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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.14 n.1 Rio de Janeiro abr. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-93132008000100011 

RESENHAS

 

 

Nicole Soares Pinto

Mestranda PPGAS/UFPR

 

 

GORDON, César. 2006. Economia selvagem: ritual e mercadoria entre os Xikrin-Mebêngôkre. São Paulo/ Rio de Janeiro: Editora da Unesp, ISA e NUTI. 452pp.

Economia selvagem é um livro necessário. Principalmente porque consegue, satisfatoriamente, dissipar o clássico fantasma da não-contemporaneidade entre o nativo e o pesquisador ao abordar uma sociedade indígena na sua relação com o mundo dos brancos sem, no entanto, apelar para o discurso um tanto militante da resistência cultural. César Gordon faz isso explicando o desejo dos Xikrin-Mebêgôkre por dinheiro e mercadorias através de sua lógica tradicional de significação da alteridade. O autor demonstra que, antes de ser objeto de um passado absoluto, a tradição mebêngôkre de valorização dos nekréts –objetos com poderes sociais de atribuição agentiva, constituintes da pessoa mebêngôkre — permaneceu, mas modificando-se. Isto porque agora são atribuídas ao dinheiro e às mercadorias essas mesmas capacidades "nékréts", resultado da inflexão pela contingência histórica em relação aos princípios gerais de funcionamento do maquinário reprodutivo mebêngôkre.

Visualiza-se, portanto, uma transformação estruturalmente balizada de um sistema de processamento da alteridade. A importância dessa asserção reside no fato de que, ao demonstrar uma continuidade sociocosmológica no modo de relação com a alteridade que agora opera na conexão entre os brancos e os seus objetos, dissipam-se quaisquer explicações que tratam desse fenômeno através de uma lógica utilitarista ou naturalizante, segundo a qual o interesse indígena por mercadorias é imediato e instrumental ou, ainda, proveniente de uma dependência contraída à revelia de sua vontade.

Gordon realizou pesquisa de campo no Xingu, entre os Xikrin do Cateté. Estes são mais ou menos em número de 900, falantes da língua mebêngôkre, família Jê. Compartilham com os Mebêngokre uma mesma origem e certas características socioculturais, como metades sociológicas; aldeias circulares dispondo de um anel de casas e um centro cerimonial; grande investimento na vida ritual — congruente com a perspectiva do se fazer ver; divisão da coletividade em "turmas", grupos de produção masculinos que podem se manifestar como facções políticas; e importância da classificação etária.

O Cateté, porém, guarda uma característica específica. É um local onde a presença e a afluência de mercadorias é enorme, haja vista os suntuosos aportes financeiros provenientes do convênio com a empresa de exploração mineral Companhia Vale do Rio Doce. Este fato forçou Gordon a redirecionar sua pesquisa pois, se no primeiro momento intentava estudar o sistema de alianças, surpreendeu-se ao constatar que os Xikrin alçavam a um plano importante da existência a sua relação com os bens dos brancos. Ao mesmo tempo, falavam e agiam em termos de tradição e mudança. O autor (re)definiria então os seus objetivos de pesquisa da seguinte maneira: entender o que faz os Xikrin desejarem os objetos produzidos pelos brancos, as suas significações e quais as implicações da entrada desses objetos para o modo xikrin de produção social. Para tal, o autor propõe uma análise diacrônica de um tema importante da etnografia sobre os grupos Mebêngôkre, a saber, aquela que trata de um conjunto de objetos e de prerrogativas cerimoniais — os nékréts citados acima — incorporados de outras coletividades ou seres que povoam o universo que, em momento posterior, passam a circular mediando relações sociais internas e constituindo valor.

Toda essa bibliografia aponta para uma sociedade hierárquica, fundada na distinção, de um lado, entre pessoas "bonitas, belas, completas", possuidoras de nomes agradáveis e prerrogativas cerimoniais e, de outro, de pessoas "comuns". Com efeito, Gordon tem à sua disposição uma vasta literatura, cuja referência principal são os trabalhos de Terence Turner e Vanessa Lea. Assim, arquiteta sua análise a partir do contraste entre essa bibliografia e os seus dados etnográficos, o que lhe permite estabelecer conexões, concordâncias e críticas aos trabalhos anteriores.

Turner concebe a sociedade Mebêngôkre como uma estrutura hierarquicamente segmentada, cujos níveis, que encontram expressão territorial, são articulados através de englobamentos sucessivos. Para ele, a sociedade kaiapó só pode ser satisfatoriamente entendida se apreendermos sua interioridade como uma ordem política baseada em relações de exploração social — das mulheres pelos homens, dos genros pelos sogros e dos mais novos pelos mais velhos. Este autor pensa a organização das metades como função de oposições epistêmicas, subentendo uma hierarquia entre elas e vinculando-as a determinados aspectos da socialidade e de seus agentes. Assim, enquanto o centro da aldeia é lugar da cultura — público, político e masculino — a periferia é o lugar da natureza — privado, íntimo e feminino. O mecanismo totalizante que neutraliza tal assimetria, previamente dada, é obtido pela organização cerimonial, realizada no e pelo centro da aldeia, que reintegra todas as oposições em uma unidade transcendental.

Lea, por sua vez, em declarada oposição às asserções de Turner, implode as oposições entre natureza e cultura, doméstico e privado, quando subsumidas à interseção dos domínios territoriais e de gênero. A autora se vale do conceito de "casa" lévi-straussiano, fundado na aliança e no parentesco cognático, no qual a casa deixa de ter um substrato objetivo e passa a ser a objetivação de uma relação, pois daria unidade a princípios opostos e intercambiáveis — noções que Gordon irá defender, no adiantado do livro, como propensas a serem atribuídas à realidade Xikrin.

Lea, porém, realiza uma espécie de torção conceitual, retendo a idéia de que as propriedades mantidas pela Casa apresentam um caráter diacrítico, mas botando peso na descendência. Advoga, então, que a propriedade dos bens simbólicos agentivos da sociedade Mebêngôkre (nomes e nekréts) deve ser atribuída às casas da periferia da aldeia, definidas por ela como pessoas jurídicas ou unidades corporadas e perpétuas de descendência matrilinear. Assim, as Casas constituiriam mais do que a esfera doméstica por manifestarem sua essência na esfera cerimonial — propriedades simbólicas e definidoras — e seu conjunto compreenderia a sociedade Kaiapó.

Gordon, para pensar o que aconteceria às mercadorias — caso o seu regime de transmissão fosse idêntico; se seria válido tratá-las como expressão do mesmo princípio de distintividade social que os nékrets têm; ou ainda, se seria possível identificar o atual consumismo xikrin como uma forma de predação ontológica — articula sua etnografia oscilando entre "a economia simbólica da alteridade" e a "economia política do controle".

Gordon abandona a idéia de oposições hierárquicas englobantes de Turner, acolhendo, porém, as questões do controle, da desigualdade de distribuição e da hierarquia ao partir de outro prisma. Não se trata, pois, de uma oposição entre homens e velhos, de um lado, e mulheres e jovens, do outro, mas sim de uma operação pelo valor diferencial da pessoa (isto é, a beleza) através dos objetos e das prerrogativas cerimoniais. De Lea, ele retém a problemática da propriedade de tais bens e o direito de transmissão, mas não enquanto definidores de grupos corporados perpétuos, mas sim como marcadores de prestígio e distintividade pessoal e coletiva. No entanto, até aqui, Gordon dá conta somente do segundo momento da relação com a alteridade: seu processamento, ou seja, o caráter centrípeto da sociedade Xikrin. Antes disso, precisaria conceitualizar o momento da aquisição desses bens, o caráter centrífugo.

É assim que o autor de Economia selvagem problematiza a tipologia idealizada por Carlos Fausto, segundo a qual as sociedades Jê seriam predominantemente centrípetas. Nelas, a produção de pessoas é fundada na acumulação e na transmissão interna de capacidades e riquezas simbólicas que confirmam diferenças sociológicas. Ali predominaria a idéia de uma fundação em que as condições de reprodução social são dadas de uma vez por todas, ao contrário dos sistemas centrífugos, em que a produção depende necessariamente da reposição contínua de novos elementos adquiridos no exterior.

Gordon, no entanto, irá insistir no caráter centrífugo da sociedade Xikrin, pois na economia política de pessoas e no sistema de personificação ou subjetivação, o processo de circulação imprime uma perda progressiva de valor dos nékrets e dos objetos, dinamizando a natureza expansionista e o caráter centrífugo do sistema. Além disso, outra problemática que Gordon coloca em relação às elaborações de Fausto diz respeito ao conceito de consumo produtivo para a guerra ameríndia, que enfatiza o caráter destrutivo de corpos como impulsionador da produção social de pessoas. Na predação mebêngôkre, o que interessa não são as propriedades imediatamente corpóreas do inimigo; a ênfase está menos na morte que no butim. Destina-se antes a "absorver a diferença do estrangeiro objetivada em sua cultura material, seu conhecimento, seus saberes, sua expressividade técnica e estética" (:98) que, ao entrarem no sistema, transformam-se em valores distintivos constituintes das pessoas. Não há necessidade, portanto, da destruição de corpos.

"Armado" com essas elaborações teóricas, Gordon irá dedicar seus capítulos ao processo de aquisição dos bens e à sua circulação no interior da sociedade Mebêngôkre. O autor intenta dar conta de um duplo movimento: primeiro, as relações de predação da alteridade no exterior da sociedade e, segundo, sua significação realizada no interior: através da confirmação ritual desses signos relacionais, cuja função (cru) é marcar a alteridade e/ou a distintividade no interior da sociedade, ou por meio da sua circulação cotidiana, cuja função (cozido) é a produção da identidade, ou seja, da construção de um corpo de parentes através da ampliação das relações de cuidado, troca, partilha e convívio.

O livro, no entanto, é um tanto desalentador na medida em que elucida as contradições do modo de vida xikrin. Se, por um lado, o acesso fácil aos bens dos brancos permite aos Xikrin a realização de muitas festas de confirmação dos nomes bonitos, produzindo mais identidade onde se deveria estar produzindo mais alteração, por outro, a diferença é buscada em outro nível, qual seja, no consumo diário dos bens dos brancos, o que aumenta, para os Xikrin, o risco de virarem kuben (branco). Daí a necessidade de novas confirmações rituais e, por conseguinte, mais consumo. A questão é que esse ciclo vicioso retroalimenta-se cada vez mais da fome, inflacionando sempre o sistema e afligindo, nas palavras do autor, os "irredutíveis Xikrin".

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