência humana e social, na qual o lugar da identidade seria mínimo. Segundo Tarde, haveria uma tendência (que Vargas qualifica de antropocêntrica) de "imaginar homogôneo tudo o que nós ignoramos".

Os dois últimos capítulos dessa parte ("A Trama Conceitual" e "Os Processos de Subjetivação") apresentam a dinâmica das microrrelações de repetição, oposição e adaptação e seus correlatos sociológicos (imitação, hesitação e invenção) e clínicos (o sonâmbulo, o tímido e o louco), isto é, as forças plásticas e funcionais que, a partir da conexão dos múltiplos fluxos de crenças e desejos, a um só tempo constituem e movem a vida social.

Ao retirar as idéias de Tarde do espaço das virtualidades não realizadas, Eduardo Vargas convida-nos a refletir sobre os "desencontros" ou descontinuidades entre as idéias de um autor e os limites formais criados por determinadas tradições disciplinares, revelando-nos uma imensidão de possíveis a serem, a qualquer momento, reatualizados e reinseridos nos debates contemporâneos das ciências sociais. Essa sociologia "andarilha" pode, no entanto, ser entendida, ainda hoje, como um desafio à captura disciplinar, uma vez que se define pela afirmação da multiplicidade e da diversidade enquanto tais, e pela mistura entre psicologia, ciência, literatura e filosofia – mistura à primeira vista improvável, porém fascinante, e que cabe aos leitores desvendar.

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