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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.8 n.2 Rio de Janeiro out. 2002

https://doi.org/10.1590/S0104-93132002000200008 

RESENHAS

 

Cecilia McCallum

Simon Fellow, University of Manchester

 

 

FAUSTO, Carlos. 2001. Inimigos Fiéis: História, Guerra e Xamanismo na Amazônia. São Paulo: EDUSP. 588 pp.

Combinando uma exploração crítica da teoria antropológica com uma contribuição detalhada e original para o acervo etnográfico, este livro segue a tradição estabelecida pelos melhores estudos etnológicos. Fruto de longos anos de pesquisa e análise, baseado em tese de doutorado premiada, refere-se aos debates mais recentes e instigantes de seu campo de estudos, tratando de repensar a sua contribuição para a teoria antropológica, sobretudo no que diz respeito à relação entre história e ação social. Essas tarefas são realizadas com erudição, elegância e, o que é mais admirável, um toque leve de linguagem. Em uma edição bela e cuidadosamente produzida, o livro pode ser lido como uma introdução ao estado-da-arte da etnologia (com algumas ressalvas) e da tupinologia no começo do século XXI, sem, no entanto, se restringir aos iniciantes em antropologia como público-alvo. Prova disso eu tive com um amigo neófito (é juiz de direito) que leu o livro e o julgou "extremamente bem escrito".

Inimigos Fiéis é uma etnografia dos Parakanã, falantes de uma língua tupi-guarani, cujas terras se localizam nas bacias do Xingu e do Tocantins, no Estado do Pará, e que entraram em contato direto com a sociedade brasileira entre 1971 e 1984. Não se trata, porém, de uma etnografia clássica, no sentido de uma descrição normativa, em perspectiva sincrônica. De fato, após suas primeiras estadas entre os Parakanã, Fausto tecera a base de sua compreensão desse povo, abordando sua estrutura social como forma atemporal mediante um estudo de parentesco na aldeia de Apyterewa. Mas, ao longo de uma década de pesquisa de campo, uma perspectiva diacrônica veio a se impor, e um dos objetivos principais do livro se estabeleceu: a reconstrução microssociológica e comparativa das mudanças estruturais, políticas e econômicas vividas durante um século pelos dois subgrupos dos Parakanã, os ocidentais e os orientais, que se tornariam "inimigos fidagais". O livro conta a história da fissão ocorrida entre os ancestrais comuns aos dois grupos, no fim do século XIX, e detalha os processos que levaram à constituição de dois sistemas sociais diferentes a partir dessa origem compartilhada.

A primeira parte é uma exploração das transformações que ocorreram desde então, em ambos os subgrupos, possibilitando ao autor sustentar o argumento de que a morfologia social, a organização econômica, o regime de gênero e a estrutura política devem ser vistos como construções históricas dinâmicas e não estáticas. O que há de novo aqui é a demonstração de que a história parakanã não pode ser entendida apenas como uma reação a forças externas. A análise etnográfico-histórica sustenta a crítica àqueles teóricos que tratam os fatores externos ­ invasões de terras, conflitos com outros grupos, constrangimentos ambientais ­ como determinantes únicos das mudanças experimentadas pelas sociedades indígenas, e que assim negam a seus membros o papel de agentes, mostrando que se aquelas nunca estiveram fora da história, os últimos foram sempre atores engajados na produção dos seus próprios destinos.

Durante o século XX, os Parakanã construíram dois modos de engajamento econômico e, paralelamente, dois padrões de assentamento. No bloco oriental, possuíam chefia e um sistema de produção agrícola baseado na cooperação entre agnatos e na coordenação masculina do trabalho feminino, preferindo um estilo de vida mais sedentário, desenvolvendo ainda um espaço público masculino, a tekatawa. Ambos os grupos valorizam a caça seletiva, com pouca ênfase na pesca, mas os ocidentais levaram esta preferência alimentar mais longe, terminando por abandonar a horticultura; grupos pequenos passavam longos meses em trekking longe da aldeia, acarretando uma crescente autonomia produtiva das famílias e uma tendência à acefalia. Na literatura, o abandono da horticultura em favor da coleta tem sido designado como "regressão" e tratado como uma conseqüência do impacto das frentes de colonização. Fausto demonstra como, ainda que facilitados por fatores externos, a adoção de um estilo de vida seminômade e a crescente valorização da belicosidade entre os Parakanã ocidentais constituíram processos internamente motivados. Ainda na parte I, retraça a emergência, entre os orientais, de um sistema de metades exogâmicas, relativamente fechado e, entre os ocidentais, de uma ênfase na busca da afinidade no exterior, através da valorização da caça a inimigos e do rapto de mulheres. Ironicamente, o regime de gênero que emergiu nesse segundo contexto favorecia uma posição mais autônoma e igualitária para as mulheres que entre os orientais.

Retratando o sistema de metades, por exemplo, este não será mais visto como uma 'tradição' ameaçada pela história, mas como uma solução sociológica para um problema posto pelo viver histórico. Fausto mostra o caráter dinâmico dessas sociedades, desconstruindo aquela imagem gasta (mas sempre recorrente) dos povos indígenas como pré ou a-históricos. Mas a intenção declarada de Inimigos Fiéis é "pensar as formas na história e a história nas formas" (:16) e, por isso, após examinar os "modos do processo", na primeira parte, passa para os "modos de forma", na segunda. Nesse momento, o tom da exposição altera-se e o enfoque muda para tratar das "formas socioculturais". Focalizando seu olhar sobre os aspectos cosmológicos e simbólicos da vida parakanã, procura integrar à análise histórica e sociológica, já apresentada de um ponto de vista exterior, uma perspectiva interna: the native point-of-view, ou melhor, a visão que deste tem o autor, por meio de uma exposição minuciosa dos significados, valores, conceitos e teorias que dinamizam e impulsionam a ação social.

A noção de "formas socioculturais" é sugestiva da orientação teórica que norteia o texto, escrito agora em registro lévi-straussiano, mas em contraponto crítico à tendência do estruturalismo de enfatizar excessivamente, segundo Fausto, a reciprocidade como forma social par excellence. Essa obsessão há de ser substituída, afirma, por uma ênfase maior no consumo e na produção. Para este fim, adapta a noção marxiana de "consumo produtivo", originalmente resgatada para a antropologia por Chris Gregory. Em uma manobra feliz, o conceito assimila-se ao terreno já preparado por outros etnólogos sul-americanistas. O consumo produtivo de Fausto toma vida a partir da noção de predação, elaborada por Viveiros de Castro, concernente à forma abstrata da relação de alteridade entre sujeitos, relação que, quando posta em prática, é simbolizada, entre muitos grupos, como um ato canibal, um ato de consumo que reduz essa relação de alteridade a um espaço de identidade. Na visão tingida pelo marxismo amerindianizado de Fausto, a predação é mais do que forma abstrata, sendo tratada como processo produtivo embutido em uma seqüência econômica e fenomênica. A predação, assim, contribui integralmente para um processo produtivo maior, vindo a ser englobada pela produção, não tanto de bens materiais, mas primordialmente de pessoas.

O modelo paradigmático do consumo produtivo é elaborado na análise da guerra (capítulo 4). Da crítica cuidadosa às teorias da guerra ameríndia elaborada pelo autor aprendemos que a perspectiva predominante busca explicação em fatores como a pressão demográfica ou a escassez de recursos, o que não se aplica ao caso parakanã, enquanto a perspectiva estruturalista, reduzindo a guerra a relações simétricas de troca, não pode dar conta da destruição que desencadeia e, simultaneamente, do seu aspecto produtivo. Vista como consumo produtivo, a guerra combina várias etapas em um processo canibal essencialmente fértil, desde a destruição do corpo e do espírito do inimigo, passando pelo "consumo" olfativo do sangue, até a longevidade e a capacidade xamânica de sonhar. O principal benefício assim adquirido é a possibilidade de consumo de identidades outras, uma lógica característica de diversos grupos belicosos ameríndios (:329). Os matadores parakanã travam uma relação de predação criativa com os inimigos com a intenção de extrair-lhes o que têm de mais valor ­ a sua subjetividade.

O argumento de Inimigos Fiéis remete à teoria da "economia simbólica da predação" e se constrói a partir dos parâmetros estabelecidos por Viveiros de Castro e o estruturalismo brasileiro. Pretende, no entanto, extrapolar os seus limites, articulando o conceito de consumo produtivo com o de "predação familiarizante". Este processo é elaborado no capítulo 5, que trata da relação estabelecida entre os sonhadores e os seus inimigos oníricos, fonte dos poderes de cura e os verdadeiros mestres da ciência xamânica. Não há xamãs entre os Parakanã, apenas sonhadores, os quais estabelecem com os inimigos encontrados nos sonhos uma relação de "senhor"-"xerimbabo", por intermédio da qual capturam os cantos terapêuticos. O inimigo é domesticado por seu sonhador sem, no entanto, perder os seus poderes, sendo o protetor do próprio senhor. Não recebe nenhuma contrapartida para as dádivas. "A predação é um momento do processo de produção de pessoas do qual a familiarização é outro" (:418), sublinha Fausto. Do mesmo modo que a reciprocidade equilibrada não será o complemento da economia simbólica da predação, a estrutura profunda da guerra ameríndia não é a troca simétrica. Para se compreender a guerra de modo satisfatório, há que se buscar nas relações assimétricas (do tipo pai-filho ou sogro-genro) o modelo complementar ao da economia simbólica proposto por Viveiros de Castro. No capítulo final, o autor volta-se para os tempos históricos, ao tratar as relações parakanã com a sociedade nacional, desta vez a partir da compreensão cosmológica e escatológica alcançada ao longo da segunda parte do livro. O epílogo retoma o tema da predação familiarizante, agora como modelo geral capaz de dar conta de diferenças entre os dois tipos de sistemas de reprodução social ameríndios que delineia.

Fausto distancia-se dos estudos americanistas que, ao modo de Strathern (The Gender of the Gift, 1988), entendem a relação entre consumo e produção, referida como "produção consumptiva", como um momento-chave na produção da socialidade e da vida cotidiana, no qual as atividades femininas e a esfera denominada "doméstica" são tidas como aspectos essenciais do ciclo de reprodução social, tão potentes e ricos em simbolismo quanto as atividades masculinas e a esfera denominada "pública" (:327, n.71). No que tange ao gênero e ao cotidiano, Inimigos Fiéis, de fato, alinha-se melhor com o tom conservador do estruturalismo, privilegiando as atividades masculinas e ritualizadas e procurando explicitamente revalidar o uso de categorias como, por exemplo, a oposição entre "doméstico" e "público", na contramão de sua desconstrução pela literatura feminista e etnológica. Assim, Inimigos Fiéis pode ser lido como um estudo de masculinidades parakanã. As feministas da década de 70 pregaram a correção do "viés de gênero" pelo estudo direto das mulheres, suas falas e práticas, o que Fausto comenta não ter podido fazer. Na pesquisa de campo ele não teve informantes mulheres, no máximo podendo entrevistar casais juntos. Mas a escassez da fala de mulheres não é o problema principal aqui. Sente-se falta de um olhar mais justo sobre temas como menstruação, concepção, gravidez e criação de filhos, um olhar que serviria para preencher a lacuna analítica no modelo proposto da produção de pessoas. E, sobretudo, no nível de construção do modelo, falta uma discussão da complementaridade entre agências masculinas e femininas, em prol de uma ênfase na hierarquia entre os gêneros, o apagamento do feminino via sua relegação ao pré-social e antecultural, e o seu eclipsamento sob a sombra do valor concedido ao masculino.

Finalmente, essas observações deverão ser vinculadas a um outro comentário crítico, que diz respeito à ausência de um diálogo com o livro de Peter Gow, Of Mixed Blood: Kinship and History in Peruvian Amazonia (1991), que também tematiza a relação entre a história do ponto de vista exterior e a história do ponto de vista nativo, no caso dos Piro da Amazônia peruana.

Não é preciso dizer que essas ressalvas, críticas e sugestões são oferecidas no espírito de um engajamento com as idéias e teorias instigantes de Inimigos Fiéis. Para aqueles que gostam de ler e pensar, sejam etnólogos, antropólogos, ou simples mortais (como juízes de direito), não há dúvida de que este livro é uma adição imprescindível às bibliotecas pessoais.

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