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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.8 n.2 Rio de Janeiro out. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132002000200014 

RESENHAS

 

Mariza Peirano

Professora, UnB

 

 

TAMBIAH, Stanley. 2002. Edmund Leach. An Anthropological Life. Cambridge: Cambridge University Press. 517 pp.

Se é viável pensar que o desenvolvimento da antropologia está vinculado à criação de linhagens intelectuais, por meio das quais autores se sucedem refinando experiências etnográfico-teóricas, então podemos apreciar um dos componentes centrais do livro Edmund Leach. An Anthropological Life. Neste trabalho de grande envergadura, Stanley Tambiah presta uma homenagem a seu principal mentor, colega e amigo, Edmund Leach, revisando em detalhe sua obra ao longo de várias décadas e permitindo ao leitor acompanhar o desenrolar conjunto da trajetória investigativa, da carreira acadêmica e das propostas teóricas desse autor. De um lado, portanto, um tributo é prestado a Leach ­ que "descobriu" Tambiah como antropólogo em Sri Lanka ­, de outro, é o próprio Tambiah que se posiciona na linhagem de seu mestre e se torna, querendo ou não, um de seus sucessores legítimos. Com um subtítulo propositalmente ambíguo (segundo o autor, definido pela própria editora, mas aceito por ele), Tambiah tanto aborda o aspecto antropológico da vida de Leach, como constrói sua biografia "antropológica".

Tambiah segue, assim, passos do próprio Leach. Em uma de suas últimas aparições públicas, Leach fez uma tocante apresentação ("Masquerade: The Presentation of the Self in Holi-Day Life"), utilizando seu conhecimento antropológico para analisar um material etnográfico sui generis: fotografias do século XIX de sua família, de "nativos" da época do colonialismo britânico e de Malinowski entre os trobriandeses. Por considerar impossível distinguir mito de história (apenas verifica que o primeiro tem implicações morais mais claras), Leach analisa as posições dos retratados, fala de chapéus, cadeiras, cenários e roupas e conclui que, como não suportamos o caos da história, forjamos cultos aos ancestrais. No seu caso, duas figuras tornaram-se seus "seres sobrenaturais": um tio-avô, retratado em várias das fotos e autor de obra monumental sobre a história dos mongóis, e Bronislaw Malinowski. (No contexto de fim da vida que se anunciava, ao criticar a distinção entre mito e história, um diálogo silencioso se estabeleceu com Lévi-Strauss, mas Leach fez sua opção explícita por Malinowski.)

É nesse exato sentido que o livro de Stanley Tambiah se torna uma homenagem e uma reflexão crítica, mas também valida uma ancestralidade. É, portanto, uma celebração, um culto antropológico cujas conseqüências não previstas reafirmam a linhagem que vai de Malinowski a Raymond Firth, deste a Leach e, incluindo o diálogo ambíguo com Lévi-Strauss, ao autor do livro. Em outras palavras, não estamos aqui diante de uma biografia clássica que relata a vida de um indivíduo reconhecido socialmente, mas de uma "vida antropológica" que se define pela não-separação entre carreira etnográfica, trajetória teórica e vida pessoal do homenageado, tanto quanto do biógrafo. Tanto para Leach quanto para Tambiah, antropologia não é algo que se faz à parte da vida cotidiana, mas é parte da trajetória do etnógrafo. Esta concepção do métier do antropólogo permeia todo o livro.

Tambiah é o narrador, o comentador e o amigo que filtra, seleciona, arranja e intermedeia o que Leach realizou em vida. Alguns trabalhos recebem mais atenção, enquanto outros apenas uma menção breve. Lê-se o livro, portanto, como o trabalho de um especialista simpático ao autor, um discípulo que dialoga com seu mestre para mostrar em que sentido este permanece uma figura fundamental no cenário da antropologia, indicando como, na disciplina, nem sempre se aplica a visão weberiana de que o bom cientista social será suplantado em uma década. Convidado pela British Academy para escrever um memorial sobre Leach logo após sua morte, Tambiah notou que, embora sempre tivesse lido livros e artigos de Leach à medida que eram publicados, não havia acompanhado de forma sistemática sua trajetória, passando a observar "extensão, continuidades, transições e transformações, experimentações e novas direções" (:xiii). Ao produzir o memorial, Tambiah percebeu que suas anotações apontavam para uma biografia intelectual.

Tambiah não se esconde, portanto, como autor da biografia. Mas sua presença, como voz ativa, é modulada ao longo do livro, variando, inclusive, em relação ao biografado. De forma abreviada, podemos notar que, embora os capítulos sejam seqüenciais, nos primeiros Tambiah mantém certa distância, própria de quem relata fatos remotos, pessoais e dos quais toma conhecimento via terceiros, em um misto de prudência e consideração. No corpo do livro, Tambiah aproxima-se e se torna interlocutor engajado: ao narrar e discutir textos de Leach, introduz novos materiais e documentos, relembra debates e, embora de forma parcimoniosa, interfere, toma partido e apresenta sua opinião. Já nos últimos capítulos, Tambiah opta por fazer o que Flaubert considerava a tarefa do biógrafo: defender o biografado. Mas o faz com delicadeza: introduz temas, hoje teórica e politicamente candentes, para contextualizar a posição de Leach, apresenta seu trabalho institucional e, coincidindo o fim do livro com o final da vida de Leach, faz aflorar a empatia na despedida de um amigo querido e, já desnecessário acrescentar, um de seus "ancestrais".

Faço um sumário do livro. Nos primeiros quatro capítulos, são apresentados os dados biográficos de Leach, um apanhado geral de suas realizações, informações sobre infância e juventude e seu aprendizado como antropólogo no contexto da Segunda Guerra Mundial. À parte o prefácio, onde Tambiah expõe sua relação com Leach, o autor guia-se por informações familiares, depoimentos de ex-alunos, entrevistas de Leach sobre sua carreira e cartas de época. Naturalmente, depoimentos, assim como trechos de entrevistas e cartas, são escolhidos e filtrados, mas o texto se lê como que delegando a familiares, ex-alunos e ao próprio Leach a autoridade de fala. O autor prima pela cautela. As informações são detalhadas tanto quanto abrangentes e, ficamos sabendo, foram autorizadas pela filha de Leach, a herdeira de seus papéis. Aqui temos, então, a descrição de como e quando Leach se "converteu" à antropologia, sua introdução ao seminário de Malinowski via Rosemary e Raymond Firth, um apanhado geral sobre as pesquisas de campo e seus interlocutores principais, detalhes sobre a personalidade de Leach como professor e seu talento como debatedor incansável de ortodoxias vigentes. Mas é aqui, também, que Tambiah mostra como certos temas que Leach desenvolve ao longo de sua carreira já eram recorrentes em sua vida desde a infância ­ o melhor exemplo é sua concepção de parentesco e organização social, fortalecida pela experiência de primeira mão sobre parentesco matrilateral e o significado dos laços bilaterais.

O tom cuidadosamente distanciado de Tambiah muda quando os temas se sucedem e se chega às posições teóricas desenvolvidas por Leach. Já estamos na página 67 quando sabemos o quanto Leach reagia à idéia de constituir uma escola e, de forma paralela, sua falta de entusiasmo por sistemas teóricos totalizadores: inconsistências e riscos eram fundamentais para seu pensamento criativo. Leach era um não-conformista, a favor da experimentação, do questionamento e do diálogo, sempre testando limites estabelecidos. Aqui, Tambiah mostra-se crescentemente engajado nas idéias de Leach como colega e antropólogo. Podemos dizer que um diálogo intelectual se estabelece, tornando, em vários sentidos, o texto mais envolvente. Leach está presente e torna-se efetivamente atual.

É este diálogo que compõe a primeira parte do corpo do livro, que identifico como os capítulos de 5 a 11. Dois são sobre a Birmânia ­ sobre Sistemas Políticos e sobre o artigo pouco conhecido, "The Frontiers of Burma". Tambiah chama a atenção para vários aspectos na obra de Leach: a dissolução da noção de "tribo", a fusão analítica das dimensões políticas, territoriais e de parentesco, a tese do "oscillating equilibrium", a relação dialética entre o sistema de idéias e o sistema "on the ground", a influência de Malinowski e Firth e o diálogo com Lévi-Strauss, a flexibilidade da sociedade kachin "real" em contraste com a rigidez da "estrutura ideal". Baseado em correspondência entre ambos, o debate entre Leach e Lévi-Strauss sobre parentesco encerra os trabalhos sobre a Birmânia. Parentesco continua sendo tema presente na discussão de Pul Elyia, no qual Leach sugere que a manifestação da conduta quantitativa (ou "estatística") possui um padrão estrutural independente de qualquer paradigma ideal, contrariando o pressuposto dos estruturalistas de Oxford. Aqui, Tambiah vê Leach como um "master ethnographer" engajado em microdetalhes, e que adota, em suas próprias palavras, uma perspectiva "idealista cum empiricista". Agora, como coda, Tambiah nos oferece o debate de Leach com Meyer Fortes e comenta, positivamente, como a tese de Leach, de que o sistema de parentesco não poderia ser visto como "a thing in itself", mas como forma de se pensar direitos e usos da terra, foi considerada intolerável pelos ortodoxos da época. Diálogos intelectuais têm continuidade no capítulo seguinte, sobre o artigo "Hydraulic Society in Ceylon", no qual Leach dialoga com Wittfogel e Marx. Já no capítulo 9, Tambiah define, discute e resenha trabalhos diretamente influenciados pelo estruturalismo de Lévi-Strauss, ressaltando "Genesis as Myth" e a coletânea sobre mitos editada por Leach.

Até aqui, Tambiah resume, avalia, comenta e introduz debates sobre trabalhos que se tornaram clássicos. Mas é no capítulo 10, dedicado à "Virgin Birth" e à controvérsia que se seguiu à sua publicação, que Tambiah se torna enfático sobre a contínua importância do trabalho de Leach. Cito no original: "Leach was trenchantly commited to the view that modern anthropology is as much about 'us' as it is about 'them'. He was also vociferous that there is no class of 'primitive societies' which can be contrasted with 'modern societies' as 'static' is to 'dynamic'." (:259). De "Virgin Birth" ele retira uma citação para mostrar o quanto Leach, ao defender uma dialética entre "nós e eles", abria a possibilidade de iluminar inclinações e competências humanas comuns: "My own prejudices go all the other way. [...] It is not only the differences between Europeans and Trobrianders which interest me, it is their similarities" (:260). Segue-se a apreciação de três artigos de influência estruturalista que indicam como Leach, na última etapa de sua carreira, se tornou mais um ensaísta que um autor de monografias.

Do capítulo 12 ao 15, Tambiah assume a postura de contextualizar e, portanto, defender a produção intelectual de Leach. Apresenta trabalhos sobre antropologia da arte e arquitetura, que o mundo acadêmico não reconheceu como parte significativa de sua obra, e ressalta, em capítulo posterior, a contribuição do autor sobre os temas da ação ritual e máscaras sociais (de "Time and False Noses" ao póstumo "Masquerade: The Presentation of the Self in Holi-Day Life"). A relação ambígua entre Leach e Lévi-Strauss e a batalha teórica sobre parentesco recebem um capítulo à parte, assim como as "Reith Lectures" de 1967, reunidas no livro A Runaway World? Finalmente, um capítulo é dedicado à discussão sobre a antropologia britânica e o colonialismo.

Dois capítulos encerram tanto o livro quanto a carreira de Leach. No penúltimo, Tambiah destaca o trabalho institucional de Leach, os vários cargos administrativos que ocupou, as realizações que fomentou, além das características da combinação ­ discutida pelo próprio biografado ­ entre contestador intelectual e membro do establishment inglês. O último capítulo refaz o final da carreira de Leach, apresenta seus artigos de memórias, confissões, reminiscências e reflexões, instigantes por serem histórias do passado contadas por um narrador que conhecia bem as propriedades míticas, as ambigüidades e os usos contextuais tanto de "mitos" quanto de "histórias".

Nascido em 1910, Leach faleceu no início de 1989, depois de longa doença. Tambiah relembra, nas últimas páginas do livro, os dias finais de Leach. Em trecho comovente, relata seu contato silencioso com um Leach já sedado, mas que retinha uma vitalidade que se sentia no calor de suas mãos. Na cerimônia funerária singela, como queria Leach, não foi possível evitar a procissão solene da capela do King's College ao portão de saída, cuja ordem, Tambiah comenta, Leach ­ o observador de rituais ­ teria antecipado: o caixão, a família, o Provost, o Vice-Provost, convidados e fellows por ordem de importância. Aqui, como implicitamente em todo o livro aliás, a biografia de um se torna, em parte, autobiografia do outro.

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