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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.14 n.1 Rio de Janeiro abr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132008000100009 

ARTIGO BIBLIOGRÁFICO

 

O filósofo e os Crow

 

 

Adam Kuper

Professor da Universidade de Brunel, Grã-Bretanha. E-mail: Adam.Kuper@brunel.ac.uk

 

 


RESUMO

A partir da análise dos livros Radical hope: ethics in the face of cultural devastation, de Jonathan Lear e Plenty-Coups: chief of the Crows, de Frank Bird Linderman, este artigo propõe uma reflexão acerca da noção de "perda cultural", amplamente difundida no senso comum.

Palavras-chave: "Perda cultural", Crow, "Invenção da tradição"


ABSTRACT

Taking its inspiration from an analysis of the books Radical hope: ethics in the face of cultural devastation, by Jonathan Lear, and Plenty-Coups: chief of the Crows, by Frank Bird Linderman, this article explores the now commonplace notion of "cultural loss".

Key words: "Cultural Loss", Crow, "Invention of Tradition"


 

 

"Parece que nos damos conta de uma vulnerabilidade compartilhada que não sabemos exatamente como nomear", afirma Jonathan Lear (2006:7). Para caracterizar esta ansiedade ambiente, esta "assustadora sensação de ameaça", ele cita a preocupação com ataques terroristas e com desastres ecológicos, que de fato inquietam a todos nós, mas admite que somos particularmente acometidos por um medo — um medo inominado — de que um dia possamos vir a perder algo mais, algo muito precioso: nossa cultura, nosso sentido mesmo de identidade coletiva, ou algo assim. "Talvez, se pudéssemos dar um nome para nossa sensação de vulnerabilidade, ficaria mais fácil encontrar modos de conviver com ela" (2006:7), reflete.

Embora o professor Lear seja filósofo e psicanalista, adota a perspectiva segundo a qual "a única maneira de investigar essa notável possibilidade humana é localizá-la na tessitura de seu contexto histórico" (2006:8). Isto faz sentido. Sua escolha de estudo de caso é, no entanto, certamente excêntrica: aquilo que ele chama a "devastação cultural" sofrida pelos índios Crow na segunda metade do século XIX. Não que ele tenha pesquisado muito sobre a história dos Crow. De fato, sua meditação sobre o fim da cultura se prende — inseguramente — a duas passagens de um livro popular compilado por Frank Bird Linderman sob o título American: the life story of a great indian, Plenty Coups: chief of the Crows.1

Linderman era um jornalista experiente e um veterano da política estadual. Em 1930, quando estava indo ao encontro do presidente Coolidge e do governador de Nebraska para participar de uma excursão de pescaria, desviou-se com o intuito de passar pela reserva crow em Little Big Horn (estado de Montana). Lá, esperava ter uma entrevista com um chefe ancião chamado Plenty Coups, que representara os índios norte-americanos na cerimônia de inauguração do túmulo do soldado desconhecido, no cemitério de Arlington, em 1921. Na ocasião, com um esplêndido gesto de efeito teatral, que talvez não tenha sido por idéia própria, Plenty Coups depositou no santuário seu cocar de guerra e seu tacape — ato que o repórter do New York Times descreveu como "um dos pontos de maior destaque em uma cerimônia que foi toda ela notável" (1921:1-2).

Na época da visita de Linderman, o homem a quem chamou de "chefe dos Crows", "um grande índio" e um "americano" já era octogenário e bastante cônscio de sua imagem pública. Não muito antes, ele havia doado sua cabana e sua fazenda ao governo federal para que se tornassem um parque nacional, idéia que lhe ocorreu segundo disse a Linderman, durante uma visita à casa de Washington em Mount Vernon. Curiosamente, porém, o livro de Linderman termina num momento em que o índio ainda é um jovem guerreiro. O autor explica que Plenty Coups tornou-se posteriormente amigo dos americanos — e, de fato, também tornou-se cidadão americano — mas registra pouca coisa a respeito de sua preeminente carreira na política local.

No livro, a primeira passagem a chamar especialmente a atenção de Lear reporta-se à seguinte conclusão abrupta:

Plenty Coups recusou-se a falar do que aconteceu em sua vida depois do desaparecimento dos búfalos. Sua história parece portanto interrompida, muitos anos tendo ficado sem relato. "Não contei a você metade do que aconteceu quando eu era jovem", ele disse quando instado a continuar. "Posso rememorar e contar muito mais sobre guerra e roubo de cavalos. Mas quando os búfalos se foram, os corações do meu povo desmoronaram, e não foi possível reerguê-los. Depois disso, nada aconteceu. Em todos os lugares, pouco se cantava". "Além disso", acrescentou com pesar, "você conhece essa parte da minha vida tão bem quanto eu. Você viu o que aconteceu conosco quando os búfalos se foram" (Linderman 1962 [1930]:169).

A primeira terça parte do livro de Lear é amplamente dedicada à análise dessas palavras, em especial da frase depois disso, nada aconteceu. "Não posso ter a pretensão de afirmar com segurança o que Plenty Coups realmente quis dizer" (2006:5), admite Lear. Especula, no entanto, que o significado seria o de que após o desaparecimento dos búfalos e a extinção do velho modo de vida, nada mais parecia fazer sentido, ao menos dentro do universo moral dos Crow.

Mas foi de fato Plenty Coups quem pronunciou esta frase tão carregada de significado? Lear comenta que "as palavras que me causam espanto não são parte da história de Plenty Coups, embora venham de sua boca" (2006:2). Isto, no entanto, é questionável. A asserção de que Linderman estava "intimamente associado com os Crow" é enganadora. Ele certamente não falava a língua crow. Asseverava que podia comunicar-se em linguagem de sinais (embora admitindo que não tinha fluência neles), mas trouxe consigo um intérprete para a primeira entrevista com Plenty Coups. Este último falava inglês, mas não fica bem claro com que fluência. Linderman não tinha gravador; a transcrição e a tradução das falas de Plenty Coups teriam de ser, necessariamente, aproximativas, e o pesquisador deve tê-las editado consideravelmente. Consciente, por certo, de que poderiam surgir dúvidas quanto à autenticidade, ele arrematou o livro com a seguinte declaração de endosso por parte de Plenty Coups: "Estou feliz por ter contado essas coisas a você, Gesticulador. Você sentiu meu coração, e eu, o seu. Sei que você só vai contar aquilo que eu disse, que será reto em sua escrita como é na fala, e assinarei o papel com meu polegar, para que o seu povo e o meu saibam que eu lhe contei as coisas que você anotou" (Linderman 1962 [1930]:168).

Talvez tenha sido assim. Há, porém, motivos para crer que a passagem que obcecou o professor Lear tenha sido arranjada pelo próprio Linderman. Ele já havia publicado anteriormente um romance autobiográfico, extraído de sua experiência como jovem caçador de peles nas pradarias, no fim do século XIX. Em 1930, crescia o interesse pelo Velho Oeste "selvagem", e Plenty Coups era uma fonte esplêndida de histórias sobre a vida do outro lado da fronteira. Mas sua trajetória posterior — na política tribal, como comerciante e como cristão — não tinha tanto encanto. Há boas razões comerciais para o fato de o livro de Linderman ser em grande parte composto por agitadas narrativas sobre as investidas de Plenty Coups contra os Sioux, entremeadas por rápidas passagens de misticismo. Pode-se avaliar por que Linderman teve de fazer a biografia encerrar-se — assim como o romance autobiográfico — quando o Velho Oeste se transformou. Mas talvez ele sentisse que era preciso dar alguma explicação. Em uma nota do autor, no final do livro, ele pôs na boca de Plenty Coups uma desculpa: "Depois disso, nada aconteceu" (Linderman 1962 [1930]:169).

Pode até mesmo ser que nem Linderman nem Plenty Coups fossem os autores dessas palavras. Em 1919, um chefe crow, contemporâneo de Plenty Coups, o velho guerreiro Two Leggings, começou a ditar sua história a um homem de negócios e etnólogo amador, William Wildschut.2 O ponto alto era a narrativa de uma incursão que ele chefiara contra os Sioux, em 1888, provavelmente a última incursão contra os velhos inimigos. "Nada aconteceu depois daquilo", comentou Two Leggings. "Nós simplesmente vivíamos. Já não havia expedições de guerreiros, nem captura de cavalos dos Piegans e dos Sioux, nem caçadas de búfalos. Não há mais nada a contar" (Nabokov 1967:197). Será que Linderman plagiou o manuscrito de Wildschut, pondo na boca de Plenty Coups as palavras de Two Leggings? Ou a frase "nada aconteceu depois" era um tropo narrativo convencional dos Crow? São especulações, mas que merecem atenção. A crítica das fontes deve preceder a leitura cerrada.

Seja o que for que Plenty Coups tenha querido dizer ao declarar o fim da história, se é que o fez, Lear também lhe atribui uma visão poética de um futuro em que os Crow se recomporiam. O texto-chave, aqui, é o relato de um sonho de Plenty Coups quando era um menino de sete ou oito anos (embora em outra ocasião Plenty Coups tenha dito que o sonho se deu quando tinha 20 anos). Jejuando e vagando pelo deserto, sonhou que os búfalos haviam desaparecido das planícies e que em seu lugar viera o gado bovino. Foi levado à tenda do sábio Chickadee,* que ouve e raramente fala. "Desenvolva o corpo, mas sem descuidar da mente", disse-lhe seu guia em sonho. "É a mente que conduz um homem ao poder, não a força do corpo" (Linderman 1962 [1930]:37). Quando o menino contou esse sonho a um grupo de anciãos, alguns interpretaram que os Crow deveriam abandonar a caça aos búfalos e tornar-se criadores de gado, e que Plenty Coups viria a ser um grande líder.

Entre os índios das planícies norte-americanas, todo líder, para se tornar um homem influente, precisava antes de mais nada sair em busca de uma visão. O significado da visão, contudo, é objeto de negociação. Lear admite que o sonho (ou sonhos) de Plenty Coups possa ter sido revisto no curso das discussões públicas e reconfigurado em vários contextos durante os oitenta anos seguintes. Ele não nega, além disso, que o sonho tenha sido montado/editado para ser transmitido a Linderman (sem no entanto dar-se conta que este último também pode ter feito seus remendos por conta própria). Não obstante, Lear está convicto de que "a tribo tomou o sonho como chave para os desafios que tinha de enfrentar... Ela explicitamente reconheceu, em um conselho oficialmente reunido, que o modo de vida da caça aos búfalos estava chegando ao fim e decidiu aliar-se ao homem branco contra seus inimigos tradicionais" (2006:73).

Isto não é plausível. Os chefes crow até podiam gozar de considerável influência — especialmente se apoiados por funcionários federais — mas nenhum líder podia simplesmente passar adiante suas decisões, quanto mais impor a visão de um modo de vida inteiramente novo. Além disso, os políticos crow eram pragmáticos. Tinham de negociar com os funcionários da Agência Indígena (Indian Agency); ouviam o que pensavam os invernistas e missionários que passavam pela reserva; tinham contato com outros índios e aprendiam das experiências destes últimos. As grandes decisões eram então trabalhosamente obtidas em reuniões abertas. Seria loucura da parte deles apostar o futuro na visão de uma criança.

Lear faz uma afirmação suplementar e ainda mais radical a favor da visão de Plenty Coups. Ele pensa que os Crow sofriam de déficit de razão prática devido ao fato de seus antigos valores terem perdido o significado. Nos velhos tempos, "na vida tradicional dos Crow, tudo contava como caça ou luta, ou como preparativo para caçar e lutar", segundo Lear (2006:40; ênfase no original). Agora, caça e luta haviam sido banidas. Nos velhos tempos, a virtude fundamental dos Crow era a coragem. O expoente ideal de coragem era o jovem e bravo guerreiro. A medida da coragem estava na obtenção de tacapes, conseguidos nas incursões de pilhagem contra o inimigo. Qual o significado da coragem quando os jovens já não podiam caçar búfalos e lutar contra os Sioux? Lear acredita que os Crow "perderam os conceitos com que elaboravam uma narrativa" (2006:32). Nessa situação terrivelmente aflitiva, o sonho de Plenty Coups "transmitia um ideal que podia ajudar a tribo a suportar um período de devastação conceitual" (2006:78-9).

Embora não fossem anteriormente conhecidos como guerreiros, os Crow de fato desenvolveram um culto aos guerreiros em meados do século XIX, quando estavam em guerra com os Sioux. Mas mesmo no auge da influência das sociedades guerreiras, nas décadas de 1850 e 1860, os jovens bravos eram estritamente controlados pelos mais velhos, e as demonstrações de coragem seguiam convenções que minimizavam as atitudes negligentes. O antropólogo Robert Lowie, que estudou os Crow durante trinta anos, no início do século XX, e coletou centenas de textos sobre a guerra, observou que os bravos aspiravam a uma vida longa. Os homens procuravam não chamar atenção sobre si quando voluntários para missões perigosas eram selecionados. Ele também notou que os guerreiros crow consideravam mais meritório dar uma pancadinha com o tacape no inimigo do que matá-lo. Na verdade, estes objetos eram geralmente obtidos para com eles tocar no guerreiro inimigo ou em seu cavalo. "Claramente, a idéia não era, em princípio, submeter uma força hostil, mas fazer a performance de uma ‘proeza’, jogar um jogo segundo regras extravagantes", escreveu Lowie (1935:228). "De fato, o golpe com o tacape era interpretado de maneira tão convencional, que em geral não tinha absolutamente nenhuma relação com a verdadeira bravura"(idem:228).

Lear rejeita sem hesitação o relato de Lowie. Ele insiste que o ato de fincar o tacape na terra significava arriscar a vida para defender o território. Na época moderna, os Crow acreditavam que "ao fincar os tacapes e ao contar os golpes, eles tentavam proteger o espaço em que suas vidas poderiam florescer" (Lear 2006:21). Segundo Lear, ao deixar seu próprio tacape de guerra no túmulo do soldado desconhecido, no cemitério de Arlington, Plenty Coups** deu testemunho "de uma perda que não é em si mesma um acontecimento, mas a dissolução daquilo em termos do que os acontecimentos se dão" (2006:38). Talvez seja assim, mas bem que algumas evidências a este respeito teriam vindo a calhar...

A história dos Crow é apresentada por Lear como um conto com moral, a história do fim catastrófico de uma cultura, que se redime graças à visão de um homem sobre como algo pode ser salvo da ruína. Esta linha narrativa simples inspira muitos programas populares de televisão, mas não é suficiente, não é boa como base histórica sólida para a reflexão filosófica. De fato, o tema central do belo livro de Frederick Hoxie sobre a recente história dos Crow é "a surpreendente sobrevivência de uma comunidade indígena cujo desaparecimento vinha sendo previsto durante mais de um século" (Hoxie 1995:3).

Divididos em dois grupos principais que contavam com cerca de 3.500 a 4.000 pessoas, os Crow ainda caçavam búfalos e rechaçavam os Sioux em 1848, quando Plenty Coups nasceu. No entanto, esse modo de vida seria irreconhecível para seu avô. Originalmente agricultores, os bandos crow saíram do rio Missouri nos anos 1770 e foram para as Montanhas Rochosas, onde começaram a capturar castores para o comércio de peles. Nos anos 1830, passaram para a caça de búfalos, montados em cavalos (ainda uma novidade para os índios das planícies) e usando armas adquiridas de intermediários franceses e espanhóis ao longo do curso do Missouri. Tal adaptação durou apenas uma geração, mas os efeitos colaterais dos grandes deslocamentos de colonos brancos para o Oeste foram sentidos quase imediatamente pelos Crow. Como os demais índios das planícies, eles sofreram terríveis baixas durante todo o século XIX, devido à varíola e ao cólera, apesar de o Departamento de Assuntos Indígenas ter realizado campanhas generalizadas de vacinação a partir dos anos 1830. Os Crow e outras pequenas tribos das planícies também sofriam cada vez mais a pressão dos bandos sioux, os principais caçadores e vendedores de peles das pradarias. A partir de meados dos anos 1820, os Sioux começaram a ocupar a mais rica área de caça das vizinhanças das Montanhas Rochosas. Caçado em quantidades excessivas, o búfalo começou a rarear. Assediada pelas doenças, pelos ataques dos Sioux e por privações econômicas, a população crow estava praticamente reduzida à metade nos anos 1850, época em que um homem branco instruído, habitante da fronteira, previu a extinção total desse povo. Alguns anos depois, os Crow remanescentes foram impelidos a buscar refúgio nas montanhas.

Nessas circunstâncias, vários bandos crow — como outras pequenas tribos das planícies — começaram a tentar estabelecer alianças com os brancos, cujos costumes já tinham se tornado mais familiares. Quando Linderman perguntou a Plenty Coups se ele alguma vez já havia feito fogo friccionando gravetos, o velho sorriu: "O fósforo é uma coisa maravilhosa. Nunca acendo meu cachimbo ou faço fogo com um palito de fósforo sem lembrar de quando o único modo que conhecíamos era usando sílex e aço, que também nos foi transmitido pelo homem branco", disse (Linderman 1962 [1930]:43). Os guerreiros crow foram batedores do exército dos EUA quando este se voltou contra os Sioux. O próprio Plenty Coups serviu junto ao general George Crook em um embate decisivo, a batalha de Rosebud Creek, em junho de 1876. "Quando lutei contra eles ao lado do homem branco, não foi por gostar dele ou por odiar os Sioux e os Cheyenne", disse a Liberman, "mas porque percebi que era a única maneira de preservarmos nossas terras" (Linderman 1962 [1930]:43).

Essa estratégia deve ser considerada bem-sucedida, se levarmos em conta o destino dos Crow comparado ao de outros índios das planícies. Em 1884, os Crow foram alocados em uma reserva relativamente extensa em Little Big Horn, em Montana. Alguns chefes queriam continuar a caça ao búfalo. Outros, entre os quais o jovem Plenty Coups, incitaram os Crow a passar para a criação de gado, a converter-se ao cristianismo e a mandar os filhos para a escola. "Quando eu tinha 40 anos, percebi que nossa terra estava mudando rapidamente e que essas mudanças nos faziam viver de um modo muito diferente", disse Plenty Coups a Linderman. "Decidimos ter boas relações (com os brancos) apesar de todas as mudanças que traziam" (Linderman 1962 [1930:124). A população crow começou a renascer. Adotou-se o cristianismo, mas ao modo dos Crow, combinando-o com elementos do culto do peiote, difundido a partir do Novo México. Até os anos 1930, a maioria dos Crow falava apenas a própria língua e havia logrado preservar boa parte de seu território. Plenty Coups fez parte de delegações crow à capital, Washington, conseguindo rechaçar tentativas da legislatura de Montana no sentido de abocanhar parte de suas terras. Ele era a favor do uso comunitário, que reforçava o poder do chefe, mas uma de suas prioridades era garantir que os Crow pudessem alugar terra de pasto a alguns criadores brancos privilegiados. O coroamento da política adotada pelos Crow foi a passagem do Crow Act, sancionado como lei em 1920, e que lhes concedia relativa autonomia e segurança em suas próprias terras. Mais ou menos nesta época, porém, Plenty Coups e seus contemporâneos foram substituídos por uma nova geração de líderes, favoráveis à posse individual da terra. O gesto dramático junto ao túmulo do soldado desconhecido foi como uma saída triunfal de cena. Pouco tempo após a visita de Linderman, Robert Yellowtail, o líder dos jovens Shorthairs (literalmente, Cabelos curtos) tornou-se não só o primeiro chefe inconteste dos Crow como também o primeiro superintendente indígena da reserva (tendo falecido em agosto de 2006, ao 98 anos).

Um monumento à Resistência Final de Custer foi construído próximo à velha cabana de Plenty Coups, nas terras que doou ao governo federal. Na direção oposta, é possível ver o próspero Cassino de Little Big Horn (local da derrota de Custer) construído e controlado pela nação crow. Sem dúvida, pode-se aqui apresentar toda sorte de moral da história. Lear, pessoalmente, se digladia com a natureza da "tradição", tomando como texto a reintrodução da dança do sol.

Missionários e funcionários da Agência Indígena tentaram extinguir a dança dos Crow, mas em 1941 uma delegação desse povo visitou os Shoshonis, de Wind River (estado de Wyoming) para aprender os rituais da dança do sol, que fora realizada pela última vez entre os Crow em 1875. Lear pergunta: "Isso é manutenção ou reintrodução de uma tradição? — ou o nome ‘tradição’ está sendo invocado para inventar um novo ritual? Não cabe a mim responder — é uma tarefa para os poetas crow, e para os líderes e seus seguidores. Mas posso dizer que Plenty Coups legou-lhes os recursos para revigorar a tradição genuína" (Lear 2006:152).

Esta é uma terrível saída pela tangente. Além do mais, abala a tênue justificativa do livro como um todo. Se só os Crow podem avaliar o que lhes aconteceu, o que podemos extrair de sua história? Ademais: se o ponto de vista dos Crow é o decisivo, deve ser retratado de um modo bem mais complexo e nuançado. Poetas, líderes e seguidores crow provavelmente têm idéias bem diversas sobre tradição. Lear poderia ter refletido, por exemplo, sobre um incidente que Linderman relata em livro posterior, Pretty-shield: medicine woman of the Crows3 (Pretty-shield, curandeira dos Crow). Em certo momento durante a entrevista com Pretty-shield, o neto desta última aparece vestido de Drugstore cowboy.*** Pretty-shield fica desapontada, porém resignada.

De qualquer modo, Lear não deixa de retirar daí sua própria moral da história, que traz nítidos ecos da política de Burke — se é que não de sua prosa. "Assim, embora Plenty Coups propugnasse um novo modo de vida para os Crow, estava vibrantemente recorrendo, de vários modos, ao passado. Portanto, penso que é plausível afirmar que Plenty Coups ofereceu aos Crow um modo tradicional de seguir adiante" (Lear 2006:154; ênfase no original). Talvez isso ajude, se aquilo de que sofremos seja — embora não possamos nomeá-lo — a escassez de tradição. Se não for o caso, é claro que tal não se aplica.

 

Notas

1 Originalmente publicado em 1930 e republicado pela editora da Universidade de Nebraska em 1962, sob o título Plenty Coups, chief of the Crows. A nova edição ainda se encontra disponível e traz um ensaio de Linderman, que descreve seu encontro com Plenty Coups.

2 Uma versão editada do manuscrito de Wildschut foi publicada em Nabokov 1967.

3 Reeditado pela University of Nebraska Press em 2003.

 

Referências bibliográficas

HOXIE, Frederick E. 1995. Parading through history: the making of the crow nation in America 1805-1935. Cambridge: Cambridge University Press.         [ Links ]

LEAR, Jonathan. 2003. Pretty-shield: medicine woman of the crows. Lincoln: University of Nebraska Press.         [ Links ]

________. 2006. Radical hope: ethics in the face of cultural devastation. Massachusetts: Harvard University Press.         [ Links ]

LINDERMAN, Frank Bird. New York Times, 12 de novembro de 1921, pp. 1-2.         [ Links ]

________. 1962 [1930]. Plenty-Coups, chief of the Crows. Lincoln: University of Nebraska Press.         [ Links ]

LOWIE, Robert. 1935. The crow indians. New York: Holt Rinehart.         [ Links ]

NABOKOV, Peter. 1967. Two Leggings: the making of a crow warrior. New York: Thomas Y. Crowell.         [ Links ]

 

 

Recebido em 15 de outubro de 2007
Aprovado em 22 de outubro de 2007

 

 

Tradução de Amir Geiger
* [N.T.]. Chickadee é um pequeno pássaro (família dos parídeos, gênero Parus) de canto característico, cuja cabeça é bem mais escura que o resto do corpo. Uma de suas espécies tem a característica de poder ficar intencionalmente durante horas em estado de torpor.
** [N.T.]. Quanto ao nome do chefe crow: em inglês, plenty = "muitos", e coups (do francês) = "golpes"; note-se que o tacape de guerra é designado em inglês como coup stick, literalmente "vara/bastão para golpear", e o costume de contar os golpes desferidos como marca reconhecida de bravura, counting coups.
*** [N.T.]. Drugstore cowboy, literalmente, algo como "caubói de (drogaria ou mercadinho da) esquina", usado derrisoriamente em referência a quem se veste supostamente como um caubói, sem o ser.

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