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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.13 n.1 Rio de Janeiro abr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132007000100012 

RESENHAS

 

 

Francirosy Campos Barbosa Ferreira

Doutoranda em Antropologia – USP

 

 

PACE, Enzo. 2005. Sociologia do Islã: fenômenos religiosos e lógicas sociais. Petrópolis: Vozes. 364 pp.

Pode-se estudar o Islã tomando como ponto de partida uma abordagem sociológica? (Pace 2005:7).

A questão de Enzo Pace, professor de Sociologia das Religiões na Universidade de Pádua e presidente da International Society for Sociology of Religion, diz respeito ao que intriga muitos pesquisadores do Islã: "o Islã, salvo raras exceções, ainda não se tornou um objeto de estudo sociológico no sentido pleno" (:7). No tocante à antropologia, este argumento também é real, principalmente quando pensamos na antropologia no Brasil, muito embora, atualmente, sejam mais numerosos os pesquisadores sobre o Islã e os muçulmanos na antropologia do que na sociologia.

O primeiro valor que atribuo ao livro Sociologia do Islã diz respeito ao fato de que ele amplia de modo significativo o que conhecemos sobre a religião islâmica e seus seguidores. Seu segundo valor corresponde aos acontecimentos que vivenciamos no mundo atual, que associa o Islã a qualquer episódio negativo. Nesse sentido, o livro é esclarecedor e apresenta um Islã desconhecido por muitos.

O livro, através de suas 364 páginas, traz ao leitor temas recorrentes aos pesquisadores e aos estudiosos do assunto: a vida do Profeta, a sua sucessão, a experiência religiosa e a tipologia organizacional no Islã, entre outros. A narrativa está dividida em três partes e sete capítulos; a primeira delas diz respeito às questões do surgimento da religião (universo simbólico-religioso); a segunda apresenta a tipologia organizacional e coloca em foco o Islã em relação às instituições – a Igreja, por exemplo; a última volta-se para as questões da realidade moderna e contemporânea, segundo palavras do autor.

Pace assume a vertente weberiana no seu trabalho. Em alguns momentos incomoda o uso de "tipologias", pois parece construir um mundo islâmico estanque, mas em outros suaviza o texto com os elementos simbólicos extraídos do cotidiano desse povo. Se analisarmos do ponto de vista dos iniciantes da sociologia/antropologia, o livro lhes servirá como uma luva no tocante à aplicação da teoria weberiana, assim como foi Observando o Islã, de Clifford Geertz, para a antropologia. Estes autores, em tempos diferentes, falam de um Islã a partir da perspectiva do método compreensivo de Weber – o de buscar no passado elementos para se compreender o presente – não só para o entendimento desta mesma teoria weberiana, mas para adentrar o mundo islâmico e suas regras.

As indagações produzidas pelo autor dão conta de um universo, ou nas palavras dele, de "um mapa cognitivo que orienta o comportamento social dos fiéis do Islã (experiência, prática, sistema de crença, sentimento de pertença, formas de participação militante etc.)". É instigante a maneira abrangente e orientadora com a qual ele desenvolve o livro.

O primeiro indício de sua aproximação com a teoria de Max Weber é a associação da figura do Profeta a de um líder carismático, justificando que no Islã religião e política tendem a se unir. A citação do texto de Weber na página 61 é apropriada, pois revela ainda mais o papel do Profeta não só como transmissor da Palavra religiosa, mas também na organização social da comunidade: "A comunidade [...] surge no caso da profecia, em geral, como produto de uma transformação em prática cotidiana, enquanto o profeta ou seus discípulos querem assegurar a continuidade da revelação e da dispensação da graça, e querem, por isso, organizar de modo estável a existência econômica da dispensação da graça e daqueles que a administram [...]."

Não consta que Pace tenha feito pesquisa de campo, entretanto, utiliza as inúmeras obras produzidas sobre o Islã para contextualizar a religião e suas regras. Fala de um Islã no plural, deixando transparecer as tênues diferenças entre sunitas, xiitas e sufis (:101). Percebe-se que o autor procura apresentar um leque de possibilidades de compreensão do fenômeno religioso islâmico e não de casos particulares. Quando trata da temática sobre a mulher no Islã, por exemplo, apenas pontua para dizer da sua exclusão em papéis políticos. Se o leitor se interessar por esta temática, ele indica a leitura do texto de Fátima Mernissi.

Pace aponta caminhos para uma boa leitura sobre os dogmas islâmicos e sua aplicação de forma genérica, mesmo não aprofundando determinados tópicos; talvez isto não seja possível, sabendo-se da profundidade do objeto. É cabível entender a fé e a prática islâmicas, a importância das orações e da recitação do Alcorão, assim como o papel do Profeta para os muçulmanos.

Sobre a tipologia organizacional no Islã, o autor afirma que: "[...] é possível estudar o Islã, segundo o mesmo padrão das outras grandes religiões, como uma progressiva construção de uma linha autorizada de crenças que tem como ponto de partida uma originária "revelação" ou experiência religiosa individual que uma figura como Muhammad realiza e transmite ao primeiro grupo de seguidores. A "revelação" pode ser entendida em termos sociológicos como gramática gerativa de pensamentos, emoções, gestos, regras de conduta, estilos de vida, diretrizes sociais e políticas que aos poucos se vão sedimentando nos comportamentos individuais e coletivos ao longo dos séculos" (:160-161).

É no capítulo 5 que a inspiração do autor torna-se mais explícita: "A ética econômica no Islã" nos remete diretamente à "Ética protestante e o espírito do capitalismo". Para Weber, segundo Pace, o Islã desenvolve uma ética econômica, expressão de um estamento de nobres guerreiros que transforma gradualmente a mensagem religiosa profética em um sistema de regras sociais e políticas funcionais para a construção de uma ordem social estável (:201). No entanto, o autor chama a atenção para o fato de que no Islã o que vigora é o princípio ascético – o compromisso no mundo, ao qual todo muçulmano é convocado por sua fé. Nesse sentido, o Islã coloca no ápice o bem comum e afasta todas as ações de tipo econômico que visam alcançar um proveito egoístico. Cabe dizer que um dos pilares do Islã é o Zakat (caridade), que consiste em doar todos os anos 2,5% da renda pessoal.

O Islã estabelece um código de conduta, que é o próprio Alcorão. Para os sunitas, além do Alcorão, a Suna, na qual os hadiths ditam o comportamento do Profeta e de seus ditos. A Shari’a é a lei islâmica que rege o comportamento e nela os sábios vão buscar fundamentação para qualquer tipo de conduta: alimentação, vestuário, casamento, sexo, prática religiosa etc. Os acontecimentos históricos fizeram com que as religiões, como o cristianismo e o judaísmo, separassem a ordem religiosa da econômica, mas isto não ocorreu no Islã, pois ainda hoje os empréstimos bancários a juros são proibidos e, portanto, é formalmente vedada a especulação financeira."Quem empresta dinheiro a uma outra pessoa e recebe de volta o montante que emprestou mais uma taxa de juros sabe que está procedendo contra a Lei corânica" (:211).

Pace também esclarece a retomada que os teóricos do Islã tentam fazer a partir da idéia de que o Islã entrou em decadência. O primeiro deles, al-Wahhab, pensador árabe, propõe a volta às fontes puras da religiosidade islâmica; esse pensador dá origem a um movimento puritano bem-sucedido no entender de Enzo Pace. O rigor de tal pensamento pode ser encontrado basicamente na Arábia Saudita, inspirando o que conhecemos hoje por wahhabitas.

Outro movimento seria o da Associação dos Irmãos Muçulmanos, fundado por Hasan al-Banna, que carrega a idéia de reformismo e de protofundamentalismo como expõe Pace (:254). A idéia proposta é a de que a arte do movimento possa ter acesso ao poder e imponha um modelo de Estado, inspirado na Lei alcorânica, a partir de um poder popular ramificado dos bairros das grandes cidades aos pequenos povoados.

Dois pontos são importantes e devem ser ressaltados do texto de Pace. O primeiro: a idéia de que se tornou impróprio, dos pontos de vista histórico e geográfico, associar o Islã ao mundo árabe. O segundo: a idéia de que a religião islâmica é una e plural ao mesmo tempo. É possível constatar esta afirmação observando os números sobre a concentração de muçulmanos. A maior concentração encontra-se hoje na Ásia (Indonésia, Paquistão e Bangladesh) e na África Negra (Mali, 80%; Senegal, 86%; Níger, 85%; Guiné, 80%; Somália, 90% etc.).

De acordo com tabela apresentada na página 286, a distribuição de muçulmanos no mundo, em 1993, era a seguinte: Ásia, 800 milhões; África, 255 milhões; Europa, 15 milhões; América, 6 milhões; Oceania, 0,3. Isto corresponde a um total de 1.076.300 bilhão. Só para ilustrar, nos EUA, segundo estudo da BBC News, há 1.200 mesquitas e 6 milhões de muçulmanos (:316). Os números nos ajudam a compreender o crescimento do Islã, muito embora Tietze (2002:7) apud Pace (2005:314) afirme que: "[...] ser muçulmano, hoje, na França ou na Alemanha, não obedece a um programa preciso, a uma prática religiosa coerente ou a uma subordinação a uma comunidade religiosa que impede a expressão individual [...]".

O que é possível constatar é o crescimento do Islã no mundo; impossível mesmo é saber o quanto. Isto até mesmo aqui no Brasil, pois esbarramos com vários marcadores que nem sempre apresentam o número correto ou aproximado. No entanto, a preocupação de Pace é apresentar este Islã plural, com suas contradições, certezas e modos de estabelecer um ethos religioso.

Deve-se concluir que o Islã não é árabe, é mundial, e os próprios números – errados ou não – apresentam bem essa realidade. Hoje, no Islã, há outras línguas faladas. A língua árabe ficou restrita às orações e, quando estas são realizadas, o plural vira uno, ou umma, como assim estabelecem os muçulmanos.

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