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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.14 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-93132008000100013 

RESENHAS

 

 

Ivan Paolo de Paris Fontanari

Doutorando UFRGS

 

 

LASSITER, Luke E. 2005. The Chicago guide to collaborative ethnography. Chicago: The University of Chicago Press. 164pp.

O livro de Lassiter vem a público legitimado pela renomada editora da Universidade de Chicago, como parte de uma série de publicações especializadas em escrita acadêmica, dentre as quais encontramos outros "guias" dirigidos especialmente aos escritores cientistas sociais e antropólogos, como Tricks of the trade e Writing for social scientists, de Howard Becker, e Writing ethnographic fieldnotes, de Emerson, Fretz e Shaw.

Lassiter inicia seu livro situando-o de imediato nos debates antropológicos com os quais pretende contribuir: "Em seu relatório final à Associação Americana de Antropologia, a Força Tarefa El Dorado, encarregada de avaliar as alegações feitas por Patrick Tierney no seu Darkness in El Dorado [: How scientists and journalists davastated the Amazon] (2000) enfatizou a ‘pesquisa colaborativa’ como um componente crítico de suas recomendações" (:ix). O objetivo de Lassiter, mesmo diante de antropólogos poderosos que desqualificam a pesquisa colaborativa como não profissional, inválida ou incompetente — lembra ele — é mostrar que modelos para pesquisa colaborativa têm sido empregados há já muito tempo. "Embora estes modelos tenham sido ignorados ou descartados anteriormente, a colaboração com sujeitos de pesquisa está se tornando hoje uma das mais importantes questões éticas, teóricas e metodológicas na antropologia" (:x).

A linguagem utilizada pelo autor, neste manual, é claramente etnográfica. Para além de sua proposta de colaboração, ele reforça a escrita etnográfica como um gênero literário que transcende a etnografia propriamente dita.

Ao fazer uso constante da primeira pessoa, o autor apresenta o livro como a culminação de um processo iniciado em suas primeiras incursões etnográficas de caráter colaborativo. Estas teriam ocorrido quando era ainda estudante de graduação, em reuniões de Narcóticos Anônimos, posteriormente em sua pesquisa de pós-graduação com os índios Kiowa de Oklahoma, e já como profissional, no projeto de etnografia colaborativa realizado com a comunidade afro-americana da cidade de Muncie, estado de Indiana.

O livro é portanto um guia de escrita colaborativa, ao mesmo tempo que uma etnografia da trajetória intelectual/acadêmica do autor. Sua narrativa é cheia de casos de campo e de personagens que foram seus colaboradores, citados como exemplos para discutir as vantagens e os problemas da etnografia colaborativa, enquanto seus principais interlocutores acadêmicos são os autores norte-americanos críticos da etnografia interpretativa geertziana, fundadores do que se conhece por etnografia dialógica [Clifford & Marcus, Writing culture (1986); Marcus & Fischer, Anthropology as cultural critique (1986); Clifford, The predicment of culture (1988); e Rosaldo, Culture and truth (1989)].

A clareza da escrita, a curta extensão e a simplicidade da estrutura do livro, tal como um "guia" prático e objetivo, são aparentemente contrastantes com o vigor e a densidade de sua proposta. The Chicago guide to collaborative ethnography não só "amarra" e discute os precedentes de etnografia colaborativa, edificando uma base sólida para fundamentação teórico-metodológica de colaborações contemporâneas, como representa uma grande possibilidade de impacto sobre o fazer antropológico contemporâneo. Ao se acompanhar a apresentação de seus argumentos, logo é possível perceber que a "facilidade" de leitura e o modo de apresentação deste livro são parte dos efeitos almejados pelo autor em sua proposta: repensar os fundamentos da etnografia desde critérios éticos e morais e, a partir destes, a "prática etnográfica". Lassiter advoga os Princípios de Responsabilidade Profissional da American Anthropological Association como base para a etnografia colaborativa: "a responsabilidade mais importante do antropólogo é para com os que ele estuda" e "quando há conflito de interesses estes indivíduos devem ser privilegiados" (:91).

Tais princípios, em sua proposta, devem ser estendidos desde o fazer etnográfico do projeto de pesquisa até a escolha da capa de livro em seu momento de publicação — o que se reflete na escrita, não mais concebida como uma expressão do "hiperindividualismo que tem sido central no reconhecimento, no prestígio e na história da academia" (:149), mas por sua dimensão comunicativa, "amplamente acessível" aos colaboradores da pesquisa não familiarizados com a linguagem acadêmica. A etnografia colaborativa, deste modo, "desafia a autoridade não só do texto de autor único, mas também do ativista de única voz, e cunha um ‘co-ativismo’ em meios muito mais complexos, diversos e multivocais". Tal forma de ação colaborativa "do texto à práxis, borra as linhas entre discurso acadêmico e da comunidade, entre antropologia acadêmica e aplicada, entre teoria e prática" (:153-4).

Na primeira parte do livro, intitulada "History and theory", o autor evoca os precedentes da etnografia colaborativa. Resgata exemplos pioneiros de colaboração na escrita dos textos etnográficos na etnologia indígena americana, como foi o caso de Franz Boas e o índio Kwakiutl George Hunt, de Lewis Henry Morgan e o índio Sêneca Iroquês Ely Park, de Alice Cunningham Fletcher e James Murie, membro educado pawnee, e entre a mesma e Francis La Flesche, da tribo Omaha. Lassiter mostra assim como os índios americanos ajudaram, como colaboradores e co-autores, a dar forma às primeiras descrições etnográficas da "América Nativa". O autor, revisando tendências antropológicas mais recentes, passa pelo impacto do feminismo e do pós-modernismo na etnografia como condições epistemológicas para as formas contemporâneas de etnografia colaborativa. A partir destes precedentes, Lassiter propõe-se a levar a metáfora dialógica no trabalho de campo e na escrita ao seu "próximo estágio lógico", o da produção colaborativa do texto etnográfico.

Na segunda parte, "Practice", o autor apresenta e discute princípios colaborativos diretamente relacionados à realização deste tipo de etnografia, conforme os títulos dos capítulos "Ética e responsabilidade moral", "Honestidade etnográfica", "Escrita acessível", "Leitura colaborativa, escrita e co-interpretação".

Lassiter reconhece que os ganhos da etnografia colaborativa se dão não sem uma série de riscos e problemas, que são para ele compreensíveis e justificáveis pelo caráter ético deste tipo de pesquisa. Para ilustrar tais riscos, ele relata que teve de reinserir um capítulo de sua tese no livro que preparava para publicar, The power of Kiowa song, inicialmente escrito para os seus colaboradores, para que este pudesse ser aceito entre seus colegas como reconhecimento de seu mérito acadêmico como professor universitário. A pesquisa colaborativa também demanda tempo e iniciativa dos colaboradores, que muitas vezes impõem desafios ao pesquisador, como no caso de Glenn Hinson, cujo colaborador, irmão Wallace, demandou que no final do livro fosse feito um convite aos leitores a aceitarem Jesus Cristo como seu salvador, o que Hinson aceitou, embora hesitando, sob o risco de ser acusado por seus colegas de ter se tornado nativo (:147-9).

As proposições de Lassiter, no entanto, devem ser compreendidas a partir de suas próprias experiências de pesquisa em diferentes cenários dentro dos Estados Unidos, entre colaboradores letrados capazes de se apropriarem e de exercerem sua agência a partir do inglês falado e escrito. O próprio autor reconhece que a colaboração na pesquisa não é universalmente aplicável e, quando é, cada caso apresenta suas singularidades, demandando diferentes estratégias de realização.

O caráter inovador da proposta de Lassiter não deixa de ser ambíguo. Por um lado, ele apresenta a etnografia colaborativa como um novo paradigma, uma ruptura com a epistemologia da etnografia convencional — e mesmo a dialógica, já incorporada ao mainstream acadêmico — sugerindo a substituição da metáfora "assimétrica e politicamente carregada" de "ler por sobre os ombros dos nativos" por "ler juntamente com os nativos". Em sua proposta, não só o "nativo" assume o papel de "colaborador", como o fazer etnográfico ganha uma reformulação quase completa. Do planejamento da pesquisa ao processo de escrita, tudo passa pelo filtro da colaboração, incluindo-se a relação estabelecida com a editora que fará a publicação.

Mas por outro lado, a proposta de Lassiter estabelece uma continuidade com o paradigma dialógico, na medida em que se propõe a levar adiante a mesma crítica do objetivismo/cientificismo e da autoridade etnográfica sobre a qual a etnografia dialógica se fundamenta, num mesmo contexto de crise da representação etnográfica. Em consonância com este paradigma, mesmo estando o foco de Colaborative ethnography nas práticas de realização da etnografia, o objetivo final desta é a representação, ou o texto: "Os textos de fato importam — novamente, algumas vezes são o que mais importa" (:153), escreve Lassiter nos últimos capítulos do livro.

Um dos efeitos mais fortes e genéricos sobre o fazer etnográfico colaborativo, para além da prática colaborativa propriamente dita, parece ser o aguçamento da sensibilidade do pesquisador em relação aos colaboradores, uma relação sobre a qual ele procura refletir em sua dimensão humana-cultural subjetiva. Esta sensibilidade emerge da relação ética com os colaboradores, e desta sensibilidade por sua vez emerge a dimensão "sensível", no sentido de que a sensibilidade possibilita ao etnógrafo atentar para outras dimensões do sensível que não apenas a imagética em suas percepções e descrições (:111-2).

Por um lado, a proposta de Lassiter pode soar estranha para os antropólogos brasileiros e os seus modos de fazer etnografia. A própria literatura de crítica feminista, pós-moderna e pós-colonial, com a qual o autor dialoga vem sendo gradativamente apropriada e tem influenciado o modo de fazer antropologia no Brasil, embora ainda estranha para muitos antropólogos. Mas por outro lado, diante de experiências colaborativas pioneiras no Brasil, como o Projeto Vídeo nas Aldeias, o Centro de Documentação Kuikuro, no Parque Nacional do Xingu, e o projeto desenvolvido por Samuel Araújo no complexo da Maré no Rio de Janeiro — tão ou mais radicais no empoderamento dos sujeitos sociais na produção de suas próprias representações sobre si mesmos — o guia de Lassiter vem adensar a discussão sobre a importância de se adotarem metodologias colaborativas de pesquisa.

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