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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.16 no.2 Rio de Janeiro out. 2010

https://doi.org/10.1590/S0104-93132010000200015 

RESENHAS

 

 

Suzane de Alencar Vieira

 

 

DAS, Veena. 2007. Life and words: violence and the descent into the ordinary. California: University of California Press. 281pp.

Life and words é uma etnografia forjada no encontro entre a trajetória intelectual da antropóloga indiana Veena Das e algumas questões teóricas que a atravessam. O narrado e o vivido se entrecruzam constantemente e ensejam uma reflexão sobre um modo de fazer antropologia capaz de expressar e comunicar o sofrimento do outro. O livro é aberto com uma estimulante incursão pela filosofia de Wittgenstein, Stanley Cavell e Deleuze e pela teoria do Estado e do poder de Benjamin e Aganben, através da qual Veena Das burila uma original teoria da violência. Os ensaios que compõem o livro, com temas e questões diversas, escritos e publicados em momentos distintos, são orquestrados sob uma mesma preocupação com a dimensão da vida cotidiana, que também transparece em outras obras da autora.

O "everyday life" é reiterativo em sua etnografia como um recurso textual e analítico que procura se manter próximo do mundo pessoal das vítimas. Mais do que um apelo pragmático, a atenção dispensada ao ordinário da vida possibilita uma abordagem sobre violência deslocada dos grandes conceitos e perspectivas e que incorpora ao seu escopo a linguagem do sofrimento e a experiência traumática.

O conceito de evento crítico consagrado em Critical events (1995), uma das obras de maior destaque da autora, recobra, nesta publicação, um apurado valor analítico ao permitir conjugar a amplitude do evento à particularidade de trajetórias individuais. Sua análise desprende-se de uma abordagem objetiva do evento para privilegiar a experiência do sujeito. O evento crítico interrompe o fluxo da vida cotidiana, porém é ancorado e assimilado na experiência do dia a dia.

Se em Critical events, Das ressalta a ruptura na vida ordinária e certa afasia em relação à experiência da violência, em Life and words, o interesse da autora está voltado para as possibilidades discursivas de recuperar e reabitar esse mundo devastado, não por uma suposta capacidade de transcendência, mas pelo exercício persistente e diário de retomar e refazer a própria vida. Veena Das esboça uma teoria da violência que identifica na linguagem do rumor, do corpo, do sofrimento, da lamentação, do luto, do testemunho e do silêncio tentativas de dar expressão apreensível à violência. A filosofia de Wittgenstein oferece-lhe uma referência fundamental para pensar a linguagem, o sofrimento e a experiência do sujeito.

O livro é estruturado por dois eventos que são narrados pela autora a partir de duas perspectivas distintas. O evento da Partição da Índia, ocorrido em 1947, é recuperado pela autora através da memória das vítimas em diálogo com documentos judiciais e literatura local. O evento dramatiza o confronto entre hindus e muçulmanos, no qual a maneira preferencial de atingir a parte inimiga era através do sequestro e da violação de suas mulheres. Mulheres muçulmanas, por exemplo, foram forçadas a constituir novas famílias com homens hindus. Em nome da honra da família e do Estado, muitas mulheres foram assassinadas por seus próprios pais ou irmãos antes de serem atacadas pelo grupo rival. O evento deixa um rastro de perdas, rupturas, violência e traumas irreparáveis, sobretudo para as mulheres.

O projeto de nacionalismo indiano incluía a apropriação dos corpos das mulheres como objetos, e nele o novo Estado indiano pôde ser brutalmente inscrito. O contrato social dessa nova ordem assume a forma de um contrato sexual. Os relatos longínquos contêm algo de ininteligível e expõem a recusa ou a impossibilidade de essas vítimas articularem sua experiência traumática. Em uma situação em que o ato de silenciar se torna um modo de se proteger, as mulheres encontram alternativa à expressão verbal na representação de seu próprio corpo como o repositório de um conhecimento venenoso e profundo sobre a Partição da Índia. Por meio dessa representação, as mulheres conseguem contornar o código de silêncio e assimilar sua experiência traumática em suas vidas cotidianas.

O segundo evento remonta ao assassinato da primeira ministra indiana Indira Gandhi por um de seus seguranças sikhs, em 1984, que desencadeou uma série de ataques violentos de hindus aos sikhs. O cotidiano é tomado por um rumor de violência e vingança e é subitamente transformado num campo de luta armada. Contrariando a noção de comunidade imaginada de Benedict Anderson, a nação indiana é construída pela linguagem violenta da multidão e se conforma como uma comunidade discursiva. Com o recurso da teoria do estado de exceção de Aganben, o Estado (no texto, grafado em letra minúscula), nesse contexto de violência generalizada revela-se em suas zonas de indeterminação.

A pesquisa etnográfica inteiramente imersa no curso do evento articula-se inevitavelmente ao trabalho voluntário de assistência às vítimas. A pesquisadora é colocada em situações de intensas demandas e apelos em que é preciso assumir um posicionamento em face do evento. Das atravessa um mundo revirado, presencia perseguições e mortes e percorre casas cujas paredes ainda estão abrasadas de pólvora e de sangue. Registra o momento em que o evento, agitado pela fúria da multidão, mostra seu enérgico poder de aniquilação. Momento a partir do qual as vítimas procuram retraçar os rumos de suas vidas e a antropóloga procura extrair do evento uma maneira original e subjetiva de lidar com a violência através de ideias/categorias, como horror, trauma, sofrimento, que escapavam do foco antropológico. Seu texto etnográfico é convertido num meio de expressão de uma experiência extrema de dor e de medo. Mais do que uma mera observadora, a pesquisadora assume a condição de testemunha:

Assim, minha própria "entrada" no Campo não foi marcada por qualquer dos demorados rituais de iniciação através dos quais o antropólogo se torna uma parte do cotidiano da comunidade. Isso foi como se uma ferida fosse repentinamente aberta, entrecortando os tecidos. A minha presença no "campo" não foi aquela de um antropólogo que conduz um trabalho de campo. Juntamente com muitos outros, eu me comprometi a agir nesta emergência pela segurança dos sobreviventes e a trabalhar pela sua reabilitação. [: 13, tradução minha]

A autora pontua três posições de sujeito através das quais as pessoas participam do evento de maneira distinta: agressor, vítima e testemunha. No entanto, o texto sugere uma acepção homogênea e autoevidente de vítima. A busca de Veena Das pelo ponto de vista ou pela "verdade" das vítimas, que se faz na contracorrente do discurso do Estado e dos relatos oficiais, acaba por obscurecer ao leitor uma problematização ou contextualização mais aprofundada da noção de vítima. O foco na experiência e no testemunho das vítimas tem o mérito de retirar essa categoria de sua acepção abstrata e de situá-la no campo da subjetividade, porém a referência unívoca de vítima permanece.

Ao longo de seu texto, os testemunhos recolocam a dimensão subjetiva na tradução do evento. O ato de testemunhar registra a maneira pela qual a violência reverbera no sujeito. Nas narrativas, o tempo destrói e desestabiliza relações e, ao mesmo tempo, repara e reconstrói o presente ao refazer o fluxo da vida. Nessa nova forma de vida que o evento inaugura, a memória traumática e o passado passam a envolver o presente como uma atmosfera. Os eventos críticos são então incorporados à estrutura temporal das relações sociais. Por essa capacidade de penetrar na subjetividade e de fazer-se continuamente presente na vida das pessoas, o evento é dotado de uma profundeza temporal.

Ao pensar o tempo no campo da antropologia, Das enfoca a relação entre tempo e subjetividade que atravessa distinções entre tempo fenomenal e tempo físico, tempo de ocorrência e tempo narrado, verdade histórica e verdade narrativa. A noção de Wittgenstein de tempo como transfiguração permite visualizar o modo pelo qual o sujeito é emerso na forma temporal do evento. No tempo fenomenal, um evento ocorrido há muitos anos atrás, como no caso da Partição, faz-se presente na vida das pessoas através de relatos como um passado inteiramente disponível. O passado indizível ressurge no presente sob a forma de rumor. O rumor e o trauma atualizam o evento e fixam-no na experiência subjetiva. Essa linguagem do rumor é capaz de perfazer um elo de continuidade entre eventos distanciados no tempo físico. Assim, eventos como a Partição de 1947 e o assassinato da ministra Indira Gandhi são envolvidos por um mesmo rumor de violência, ao mesmo tempo em que relatam a história traumática e brutal da fundação e da consolidação da nação indiana.

A temporalidade é destituída de um caráter representacional para ser pensada como uma atuação sobre as relações sociais. Como o tempo participa da criação do sujeito? Qual é a relação entre estrutura e evento? Quando o evento começa e quando termina? Existe uma duração ou há várias? São algumas questões enunciadas por Das e que colocam sua etnografia em interface com a filosofia. Pensar a violência desperta reflexões filosóficas ao lidar com os limites da vida do sujeito e do tempo.

A obra cumpre um diligente trabalho de compilar termos e conceitos criativamente instrumentalizados para a pesquisa sobre violência e sofrimento. Transparece, a todo o momento, o difícil exercício de textualizar a experiência etnográfica ao empreender uma etnografia sobre a violência à qual se impõe a tarefa de lidar com os limites da experiência inteligível.

Os onze ensaios que compõem essa etnografia redigida em tom de memorial contam não apenas um pouco da história da Índia, como também a história da vida da própria autora em sua relação com o campo. No curso de uma etnografia da violência, a antropóloga e também a sua antropologia são marcadas pela experiência traumática e pela linguagem que busca traduzi-la. Pesquisadora e seus interlocutores se unem num mesmo esforço de tentar converter a dor em palavras e, dessa maneira, recriar e refazer a vida devastada pela violência. A sequência de ensaios configura o corpo textual que se oferece como superfície na qual a dor pode ser escrita.

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